A Illustre Casa de Ramires

Chapter 21

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Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomára o violão. Atravez da quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto, a agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e a quietação do arvoredo, da claridade, da noite, penetravam n'alma com adormecedora caricia. Titó e Gonçalo saboreavam o famoso cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no Videirinha--que recuára para o fundo da varanda, se envolvera em sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspiração mais enternecida. Até os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as collinas, escutavam os queixumes do _fado_ da Ariosa. E no escuro, sob a varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga, o bater das orelhas d'um perdigueiro--eram como a presença d'um povo suavemente attrahido pelo descante formoso.

Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario fulgor. Titó, pesado do brodio, adormecêra. E como sempre, para findar, Videirinha atacou ardentemente o _Fado dos Ramires_:

Quem te verá sem que estremeça, Torre de Santa Ireneia, Assim tão negra e callada Por noites de lua cheia...

E lançou então uma quadra nova, que trabalhára n'essa semana com amor sobre uma erudita nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica de Paio Ramires, Mestre do Templo--a quem o Papa Innocencio, e a Rainha Branca de Castella, e todos os Principes da Christandade supplicam que se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Rei de França, captivo nas terras de Egypto...

Que só em Paio Ramires Põe agora o mundo a esperança... Que junte os seus Cavalleiros E que salve o Rei de França!

E por este avô e tal façanha até Gonçalo se interessou--acompanhando o canto, n'um tremulo esganiçado, de braço erguido:

Ai, que junte os seus cavalleiros E que salve o Rei de França!...

Ao rolar mais forte do côro Titó descerrou as palpebras, arrancou do canapé o corpansil immenso--e declarou que marchava para Villa Clara:

--Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde hontem ás quatro da manhã que larguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora, como aquelle rei grego, um crusado por um burro!

Então Gonçalo, animado pelo cognac, tambem se ergueu com uma resolução quasi alegre:

--Oh Titó, antes de sahires anda cá dentro que quero fallar comtigo a respeito d'um caso!

Agarrára um dos candieiros, penetrou na sala de jantar onde errava o cheiro de magnolias morrendo n'um vaso. E ahi, sem preparação, com os olhos bem decididos, bem cravados no Titó--que o seguira arrastadamente, ainda se espreguiçava:

--Oh Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias muito á _Feitosa_... Que te parece aquella D. Anna?

Titó, que despertára como ao rebentar d'um morteiro, considerou Gonçalo com assombro:

--Ora essa! Mas a que proposito?...

Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:

--Olha! Eu para ti não tenho segredos. N'estas ultimas semanas houveram ahi umas conversas, uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a tempos eu pensasse em casar com a D. Anna, creio que ella, por seu lado, não recusava. Tu ias á _Feitosa_. Tu sabes... Que tal rapariga é ella?

Titó crusára os braços violentamente:

--Pois tu vaes casar com a D. Anna?

--Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para a Egreja. Por ora quero só informações... E de quem as posso ter, mais francas e mais seguras, do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?

Titó não descrusára os braços--levantando para o Fidalgo da Torre a face honesta e sevéra:

--Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu, Gonçalo Mendes Ramires?...

Gonçalo atirou um gesto de impaciencia e fartura:

--Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...

O Titó quasi berrou, na sua indignação:

--Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu, não pensa em casar com uma creatura como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'alma e de coração!

Gonçalo emmudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se forçára, argumentou, deduzio:

--Bem! tu então sabes outras cousas... Eu por mim sei que ella é bonita e rica: sei tambem que é séria, por que nunca sobre ella se rosnou nem aqui nem em Lisboa: são qualidades para se casar com uma mulher... Tu agora affianças que se não pode casar com ella. Portanto sabes outras cousas... Dize.

Foi então o Titó que emmudeceu, immovel deante do Fidalgo como se o laço d'uma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um esforço enorme:

--Tu não me chamaste para eu depôr como testemunha... Em principio, sem explicações, perguntas se podes casar com essa mulher. E eu, sem explicações, em principio, declaro que não... Que diabo queres mais?

Gonçalo exclamou, revoltado:

--Que quero? Pelo amor de Deus, Titó!... Suppõe tu que estou doidamente apaixonado pela D. Anna, ou que tenho um interesse immenso em casar com ella... Que não estou, nem tenho: mas suppõe! N'esse caso não se desvia um amigo d'um acto em que elle está tão fundamente empenhado, sem lhe apresentar uma razão, uma prova...

Assim apertado Titó baixou a cabeça, que coçou com desespero. Depois acobardadamente, para escapar, adiou a contenda:

--Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não vaes a esta hora para a Egreja: e ella menos, que o outro marido ainda não arrefeceu na cova. Então ámanhã conversamos.

Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo Videirinha:

--São que horas, Videira! Toca a abalar, que não dormi desde Cidadelhe.

Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvasiou atabalhoadamente o copo, recolheu o violão precioso. E Gonçalo não os deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com aquella recusa do Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma sala onde dormia, esquecida desde os Ramires do seculo XVIII, uma espineta de charão. No patamar da escada que conduzia á portinha verde, Gonçalo, para os allumiar, erguera um castiçal. Titó accendeu um cigarro á vela. A sua mão cabelluda tremia.

