A Illustre Casa de Ramires

Chapter 24

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De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á Assembleia, para devorar os outros jornaes de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam! A _Gazeta do Porto_, attribuindo o attentado a Politica, ultrajava furiosamente o Governo. O _Liberal Portuense_, porém, relacionava «com certas vinganças dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso attentado que quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal e d'Hespanha e d'um dos mais pujantes talentos da nova geração!» Os jornaes de Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explendida do Snr. Gonçalo Ramires.» E o mais ardente era a _Manhã_, n'um verboso artigo (de certo escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas tradições da Casa illustre, esboçando as bellezas do Castello de Santa Ireneia e terminando por affirmar que «agora, se esperava com redobrada anciedade a apparição da novella de Gonçalo Ramires, fundada sobre um feito de seu avô Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro numero dos *Annaes de Litteratura e de Historia*, a nova Revista do nosso querido amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia heroica de Portugal!»--As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os jornaes, tremiam. E o João Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem os artigos, por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

--Vossê, Gonçalinho, vae ter uma votação tremenda!

Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gonçalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria de Mendonça, n'um papel perfumado, com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Anna, pelo adro de Santa Maria de Craquêde:--«Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos _ambas_ muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magnifica coragem do primo. É d'um verdadeiro Ramires! Eu não vou ahi abraçal-o (com risco de me comprometter e _fazer invejas_) por que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, anciamos por vêr o heroe, e não creio que houvesse nada d'extraordinario, nem _d'um lado_ nem _d'outro_, em que o primo por aqui apparecesse além d'amanhã (quinta feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até se merendava, á boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos comprimentos, _muitos_, da Annica, e o primo creia-me, etc.»--Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrára, tão claramente, a D. Anna para os braços... E como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de novo sentia aquelle vozeirão do Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto?»

Então tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria Mendonça:--«Querida prima--Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha facil para quem tenha, como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita á _Feitosa_, que me seria tão agradavel, não a posso realisar com fundo pezar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim,--cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente á Snr.^a D. Anna os meus profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc.»

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o lacre verde, pensava:

--Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...

* * * * *

Durante toda essa macia semana dos fins de Setembro, Gonçalo trabalhou no Capitulo final da sua Novella.

Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros, surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o _Sabedor_, o bando de Bayão, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar d'armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejára Tructesindo, com ruidosa approvação de D. Pedro de Castro, por que não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalára do castello de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogavar nem coudel lhe atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a _Racha do Moiro_, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o _Magno_, o Alcaide moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatára á garupa. E apenas pela esguia greta enfiára a derradeira lança da fila--eis que da outra embocadura do valle surde o cerrado troço dos cavalleiros de Santa Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz as lanças dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma levadiça. Do recosto dos cerros róla, como reprêsa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca furiosamente a espada, que redomoinhando o corôa de coriscos. Ainda com um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de canave, que o laça pela gargalheira, o arranca n'um brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de Bayão aguentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera--um rôlo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial de lã rôxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas côr de ouro, tão bellas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso d'uma possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de virotões, como rez apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o _Claro-Sol_ que allumiava a casa de Bayão, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e n'ellas espetado um triste ramo de cardo--emblema da sua traição.

No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que os investira--uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca d'uma barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia immunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes. Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgára tão docemente e bailára no castello de Unhello,--e vergado sobre a alta sella rezou, pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã d'Agosto. E afastados á entrada do valle, sob a ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o _Sabedor_, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, villão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra um arado por terra pedreira--gastára Gonçalo essa doce semana de Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda molhados do banho de chuva, esfregava as mãos deante da banca--porque certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes d'almoço a sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçára, com esquiva indecisão, como nobre Lyrico que ante uma visão de bruta ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar a penna, Gonçalo tambem, realmente lamentava que seu avô Tructesindo não matasse outr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com uma d'essas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na Historia.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros combinavam com lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejára logo recolher a Santa Ireneia, alçar uma forca deante das barbacans, no chão em que seu filho rolára morto, e n'ella enforcar, depois de bem açoitado, como villão, o villão que o matára. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava a Montemór, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavallariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no pescoço, pachorrentamente.

--Que vos parece, Snr. D. Garcia?

O _Sabedor_ desafivelára o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

--Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de cavalgada, logo adiante destes cerros, no _Pego das Bichas_... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemór, tão direitos como vôa o corvo... Confiae em mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil, que d'outra egual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

--Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?

--Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

--Seja! Mandae dar ás bozinas.

Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um troço de besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste metteu para o _Pego das Bichas_, em desbando, com os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz, (?) e todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.

A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia entre os cerros o _Pego das Bichas_. Era um lugar de eterno silencio e de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcára o tio Duarte a desolada asperidão:

Nem trillo d'ave em balançado ramo! Nem fresca flôr junto de fresco arroio! Só rocha, mattagal, ribas soturnas, E em meio o _Pego_, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o avistaram, na melancholia da manhã nevoenta, emmudeceram da larga fallada, repucharam os freios, assustados ante tão aspero ermo, tão propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de bésta, negrejava o _Pego_, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de matto bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o silencio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

--Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, n'ella entrou homem remido pelo baptismo.

--Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o _Sabedor_, já por aqui se moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Sueiro, e de vosso rei D. Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma castellania famosa! Vêde além!--E mostrava na ponta do pego, fronteira ao barranco, dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e vento polira como marmores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No emtanto já o tropel da peonagem se espalhára pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos bésteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nú, como sua mãe barregã o soltára á negra vida...

Tructesindo encarou o _Sabedor_, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

--Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o villão, e sujar essa agua innocente!...

E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte tão quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triumpho e gosto:

--Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumas traças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

--Vida de Christo! Que ter n'uma hoste o Snr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conselho, enrolados n'um só, Annibal e Aristoteles!

Um rumor d'admiração correu pela hoste:

--Boa traça, boa traça!

E Tructesindo, radiante, bradava:

--Andar, andar, bésteiros! E vós, senhores, recuae para a lomba do cerro, como para palanque, que vae ser grande a vista! Já seis bésteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com mólhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rez, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabellos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados sob outros grossos braços retêsos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os bésteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforço.

No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa Ireneia, desmontavam cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cubriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dous magros espinheiros toldavam de folha rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o Snr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas só o velho _Castellão_ se accommodou, para uma repousada delonga, desafivelando o seu corselete de ferro tauxeado d'ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos ávidamente cravados na tenebrosa lagôa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho... E pela borda do _Pego_, peões, e alguns cavalleiros d'Hespanha, remexiam com virotões, com os coutos das ascumas, a agua lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoavam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou:--e o forte corpo appareceu, nú e branco, sobre a terra negra, com um denso pello ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada n'outra matta de pello ruivo, e todo ligado por cordas de canave que o inteiriçavam. N'aquella rigidez de fardo, nem as costellas arfavam--apenas os olhos refulgiam, ensanguentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns cavalleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Bayão. O senhor dos Paços d'Argelim mofou, com estrondo:

--Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de Çamora raspou o sapato de ferro pelo hombro do malfadado:

--Vêde este _Claro-Sol_, tão claro, que se apaga agora, em agua tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as palpebras,--d'onde duas grossas lagrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão resoou pela ribanceira:

--Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

--Justiça! justiça que manda fazer o Senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, n'um perro matador!... Justiça n'um perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...

Trez vezes pregoou por deante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro,--como a julgadores no seu Estrado de julgamento.

--Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ireneia.

Immediatamente, a um commando do _Sabedor_, seis bésteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com elle entraram na agua, até ao mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido d'_aguenta! endireita! alça!_ n'um desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'agua até ás virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois n'elle atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e collado como um rôlo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os bésteiros fugiram d'agoa, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, n'uma fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Bayão bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a agoa que já o afogava até ás pernas, com cordas que o enroscavam até ao pescoço como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabellos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do _Claro-Sol_.

Então o attento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silencio do ermo. A agoa jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lamina d'estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, archeiros postados pelo _Sabedor_, atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flamulas das lanças cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam pedras á agoa lodosa. Já alguns cavalleiros hespanhoes rosnavam impacientes com a delonga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo agachados a borda da lagôa, para mostrar que falladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam, rindo, e mofando o _Sabedor_... Mas de repente um estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos musculos, no furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrages e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ramires, que elle emprasava, dentro do anno, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavalleiro de Santa Ireneia agarrou uma bésta de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

--Por Deus, amigo! Não roubeis ás sanguesugas nem uma pinga d'aquelle sangue fresco!... Vêde como veem! vêde como veem!

Na agoa espessa, em torno ás coxas mergulhadas do Bastardo, um fremito corria, grossas bolhas empolavam,--e d'ellas, mollemente, uma bicha surdio, depois outra e outra, lusidias e negras, que ondulavam, se collavam á branca pelle do ventre, d'onde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que já escorria. O Bastardo emmudecera--e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam as bichas, gritando--_a elle, donzellas! a elle!_ E o gentil Çamora de Cendufe, clamava rindo contra tão ensossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo d'almorreimas. Nem era sentença de Rico-Homem--mas receita d'herbanista moiro!

--Pois que mais quereis, meu Leonel? acudio alegremente o _Sabedor_, resplandecendo. Morte é esta para se contar em livros! E não tereis este inverno serão á lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que não volte a historia d'este Pego, e d'este feito! Olhae nosso primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenceou de certo em tão longo lidar d'armas!... E como goza! tão attento! tão maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balsão, que o Alferes cravára entre duas pedras, e como elle tão quêdo, o velho Ramires não despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um fulgor sombrio. Nunca elle esperára vingança tão magnifica! O homem que atára seu filho com cordas, o arrastára n'umas andas, o retalhára a punhal deante das barbacans da sua Honra--agora, vilmente nú, amarrado tambem como cerdo, pendurado d'um pilar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por sanguesugas, deante de duas mesnadas, das melhores d'Hespanha, que miravam, que mofavam! Aquelle sangue, o sangue da raça detestada, não o bebia a terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada, atravez de rija armadura--mas, gota a gota, escuramente e mollemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar o orgulhoso sangue que as enfartára. N'um charco, onde elle o mergulhára, viscosas bichas bebiam socegadamente o cavalleiro de Bayão! Onde houvera homizio de solares fundado em desforra mais dôce?