A Illustre Casa de Ramires

Chapter 25

Chapter 253,844 wordsPublic domain

E a fera alma do velho acompanhava, com inexoravel goso, as sanguesugas subindo, espalhadamente alastrando por aquelle corpo bem amarrado, como seguro rebanho pela encosta da collina onde pasta. O ventre já desapparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, relusia na humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ancia, d'onde sangue se esfiava, n'uma franja lenta. O denso pello ruivo do peito, como a espessura d'uma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um montão ennovelado sangrava um braço. As mais fartas, já inchadas, mais relusentes, despegavam, tombavam mollemente: mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas, d'onde pingava como uma chuva rala. Na escura agoa boiavam gordas postemas de sangue esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, atravez ultrages immundos, ameaças de mortes, de incendios, contra a raça dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quasi estalavam, a bocca horrendamente escancarada e avida, rompia aos roucos urros, implorando _agoa, agoa!_ No seu furor as unhas, que uma volta de amarras lhe collára contra as fortes côxas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia n'um longo gemer cançado--até que parecia adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas relusindo sob o suor que as alagára como sob um grosso orvalho, e entre ellas a espantada lividez d'um sorriso delirado.

No emtanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se embotára a curiosidade bravia d'aquelle supplicio novo. E se acercava a hora da ração de meridiana. O Adail de Santa Ireneia, depois o Almocadem Hespanhol, mandaram soar os anafins. Então todo o áspero ermo se animou com uma faina d'arraial. O almazem das duas mesnadas parára por detraz dos morros, n'uma curta almargem d'herva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raizes de amieiros chorões. N'uma pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os peões corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uchões e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade d'um pão escuro: e, espalhados pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentidão, bebendo da agoa do regato pelas concas de pau. Depois preguiçavam, estirados na relva,--ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através do matto, na esperança d'atravessar com um virote alguma caça erradia. Na ribanceira, deante da lagôa, os cavalleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam tambem, em roda dos alforges abertos, cortando com os punhaes nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas cabaças de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho _Sabedor_ descançava, partilhando d'uma larga escudella de barro, cheia de _bolo papal_, d'um bolo de mel e flôr de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam ao forro dos morriões. Só o velho Tructesindo não comia, não repousava, hirto e mudo deante do seu pendão, entre os seus dous mastins, n'aquelle fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o _Castellão_, estendendo para elle um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesillas, fresco como nenhum d'Aquilat ou de Provins, para a sede de tão rija arrancada. O velho Rico-Homem nem attendera:--e D. Pedro de Castro, depois de atirar dous pães aos alões fieis, recomeçou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquelle teimoso amor do Bastardo por Violante Ramires que arrastára a tantos homizios e furores.

--Ditosos nós, Snr. D. Garcia! Nós a quem a edade e o quebranto e a fartura já arredam d'essas tentações... Que a mulher, como m'ensinava certo Physico quando eu andava com os moiros, é vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vêde como os meus por ellas penaram! Só meu pae, com aquella desvairança de zelos, em que matou a cutello minha dôce madre Estevaninha. E ella tão santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardencia! Até a morrer, como este, sugado por bichas, deante d'uma hoste que merenda e mofa. E por Deus, quanto tarda em morrer, Snr. D. Garcia!

--Morrendo está, Snr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensanguentadas todo elle era uma ascorosa aventesma escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que os regos d'humidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessára, e a ancia contra as cordas, e todo o furor. Molle e inerte como um fardo, apenas a espaços esbogalhava horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor. Depois a face abatia, livida e flaccida, com o beiço pendurado, escancarando a bocca em cova negra, d'onde se escoava uma baba ensanguentada. E das palpebras novamente cerradas, entumecidas, um muco gotejava, tambem como de lagrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no emtanto, voltando da ração, reatulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam. Já os pagens recolhiam manteis e alforges. D. Pedro de Castro descera do cabeço com o _Sabedor_ até á borda da agoa lodosa, onde quasi mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o agonisante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados com a delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam:--«Está morto! Está acabado!»

Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Bésteiros:

--Ermigues, ide vêr se ainda resta alento n'aquella postema.

O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de nojo palpou a livida carne, acercou da bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga que desembainhára.

