Chapter 22
Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da _Varandinha_ dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho velho que desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no valle, entre o cabeço d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde Lopo de Bayão derrotára a mesnada de Lourenço Ramires... Ora enterrada entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e graça dos fremitos d'aza que o roçavam; e tanto era o radiante azul nos ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava n'alma. Gonçalo, mais desannuviado, não se apressava: na Egreja dos Bravaes, quando elle passára ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas: e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria, sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a atulhavam. Adiante, á orla d'um hervaçal, no abrigo d'uma moita d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idyllio--depois teve uma surpreza descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazão-d'Armas, um Açor enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora pertencessem á Casa:--ou algum dos seus avós beneficos construira a ponte, sobre torrente então mais funda, para segurança dos homens e dos gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memoria piedosa de Lourenço Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!
O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As mêdas lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe, dos telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Gonçalo sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vôo d'entre o restolho. Gonçalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo o seu forte chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.
Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;--e ao fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa terrea, com porta baixa entre duas janellas envidraçadas, remendos novos no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira assombreava. N'uma esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam chãs e lameiros.
Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de barrete de lã verde, acariciava pensativamente o focinho d'um perdigueiro. Gonçalo parou:
--Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do Snr. Visconde de Rio-Manso, a _Varandinha_?
O rapasote ergueu a face morena, de buço leve, remechendo vagamente no carapuço.
--Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até á pedreira, depois á esquerda a seguir, sempre rente da varzea...
Mas n'esse instante assomava á porta um latagão de suissas louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com um sobresalto, reconheceu logo o caçador que o injuriára na estrada de Nacejas, o assobiára na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois, com a mão encostada á humbreira, chasqueou o rapasote:
--Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o caminho, homem! Este caminho por aqui não é para asnos!
Gonçalo sentiu a pallidez que o cobriu--e todo o sangue no coração, n'um tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo homem, sem provocação! Apertou os joelhos no sellim para galopar. E a tremer, n'um esforço que o engasgava:
--Vossê é muito atrevido! É já pela terceira vez! Eu não sou homem para levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o conheço, e que não escapa sem lição.
Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á estrada, affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:
--Então cá estou! Venha agora a lição... E para diante é que Vossê já não passa, seu Ramires de merd...
Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina egoa n'um galão terrivel! E nem comprehendeu! O cajado sarilhára! A egoa empinava, n'uma cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a mão do homem, escura, immensa, que empolgava a camba do freio.
Então, erguido nos estribos, por sobre a immensa mão, despediu uma vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o latagão na face, de lado, n'um golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu, despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando. Gonçalo galgou sobre elle, n'outro arremesso, com outra fulgurante chicotada, que o apanhou pela bôca, lhe rasgou a bôca, decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o chão. As patas da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,--e, debruçado, Gonçalo ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.
Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou o rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando aterrado.
--Ah, cão!
Lançou a egoa, com o chicote alto:--o rapaz, espavorido, corria lentamente através do terreiro, para saltar o vallado, escapar para as varzeas ceifadas!
--Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo. Estonteado, o rapaz tropeçára n'uma viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a aresta d'um pilar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus! Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do quinteiro.
--Ai que mataram o meu rapaz!
Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a egoa, para o deter--que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado nos estribos, com a face chammejante, o chicote a descer--o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou anciadamente:
--Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pae Ramires.
Gonçalo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a tremer, sob o justiceiro faiscar dos seus olhos:--e gosava soberbamente aquellas callosas mãos que se erguiam para a sua misericordia, invocavam o nome de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico. Depois, recuando a egoa:
--Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... Vossê tambem não tem boa cara! Que ia vossê correndo para casa? Buscar outra espingarda?
O velho alargou desesperadamente os braços, offerecia o peito, em testemunho da sua verdade:
--Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me ajude e me salve o rapaz!
Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza d'espirito que a lucta afiára concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro. E até n'um relance sorrio recordando «traças de guerra», de D. Garcia Viegas, o _Sabedor_.
--Marche lá deante de mim, sempre a direito, pela estrada!
O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos nas coxas, n'uma ancia que o engasgava:
--Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?...
--O rapaz está só atordoado, já se mecheu... E o outro malandro tambem... Marche vossê!
E ao irresistivel mando de Gonçalo, o velho, depois de sacudir demoradamente as joalheiras, começou a avançar pela estrada, vergado deante da egoa, como um captivo, com os longos braços a bambolear, rosnando, n'um rouco assombro:--Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de Deus, que desgraça! A espaços estacava, esgaseando para Gonçalo um olhar torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o empurrava: «Marche!...» E marchava. Adiante, onde se erguia um cruseiro em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu um largo atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o _Caminho da Moleira_. E para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria, pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o matar commodamente, rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim da minha vida! Ai Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!» E não cessou de gemer, emmaranhando os passos tropegos, até que desembocaram na estrada alta entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então de repente, com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as mãos ao barrete:
--Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...
--Marche! Corra! Que agora a egoa trota!
A egoa trotou--o velho correu, desengonçado, arquejando como um folle de forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do captivo, da lenta marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar--entraria elle, n'um galope solto, o portão da Torre! Então bradou, com o sobr'olho duro:
--Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle seu logar?
--A Grainha, meu fidalgo.
--E vossê como se chama, e o rapaz?
O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:
--Eu sou João, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu Fidalgo.
--Vossê naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas louras?
D'um folego, o velho gritou:
--Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de Nacejas, que chamam o _Caça-abraços_, e que tanto me desencaminhou o rapaz...
--Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que me atacaram a pau e a tiro, que não ficam quites sómente com a sova, e que agora têm de se entender com a Justiça... Ella lá irá! Largue!
Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho que abalára, forçando as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela conhecida estrada, galopou para a Torre.
