Chapter 26
Entre elle e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda legua de fosso, onde rolára, se afundára todo aquelle romance do verão, sem que na face d'ambos restasse um afogueado vestigio do seu ardor. E Gonçalo, insensivelmente contente pela apparencia, terminou por abandonar a cadeira onde se impedernira, accendeu o charuto na vela do piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro) anciavam pela chegada de Gonçalo.
--Lá encontrei tambem o Castanheiro... Enthusiasmado com o teu Romance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebello existe nada tão forte, como reconstrucção historica. O Castanheiro prefere mesmo o teu realismo epico ao do Flaubert, na _Salammbô_. Emfim, enthusiasmado! E nós, está claro, ardendo por que appareça a sublime obra.
O Fidalgo córou profundamente, murmurando--«Que tolice!» Depois roçou pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente o largo hombro do André:
--Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Ha dias passei em Corinde, tive saudades...
Então o Barrôlo, que não socegava, vermelho, a estoirar rebolando pela sala, espiando ora o Cavalleiro, ora o Gonçalo, com um riso mudo e avido, não se conteve mais, gritou:
--Bem, basta de prologos... Vamos lá agora á grande surpresa, André! Eu tenho estado toda a tarde a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora não posso... Vamos lá. E tu, Gonçalinho, vae preparando os quinze tostões.
Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:
--Com effeito! Parece que tens uma bella novidade.
O Cavalleiro alargou lentamente os braços, sempre enterrado na vasta poltrona, sem pressa:
--Oh! é a cousa mais simples, mais natural... A Snr.^a D. Graça já sabe, não é verdade?... Não ha motivo para surpresa... Tão legitima, tão natural!
Gonçalo exclamou, já impaciente:
--Mas emfim, venha lá, dize.
O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só agora se pensasse em a realisar, cousa tão devida, tão adequada. Pois não lhe parecia á Snr.^a D. Graça?
Gonçalo, n'uma braza, berrou:
--Mas quê? que diabo?
O Cavalleiro, que se despegára vagarosamente da poltrona, puxou os punhos, e deante de Gonçalo, no silencio attento, alteando o peito, grave, quasi official, começou:
--Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma ideia muito natural, que communicaram a El-Rei, e que El-Rei approvou... Que approvou mesmo ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella, de desejar que fosse só sua. E hoje é só d'El-Rei. El-Rei pois pensou, como nós pensamos, que um dos primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia ter um titulo que consagrasse bem a antiguidade illustre da Casa, e consagrasse tambem o merito superior de quem hoje a representa... Por isso, meu querido Gonçalo, já te posso annunciar, e quasi em nome d'El-Rei, que vaes ser Marquez de Treixedo.
--Bravo! bravo! bramou o Barrôlo, com palmas delirantes. Saltem para cá os quinze tostões, Snr. Marquez de Treixedo!
Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonçalo. N'um relance sentiu que o Titulo era um dom do Cavalleiro, não ao chefe da casa de Ramires, mas ao irmão complacente de Gracinha Ramires... E sobre tudo sentia a incoherencia de que, ao chefe d'uma Casa dez vezes secular, mãe de Dynastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus varões mortos sob a armadura, se atirasse agora um ouco titulo, atravez do _Diario do Governo_, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou eleições. Todavia saudou o Cavalleiro, que esperava a effusão, os abraços.--Oh! Marquez de Treixedo! certamente muito elegante, muito amavel... Depois, esfregando as mãos, com um sorriso de graça e d'espanto... Mas, meu caro André, com que auctoridade me faz El-Rei Marquez de Treixedo?
O Cavalleiro levantou vivamente a cabeça n'uma offendida surpresa:
--Com que auctoridade? Simplesmente com a auctoridade que tem sobre nós todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!
E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou pompa, com o mesmo sorriso de suave gracejo:
--Perdão, Andrésinho. Ainda não havia Reis de Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em Treixedo! Eu approvo os grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre aos mais antigos começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o _Roncão_. Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fazer, a elle, Marquez do Roncão.
O Barrôlo embasbacára, sem comprehender, com as bochechas descahidas e murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda córada, faiscava de gosto, por aquelle lindo orgulho que tão bem condizia com o seu, mais lhe fundia a alma com a alma do irmão amado. E André Cavalleiro, furioso, mas vergando os hombros com ironica submissão, apenas murmurou:--«Bem, perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo...»
O escudeiro entrava com a bandeja do chá.
* * * * *
E no Domingo foi a Eleição.
