Chapter 19
E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao pendão solto,--em quanto, na torre d'Almenara, sob o parado explendor da sésta d'Agosto, o sino grande começava a tanger a finados.
* * * * *
Quando Gonçalo á tarde, enterrado na poltrona á varanda, releu este Capitulo de sangue e furor sobre que se esfalfára durante a semana, pensou «que o lance impressionaria.»
Sentiu então o appetite de recolher sem demora os louvores merecidos--e de mostrar a Gracinha e ao Padre Sueiro os tres Capitulos completos antes de remetter o manuscripto para os *Annaes*. E mesmo lhe convinha--porque a erudição archeologica do Padre Sueiro forneceria talvez algum traço novo, bem Affonsino, que mais avivasse aquella resurreição da Honra de Santa-Ireneia e dos seus senhores formidaveis. Immediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o seu trabalho--que, depois de esmiuçado pelo Padre Sueiro, confiaria ao procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar n'aquella sua formosa lettra, tão celebrada em todo o Districto, e apenas egualada (nas maiusculas) pela do Escrivão da Camara Ecclesiastica.
Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar a Obra amada--quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de vime que uma toalha de rendas cobria.
--Um presente.
--Um presente... De quem?
--Da _Feitosa_, das senhoras.
--Bravo!
--E com uma carta, que vem pregada na toalha.
Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o sobrescripto! Mas, apezar de lacrado com um pomposo sello d'Armas, apenas continha linhas a lapis n'um bilhete de visita da prima Maria Mendonça:--«Hontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêcegos sobretudo aboborados em vinho, e a Annica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho de pêcegos da _Feitosa_, que como sabe são fallados em todo o Portugal... Mil saudades.»--Gonçalo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos pêcegos, docemente escondida, uma cartinha da D. Anna!
--Bem! São pêcegos... Deixa ahi sobre uma cadeira...
--Era melhor que os levasse já para a copa, Snr. Dr., para os arrumar na prateleira...
--Deixa sobre a cadeira!
Apenas o Bento cerrára a porta, estendeu no chão a toalha, entornou cuidadosamente por cima os pêcegos formosos que perfumavam a livraria. No fundo da cesta encontrou apenas folhas de parra. Levemente desconsolado, cheirou um pêcego. Depois considerou que os pêcegos, arranjados por ella, com parra que ella apanhára na latada, sob toalha que ella escolhera no armario, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o pêcego:--e recollocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.
Mas, ao outro dia, ás duas horas, já com a parelha do Torto engatada á caleche, já com as luvas calçadas para a jornada d'Oliveira, recebeu uma inesperada visita--a visita do Snr. Visconde de Rio-Manso. Descalçando as luvas o Fidalgo pensava:--«O Rio-Manso! Que me quererá esse casmurro?»--Na sala, pousado á beira do canapé de velludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Villa Clara e deante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento para apresentar os seus respeitos ao Snr. Gonçalo Ramires. E não só para esse gostoso dever--mas tambem (como soubera que S. Ex.^a se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra o seu prestimo e os seus votos...
Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraçadamente o bigode. E o Visconde de Rio-Manso não estranhava aquelle pasmo por que de certo o Snr. Gonçalo Ramires o conhecêra sempre como ferrenho Regenerador... Mas então! Elle pertencia á geração, agora bem rareada, que antepunha aos deveres da Politica os deveres da gratidão:--e além da sympathia que lhe merecia o Snr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o Districto do seu talento, da sua affabilidade, da sua caridade) tambem conservava para com S. Ex.^a uma divida de gratidão, ainda aberta, não por indifferença, mas por timidez...
--V. Ex.^a não adivinha, Snr. Gonçalo Mendes Ramires?... Não se lembra?
--Não, realmente, Snr. Visconde, não me...
Pois uma tarde o Snr. Gonçalo Mendes Ramires passava a cavallo pela quinta da _Varandinha_, quando a sua neta, brincando no terraço (aquelle terraço gradeado d'onde se curva uma magnolia), deixou escapar uma péla para a estrada. O Snr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou immediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir á menina debruçada da grade, abeirou a egoa do muro depois de montar--e com que ligeiresa e garbo!...
