Chapter 17
Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo esvoaçaram logo, com irresistida tentação, para D. Anna--para os seus decotes, para os languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão perfumada, tão explendidamente bella, só apresentava, mesmo como esposa, um feio _senão_--o papá carniceiro. E a voz tambem--a voz que tanto o arripiára na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquelle timbre rolante e gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de convivencia habituam ás vozes mais desagradaveis--e elle mesmo, agora, nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! Não! mancha teimosa, realmente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade nascida toda d'um só homem, quem, entre os seus milhares d'avós até Adão, não tem algum avô carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde Dynastias irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o Ramires carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira geração, n'um talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos seculos, entre os trigesimos avós--lá estava, com a faca, e o cepo, e as postas de carne, e as nodoas de sangue no braço suado!...
E este pensamento não o abandonou até á Torre--nem ainda depois, á janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos. Já mesmo se deitára, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda sentia que os seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o carniceiro... Era já para além dos confins do Imperio Visigodo, onde reinava com um globo d'ouro na mão o seu barbudo avô Recesvinto. Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de homens cultos--penetrára nas florestas que o mastodonte ainda sulcava. Entre a humida espessura já crusára vagos Ramires, que carregavam, grunhindo, rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas, arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava. Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegára a uma lagôa ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um homem monstruoso, pelludo como uma féra, agachado no lodo, partia a rijos golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um Ramires. No ceu cinzento voava o Açor negro. E logo, d'entre a neblina da lagôa, elle acenava para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e perfumada D. Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:--«Achei o meu avô carniceiro!»
* * * * *
No Domingo, Gonçalo acordou com uma «esperta ideia!» Não correria a Santa Maria de Craquêde com uma pontualidade sofrega, ás cinco horas (as cinco horas marcadas no _Post-Scriptum_ da prima Maria)--mostrando o seu alvoroço em encontrar a tão bella e tão rica D. Anna Lucena! Mas ás seis horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima Maria.
Logo ás quatro horas porém se começou a vestir com tantos esmeros, que o Bento, cançado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e arremessava amarfanhadas para o divan, não se conteve:
--Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica melhor! E refresca mais, com este calor.
Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as côres heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao portão, apenas montára na egoa, temeu que as senhoras (não o encontrando no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real, soltou n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.
Só retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do Caminho de Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da cancella, que se fechára para a lenta passagem d'um trem carregado de pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo--o vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o chapéo de vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.
--Então hoje a ganhar a rica vida por Craquêde?...
--Cá me arrasto ás vezes para a passagem do comboio d'Oliveira, meu Fidalgo. Os passageiros gostam de me vêr de pé no talude, correm sempre ás janellas...
Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle ancião precedia sempre um encontro seu com a bella D. Anna.--«Quem sabe? pensou. É talvez o Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e longas guedelhas, e o alforge ás costas contendo as sortes humanas...»--E com effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol docemente douravam--avistou a caleche da _Feitosa_, parada sob uma carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella irada tempestade que chamam _de S. Sebastião_, e que aterrou Portugal em 1616. Uma herva agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos troncos dos castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro--sobe, enche ainda magnificamente o céo lustroso, a fachada da Egreja do vetusto Mosteiro, suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso portal sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos d'enterramento onde outr'ora se estiraçavam as imagens dos fundadores, Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha a _Queixa-perra_. Duas casas terreas povoam o lado fronteiro do adro--uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem adelgaçára em fio lento, e mal enchia o seu tanque de pedra, toldado pela pallida e rala folhagem d'um chorão muito alto.
O trintanario da _Feitosa_, ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E Gonçalo, que desde pequeno não penetrava nas ruinas de Craquêde, seguia por um carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella romantica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do portal, appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o guarda-sol de xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta fórma negra, de lã negra e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o véo negro, a brancura explendida da sua face sensual e séria.
Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha, balbuciando o seu «prazer por aquelle encontro...» Mas já D. Maria o reprehendia, sem lhe consentir a fabula do «encontro»:
--O primo não é nada amavel, nada amavel...
--Oh prima!...