--Morto! morto!--gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engilhado, chupado, esvasiado. O sangue já não manava, havia coalhado em postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, relusindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho. O _Claro-Sol_ não era mais que uma immundice que se decompunha. Só a madeixa dos cabellos louros, repuxada, presa na argola, relusia com um lampejo de chamma, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avançou para o Senhor de Santa Ireneia, bradou:

--Justiça está feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Então o velho Rico-Homem atirando o braço, o cabelludo punho, com possante ameaça, bradou, n'um rouco brado que rolou por penhascos e cerros:

--Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me affronte a mim e aos da minha raça!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atravez do matto, e com um largo aceno ao Alferes do Pendão:

--Affonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a cavallo, se vos praz, Snr. D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O _Castellão_ ondeou risonhamente o guante:

--Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós. A cavallo pois se vos praz! Que nos promette aqui o Snr. D. Garcia vêrmos ainda, com sol muito alto, os muros de Monte-mór.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzeis d'armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta agua escura assustava. E, com os dous balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruellas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, d'onde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas sellas para silenciosamente remirarem o homem de Bayão, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos bésteiros e fundibularios de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injurias ao «perro matador». A meio da escarpa, um bésteiro, virando, retezou furiosamente a bésta. A comprida garruncha apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma bala de funda, e uma setta barbada,--que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novello de bichas. O Coudel berrou: «cerra! anda!» A récua das azemolas de carga avançava, sob o estralar dos lategos: os moços da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro crú, balançando um chuço curto:--e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas d'ouro.

XI

Quando Gonçalo, estafado e já todo o ardor bruxuleando, retocou este derradeiro traço da affronta--a sineta no corredor repicava para o almoço. Emfim! Deus louvado! eis finda essa eterna _Torre de Ramires_! Quatro mezes, quatro penosos mezes desde Junho, trabalhára na sombria resurreição dos seus avós barbaros. Com uma grossa e carregada lettra, traçou no fundo da tira *Finis*. E datou, com a hora, que era do meio-dia e quatorze minutos.

Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutára, não sentia o contentamento esperado. Até esse supplicio do Bastardo lhe deixára uma aversão por aquelle remoto mundo Affonsino, tão bestial, tão deshumano! Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituira, com luminosa verdade, o ser moral d'esses avós bravios... Mas que! bem receava que sob desconcertadas armaduras, de pouca exactidão archeologica, apenas s'esfumassem incertas almas de nenhuma realidade historica!... Até duvidava que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco, o corpo d'um homem, e o sugassem das côxas ás barbas, em quanto uma hoste mastiga a ração!... Emfim, o Castanheiro louvára os primeiros Capitulos. A Multidão ama, nas Novellas, os grandes furores, o sangue pingando: e em breve os *Annaes* espalhariam, por todo o Portugal, a fama d'aquella Casa illustre, que armára mesnadas, arrasára castellos, saqueára comarcas por orgulho de pendão, e affrontára arrogantemente os Reis na curia e nos campos de lide. O seu verão, pois, fôra fecundo. E para o coroar, eis agora a Eleição, que o libertava das melancolias do seu buraco rural...

Para não retardar as visitas ainda devidas aos Influentes, e tambem para espairecer, logo depois d'almoco montou a cavallo--apezar do calor, que desde a vespera, e n'aquelle meado d'outubro, esmagava a aldeia com o refulgente peso d'uma canicula d'Agosto. Na volta da estrada, dos Bravaes um homem gordo, de calça branca enxovalhada, que s'apressava, bufando, sob o seu guarda-sol de panninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma cortezia immensa. Era o Godinho, amanuense da Administração. Levava um officio urgente ao Regedor dos Bravaes, e agora corria á Torre de mandado do Snr. Administrador...

Gonçalo recuou a egoa para a sombra d'uma carvalha:

--Então que temos, amigo Godinho?

O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.^a que o maroto do Ernesto, o valentão de Nacejas, em tratamento no Hospital d'Oliveira, melhorára consideravelmente. Já lhe repegára a orelha, a bocca soldava... E, como se procedeu á querella, o patife passava da enfermaria para a cadeia...

Gonçalo protestou logo, com uma palmada no selim:

--Não senhor! Faça o obsequio de dizer ao Snr. João Gouveia que não quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou uma dóse tremenda, estamos quites.

--Mas Snr. Gonçalo Mendes...

--Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não quero, e não quero... Explique bem ao Snr. João Gouveia... Detesto vinganças. Não estão nos meus habitos, nem nos habitos da minha familia. Nunca houve um Ramires que se vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Emfim explique bem ao Snr. João Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembleia... Bem basta ao homem ficar desfeiado. Não consinto que o apoquentem mais!... Detesto ferocidades.

--Mas...

--Esta é a minha decisão, Godinho.

--Lá darei o recado de V. Ex.^a

--Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!

--De rachar, Snr. Gonçalo Mendes, de rachar!