Ainda com uma desconfiança, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou atravessar esse dia muito solitariamente, quasi escondido, e no sabbado, em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os d'Oliveira, o consideravam estabelecido nos Cunhaes, e em communicação azafamada com o Governo Civil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surrateiramente para Santa Ireneia.
Mas o Barrôlo (ainda abalado com «aquelle despauterio do Gonçalo, que era uma offensa para o Cavalleiro! até para El-Rei!») ficára com a missão de telegraphar para a Torre as noticias successivas das assembleias, á maneira que ellas acudissem ao Governo Civil. E, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o velho Convento de S. Domingos um serviço de creados formigando sem repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Sueiro, copiava com amor, n'uma lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo Cavalleiro, que ajuntava a lapis alguma nota amavel--«_Tudo optimamente!_»--_Victoria cresce._--_Parabens a V. Ex.^{as}._
Pela estrada de Villa-Clara á Torre, incessantemente, o moço do Telegrapho se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela livraria, berrando: «outro telegramma, Snr. Doutor». Gonçalo, nervoso, com um immenso bule de chá sobre a banca, a bandeja já alastrada de cigarros meio fumados, lia o telegramma ao Bento. O Bento, com _vivas_ pelo corredor, corria a bramar o telegramma á Rosa.
E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar--já conhecia o seu triumpho explendido. E o que o impressionava, relendo os telegrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles influentes, povos que elle mal rogava, e que convertiam o acto da Eleição quasi n'um acto d'Amor. Toda a freguezia dos Bravaes marchára para a Egreja, cerrada como uma hoste, com o José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira, entre dous tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrára no adro da Egreja de Ramilde na sua victoria, com a neta toda vestida de branco, seguido por uma vistosa fila de _char-à-bancs_, onde se apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes se esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os rapazes de flôr na orelha, correndo á Eleição do Fidalgo entre o repenicar das violas, como á romaria d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em face á Egreja, a gente da Velleda, da Riosa, do Cercal, erguera um arco de buxo, com distico vermelho, sobre panninho:--«Viva o nosso Ramires, flôr dos homens!»
Depois, em quanto jantava, um moço da quinta voltou de Villa-Clara, alvoroçado, contando o delirio, as philarmonicas pelas ruas, a Assembleia toda embandeirada, e na casa da Camara, sobre a porta, um transparente com o retrato de Gonçalo, que uma multidão acclamava.
Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso dos vivorios, não ousava correr a Villa-Clara--a espreitar. Mas accendeu o charuto, passou á varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava tão cheia de clarões e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidraçada quasi recuou, com outro espanto. A Torre illuminára! Das suas fundas frestas, atravez das negras rexas de ferro, sahia um clarão; e muito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena corôa de lumes! Era uma surpresa, preparada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa, pelos moços da quinta,--que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam a sua obra, allumiando o ceu sereno. Gonçalo percebeu os passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:
--Oh, Bento! Oh, Rosa!... Está ahi alguem?
Um risinho esfusiou. A jaqueta branca do Bento surdio da sombra.
--O Snr. Doutor queria alguma cousa?
--Não, homem! Queria agradecer... Foram vocês, hein? Está linda a illuminacão! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado, rapazes! De longe deve fazer um effeito soberbo.
Mas o Bento ainda se não contentava com aquellas lamparinas frouxas. A Torre, para sobresahir, necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. Doutor nem imaginava a altura, depois em cima, a immensidão do eirado.
Então, de repente, Gonçalo sentiu um desejo de subir a esse immenso eirado da Torre. Não entrára na Torre desde estudante--e sempre ella lhe desagradára por dentro, tão escura, de tão duro granito, com a sua nudez, silencio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento terreo os negros alçapões chapeados de ferro que levavam ás masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella derradeira ossada, Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda, lhe parecia interessante respirar aquella rumorosa sympathia esparsa, que em torno, pelas freguezias rolava, subindo para elle, atravez da noite, como um incenso. Enfiou um paletot, desceu á cosinha. O Bento, o Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com elles atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda hombreira, começou a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e poira.
