Chapter 20
E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento--á D. Anna Lucena, aos seus duzentos contos... Até que uma manhã encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora:--casar com a D. Anna!--Por que não? Ella claramente lhe mostrára inclinação, quasi consentimento... Por que não casaria com a D. Anna?
Sim! o pae carniceiro, o irmão assassino... Mas tambem elle, entre tantos avós até aos Suevos ferozes, descortinaria algum avô carniceiro; e a occupação dos Ramires, atravez dos seculos heroicos, consistira realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. Anna, pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Elle não a encontrava no talho do pae, nem no velhacouto do irmão--mas na quinta da _Feitosa_, já Rica-Dona, com procurador, com capellão, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a hesitação era pueril--desde que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria para dominar na Politica a refalsada mão do Cavalleiro... E depois que vida nobre e completa! A sua velha Torre restituida ao esplendor sobrio d'outras eras; uma lavoura de luxo no historico torrão de Treixedo; as viagens fecundas ás terras que educam!... E a mulher que fornecia estes regalos não lhes amargava o goso, como em tantos casamentos ricos, com a sua fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle relentada... Não! Depois do brilho social do dia não o esperava na alcova um mostrengo--mas Venus.
E assim, lentamente trabalhado por estas tentações, mandou uma tarde um bilhete á prima Maria, á _Feitosa_, pedindo--«para se encontrarem, sós, n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter com ella uma _conversasinha_ séria e intima...» Mas tres immensos dias se arrastaram--e não appareceu a almejada carta da _Feitosa_. Gonçalo concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a natureza da _conversasinha_ e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a melancolia d'uma vida que sentia ôca e toda feita d'incertezas. O orgulho, um pudor complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto d'onde implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cupula do Mirante com o seu gordo Cupido:--e quasi o arrepiava a idéa de beijar a irmã na face que o outro babujára! Sobre a Eleição descera um silencio de abobada--e outra repugnancia, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavalleiro. João Gouveia gozava as suas férias na Costa, de sapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Villa-Clara não se tolerava n'esse meado ardente de Septembro--com o Titó no Alemtejo onde o levára uma doença do velho Morgado de Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da mãe dirigindo as vindimas, e a Assembleia deserta e adormecida sob o innumeravel susurro das moscas...
* * * * *
Para se occupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto d'Arte, retomou a sua Novella. Mas sem fervor, sem veia agil. Agora era a sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavalleiros, correndo sobre o Bastardo de Bayão. Lance difficultoso--reclamando fragor, um rebrilhante colorido Medieval. E elle tão molle e tão apagado!... Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte recheára esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, d'interessantes rasgos de guerra.
Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decrepita ponte, cujos rotos barrotes e taboões carcomidos entulhavam no fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acautelladamente a desmantelára para deter a cavalgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa Ireneia avançou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as derradeiras mulas de carga choutaram na terra d'além-ribeira já a tarde se adoçava, e nas poças d'agua, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas ainda d'ouro pallido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom Garcia Viegas, o _Sabedor_, aconselhou que a mesnada se dividisse:--a peonagem e a carga avançando para Montemor, esgueirada e callada, para esquivar recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavallo arrancando em dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do _Sabedor_: e a cavalgada, aligeirada das filas tardas de archeiros e fundibularios, largou, soltas as rédeas, atravez de terras ermas, depois por entre barrocaes, até aos _Tres-Caminhos_, desolada chan onde se ergue solitariamente aquelle carvalho velhissimo que outr'ora, antes d'exorcisado por S. Froalengo, abrigava no sabbado mais negro de Janeiro, ao clarão d'archotes enxofrados, a Grande Ronda de todas as bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada: e, alçado nos estribos, farejava as tres sendas que se trifurcam e se encovam entre asperos, lobregos cerros de bravio e de tojo. Passára ahi o Bastardo malvado?... Ah! por certo passára e toda a sua maldade--porque no respaldo d'uma fraga, junto a tres cabras magras retouçando o matto, jazia, com os braços abertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste cabreiro não soprasse novas da gente de Bayão--uma bruta setta lhe atravessára o peito escarnado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se embrenhára o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suão que rolava d'entre-montes, não appareciam pegadas revoltas de tropel fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou palhoça d'onde villão ou velha alapada espreitassem a levada do bando... Então, ao mando do Alferes Affonso Gomes, tres almogavres despediram pelos tres caminhos á descoberta--em quanto os Cavalleiros, sem desmontar, desafivelavam os morriões para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os ginetes d'um sumido fio d'agua que á orla da chan se arrastava entre ralo caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a ramada do carvalho de S. Froalengo, immovel sobre o murzello immovel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sella e o elmo pesadamente inclinado como em magua e oração. E ao lado, com as colleiras errissadas de prégos, as sangrentas linguas penduradas, arquejavam, estirados, os seus dous mastins.