--V. Ex.^a não se lembrava?
--Sim, sim, agora...
Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um jarro cheio de cravos. O Snr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que, louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ella escolheu--e que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E elle, que observára da janella do seu quarto, pensava:--«Ora ahi está! Este Fidalgo da Torre, um tão grande Fidalgo, que amavel!»--Oh S. Ex.^a não tinha que rir e corar... A gentileza fôra grande--e a elle, avô, parecêra immensa! Mas não ficára sómente na péla apanhada...
--O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...
--Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...
Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonçalo Mendes Ramires mandára da Torre um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este gracejo:--«Em agradecimento d'um cravo, rosas á Snr.^a D. Rosa.»
Gonçalo quasi pulou na cadeira, divertido:
--Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!.. Agora me recordo!
Pois desde essa tarde elle sempre almejára por uma opportunidade de mostrar ao Snr. Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua sympathia. Mas que! era timido, vivia muito retirado... N'essa manhã porém, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia que S. Ex.^a se apresentava deputado pelo Circulo. Apezar de ser eleição tão segura, já pela influencia do Snr. Ramires, já pela influencia do Governo, logo pensára--«Bem, ahi está a occasião!» E, agora offerecia a S. Ex.^a, na freguezia de Canta-Pedra, o seu prestimo e os seus votos.
Gonçalo murmurou, enternecido:
--Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sensibilisar mais do que uma offerta tão espontanea, tão...
--Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.^a acceitar. E agora não fallemos mais n'esse meu pobre prestimo e n'esses meus pobres votos... Pois V. Ex.^a tem aqui uma veneravel vivenda.
E como o Visconde alludia ao desejo, já n'elle antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal--ambos desceram ao pomar. O Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em silencio para a torre; reconheceu (apezar de liberal) o prestigio que resulta d'uma tão alta linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo que o Pereira da Riosa arrendára a quinta, invejou ao Snr. Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro...--Deante do portão, o _char-à-bancs_ do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nedias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, supplicou ao Snr. Visconde que beijasse por elle a mãosinha da Snr.^a D. Rosa. Commovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma esperança--e era que S. Ex.^a um dia, á sua escolha, parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...
--Mas com immensa honra!... E desde já me proponho a ensinar á Snr.^a D. Rosa, se ella o não sabe, o jogo da péla á antiga portugueza.
O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão sobre o coração.
Gonçalo, trepando as escadas, murmurava:--«Oh senhores, que sympathico homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como ás vezes, por uma pequenina attenção, se ganha um amigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!»
E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou na caleche a pasta de marroquim com o manuscripto, o cesto sentimental dos pêcegos da D. Anna--e accendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as redeas para lançar, n'um trote alegre até Oliveira, a parelha branca do Russo.
No largo d'El-Rey, antes d'apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta noticias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a Deus... O Snr. José Barrôlo partira de manhã a cavallo para a quinta do Snr. Barão das Marges, só recolhia á noite...
--E o Snr. Padre Sueiro?
--O Snr. Padre Sueiro, creio que está para casa da Snr.^a D. Arminda...
--E a Snr.^a D. Graça?
--A Snr.^a D. Graça desceu ha um bocadinho grande para o Mirante, de chapeu... Naturalmente ia á Egreja das Monicas.
--Bem. Leva esse cesto de pêcegos e dize ao Joaquim da Copa que o ponha na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao quarto agoa quente.
O relogio de parede, na sala de espera, gemia preguiçosamente as cinco horas. O palacete repousava n'um claro silencio. E depois da poeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a frescura do seu quarto com as quatro janellas abertas sobre o jardim regado e sobre a cerca das Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma gaveta da commoda a pasta preciosa de marroquim. Uma creada de olhos repolhudos entrára com o jarrão d'agua quente:--e o Fidalgo, como sempre, chasqueou a moça sobre os lindos sargentos de Cavallaria, cujo quartel tentador dominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado, assobiando vagamente, encostado á varanda sobre a callada rua das Tecedeiras. O sino das Monicas lançou um lindo repique... E Gonçalo, enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo terraço do jardim, e surprehender Gracinha nas suas devoções, na Egrejinha.
Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da Copa:
--Então o Snr. Barrôlo hoje não janta?
--O Snr. Barrôlo foi jantar com o Snr. Barão das Marges, na quinta... São os annos da menina. Naturalmente só recolhe á noite.
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo para o casaco um ramo de flôres ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da porta com que o Barrôlo a enriquecera, uma porta envidraçada, arqueada em ferradura, com um monogramma de côres rutilantes: e metteu pela rua que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e penumbra pela rama enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circumdado de bancos de pedra, d'arvores de aroma e flôr, cantava dormentemente o fino repuxo n'um tanque redondo, de borda larga, onde s'espaçavam grossos vasos de louça branca com o brazão ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera ou de manhã se lavára o tanque, por que na agoa muito transparente, sobre as lages muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e agitando a bengala. E d'aquella borda do tanque já elle avistava ao fundo de outra rua, debruada de dhalias abertas, o Mirante--uma construcção do seculo XVIII, simulando um Templosinho grego, côr de rosa desbotada, com um gordo Cupido sobre a cupula, e janellinhas de rocalha entre o meio relevo das columnas canelladas por onde trepavam jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas d'um ramo de lucia-lima, para esmagar e perfumar as mãos: e continuou para o Mirante, vagarosamente, por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente ensaibrada, os sapatos finos de verniz que calçára pousavam sem rumor no saibro molle. E assim, n'um silencio de sombra indolente, se acercou do Mirante--e d'uma das janellinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a persiana de taboinhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se estendia o jardim, communicava com a encovada rua das Tecedeiras, quasi em frente á Capella das Monicas. E Gonçalo, sem pressa, descia--quando, atravez da persiana rala, sentiu dentro do Mirante um susurro, um cochichar perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das creadas da casa se refugiára n'esse Templosinho de Amor com um dos sargentos terriveis de Cavallaria... Mas, não! impossivel! Pois se, momentos antes, Gracinha roçára aquella janella e pisára aquella escada, no seu caminho para as Monicas! E então outra idéa o varou como uma espada--e tão dolorosa que recuou com terror da beira do Mirante d'onde ella perversamente o assaltára. Já porém uma desesperada curiosidade a agarrára, o empurrava--e collou a face á persiana com a cautella d'um espião. O Mirante recahira em silencio--Gonçalo temia que o trahissem as pancadas do seu coração... Santo Deus! De novo o murmurio recomeçára, mais apressado, mais turbado. Alguem supplicava, balbuciava:--«Não, não, que loucura!»--Alguem urgia, impaciente e ardente:--«Sim, meu amor! sim, meu amor!» E a ambos os reconheceu--tão claramente como se a persiana se erguesse e por ella entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era Gracinha! Era o Cavalleiro!
Colhido por uma immensa vergonha, no atarantado pavor de que o surprehendessem junto do Mirante e da torpeza escondida--enfiou pela rua das dhalias, encolhido, com os sapatos leves no saibro molle, costeou o repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, deslisou surrateiramente por traz da estufa--penetrou no socego do Palacete. Mas o murmurio do Mirante ainda o envolvia, mais desfallecido, mais rendido--«Não, não, que loucura!... Sim, sim, meu amor!...»
Abalou atravez das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão n'uma carreira, espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No Largo parou, deante da grade do relogio do sol. Mas o susuro do Mirante errava por todo o Largo como um vento enroscado, raspando as lages, batendo as barbas dos Santos sobre o portal da Egreja de S. Matheus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria...--«Não, não, que loucura! Sim, sim! meu amor!» Então Gonçalo sentiu a anciedade desesperada d'escapar para longe, para immensamente longe do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria do Maciel, a mais retirada, para além das ultimas casas, na estrada do Seminario. E cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, correu, mandou engatar uma caleche fechada.