--Pois sabia que vinhamos, pela minha carta! E nem está á hora aprazada, para fazer as honras, como devia...
Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever! Aquella casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia «fazer as honras»--acolher tão doces romeiras com algum milagre amavel...
--E então, gostaram? V. Ex.^a, Snr.^a D. Anna, gostou das ruinas?... Muito interessantes, não é verdade?
Através do véo, com uma lentidão que a espessa renda negra tornava mais grave, ella murmurou:
--Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre Sanches que Deus haja.
--Ah...
Áquella evocação do pobre morto, Gonçalo sumira todo o sorriso, com polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudio, atirando um dos seus magros gestos, como para arredar a sombra importuna:
--Ai! não imagina o que gostei, primo! É d'appetite todo o claustro... Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo... Não ha nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar que estão alli antepassados nossos!
O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor, como sempre que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de Ramires. E gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados de cinsa vã!--Pois não era verdade, Snr.^a D. Anna?... Realmente! quem conceberia que a prima Maria, tão viva, tão sociavel, tão engraçada, descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra? Não! não se podia ligar tanto _ser_ a tanto _não-ser_...--E como D. Anna sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mãos fortes e muito apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle atalhou com interesse:
--V. Ex.^a está talvez cançada, Snr.^a D. Anna?
--Não, não estou cançada... Ainda vamos mesmo entrar na capella, um bocadinho... Eu nunca me canço.
E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa creatura não rolava do papo, tão grossa e gorda--mas que se afinára, adoçada e velada pelo luto d'escomilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que a noite e o arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu immenso cançasso! Nada a esfalfava como visitar curiosidades... E além d'isso a emoção, a ideia de heroes tão antigos!
--Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein? É muito cedo para recolhermos, não é verdade, Annica? E está tão agradavel n'este socego, n'esta frescura...
Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros malmequeres e botões d'ouro que o sol d'Agosto poupára. Um aromasinho fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama d'um alamo, defronte do portão da Capella, duas vezes um melro cantára. Gonçalo sacudiu todo o banco cuidadosamente, com o lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem a frescura, o recolhimento d'aquelle cantinho de Craquêde... E elle que nunca se aproveitára de refugio tão santo, e quasi seu, nem mesmo para um almoço bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhança dos vovós mortos... Depois, com uma curiosidade:
--É verdade, prima! E o subterraneo?
Oh! não existia subterraneo!... Sim, existia--mas entulhado, sem sepulturas, sem antiguidades. E o sachristão logo lhes affiançára que «não valia a pena sujarem as saias...»
--É verdade, oh Annica, déste alguma cousa ao sachristão?
--Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi bastante.
Gonçalo assegurou que se pagára sumptuosamente ao sachristão. E, se prevesse tamanha generosidade da Snr.^a D. Anna, agarrava elle um mólho de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar--e para embolsar...
--Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um corisco nos espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostões! Porque sempre sería mais instructivo que o homemsinho, que mascava, não sabia nada!... Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquelle tumulo aberto, com a tampa rachada... O môno só soube resmungar que «eram historias muito antigas lá do Fidalgo da Torre...»
Gonçalo ria:
--Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo _Fado dos Ramires_, o fado do Videirinha...
D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos céos, revoltada com aquella indifferença pelas tradições heroicas da Casa. Conhecer sómente os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo Gonçalo não se envergonhava?
--Mas por quê, prima, porquê? O fado do Videirinha está fundado em documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha só poz as rimas. Além d'isso antigamente, prima, a Historia era perpetuada em verso e cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto, segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só para a Snr.^a D. Anna, que não soffre d'esses escrupulos...
--Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade historica então conte tambem para mim, que sou da Casa!
Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço pelos beiços:
--Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos meus avós... Não me lembro o nome, Gutierres ou Lopo. Creio que Gutierres... Emfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas de Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha não contam os versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a carnificina, arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o seu cavallo que fôra enterrado no adro onde agora crescem estes carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo morto, larga a galope através da Hespanha, chega ás Navas, arranca a espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Snr.^a D. Anna?
