Chapter 16
Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e doçura. Elle bem o avisára! Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...
--E olhe, Casco! Quando vossê me sahiu ao pinhal eu levava um revólver na algibeira... Trago sempre um revólver. Desde que uma noite em Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre á cautella com o revólver... Pense você agora que desgraça se tiro o revólver, se desfecho!... Que desgraça, hein?... Felizmente, n'um relance, pensei que me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para não desfechar o revólver... Emfim tudo passou. E eu não sou homem de rancores, já esqueci. Comtanto que vossê, agora socegado e no seu juizo, esqueça tambem.
O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabeça derrubada. E sem a erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:
--Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora é que me ralo por aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo pequeno!...
Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:
--Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle, o Manelsinho?
O Casco murmurou do fundo da sua humildade:
--Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãosinho, muito rijinho.
--Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!... Vossê não tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga cá um dia o pequeno. Eu gostei do pequeno. É espertinho.
Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages. Por fim, n'um soluço que rebentou:
--É que eu não sei como hei-de dizer, meu Fidalgo... Lá o dia de cadeia, acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando soube que a mulher viera de noite á Torre, e que o Fidalgo até a embrulhára n'uma capa, e que não deixára sahir o pequeno...
Estacou, afogado pela emoção. E como Gonçalo, tambem commovido, lhe batia risonhamente no hombro, «para acabar, não se fallar mais n'essas bagatellas...»--o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e quebrada:
--Mas é que o Fidalgo não sabe o que é para mim aquelle pequeno!... Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixão cá por dentro que até parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa não dormi... E Deus me perdôe, não pensei na mulher, nem na pobre da velha, nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se foi a gemer:--«ai o meu querido filhinho! ai o meu querido filhinho!...» Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo ficára com elle na Torre, e o deitára na melhor cama, e mandára recado ao medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite subia a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a roupa, coitadinho...
E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:--«Ai meu Fidalgo! meu Fidalgo!...»--o Casco agarrou as mãos de Gonçalo, que beijava, rebeijava, alagava de grossas lagrimas.
--Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!
Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão furiosa--até que ambos se encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador dos Bravaes soluçando, n'uma confusão. E foi elle por fim que, recalcando um derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéa que o trouxera, que de certo fundamente o trabalhára, e que agora lhe enrijava a face e o gesto n'uma determinação que nunca vergaria:
--Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei dizer... Mas se d'hoje em deante, seja para que fôr, o Fidalgo necessitar da vida d'um homem, tem aqui a minha!
Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito simplesmente--como um Ramires d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:
--Obrigado, José Casco.
--Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o abençôe!
Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da varanda--emquanto o Casco atravessava o páteo vagarosamente, com a cabeça bem erguida, como homem que devêra e que pagára.
E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com espanto:--«Ahi está como n'este mundo sentimental se ganham dedicações gratuitamente!...» Por que emfim! quem não impediria que uma criancinha com febre affrontasse de noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a não deitaria, não lhe adoçaria um grog, não lhe entalaria os cobertores para a conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama--corre o pae, tremendo e chorando, a offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser Rei--e ser Rei popular!
E esta certeza mais o animava a obedecer ás recommendacões do Cavalleiro--a começar immediatamente as suas visitas aos Influentes eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam á Eleição uma unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a toalha, arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates--por um rascunho annotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr. Alexandrino; o velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta; outros menores:--e o Gouveia marcára com uma cruz, como o mais poderoso e mais difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de propriedade e de dinheiro (com todos outr'ora o papá andára endividado)--mas nunca encontrára o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro, dono da quinta da _Varandinha_, onde vivia solitariamente com uma neta de onze annos, essa linda Rosinha que chamavam «o botão de Rosa», a herdeira mais rica de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao João Gouveia uma carta d'apresentação para o Rio-Manso:
O Administrador hesitou:
--Vossê não precisa carta... Que diabo! Vossê é o Fidalgo da Torre! Chega, entra, conversa... Além d'isso na Eleição passada o Rio-Manso ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sêccos. O Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito, Gonçalinho, convem começar essa caça á popularidade!