Emquanto esperava á porta, n'um banco, passou pela estrada uma lenta carroça com moveis, panellas de cosinha, um grande colxão onde se alastrava uma nodoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com mollas lassas que rangiam. E de repente o murmurio recomeçou, cresceu, rolando com fragor de trovão por sobre os casebres visinhos, por sobre a cerca do Seminario, por sobre Oliveira espantada:--«Não, não, que loucura! Sim, sim, meu amor!»
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a cavallariça escura:
--Então, que inferno! não acaba, essa carroagem?
--Já a largar, meu Fidalgo.
No relogio da Piedade sete horas batiam--quando elle se atirou para a caleche, e fechou as _stores_ pêrras, e se enterrou no fundo, bem sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo tremera, e as mais fortes almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.
IX
Á porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto já amarrotado, Gonçalo ralhava com a Rosa cosinheira:
--Oh Rosa! pois tanto lhe recommendei que não escrevesse á mana Graça?... Que teimosa! Então não arranjavamos a pequena, sem essas lamurias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é larga bastante para mais uma creancinha!
É que morrera a Crispola--a desgraçada viuva, visinha da Torre, que com um rancho miudo de dous pequenos, tres raparigas, definhava no catre desde a Paschoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em fartura, andava accommodando as pobres creanças--já por cuidado d'elle muito aceadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (tambem Crispola), sempre encafuada na cosinha da Torre, passava regularmente a «ajudanta da Rosa», com soldada. Um dos rapazes, de doze annos, espigado e esperto, tambem Gonçalo o empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de botões amarellos. O outro, molle e ranhoso, mas com o geito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, sob o patrocinio da tia Louredo, o collocára em Lisboa, na Officina de S. José. D'uma das outras raparigas se encarregava a mãe de Manoel Duarte, amoravel senhora que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se considerava «_vassalla_». Mas para a mais novinha e a mais fraquinha não se arranjava amparo solido. A Rosa lembrára então--«que certamente a Snr.^a D. Maria da Graça recolheria a creaturinha...» Gonçalo rosnára com seccura:--«Oh! por uma côdea mais de pão não se necessita encommodar a _cidade d'Oliveira_!» Rosa, porém, enlevada na obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o agasalho d'uma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada lettra do Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e louvores devotos á caridade do Snr. Doutor. E era a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recommendação «de lhe mandarem logo a pobre creança»--que impacientava o Fidalgo.
Por que, desde a tarde abominavel do Mirante, estranhamente se apoderára d'elle uma repugnancia quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes côr de rosa empestassem o jardim, o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade d'Oliveira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante essa região empestada onde o seu coração e o seu orgulho suffocavam... Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrôlo uma carta espantada:--«Que têlha foi essa? Porque não esperaste? Eu, quando voltei á noite da quinta do Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. Já hoje comemos os pêcegos, mas não comprehendemos!...»--Gonçalo respondeu seccamente n'um bilhete:--«Negocios». Depois recordou que deixára na gaveta do seu quarto o manuscripto da Novella: e mandou um moço da quinta, de madrugada, com um recado quasi secreto ao Padre Sueiro, «para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos senhores...» Entre a Torre e os Cunhaes só desejava separação e silencio.
E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a Villa-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome já andasse rosnada pelo estanco do Simões ou pelo armazem do Ramos) não cessou de vibrar n'uma colera espalhada que a todos varava... Colera contra a irmã que, calcando pudor, altivez de raça, receio dos escarneos d'Oliveira, tão facil e estouvadamente como se calcam as flôres desbotadas d'um tapete, correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas elle lhe acenára com o lenço almiscarado! Colera contra o Barrôlo, o bochechudo bacôco, que empregava os seus bacôcos dias celebrando o Cavalleiro, arrastando o Cavalleiro para o Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, ageitando as almofadas de todos os camapés para que o Cavalleiro saboreasse estiradamente o seu charuto e a graça presente de Gracinha! Emfim colera contra si, que, pela baixa cubiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a unica muralha segura entre a irmã e o homem da marrafa lusente--que era a sua inimizade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, tão rijamente reforçada e recaiada!... Ah! todos tres horrendamente culpados!