E ia levado, galopando n'uma alegria tão fumegante, que o lançava em sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de galopar pelas alturas, n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as nuvens lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres, dos que mudavam a configuração dos Reinos,--e erguiam esse maravilhado murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com razão! com razão! Que ainda de manhã, ao sahir da Torre, não ousaria marchar para um rapazola decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na solidão d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a suja injuria--eis um _não sei quê_ que se desprende dentro do seu ser, e transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada nervo de força destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a dôr, e lhe repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli voltava, como um varão novo, soberbamente virilisado, liberto emfim da sombra que tão dolorosamente assombreára a sua vida, a sombra molle e torpe do seu mêdo! Por que sentia que, agora se todos os valentões de Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados--esse _não sei quê_, lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o arremessaria, com cada veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga! Emfim era _um homem_! Quando em Villa Clara o Manuel Duarte, o Titó com o peito alto, contassem façanhas, já elle não enrolaria encolhidamente o cigarro--encolhido, mudo não sómente pela ausencia desconsoladora das valentias, mas sobretudo pela humilhante recordação das fraquezas. E galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para investidas mais bellas. Para além dos Bravaes, mais galopou, ao avistar a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre, agora _mais sua_, e que uma affinidade nova fundada em gloria e força, o tornava mais senhor da sua Torre!
* * * * *
Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:
--Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!
O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja na mão.
--Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poça de sangue! Não digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu, se estão mortos... Depressa, depressa!
O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallariça escura. E de cima d'uma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:
--Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!
Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a apparição do Barrôlo, Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma poça de sangue...
O Barrôlo despegou da varanda--e n'outro relance, investia pelo pateo, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgára a bôca, decepára a orelha... Depois o outro, um rapasola, desfecha uma carabina... Elle corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...
--Uma cutilada?
--Com este chicote, Barrôlo! Arma terrivel!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo este chicote.
Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda manchado de sangue.--Então Gonçalo attentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empallideceu:
--Que desgraça, vejam que desgraça!
Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E immediatamente anciou por se despir, se lavar,--galgou a escada, com o Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:--«Ora uma d'essas! E de repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo n'uma carreira da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabello n'um pavor mudo.
--Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!
Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse momento magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que a colheu, nos fortes beijos que atirou á face querida, todo o seu amuo se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao coração, suspirou de leve, como uma creança cançada. Depois apertando as duas pobres mãos tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:
--Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou tão pacato! imagina tu...
E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um desmaio, Gracinha murmurou:
--Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!
O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho--e foi o Bento, que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma ancia:
--Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...
E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente attentos, a historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, n'um lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir, como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:
--Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote que eu lhe dei!
Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o velho aio, que n'uma excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrôlo:
--O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!... Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Snr. Doutor!
Mas Gonçalo reclamava agua quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cosinha--«que fôra o chicote! o chicote, que elle déra ao Snr. Doutor!» Gonçalo entrára no quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso _ah_ consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de tão violenta manhã, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, roçando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias s'empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado, que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.
E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que subitamente despertou n'uma curiosidade immensa:
--Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?
Resolução da vespera, ao chá. Gonçalo não apparecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle sumiço depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensando tambem que a parelha necessitava uma trotada, lembrára a Gracinha:--«Vamos nós amanhã á Torre? no phaeton?»
--Além disso precisava fallar comtigo, Gonçalo... Tenho andado aborrecido.
O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:
--Como aborrecido?... Aborrecido por que?...
Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanella, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as flôres do tapete, melancolicamente:
--É uma grande secca! A gente não póde confiar em ninguem... Nem ter familiaridades!...
N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitára. Mas a emoção suprema da sua batalha, sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o opprimiam: todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente, n'aquelle frescor da sua coragem nova, tão faceis d'abater como os desafios dos valentões; e não se assustou com as confidencias do cunhado, bem seguro d'impôr áquella alma submissa de bacôco a confiança e a quietação. Até sorriu, com indolencia:
--Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?
--Recebi uma carta.
--Ah!
Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi a carteira que elle mostrou a Gonçalo, com satisfação.
--Bonita, hein? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir de Paris. O monogramma tem muito chic.
Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo tirou da carteira uma carta--já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:
--É das Louzadas.
E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na almofada: «Ex.^{mo} Snr. José Barrôlo.--V. Ex.^a apesar de todos os seus amigos o alcunharem de _Zé bacôco_, mostrou agora muita espertesa, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a esposa de V. Ex.^a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos tempos andava tão murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e ganhou côres, desde que possue a valiosa companhia da primeira auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.^a como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!»
Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira aquella carta que, dias antes, o lançaria em infinita amargura e furia:
--É das Louzadas... E tu déste importancia a semelhante babuseira?
O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:
--Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem BACÔCO... Grande infamia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança sizania entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco! Porquê? Por que eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os rapazes no Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde Gonçalo o considerava, com piedade:
--Em quanto ao resto da carta é tão estupido, tão atrapalhado que ao principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou quatro vezes, á noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.
Então o Fidalgo pulou, de surpresa.
--O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?
--Pois partiu ha tres dias!
--Com demora?
--Com demora, com grande demora... Só volta no meado d'outubro para a Eleição.
--Ah!
Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas de rendas, ainda n'uma excitação que o azafamava. Deante do espelho, lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:
--Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço á cavallariça, visitar a parelha. Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E nem um pello suado! Tu guardas a carta?
--Guardo, para estudar a lettra.
Apenas Barrôlo cerrára a porta--o Fidalgo recomeçou com o Bento a deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos, simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:
--Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala roçou pelo chapeu.
Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O Bento, no seu encarecimento da façanha, achava a copa amolgada--até chamuscada.
--A bala passou de raspão, Snr. Doutor!