Dedicára a historia a D. Anna, procurando nos seus bellos olhos a attenção e o interesse. E ella, que a furto, através do decôro melancolico a que se esforçava, adoçára o sorriso, attrahida e levada, murmurou apenas:--«Tem graça!»--D. Maria, porém, quasi esvoaçou sobre o banco de pedra, n'um extasis:--«Lindo! Lindo! Que poesia!... Oh! uma lenda de todo o appetite!»--E, para que Gonçalo desenrolasse ainda a graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:
--Conte, primo, conte... E voltou para Craquêde esse tio Ramires?
--Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou livre da massada da sepultura não appareceu mais em Santa Maria de Craquêde. O tumulo vasio, como está, e elle por Hespanha n'uma pandega heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo, d'aquella postura eterna, tão apertada, tão esticada!...
Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...--D. Anna baixára a face, mais sumida no véo, esfuracando a herva com a ponta da sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente que de novo os roçára, rompeu n'outra curiosidade, que ainda se encadeava na nobreza dos Ramires:
--É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar. O primo ainda tem muitos parentes em França... Talvez tambem não saiba?
Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus parentes de França--apezar de que o Videirinha os não cantára no Fado!
--Então conte! Mas que seja historia alegre!
Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô Ramires, Garcia Ramires, acompanhára nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o filho d'El-Rei D. João I... A Prima Maria sabia--o Infante D. Pedro, o que correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres, com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então festas maravilhosas, com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da Historia de França. Onde ha danças ha amores. A avô Ramires sobejava imaginação e arrojo... Fôra elle que deante de Jerusalem, no Valle de Josaphat, lembrára que se erguesse um _signal_ para que o Infante e os seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo. Depois, naturalmente, bello mocetão, de barba negra e cerrada á Portugueza... Emfim casára com uma irmã do Duque de Clèves, uma tremenda Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde, através d'essas ligações, uma avó Ramires, já viuva, casou tambem em França com o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de França, possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...
D. Maria bateu as palmas, rindo:
--Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então o primo que se gaba de não saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miudo a historia d'esses grandes casamentos! Hein, Annica?... É uma Chronica viva!
Gonçalo vergou os hombros, confessou que se occupára de toda essa heraldica historia por um motivo bem rasteiro--por miseria!...
--Por miseria?
--Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres...
--Conte! conte! Olhe, a Annica está anciosa...
--Quer saber, Snr.^a D. Anna?... Pois foi em Coimbra, no meu segundo anno de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar entre todos um vintem. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrascão e as tres azeitonas do dever... Um d'elles então, rapaz muito engraçado, de Melgaço, surdiu com a idéa estupenda de que eu escrevesse aos meus parentes de França, a esses Clèves, a esses Tancarvilles, senhores de certo immensamente ricos, e sollicitasse, com desembaraço, um emprestimosinho de trezentos francos.
D. Anna não conteve um riso, sinceramente divertido:
--Ai! tem muita graça!
--Mas não teve resultado, minha senhora... Já não existem Clèves, nem Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se fundiram n'outras casas, até na Casa de França. E o meu padre Sueiro, apezar de todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquella penuria de Gonçalo, de tamanho fidalgo, quasi enternecera D. Anna:
--Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem graça! Essas historias de Coimbra teem sempre muita graça. O D. João de Pedrosa, em Lisboa, tambem contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através d'essa facecia d'estudantes, descortinára outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:
--Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, tão ricas, tão poderosas, acabaram, desappareceram. E cá no nosso Portugalsinho ainda dura a casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
--Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. Acaba agora... Pois se eu não caso!
Então D. Maria recuou o magro peito--como se esse casamento do primo dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito banco com grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria, quasi languidamente:
--Ora não casa... Mas por quê, primo, por quê?
--Por que não tenho geito, prima. O casamento é uma arte muito delicada que necessita vocação, genio especial. As Fadas não me concederam esse genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a estragava.
D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxára lentamente do cinto o relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os motivos do Fidalgo:
--São tolices. O primo que gosta tanto de creanças...
