Chapter 28
Á borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Snr. Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Sueiro, com as mãos no cabo do seu guarda-sol, concordou:
--Com certesa! são lances interessantes... Com certesa! N'aquella novella ha imaginação rica, muito rica: e ha saber, ha verdade.
O Titó, que depois de _Simão de Nantua_, em pequeno, não abrira mais as folhas d'um livro, e não lêra a _Torre de D. Ramires_, murmurou, com um risco mais largo na poeira:
--Extraordinario, aquelle Gonçalo!
O Videirinha não findára o seu enlevado sorriso:
--Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem muito talento.
--Tem muita raça! exclamou o Titó, levantando a cabeça. E é o que o salva dos defeitos... Eu sou um amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o escondo, nem a elle... Sobretudo a elle. Muito leviano, muito incoherente... Mas tem a raça que o salva.
--E a bondade, Snr. Antonio Villalobos! atalhou docemente Padre Sueiro. A bondade, sobretudo como a do Snr. Gonçalo, tambem salva... Olhe, ás vezes ha um homem muito serio, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguem gosta d'elle, nem o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que offendeu mesmo a lei... Mas quê? É amoravel, generoso, dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdôe, se Deus tambem o não prefere...
A curta mão que acenára para o ceu, recahiu sobre o cabo d'osso do guarda-sol. Depois, e córado com a temeridade de pensamento tão espiritual acudiu cautelosamente:
--Que esta não é propriamente doutrina da Egreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas almas.
Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o côco á banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
--Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Snr. Padre Sueiro quem elle me lembra?
--Quem?
--Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquelle todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a immensa bondade, que notou o Snr. Padre Sueiro... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistencia, muito aferro quando se fila á sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negocios, e sentimentos de muita honra, uns escrupulos, quasi pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exaggerar até á mentira, e ao mesmo tempo um espirito pratico, sempre attento á realidade util. A viveza, a facilidade em comprehender, em apanhar... A esperança constante n'algum milagre, no velho milagre d'Ourique, que sanará todas as difficuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociavel. A desconfiança terrivel de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e apparece um heroe, que tudo arrasa... Até aquella antiguidade de raça, aqui pegada á sua velha Torre, ha mil annos... Até agora aquelle arranque para a Africa... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem elle me lembra?
--Quem?...
--Portugal.
Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-Clara. No ceu branco uma estrellinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquêde. E Padre Sueiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu á Torre vagarosamente, no silencio e doçura da tarde, resando as suas Avè-Marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casaes adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amoravel, que sempre bemdita fosse entre as terras.
FIM
* * * * *
A revisão das provas d'este livro, desde paginas 417 até á conclusão, não foi feita pelo Auctor. Entretanto seguiu-se á risca o original.
End of Project Gutenberg's A Illustre Casa de Ramires, by Eça de Queiroz