Já no emtanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha--quando o almogavre que mettera pela senda de Nascente reappareceu n'um rolo de poeira, atirando logo o alarde de longe, com a ascuma alta. A hora escassa de carreira avistára num cabeço uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado d'estaca e valla!...
--Que pendão?
--As treze arruellas.
--Deus louvado! gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. É D. Pedro de Castro, _o Castellão_, que entrou com os Leonezes e vem pelas senhoras Infantas!
Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas já pela senda de Poente recolhia outro almogavre contando que entre-cerros, n'um pinhal, topára um bando de bufarinheiros genovezes, retardados desde alva, por que um d'elles esmorecera com mal de febres. E então?...--Então, pela borda do pinheiral apenas passára em todo o dia (no jurar dos genovezes) uma companhia de truões voltando da feira de Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepusculo tristissimo descia--e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindavel, entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe, rasto de rez ou homem. Ao longe, mais ao longe, emfim, enchergaram a campina arida, coberta de solidão e penumbra, dilatada na sua mudez até a um ceu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de poente côr de cobre e côr de sangue. Então Tructesindo deteve a abalada, rente d'espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:
--Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem esperança!... Que pensaes, Garcia Viegas?
Todo o bando se apinhára: e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob as coberturas de malha. O _Sabedor_ estendeu o braço:
--Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou d'escapada essa campina além, e metteu a Valle-Murtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que é bem afortalezada e parenta de Bayão...
--E nós, pois, D. Garcia?
--Nós, senhores e amigos, só nos resta tambem pernoitar. Voltemos aos _Tres-Caminhos_. E de lá, em boa avença, ao arraial do Snr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho... A par de tamanho senhor encontraremos mais fartamente que nos nossos alforges o que todos, christãos e brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tres golpes rijos...
Todos bradaram com alvoroço:--«Bem traçado! bem traçado!...»--E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pezadamente para os _Tres-Caminhos_--onde já dous corvos se encarniçavam sobre o corpo do pastorinho morto.
Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, alvejaram as tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo elle fumegavam. O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina tres sons lentos annunciando Filho-d'Algo. Logo de dentro da estacada outras businas soaram, claras e acolhedoras. Então o Adail galopou até ao vallado, a annunciar ás atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos d'almenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parára no corrego escuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dous cavalleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do outeiro--bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de Santa Ireneia e muito se prazia para todo seu regalo e serviço! Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de Çamora e Mendo de Briteiros e outros parentes de solar, todos sem lança ou broquel, descalçados os guantes, galgaram o cabeço até á estacada, cujas cancellas se escancararam, mostrando na claridade incerta dos fogareus sombrios magotes de peões--onde, por entre os bassinetes de ferro, surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou aos barrotes dous infanções, sacudindo a espada, bradaram:
--Honra! honra! aos Ricos-Homens de Portugal!
As trompas misturavam o clangor rispido aos rufos lassos dos tambores. E por entre a turba, que calladamente recuára em alas lentas, avançou, precedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes accesos, o velho D. Pedro de Castro, _o Castellão_, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios. Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o seu peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cubiças de reinar. Sem elmo, sem armas, appoiava a mão cabelluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com affavel curiosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico d'um falcão, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quasi branca.
Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vagarosamente os braços. E com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de rapina:
--Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! Que não a esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!...
