Chapter 3
O Bento, velho de face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo encarapinhado, muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrára vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.
--Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um pó branco? É um remedio inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um rotulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê, _fruit salt_... Quer dizer sal de fructas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim, no quarto de lavar, em cima do bahú vermelho, ficára um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os do Archivo.
--É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em Lisboa uns documentos por causa d'aquelle malvado fôro de Praga. E por engano, na balburdia, levo do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco!
O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões d'agatha nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama, para elle vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de cheviote leve. E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos para os *Annaes*, folheava, rente á janella, a _Historia da Administração Publica em Portugal_, quando Bento voltou com um rolo de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um sello de chumbo.
--Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr. Dr. Mattos aconselhou que o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece que ferve. E limpa o sangue, desannuvia a cabeça... Pois eu muito necessitado ando de desannuviar a cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize á Rosa que tome. Todos tomam agora, até o Papa!
Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre o marmore da commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se encarquilhava amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o colarinho:
--Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o fôro de Praga! Um pergaminho do tempo de D. Sebastião... E só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não, mil quinhentos e setenta e sete. Nas vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar o frasco.
O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco, relanceou de lado o pergaminho veneravel:
--Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a algum avosinho do Sr. Doutor...
--Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante do espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma cousa gorda... Antigamente ter rei era ter renda. Agora... Não apertes tanto essa fivella, homem! Trago ha dias o estomago inchado... Agora, com effeito, esta instituição de Rei anda muito safada, Bento!
--Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o _Seculo_ affiança que os Reis estão a acabar, e por dias. Ainda hontem affiançava. E o _Seculo_ é jornal bem informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu, lá vem a grande festa dos annos do Sr. Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na _Feitosa_...
Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os pés ao Bento que lhe laçava as botas brancas:
--Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo fará a esse homem, aos sessenta annos, ser deputado, passar mezes em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquella linda quinta... E para quê? Para rosnar de vez em quando «apoiado!» Antes elle me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não possuo grandes terras, e gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim amanhã que me tenha a egoa prompta, a esta hora, para eu ir á _Feitosa_ visitar esse animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de Lisboa, com as polainas altas... Ha mais de dois annos que não vejo a D. Anna Lucena. É uma linda mulher!
--Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a Torre, a mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz uma grande luneta, com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo d'oiro...
--Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era uma jornaleira, uma moça do campo, de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:
--Não senhor! A Snr.^a D. Anna Lucena é de gente muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar... E o irmão andou a monte por ter morto o ferrador d'Ilhavo.
--Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro, irmão a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Merece fato novo!
* * * * *
Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o amigo João Gouveia--que era o Administrador do Concelho da Villa. Ambos se abanavam com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da Camara, quando Gonçalo, que se retardára na Assembléa n'um voltarete enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome historica dos Ramires», e apressando a marcha para o Gago--sem mesmo consentir que o Titó descesse á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»
--Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro um de Vocês, com esta furiosa fome Ramirica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do Concelho pelo estupendo feito do _seu_ Governo... Então o _seu_ Governo, os _seus_ amigos Historicos, o _seu_ honradissimo S. Fulgencio--nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio Moreno! O Antonio Moreno, tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena! Não, realmente, era a derradeira degradação a que podia rolar um paiz! Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços, só outra nomeação, e urgente--a da Joanna Salgadeira, Procuradora Geral da Corôa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito secco, de bigode mais duro que piassaba, esticado n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha, não discordava. Empregado imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre acolhia com imparcial ironia as nomeações de bachareis novos, Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos. Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes! Governador Civil, e de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes encontrára no quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a carinha bonita coberta de pó de arroz!...--E, travando do braço do Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão, muito bebedo, de cartola e com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino, tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora da Boa Morte! Mas o Titó, que esperava, floreando o bengalão, declarou áquelles senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a conversar de Politica e d'indecencias--então voltava elle ao Brito, buscar a aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre brincalhão, sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela Calçadinha, aos corcovos, com as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo um cavallo que se desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da taberna, a um canto da comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi muito alegre, muito saboreada. Gonçalo, que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos Bravaes e pelas emoções do voltarete em que ganhára desenove tostões ao Manoel Duarte--começou por uma pratada d'ovos com chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu «frango de doente», clareou o prato da salada de pepino, findou por um montão de ladrilhos de marmellada: e atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão, porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó, amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á sobremesa appareceu o Videirinha, «o Videirinha do violão», tocador afamado de Villa Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de patriotismo já impressos no *Independente d'Oliveira*. Jantára n'essa tarde, com o violão, em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua commenda: e só acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de marmellada «para adocicar a goella». Depois, á meia noite, Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um café «muito forte, um café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir talento no Sr. Commendador Barros!» Era essa a hora divina do violão e do «fadinho». E já o Videirinha recuára para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões, pousado com melancolia á borda d'um banco alto.
--A _Soledad_, Videirinha! pediu o bom Titó, pensativo, enrolando um grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a _Soledad_:
Quando fôres ao cemiterio Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os cotovellos na mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de Lourenço Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam, arripiados de horror, os jornaes da Opposição) pelo Governo do S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não com a alienação da Colonia--mas com a impudencia do S. Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se manter mais dois annos no Poder, um pedaço de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos Gamas, os Athaydes, os Castros, os seus proprios avós--era para elle uma abominação que justificava todas as violencias, mesmo uma revolta, e a casa de Bragança enterrada no lodo do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas, João Gouveia observou:
--Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os Regeneradores...