Já desde seculos se perdera a memoria do logar que occupava aquella torre nas complicadas fortificações da Honra e Senhorio de Santa Ireneia. Não era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre torre albarran, nem a de Alcaçova, onde se guardava o thesouro, o cartorio, os sacos tão preciosos das especiarias do Oriente--e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum angulo de muralha, para os lados em que o Castello enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente ás outras mais altivas, comprehendida nas construcções do Paço formoso que se erguera d'entre o sombrio Castello Affonsino, e que dominava Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda por claras arcarias d'um terraço ao Palacio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Paço manuelino depois da sua campanha de Castella: isolada no pomar, mas sobranceando o casarão que lentamente se edificára depois do incendio do Palacio em tempo d'El-Rei D. José, e a derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do Terço dos Ramires--ella ligava as edades e como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe chamára vagamente a «Torre de D. Ramires». E Gonçalo, ainda sob a impressão dos avós e dos tempos que resuscitára na sua Novella, admirou com um respeito novo a sua vastidão, a sua força, os seus empinados escalões, os seus muros tão espessos, que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas d'azeite, com que o Bento as despertára. Em cada um dos trez sobrados parou, penetrando curiosamente, quasi com uma intimidade, nas salas núas e sonoras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o d'um poço e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros. Depois em cima, no immenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Provincia, e de possuir sobre ella uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre, mais que a Provincia e que o Reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até ao miradouro, a que um candieiro de petroleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente á fresta, estragava o entono feudal. No céo macio, mas levemente enevoado, raras estrellas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e silencio, por vezes além, para o lado dos Bravaes, lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarellado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a Finta, era de certo um rancho com archotes festivos. Na alta Egreja da Velleda tremeluzia uma illuminação vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquêde. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguezias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silencio e sombra.
O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar as lamparinas nas frestas dos muros, onde ellas esmoreciam na espessura. E Gonçalo sósinho, acabando o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno ás ameias, perdido n'um pensamento que já o agitára estranhamente, atravez d'aquelle sobresaltado Domingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas á sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta certeza não o penetrava d'alegria, nem de orgulho,--antes o enchia agora, n'aquella serenidade da noite, de confusão, d'arrependimento! Ah! se adivinhasse--se elle adivinhasse!... Como caminharia, com a cabeça bem levantada, com os braços bem estendidos, sósinho, em confiança risonha para todas essas sympathias que o esperavam, tão certas, tão dadas. Mas não! Sempre se julgára cercado da indifferença d'aquellas aldeias, onde elle, apesar do antiquissimo nome, era o costumado moço, que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua egoa. A essas indifferenças tão naturaes nunca elle imaginára arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Politica, onde elle conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam por herança--fortuna e poder. Por isso se agarrára tão avidamente á mão do Cavalleiro, á mão do Snr. Governador Civil--para que S. Ex.^a, o bom amigo, o mostrasse, o impozesse como o homem necessario, o querido do Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguezias deviam offerecer n'um Domingo o punhado de votos.
E na impaciencia d'esse favor abafára a memoria de amargos aggravos; deante d'Oliveira pasmada abraçára o homem detestado desde annos, que andava chasqueando e demolindo, por praças e jornaes: facilitára a resurreição de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca irmãsinha, em confusão e miseria moral... Torpezas e damnos--e para quê? Para surripiar um punhado de votos que dez freguezias lhe trariam correndo, gratuitamente, effusivamente, entre _vivas_ e foguetes, se elle acenasse e lh'os pedissse...
Ah! eis ahi... Fôra a desconfiança, essa encolhida desconfiança de si mesmo,--que desde o collegio, atravez da vida, lhe estragára a vida. Era a mesma desgraçada desconfiança, que ainda semanas antes, deante de uma sombra, um pau erguido, uma risada n'uma taberna, o forçava a abalar, a fugir, arripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia, n'uma volta d'estrada, avança, ergue o chicote--e descobre a sua força! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente á mão poderosa, por se imaginar impopular--e descobre a sua popularidade immensa. Que vida enganada, e tanto a sujára--por não saber!