* * * * *
Ao rematar este duro Capitulo, depois de tres manhãs de trabalho, Gonçalo arrojou a penna com um suspiro de cansaço. Ah! já lhe entrava a fartura d'essa interminavel Novella, desenrolada como um novello solto--sem que elle lhe podesse encurtar os fios, tão cerradamente os emmaranhára no seu denso Poema o Tio Duarte que elle seguia gemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses _Sabedores_, eram realmente varões Affonsinos, de solida substancia historica?... Talvez apenas oucos titeres, mal engonçados em erradas armaduras, povoando inveridicos arraiaes e castellos, sem um gesto ou dizer que datassem das velhas edades!
E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquella sofrega correria dos de Santa Ireneia sobre o bando escapadiço de Bayão. De resto já remettera tres Capitulos da Novella--já calmára as ancias do Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar accrescia um aborrecimento de dinheiro--uma lettra de seiscentos mil réis, do derradeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada, e que agora o emprestador, um certo Leite, d'Oliveira, reclamava com dureza. O seu alfaiate de Lisboa tambem o importunava com uma conta pavorosa, atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da Torre. Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Eleição encalhada como uma barca no lodo. A irmã de certo com o _outro_ no Mirante. Até a prima Maria desattendendo ingratamente o seu timido pedido d'uma «conversasinha.» E elle no seu quente casarão, sem energia, immobilisado n'uma inercia crescente, como se cordas o travassem, cada dia mais apertadas--e d'homem se volvesse em fardo.
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento, acabava de se vestir para montar a cavallo, espairecer n'um galope pelos caminhos de Valverde--quando o pequeno da Crispola (já estabelecido na Torre como pagem, de fardeta de botões amarellos) bateu esbaforidamente á porta.--Era uma senhora que parára ao portão, dentro d'uma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...
--Não disse o nome?
--Não, senhor. É uma senhora magra, puxada a dous cavallos, com redes...
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide do corredor um velho chapeu de palha! E em baixo foi como se contemplasse a Deusa da Fortuna na sua roda ligeira.
--Oh prima Maria, que surpreza!... Que felicidade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da _Feitosa_), D. Maria Mendonça, com um chapeu novo enramalhetado de lilazes, desculpou atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a carta do primo muito atrasada... Sempre o fatal carteiro, tropego e bebedo... Depois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava para o inverno a casa da rua das Vellas.
--E finalmente, como devia uma visita em Villa-Clara á pobre Venancia Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar na Torre... E então?
Gonçalo sorria, embaraçado:
--Então, nada de grave, mas... É que desejava conversar comsigo... Por que não entra?
Abrira a portinhola. Ella preferia passear na estrada. E ambos s'encaminharam para o velho banco de pedra que os alamos abrigavam em frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta do banco.
--Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é difficil, tão difficil!... Talvez o melhor seja atacar a questão brutalmente.
--Ataque.
--Então lá vae!... A prima acha que eu perco o meu tempo se me dedicar á sua amiga D. Anna?
Pousada de leve á borda do banco, enrolando attentamente a seda preta do guardasolinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:
--Não, acho que o primo não perde o seu tempo...
--Ah! acha?
Ella considerava Gonçalo, gozando a sua perturbação e anciedade.
--Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!
--Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em Oliveira. Ainda sou muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a Annica é bonita, é rica, é viuva...
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em desolação. E, como D. Maria tambem se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:
--Ora bonita, viuva, rica... Para conhecer esses grandes segredos não a incommodava eu, prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A prima sabe, de certo já ambas conversaram... Seja franca. Ella tem por mim alguma sympathia?
D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guardasolinho o trilho amarellado da relva:
--Pois está claro que tem...
--Bravo! Então, se d'aqui a um tempo, passados estes primeiros mezes de luto, eu me declarasse, me...
Ella dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
--Santo Deus, como o primo por ahi vae, a galope... Então é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapeu de palha, passou lentamente os dedos pelos cabellos. E n'um immenso e triste desabafo:
--Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me accommodar na vida! Pois não lhe parece?