--Então, entendido... Appareço ámanhã, Gonçalo.

--Quando quizeres, Titó.

E no secco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito--que Titó hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.

Videirinha, já na estrada, considerava o ceu, a luminosa serenidade:

--Que linda noite, snr. Doutor!

--Linda, Videirinha... E obrigado. Vossê hoje tocou divinamente!

Gonçalo entrára na sala dos retratos, pousára apenas o castiçal--quando, por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó retumbou:

--Oh Gonçalo, desce cá abaixo.

O Fidalgo rolou pelos degraus com soffreguidão. Para além dos alamos, no luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas a face do Fidalgo surdio na claridade da porta o Titó, que esperava com o chapéo para a nuca, desabafou:

--Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... É tolice! E entre nós não quero sombras. Então lá vae! Tu não podes casar com essa mulher por que ella teve um amante. Não sei se antes ou depois d'esse teve outro. Não ha creatura mais manhosa, nem mais disfarçada. Não me venhas agora com perguntas. Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu que t'o affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!

Bruscamente metteu á estrada, com os possantes hombros vergados. Gonçalo não se movera de sobre os degraus de pedra, deante dos mudos alamos, como elle immoveis. Uma palavra passára, irreparavel, no macio silencio da noite e da lua--e eis o alto sonho que elle construira sobre a D. Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo! Lentamente subio, repenetrou na sala. Por cima da chamma alta da vela, n'um painel fusco, uma face acordára, uma secca, amarellada face, de altivos bigodes negros, que se inclinava, attenta como reparando. E longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingenuos versos celebrando a gloria tamanha da Casa illustre:

Que só em Paio Ramires Põe agora o mundo esperança... Que junte os seus cavalleiros E que salve o Rei de França!...

X

Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S. Fiel!), não cessára de padecer humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como o vôo para qualquer ave--só para elle constantemente rematados por dôr, vergonha ou perda! Á entrada da vida escolhe com enthusiasmo um confidente, um irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre--e logo esse homem se apodéra ligeiramente do coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida Politica--e logo o Acaso o fórça a que se renda e se acolha á influencia d'esse mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses annos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua convivencia, a porta dos Cunhaes, confiado na seriedade, no rigido orgulho da irmã--e logo a irmã s'abandona ao antigo enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na sombra favoravel d'um caramanchão! Agora pensa em casar com uma mulher que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna--e immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e segreda:--«A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia d'amantes!» De certo essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira accommodar nos formosos braços d'ella, muito confortavelmente, a sua sorte insegura--e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o Destino malhava sobre elle com rancor desmedido!

--E por quê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. Em vida tão curta, tanta decepção... Porquê? Pobre de mim!

Cahio no vasto leito como n'uma sepultura--enterrou a face no travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por aquella sua sorte tão contrariada, tão sem soccorro. E recordava o presumpçoso verso do Videirinha, ainda n'essa noite proclamado ao violão:

Velha casa de Ramires Honra e flor de Portugal!

Como a flor murchára! Que mesquinha honra! E que contraste o do derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa Ireneia, com esses grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha--todos elles, se Historia e Lenda não mentiam, de vidas tão triumphaes e sonoras! Não! nem sequer d'elles herdára a qualidade por todos herdada atravez dos tempos--a valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido--que na fallada desordem da romaria da Riosa avançava com um guardasol contra tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto apagado, bem o podia livremente gemer--elle nascera com a _falha_, a falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que, irremediavelmente, deante de um perigo, uma ameaça, uma sombra, o forçava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir d'um malandro de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa carne, tão espantadiça!

E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer tambem, gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os espertos olhos e lhe aconselha por traz do leque que se interesse pela D. Anna--logo elle, fumegando d'esperança, ergue sobre o dinheiro e a belleza de D. Anna uma presumpçosa torre de ventura e luxo. E a Eleição? essa desgraçada Eleição? Quem o empurrára para a Eleição, e para a reconciliação indecente com o Cavalleiro, e para os desgostos d'ahi manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por cima do cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do Correio! Mas que! mesmo dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e gravatas!--Homem de tal natureza, por mais bem dotado na Intelligencia, é massa inerte a que o Mundo constantemente imprime fórmas varias e contrarias. O João Gouveia fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle um beberrão immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao pescoço, em vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E todavia o Homem só vale pela Vontade--só no exercicio da Vontade reside o goso da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno submissão--então é a delicia do dominio sereno: se encontra em torno resistencia--então é a delicia maior da lucta interessante. Só não sahe goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um silencio e macieza de cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos varões famosos pelo Querer--não conservaria, escondida algures no seu Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa energia hereditaria?... Talvez! nunca porém n'esse pêco e encafuado viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma intensa e util. Não! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da Alma onde todo o homem realisa a liberdade pura--elle soffreria sempre a oppressão da Sorte inimiga!

Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa. Não adormecia, a noite findava--já o relogio de charão, no corredor, batera cavamente as quatro horas. E então, atravez das palpebras cerradas, no confuso cançasso de tantas tristezas revolvidas, Gonçalo percebeu, atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces lentas que passavam...

Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma gala--todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E Gonçalo, espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia n'essas faces as veridicas feições de velhos Ramires, ou já assim comtempladas em denegridos retratos, ou por elle assim concebidas, como concebera as de Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.

Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem, robustissimos corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes d'aço lampejante, embuçados em fuscos mantos de revoltas prégas, cingidos por faustosos gibões de brocado onde scintillavam as pedrarias de collares e cintos;--e armados todos, com as armas todas da Historia, desde e clava gôda de raiz de roble errissada de puas, até ao espadim de sarau enlaçarotado de seda e ouro.

Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os seus formidaveis avós historicos, que, das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular--e formavam em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia magestosa da sua raça resurgida. E até mesmo reconhecia alguns dos mais esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto do tio Duarte e o Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe andavam sempre na imaginação...

Aquelle além, com o brial branco a que a cruz vermelha enchia o peitoral, era certamente Gutierres Ramires o _d'Ultramar_, como quando corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro, tão velho e formoso, que estendia o braço, elle adivinhava Egas Ramires, negando acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera Leonor! Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão real de Castella, quem, senão Diogo Ramires, _o Trovador_, ainda na alegria da radiosa manhã d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do espelho tremiam as fôfas plumas escarlates do morrião de Paio Ramires, que s'armava para salvar S. Luiz Rei de França. Levemente balançado, como pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás naus inglezas que ante a prôa da sua Capitanea submissamente amainavam por Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do Guião d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a couraça, inclinava para elle a sua face de donzel, com a doçura grave d'um avó enternecido...

Então, por aquella ternura attenta do mais poetico dos Ramires, Gonçalo sentio que a sua Ascendencia toda o amava--e da escuridão das tumbas dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que sobre a sua vida, sem descanço, amontoava tristeza, vergonha e perda! E eis que subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado brado:--«Neto, doce neto, toma a minha lança nunca partida!...» E logo o punho d'uma clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o animava:--«Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em Ourique!...» E depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com altiva certeza:--«Que não derribará essa acha, que derribou as portas d'Arzilla?...»

Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avós formidaveis perpassavam--e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam:--«Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte inimiga!...» Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu:--«Oh Avós, de que me servem as vossas armas--se me falta a vossa alma?...»

Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança d'um pesadello em que fallára a mortos:--e, sem a preguiça, que sempre o amollecia nos colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã! uma manhã dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outomnal. Mas, apesar de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espirito opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cordão da campainha. O Bento não tardou com a infusa da agoa quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr. Doutor passára mal a noite...

--Pessimamente!

Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação--que certamente fizera mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarrão pesado. Mas o Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou então, meio calice escasso.

Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encontrar logo ao começo do seu dia e tão flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se arrogavam--e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!

Eis ahi o Bento mandando--marcando a sua ração de cognac! E justamente o Bento insistia:

--O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim não convém... Eu tambem tive culpa em não tirar a garrafa...

Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:

--Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!

Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:

--Esta agua está morna! exclamou logo. Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, preciso sempre agua a ferver.

O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:

--Pois esta agua está quasi a ferver... Nem para a barba se necessita agua mais quente.

Gonçalo encarou o Bento com furor. O que! mais objecções, mais leis!

--Pois vá immediatamente buscar outra agua! Quando eu peço agua quente, pretendo que venha em cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero moral, quero obediencia!

O Bento considerou Gonçalo atravez d'um espanto que lhe inchára a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violencia. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a elle tão estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam--bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação...

O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para o adoçar:

--Dia muito bonito, hein, Bento?

O velho rosnou, ainda amuado:

--Muito bonito.

Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce, quasi humilde:

--Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes d'almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos nervos... Com effeito, aquelle cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita ahi ao Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem quente. Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéas... Pois todos os medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta graus!

E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:

--Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distracção grande.

O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distracção, nas Côrtes.

--Eu sei lá se vou ás Côrtes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem immensa, á Hungria, á Russia, a terras onde haja aventuras.

O Bento sorriu superiormente d'aquella imaginação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:

--Com effeito, na Russia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a chicote, diz o _Seculo_... Mas aventuras, Snr. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.^a, que Deus haja, foi lá em baixo deante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço...

Gonçalo calçava as luvas d'anta, mirando o espelho:

--Pobre papá, coitado, tambem teve pouca sorte... E por chicote, ó Bento, dá cá aquelle chicote de cavallo marinho que tu hontem areaste. Parece que é uma boa arma.

* * * * *

Ao sahir o portão, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem destino, n'um passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo, onde dous pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a companhia de tão sereno e generoso velho. E, se elle o convidasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada quinta da _Varandinha_ e cortejando «o botão de Rosa».