--Gosto, gosto muito de creancas, até de creancinhas de mama. As creanças são os unicos seres divinos que a nossa pobre humanidade conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois de santos, ficam na Bemaventurança a preguiçar, ninguem mais os enxerga. E, para concebermos uma ideia das cousas do céo, só temos realmente as creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de creanças. Mas tambem gosto de flôres, e não sou jardineiro, nem tenho geito para a jardinagem.
E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:
--Socegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Anna que se esquecera na contemplação do relogio:
--Achas que vão sendo horas? Então, se queres, entramos na Capella... Oh primo, veja se está aberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois acompanhou as duas senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos de uma cal aspera e crua--que recamava tambem as paredes lisas, apenas guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam--a prima Maria enterrando a face nas mãos juntas como n'um vaso de Piedade. Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a relva, considerava quanto a viuvez melhorára D. Anna. Sob o negrume do luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia das cousas, todos os seus defeitos se fundiam--os defeitos que tanto o horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito empinado, a ostentação de burgueza ricassa pinguemente repimpada na vida. Até já nem dizia--«o cavalheiro!» E alli, no adro melancolico de Craquêde, certamente parecia interessante e desejavel.
As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro esvoaçou na ramagem dos alamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos serios de D. Anna que o procuravam.
--Peço perdão de não lhes ter offerecido agua benta á sahida, mas a concha está secca...
--Jesus, primo, que Egreja tão feia!
D. Anna arriscou, com timidez:
--Depois das ruinas e dos tumulos, até parece pouco religiosa.
A observação impressionou Gonçalo, como muito fina. E junto d'ella, demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus movimentos, pelo roçar do vestido, um aroma tambem fino, que não era o da horrenda agua de Colonia da botica do Pires. Em silencio, sob a ramagem das carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se aprumára, bem estilado, tirando o chapeu. Gonçalo notou que elle rapára o bigode. E a parelha reluzia, atrelada com esmero.
--E então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sitios?
--Sim, primo, mais uns quinze dias... A Annica é tão amavel, quiz que eu trouxesse os pequenos. O que elles se têm divertido na quinta, não imagina!
D. Anna murmurou, sempre séria:
--São muito engraçados, fazem muita companhia... Eu tambem gosto muito de creanças.
--Ai, a Annica adora creanças! accudiu D. Maria com fervor. O que ella atura os pequenos! Até joga com elles o mafarrico.
Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro, mais lenta, com a D. Anna e o seu fino aroma, seria doce, n'aquelle socego da tarde que findava, tingida de tão lindas côres de rosa sobre os pinheiraes escurecidos. Mas já o trintanario se acercava segurando a sua egoa. E D. Maria, depois de admirar e acariciar a egoa, chamou o primo discretamente--para saber a distancia da _Feitosa_ a Treixedo, a outra quinta historica dos Ramires.
--A Treixedo, prima?... Cinco legoas fartas, com maus caminhos.
E immediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:
--Mas na estrada ultimamente andaram obras. E é muito bonito sitio, n'um alto, com um resto de muralhas... Treixedo era um castello enorme... Na quinta ha uma lagôa entre arvoredo antigo... Oh! sitio delicioso para um pic-nic!
D. Maria hesitou:
--É um pouco longe, veremos, talvez.
E como D. Anna esperava em silencio--Gonçalo abriu a portinhola, tomou ao trintanario as rédeas da egoa. D. Maria Mendonça, no seu contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente a mão do primo jurando «que ia apaixonada por Craquêde!» D. Anna mal roçou os dedos de Gonçalo, acanhada e córando.
Sózinho, com a rédea da egoa enfiada no braço, Gonçalo sorria. Na verdade, n'essa tarde, D. Anna não lhe desagradára. Outros modos, outra singeleza grave, outra doçura na sua possante belleza de Venus rural... E aquella observação sobre a Capella, «pouco religiosa» depois das ruinas seculares do claustro, era uma observação fina. Quem sabe? Talvez sob carne tão sensual se escondesse uma natureza delicada. Talvez a influencia d'outro homem, que não o estupidissimo Sanches, desenvolvesse na filha explendida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh, evidentemente, a observação sobre os tumulos e a sua religiosidade emanando da Lenda e da Historia--era fina.