O Bento não apparecia, ainda azafamado em illuminar condignamente as rexas da Torre. Gonçalo atirou a ponta do charuto, e com as mãos nas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para as estrellas. A nevoa adelgaçára quasi sumida,--lumes mais vivos palpitavam no ceu mais profundo. De lumes e ceus descia essa sensação de infinidade, d'eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas desacostumadas da sua contemplação. Na alma de Gonçalo passou, muito fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensidades sob que se agita, tão vaidosa da sua agitação, a rasteira, a sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na escuridão serena. As luzinhas sobre a capella de Velleda, sobre o arco de Santa Maria de Craquêde, esmoreciam, já ralas. Todo o remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia de triumpho findava, breve como os luminares e os foguetes.--E Gonçalo, parado, rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse triumpho por que tanto almejára, porque tanto sabujára. Deputado! Deputado por Villa-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, tão miudo, tão trivial,--todo o seu esforço tão desesperado, tão sem escrupulos, lhe parecia ainda menos immoral que risivel. Deputado! Para quê? Para almoçar no Bragança, galgar de tipoia a ladeira de S. Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e distrahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o rebanho do S. Fulgencio, por ter desertado o rebanho identico do Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e á senhora do chefe, e promessas e risos atravez de Redacções, e algum Discurso esbrazeadamente berrado--lograsse ser Ministro. E então? Seria ainda a tipoia pela calçada de S. Bento, com o correio atraz na pileca branca, e a farda mal-feita, nas tardes d'assignatura, e os recurvados sorrisos d'amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre elle de cada gazeta d'opposição... Ah! que pêca, desinteressante vida, em comparação d'outras cheias e soberbas vidas, que tão magnificamente palpitavam sob o tremeluzir d'essas mesmas estrellas! Em quanto elle se encolhia no seu paletot, deputado por Villa-Clara, e no triumpho d'essa miseria--Pensadores completavam a explicação do Universo; Artistas realisavam obras de belleza eterna; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas; Physiologistas diminuiam o velho soffrer humano; Inventores alargavam a riqueza das raças; Aventureiros magnificos arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas mãos incançadas fórmas sempre mais bellas ou mais justas da humanidade. Quem fôra como elles, que são os sobre-humanos! E tal acção tão suprema requeria o Genio, o dom que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das realidades humanas--e depois o forte querer.
E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da Torre, entre o ceu todo estrellado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de Vida superior--até que enlevado, e como se a energia da longa raça, que pela Torre passára, refluisse ao seu coração, imaginou a sua propria encaminhada emfim para uma acção vasta e fecunda, em que soberbamente gozasse o goso de verdadeiro viver, e em torno de si creasse vida, e accrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas puras o dourassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que elle inteiro e n'um esforço pleno bem servira a sua terra...
O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:
--O Snr. Doutor ainda se demora?
--Não. A festa acabou, Bento.
* * * * *
Nos começos de Dezembro, com o primeiro numero dos *Annaes*, appareceu a _Torre de D. Ramires_. E todos os jornaes, mesmo os da opposição, louvaram «esse estudo magistral (como affirmou a _Tarde_) que, revelando um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida, a obra de Herculano e de Rebello, a reconstituição moral e social do velho Portugal heroico.» Depois das festas de Natal, que elle passou alegremente nos Cunhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de bacalhau por uma receita sublime do padre José Vicente, da Finta, os amigos d'Oliveira, os rapazes do Club e da Arcada offereceram ao Deputado por Villa-Clara, na sala da Camara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-cruz, e em que o Barão das Marges (que presidia) saudou «o prestigioso moço que, talvez em breve, nas cadeiras do Poder levantasse do marasmo este brioso paiz, com a pujança, a valentia, que são proprias da sua raça nobilissima!»
* * * * *
No meado de Janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo partiu para Lisboa; e atravez do inverno, em Lisboa, andou sempre nos _Carnet-Mondain_ e _High-Life_ dos jornaes, nas noticias de jantares, do _raouts_, de tiros aos pombos, de Caçadas d'El-Rei, tão notado nos movimentos mais simples da sua elegancia, que os Barrôlos assignaram o _Diario Illustrado_ para saber quando elle passeava na Avenida. Em Villa-Clara, na Assembleia, o José Gouveia já encolhia os hombros, rosnando:--«Desandou em janota!»--Mas nos fins d'Abril uma noticia de repente alvoroçou Villa-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante com o Barrôlo, que n'essa noite ambos abalaram para Lisboa--e na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cosinha, lavada em lagrimas, sem comprehender, gemendo:
--Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno mais a vêr!
Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi mysteriosamente, arranjára a concessão d'um vasto praso de Macheque, na Zambezia, hypothecára a sua quinta historica de Treixedo, e embarcava em começos de Junho no paquete _Portugal_, com o Bento, para a Africa.
XII
Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vôos d'ave.
N'uma doce tarde dos fins de Septembro, Gracinha, que chegára na vespera de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Sueiro, descansava na varanda da sala de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pescoço, um velho avental do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casarão, ajudada pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfára, arrumando e limpando, com tanto gosto e fervor no trabalho, que ella mesma sacudira o pó a todos os livros da livraria, o seu socegado pó de quatro annos. O Barrôlo tambem se occupára, dando sentenças nas obras da cavallariça, que a valente egoa da briga da Grainha em breve partilharia com uma egoa ingleza, de meio sangue, comprada em Londres. Tambem Padre Sueiro remexera, pelo Archivo, zelosamente, com um espanejador. E até o Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois moços na final limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, já com morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que a parra densa já recobria.
Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, enfeitava a sua velhice--por que no Domingo, depois dos seus quatro annos d'Africa, Gonçalo regressava á Torre.