--Tanto me parece que lhe indiquei o bom poizo... E agora adeus, passa das cinco horas. Não me quero demorar por causa dos creados.
Gonçalo protestou, supplicou:
--Mais um bocadinho!... É tão cedo! Só outra cousa, com franqueza. Ella é boa rapariga?
D. Maria voltára, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo á caleche:
--Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo não imagina como anda a _Feitosa_. A ordem, o acceio, a regularidade, a disciplina... Ella olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!
Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:
--Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande acontecimento hei de gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de Ramires!
--Por isso eu trabalho, para servir o brazão e o nome! exclamou ella, saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada aquella clara confissão.
O trintanario trepára á almofada. E em quanto os cavallos folgados largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:
--Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titó!
--O Titó?...
--Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu não o trouxe na carruagem por decencia, para o não comprometter...
E a caleche rolou--entre os risos e os doces acenos com que ambos se afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma conspiração sentimental.
Gonçalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao encontro do Titó. E já o alvoroçava a idéa de colher do Titó, intimo da _Feitosa_, informações sobre a D. Anna, o seu genio, os seus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonças!), idealisava a noiva. Mas o Titó, o homem mais veridico do Reino, amando a Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, apresentaria D. Anna sem um enfeite nem um desenfeite. E o Titó... Ah! sob o seu vozeirão troante, a sua indolencia bovina, o Titó possuia um espirito muito attento, muito penetrante.
Logo á Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de separação tão curta, o abraço foi estrondoso.
--Oh sô Gonçalão!...
--Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta enorme!... E teu irmão?
O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fêmea para velho de sessenta annos. E elle lá o avisára:--«Mano João, mano João! olhe que assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás cachopas novas, o mano rebenta!»
--E por cá? Essa eleição?
--A eleição agora para outubro, nos começos d'outubro... De resto, semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu seccadote, murchote, sem veia, até sem appetite.
--Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.
--Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre... Ella está na _Feitosa_ com a D. Anna.
Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na _Feitosa_, com a tentação de desabafar, logo alli na estrada, sobre o inesperado romance que desabrochára. Mas não ousou! Era um angustiado acanhamento, como a vergonha de cubiçar assim todos os restos do pobre Lucena--o Circulo e a viuva.
Então, conversando do Alemtejo e do mano João (que contára muitas antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da Portella á Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bravaes. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas inesperados, senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa accudio, limpando as mãos ao avental. O que! dous convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprára a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos atravessavam o pateo--quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um castão de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha enrolada como d'uma bainha.
--Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?
O Bento lentamente saccou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.
--Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sotão. Agora de tarde andava lá a escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou com umas esporas de prateleira e com este arrôcho...
Gonçalo estudou o macisso castão de prata, sacudio a fina vara que zinia:
--Explendido chicote... Oh Titó, hein?... Afiado como um cutello. E antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo é feito? baleia?
--De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano João tem um, mas com castão de metal... Mata um homem!
--Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu quarto, Bento! Passa a ser o meu chicote de guerra!
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó o lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar a Torre uma fallada maravilha de ceára, vinha e horta! O Pereira coçava a barba rala:
--E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que um vintem! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos se esqueçam de regalados!...
--Oh, Snr. Pereira! rebombou o Titó. Então não se esqueça de cuidar dos melões. É uma vergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melão!
--Pois para o anno, assim Deus nos conserve, já V. Ex.^a comerá na Torre um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador--e apressou para a estrada, decidido a desenrolar toda a confidencia ao Titó, na solidão favoravel do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a caminhada, o mesmo enleio o travou--quasi temendo agora as informações do Titó, homem tão sevéro, de Moral tão escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravaes o findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepusculo descera, molle e quente, quando recolheram--conversando sobre a pesca do savel no Guadiana.
Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violão na penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma aragem, jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o guardanapo o Titó, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou «que graças ao Senhor da Saude, a sede era boa!» Elle e Gonçalo praticaram as usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o café uma immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado n'uma cadeira de vime, accendeu o charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um sabor melhor á vida desanuviada, que exclamou:
--Pois, senhores, agora, está uma delicia!...