Depois uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio por Villa-Clara. E reconheceu que na Assembleia, no estanco do Simões, na loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão ignorados como se passassem nas profundidades da Tartaria. Immediatamente a sua alma doce, agora socegada, se abandonou á doçura de tecer desculpas subtis para todos os culpados d'aquella queda triste... Gracinha, coitada, sem filhos, com tão mollengo e ensosso marido, alheia a todos os interesses da intelligencia, indolente mesmo para uma costura ou bordado--cedêra, que mulher não cederia? á credula e primitiva paixão que lhe brotára na alma, n'ella se enraizára, lhe déra as suas unicas alegrias do mundo e (influencia ainda mais poderosa!) lhe arrancára as suas unicas lagrimas! O Barrôlo, coitado, era o Bacôco--e como o «pilriteiro» da cantiga, incapaz de mais nobres fructos, só produzia os «pilritos» da sua Bacoquice. E elle, coitado d'elle, pobre, ignorado, irresistivelmente se rendera á fatal Lei d'Accrescentamento, que o levára, como a todos leva na ancia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os humbraes... Ah realmente todos bem pouco culpados deante de Deus que nos creou tão variaveis, tão frageis, tão dependentes de forças por nós ainda menos governadas do que o Vento ou do que o Sol!
Não, irremissivelmente culpado,--só o outro, o malandro da grenha ondeada! Esse, em toda a sua conducta com Gracinha, desde estudante, mostrára sempre um egoismo atrevido, só punivel como puniam os antigos Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcassa posta aos corvos. Em quanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um namoro bocolico sob os arvoredos da Torre--namorára. Quando considerou que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira--trahira. Logo que a antiga bem amada pertenceu a outro homem--recomeçára o cerco languido para colher, sem os encargos da paternidade, as emoções do sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta--não se demora, fende brutamente sobre a preza! Ah como o avô Tructesindo trataria villão de tal villania! Certamente o assava n'uma rugidora fogueira deante das barbacans--ou, nas masmoras da Alcaçova, lhe entupia as guellas falsas com bom chumbo derretido...
Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o Cavalleiro nas ruas d'Oliveira, carregar o chapeu sobre a testa e passar! A menor diminuição n'essa intimidade tão desastradamente reatada--seria como a revelação da torpeza ainda abafada nas paredes do Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria.--«Olha o Fidalgo da Torre! Mette o Cavalleiro nos Cunhaes com a irmã, e logo, passadas semanas, rompe de novo com o Cavalleiro! Houve escandalo, e gordo!»--Que delicia para as Lousadas! Não, ao contrario! agora devia ostentar pelo Cavalleiro uma fraternidade tão larga e tão ruidosa--que, pela sua largueza e o seu ruido, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo que por traz latejava. Fingimento torturante--e imposto pela honra do nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante!--e por fóra, ao sol, nas praças d'Oliveira elle sempre com o braço carinhosamente enlaçado no braço do Cavalleiro!
Os dias rolavam--e no espirito de Gonçalo não se estabelecia serenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa intimidade vistosa com o Cavalleiro--tanto pelo cuidado do seu nome, como pela conveniencia da sua Eleição. Toda a sua altivez por vezes se revoltava:--«Que me importa a Eleição! Que valor tem uma encardida cadeira em S. Bento?...» Mas logo a secca Realidade o emmudecia. A Eleição era a unica fenda por onde elle lograria escapar do seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavalleiro, esse villão, vezeiro a villanias, immediatamente, com o appoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria outro Candidato por Villa-Clara... Desgraçadamente elle era um d'esses seres vergados que _dependem_. E a triste dependencia d'onde provinha? Da pobreza--d'essa escassa renda de duas quintas, abastança para um simples, mas pobreza para elle, com a sua educação, os seus gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito de sociabilidade.