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem essa grandiosa operação--bem! Esses, primeiramente, nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos, raças fraternas... E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao fomento do Paiz, com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do S. Fulgencio!...--E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!
O Titó encolheu os hombros, resignado:
--Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta. Nem para os negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender... Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr. Administrador do Concelho devia prohibir estas conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa Oriental! E ás talhadas! Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça, apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos porquê? Pelo são principio de forte administração--(estendia o braço, meio alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo são principio de que todo o proprietario de terras distantes, que não póde valorisar por falta de dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado, estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom torrão que pisa com os pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia a amanhar, a regar, a lavrar, a semear--o Alemtejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má qualidade, que, fóra umas legoas de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravetada, logo mostrava o granito...
--O mano João tem lá uma herdade immensa, immensissima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogára em Mertola, protestou, encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas riquissima, fertilissima!
--Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o Freitas Galvão me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a genebra com uma carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo como uma desgraçada illusão!
Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:
--Você já esteve no Alemtejo?
--Tambem nunca estive na China, e...
--Então não falle! Só a vinha espantosa que plantou o João Maria...
--Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios, legoas e legoas sem...
--Um celleiro!
--Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor, levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa, soluçava contra uns olhos negros, donos do seu coração:
Ai! que dos teus negros olhos Me vem hoje a perdição...
O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador, que detestava noitadas, nocivas á sua garganta (de amygdalas loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais tombado á banda, apressou o lento Titó, por que ambos moravam no alto da Villa--elle defronte do Correio, o outro na viella das Therezas, n'uma casa onde outr'ora habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester, empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta da taberna, no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda sobre o Governador Civil de Oliveira--o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco chagas de Christo, a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo, mandão burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito teso, muito secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a inteligencia superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e ordem, como Hercules, nas cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos que recolhessem á taberna, para não alvorotar a rua...
--Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio está desde hontem com a pontada!
--Pois então, berrou Gonçalo, não venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que Oliveira nunca teve Governador Civil como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O papá já lá vae ha trez annos, infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil. Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois homens!... Mas este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira condição para a auctoridade superior d'um Districto é não ser burlesca. E o Cavalleiro é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo empinado, e o _pó-pó-poh_! É d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores, que animal!... Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com uma serenidade cortante:
--Você acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute! Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não ha ninguem, absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:
--Isso são as opiniões d'um subalterno!
--E isso são as expressões d'um malcreado! uivou o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.
Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote, avançou o braço do Titó, estendendo uma sombra na calçada:
--Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este? Vocês estão borrachos?... Pois tu, Gonçalo...
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:
--Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que você defende o Cavalleiro por amizade, não por dependencia... Mas que quer, homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei, é por contagio da besta, orneio, atiro coice!
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte á sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho era uma flôr, mas picava...» Depois, aproveitando a emoção submissa de Gonçalo, recomeçou a glorificação do Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito, aquelle modo impertigado... Mas que coração!--E o Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:
--Escute você, oh João Gouveia! Por que é que você lá em cima, á ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina, até o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi? Por que você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha raciocinios, não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá dentro o pepino. Você não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente de bem o adora: mas você não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como você para o pepino. Não posso! Não ha molhos, nem razões, que m'o disfarcem. Para mim é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora ouça...
Então Titó, que bocejava, interveio, já farto:
--Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse de Cavalleiro, e valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta debandar. Eu tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a madrugada, que vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da manhã, com commissão de recenseamento!... Para esmagar bem o amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço. E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o acompanhava sempre pela estrada até ao portão da Torre), João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço do Titó no meio da Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de não sei que philosopho»:
--«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de má politica...» Creio que é d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre abafados harpejos:
--Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não vale a pena, por que em Politica hoje é branco, ámanhã é negro, e depois, zás, tudo é nada!
* * * * *
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira--quando injuriava o Sr. André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que detestava era o homem--o falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos senhoriaes...--E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de Valverde, em quanto no violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do Vimioso, Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella historia que tanto enchera a sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino--a outra com quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu, André Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já o tratava como um amigo serio. Durante as férias, como a mãe lhe dera um cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde, lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas ambições politicas, as suas idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado. Gracinha Ramires desabrochava na flôr dos seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a «flôr da Torre». Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa Miss Rhodes--que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo André Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que lhe amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor, favorecera demoradas conversas de André com Maria da Graça sob as olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o muro baixo da Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na Torre:--e o velho procurador Rebello já preparára, com esforço e resmungando, um conto de reis para o enxoval da «menina». O pae de Gonçalo, Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e em dividas, amanhecendo só na Torre aos Domingos, approvava esta collocação de Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse, creava na sua vida, já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem representar como elle uma familia de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis godos, André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na sua casa apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um dos Chefes Historicos, já filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a sua carreira andava marcada com segurança e brilho na Politica e na Administração. E emfim Maria da Graça amava enlevadamente aquelles reluzentes bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos pés, em que se podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre em «Marte cheio de força amando Psyché cheia de graça.» E mesmo os criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!» Só a Snr.^a D. Joaquina Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem motivo pesado, só por «desconfiar da pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...» Felizmente, quando André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo recebeu a chave do caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo, companheiro de casa do Cavalleiro na rua de S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga da batina. Logo em Santa Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da pêca opposição da mamã, pediria a «Flôr da Torre» depois do Acto de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para Lisboa--por que se preparavam Eleições em Outubro, e elle recebera do tio Reis Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de «ser deputado» por Bragança.