Gonçalo seguiu, revoltado pela ideia de que o pobre valentão de Nacejas, ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse á sordida enxovia de Villa-Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo em galopar para Villa-Clara, reter o zelo legal do João Gouveia. Mas perto, adeante do lavadoiro, era a casa d'um Influente, o João Firmino, carpinteiro e seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal do quinteiro. O compadre Firmino largára cedo para a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar do Snr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cosinha, obesa e lusidia, com dous pequenos dependurados das saias e mais sujos que esfregões. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:

--E que rico cheiro a pão fresco, oh comadre! Foi a fornada, hein? Pois então grande abraço ao Firmino. E que se não esqueça! A Eleição vem para o outro Domingo. Lá conto com o voto d'elle. E olhe que não é pelo voto, é pela amisade.

A comadre arreganhava os dentes magnificos n'um regalado e gordo riso:--«Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurára, até ao Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem não fosse a amor ia a pau.» O Fidalgo apertou a mão da comadre--que do degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d'um Rei benefico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. «O que! para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!»--Na tasca do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles, galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avejão escuro, sem dentes, e a face mais engilhada que uma ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o balcão:--«Isto, rapazes, é fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta a egoa, e vae elle ao lado mais d'uma legua a pé, como foi com o Sôlha! Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!» As _saudes_ atroaram a venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como vassallos ardentes, que a um aceno correriam a votar,--ou a matar!

Em casa do Thomaz Pedra, a avó Anna Pedra, uma velha entrevada, muito velha e tremula, rompeu a choramigar por o seu Thomaz andar para o Olival quando o Fidalgo o visitava. «Que aquillo era como visita de santo!»

--Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!

Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do lenço, pela face toda chupada de gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho agudo:

--Não senhor! não senhor! que quem mostrou aquella caridade pelo filho do Casco, merece estar em altar!

O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava mãos asperas e rugosas como raizes, accendia o cigarro á braza das lareiras, conversando, com intimidade, das molestias e dos derriços. Depois, no calor e pó da estrada, pensava:--«É curioso! parece haver amisade, n'esta gente!»

Ás quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher á Torre pela estrada mais fresca da _Bica Santa_. E passára o logarejo do Cerdal, quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quasi esbarrou com o Dr. Julio, tambem a cavallo, tambem no seu giro, de quinzena d'alpaca, alagado em suor, debaixo d'um guarda-sol de sêda verde. Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavelmente.

--Muito gosto em o vêr, Snr. Dr. Julio...

--Egualmente, com muita honra, Snr. Gonçalo Ramires...

--Então tambem na tarefa?...

O Dr. Julio encolheu os hombros:

--Que quer V. Ex.^a? Se me metteram n'esta! E sabe V. Ex.^a como isto acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro Domingo, votar em V. Ex.^a.

O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se apertarem as mãos com alegria, com estima.

--Que calor este, Snr. Dr. Julio!

--Horroroso, Snr. Gonçalo Ramires... E que massada!

Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores--«os grandes e os miudos.» E dois dias antes da Eleição, n'uma sexta-feira á tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu para Oliveira--onde chegára, na vespera, o André Cavalleiro, depois da sua tão longa, tão fallada demora em Lisboa.

Nos Cunhaes, apenas saltára da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo bom João da Porta--«que as Snr.^{as} Louzadas estavam em cima, de visita, com a Snr.^a D. Graça...»

--Ha muito?

--Já lá estão pegadas ha meia hora boa, meu senhor.

Gonçalo enfiou surrateiramente para o seu quarto, pensando:--«Que desavergonhadas! Chegou o André, veem logo cocar!» E já se lavára, mudára o fato cinzento,--quando o Barrôlo appareceu, esbaforido, desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapeu alto, com as bochechas accesas, alvoroçadamente radiantes:

--Eh, seu Barrôlo, que janota!

--Parece bruxedo! gritou o Barrôlo, depois d'um abraço, que repetiu, com desacostumado fervor. Estava agora mesmo para te mandar um telegramma, que viesses...

--Para quê?

O Barrôlo gaguejou, com um riso reprimido que o illuminava, o inchava:

--Para quê? P'ra nada... Quero dizer, para a Eleição! Pois a Eleição é além d'ámanhã, menino! O Cavalleiro chegou hontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Paço com o Snr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil... Optimo, o André! Aparou o bigode, parece mais moço. E traz novidades... Traz grandes novidades!

E o Barrôlo esfregava as mãos, n'um tão faiscante alvoroço, com tanto riso escapando dos olhos e da face relusente, que o Fidalgo o encarou curioso, impressionado:

--Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma cousa boa para me annunciar?

Barrôlo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta. Elle? Não! Não sabia nada! Só a Eleição! Na Murtosa votação tremenda...

--Ah! pensei, murmurou Gonçalo. E a Gracinha?

--A Gracinha tambem não!

--Tambem não quê, homem? Como está? Simplesmente como está?

--Ah! está com as Louzadas. Ha mais de meia hora, aquellas bebedas!... Naturalmente por causa do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos Bazares... E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas até Domingo?

--Não, volto ámanhã para a Torre.

--Oh!...

--Pois dia d'Eleicão, homem! devo estar em casa, no meu centro, no meio das minhas freguezias...

--É pena, murmurou o Barrôlo. Logo se sabia juntamente com a Eleição... Eu dava um jantar tremendo...

--Logo se sabia, o quê?

O Barrôlo emmudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brazas gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:

--Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande brodio, grande foguetorio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.

Então Gonçalo risonhamente prendeu o Barrôlo pelos hombros:

--Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma cousa boa para contar ao teu cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Elle não sabia nada. O André não lhe contára nada!

--Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amavel mysterio, que pairava. Então descemos. E se essas carraças das Louzadas ainda estiverem lá pegadas, manda dizer pelo escudeiro á sala, bem alto, á Gracinha, que cheguei, que lhe desejo fallar immediatamente no meu quarto: com esses monstros não ha considerações.

O Barrôlo balbuciou, hesitando:

--O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amavel commigo, ainda ha pouco, o Snr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. Já se libertára das Louzadas. Era uma antiga canção patriotica da Vendeia, que outr'ora na Torre, ella e Gonçalo entoavam com emoção, quando os inflammava o amor fidalgo e romantico dos Bourbons e dos Stuarts:

Monsieur de Charette a dit à ceux d'Ancenes "Mes Amis!... Monsieur de Charette a dit...

Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrophe, com o braço erguido como uma bandeira:

"Mes amis! Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"

Gracinha saltou do mocho, n'uma surpresa.

--Não te esperavamos! imaginei que passavas a Eleição na Torre... E por lá?

--Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho immenso. Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.

Barrôlo, que não socegava pela sala, rompeu para elles, com o mesmo riso suffocado:

--Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, n'uma curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova para lhe contar... Eu não sei nada, a não ser a Eleição! Pois não é verdade, Gracinha?

Gonçalo, muito serio, prendeu o queixo da irmã:

--Sabes tu, dize lá.

Ella sorriu, córada... Não, não sabia nada, só a Eleição.

--Dize lá!

--Não sei... São tolices do José.

Mas então, ante aquelle sorriso fraco, rendido, que confessava--o Barrôlo não se conteve, desafogou como um morteiro estoira.--Pois bem! sim! com effeito!--Grande novidade! Mas o André, que a trouxera de Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle, só elle, causar a surpresa a Gonçalo...

--De modo que eu não posso! Jurei ao André. A Gracinha sabe, que eu já lhe contei hontem... Mas tambem não póde, tambem jurou. Só o André. Elle vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que é uma bomba! e graúda!

Gonçalo, roído de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo os hombros:

--Bem, já sei, é uma herança! Tens quinze tostões d'alviçaras, Barrôlo.

Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, emquanto Gracinha recomeçára as velhas canções patrioticas, agora as jacobitas, em louvor dos Stuarts--Gonçalo anciou pela apparição do Cavalleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito suffocado. Todo o seu furor contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipára lentamente depois da sua tocante conversa com a irmã, na manhã historica da briga da Grainha. Gracinha então, com grandes lagrimas de pureza e de verdade, jurára reserva, retrahimento. Gonçalo, abandonando Oliveira, mostrava tambem uma resistencia louvavel contra o sentimento ou a vaidade que o transviára. Demais elle não podia romper novamente com o Cavalleiro, andando ainda nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella reconciliação ruidosa que chamára o Cavalleiro á intimidade dos Cunhaes. E por fim de que valiam furores ou magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annullariam o mal que se consummára no Mirante--se porventura se consummára. E assim toda a cólera contra o André se dissipára n'aquella sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em ceu de estio...

Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro penetrou na sala, vagaroso e magnifico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gonçalo sentiu uma renovada aversão por toda aquella petulancia recheada de falsidade--e apenas poude bater mollemente, desenxabidamente, nas costas do velho amigo, que o apertava n'um abraço d'apparatosa ternura. E em quanto André, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado na poltrona que o Barrôlo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de Cascaes, tão alegre, e partidas de _bridge_ e da Parada e d'El-Rei--Gonçalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre coração a bater contra a persiana mal fechada, a bruta supplica murmurada atravez d'aquelles bigodes atrevidos, e emmudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade attenta, sem nenhum dos seus chammejantes rubores, dos seus desgraçados enleios de modo e gesto, apenas levemente secca, d'uma seccura preparada e posta. Depois André alludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da Eleição, «porque o tio Reis Gomes, o José Ernesto, esses crueis amigos, lhe andavam atirando para os hombros todo o trabalho da Nova Reforma Administrativa.»