N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a «caça á popularidade», acceitou um convite do Commendador Romão Barros (do massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle celebrava, na sua quinta da _Roqueira_, a festa de S. Romão. E essa semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando eleitores--a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do Ramos, de encommendar um sacco de café na mercearia do Tello, de offerecer o braço no largo do Chafariz á nojenta mulher do bebedissimo Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da rua das Pretas. João Gouveia não approvava estes excessos--aconselhando antes «boas visitas, com todo o _chic_, aos influentes sérios.» Mas Gonçalo bocejava, adiava, na insuperavel preguiça de affrontar a maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do Dr. Alexandrino.
Agosto findava:--e por vezes, na livraria, Gonçalo, coçando desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras d'almaço, o Capitulo III da _Torre de D. Ramires_ encalhado... Mas quê! não podia, com aquelle calor, com o afan da Eleição, remergulhar nas eras Affonsinas!
Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas freguezias, não se descuidando das recommendações do Cavalleiro--enchendo sempre o bolso de rebuçados d'avenca para atirar ás creanças. Mas, n'uma carta ao querido André, já confessára que «a sua popularidade não crescia, não enfunava...»--«Não! positivamente, velho amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente com os homens, comprimentar pelo seu nome as velhas ás soleiras das portas, gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita nova... Ora todas estas cousas tão naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz, sem que me conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa querida Authoridade m'empurre com o seu braço possante e destro...»
Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho Cosme de Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando ás _Ave-Marias_ na Bica-Santa o Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores considerados e remexedores d'eleições--lhes pedira os votos, desprendidamente e rindo. E quasi se assombrára da promptidão, do fervor, com que ambos se offereceram.--«Para o Fidalgo? Pois isso está entendido! Ainda que se votasse contra o Governo, que é pae!»--E em Villa-Clara, com o Gouveia, Gonçalo deduzia d'estas offertas tão acaloradas «a intelligencia politica da gente do campo»:
--Está claro que não é pelos meus lindos olhos! Mas sabem que eu sou homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches Lucena não passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo! Esta gente quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que sou uma intelligencia.
E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:
--Homem! quem sabe? Vossê nunca experimentou, Gonçalo Mendes Ramires. Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!
* * * * *
N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda alto, Gonçalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de Canta-Pedra. Ao fim dos casebres que se apertam á orla da estrada alveja, muito caiada, n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guizado attrahem vasto povo nos dias da feira da Velleda. N'essa manhã o Titó, depois d'uma madrugada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para almoçar, urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira--a Rosa preparára uma pescada com tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonçalo, toda a tarde torturado com sêde, mais resequido pela poeira da estrada, parou avidamente deante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.
--Oh meu Fidalgo!...
--Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca, que morro...
O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello, não tardou com o copo appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com ineffavel delicia--quando da janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como os dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos. Gonçalo deteve o copo, varado. Á janella assomára um latagão airoso, de face clara e suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a cabeça levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle caçador que já uma tarde, no logar de Nacejas, ao pé da Fabrica de vidros, o mirára com arrogancia, lhe raspára a espingarda pela perna, e ainda depois, parado sob a varanda d'uma rapariga de jaqué azul, lhe acenára chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se não percebesse o ultraje--Gonçalo bebeu apressadamente a sangria, atirou uma placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas então da janella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o colheu pelas costas como o estalo d'uma vergasta. Gonçalo soltou a galope. E adiante, sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda tremulo:--«Quem será o desavergonhado?... E que lhe fiz eu, Santo Deus? que lhe fiz eu?...» Ao mesmo tempo todo o seu ser se desesperava contra aquelle desgraçado _mêdo_, encolhimento da carne, arrepio da pelle, que sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surdindo d'uma sombra, o estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que á sua alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o traiçoeiro corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a alma--emquanto dentro a alma bravejava!
Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus moços da quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma enxovia!--Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos, apparecendo com uma carta «que trouxera um moço da _Feitosa_...»
--Da _Feitosa_?
--Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que vinha de mandado das senhoras...
--Das senhoras!... Que senhoras?
Sem tarja de luto, a carta não era da bella D. Anna... Mas era de D. Maria Mendonça, que assignava--«prima muito amiga, Maria Severim.» N'um relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda do Pintainho e da affronta:--«Meu querido Primo. Estou ha tres dias aqui com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella já póde sahir (e até precisa porque tem andado fraca) eu aproveito a occasião para percorrer estes arredores que dizem tão bonitos, e pouco conheço. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de Craquêde, onde estão os tumulos dos antigos tios Ramires. Que impressão me vae fazer!... Mas, ao que parece, além dos tumulos do claustro, ha outros, ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que ficam n'um subterraneo, onde se não póde entrar sem licença e sem que tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê as suas ordens para que no Domingo possamos descer ao subterraneo, que todos affiançam muito interessante, por que ainda lá restam ossos e armas. Se na Torre houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas não se póde visitar um solteirão tão perigoso. Case depressa!... D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.»
Gonçalo encarou o Bento--que esperava, interessado com aquelle assombro do Snr. Doutor:
--Tu sabes se em Santa Maria de Craquêde ha outros tumulos, n'um subterraneo?
O assombro então saltou para o Bento:
--N'um subterraneo?... Tumulos?
--Sim, homem! Além dos que estão no claustro parece que ha outros, mais antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, não me lembro. Tambem ha que annos não entro em Santa Maria de Craquêde! Desde pequeno!... Tu não sabes?
O Bento encolheu os hombros.
--E a Rosa não saberá?
O Bento abanou a cabeça, duvidando.
--Tambem vossês nunca sabem nada! Bem! Amanhã cêdo corre a Santa Maria de Craquêde e pergunta na Egreja, ao sachristão, se existe esse subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras, á snr.^a D. Anna Lucena, e á snr.^a D. Maria Mendonça, minha prima Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!
Mas, repassando a carta, reparou n'um _Post-Scriptum_ em lettra mais miudinha, ao canto da folha:--«No Domingo, não se esqueça, a visita será _entre as cinco e cinco e meia da tarde_!»
Gonçalo pensou:--«Será uma entrevista?» E na livraria, atirando para uma cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo--e Maria Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como natural motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás cinco e meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria não gracejára, em Oliveira? Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma emoção, uma curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á idéa de que tão formosa mulher o desejava.--Ah! mas certamente o desejava para marido, por que se o appetecesse para amante não se soccorria dos serviços da D. Maria Mendonça--nem a prima Maria, apesar de tão sabuja com as amigas ricas, os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E caramba! casar com a D. Anna--não!
E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára ella tantos annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na _Feitosa_, na solidão dos grandes muros da _Feitosa_--por que nunca sobre ella esvoaçára um rumor, em terriolas tão gulosas de rumores malignos. Mas em Lisboa?... Esses «amigos estimabilissimos» de que se ufanava o pobre Sanches, o D. João não sei quê, o pomposo Arronches Manrique, o Philippe Lourençal com o seu cornetim?... Algum de certo a attacára--talvez o D. João, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o informaria sobre a historia sentimental da D. Anna?
Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do Gouveia, casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara, que se demoravam em Lisboa--e que interessavam o mano ou por Politica, ou por mexeriquice. E de certo, pela irmã Cerqueira, o querido Gouveia conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de Lisboa, nas delicias da sua «roda fina».
N'essa noite, porém, o Administrador não apparecera na Assembleia. E Gonçalo, desconsolado, recolhia á Torre--quando no Largo do Chafariz o encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias escuras.
--Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos mesmo a marchar para minha casa, tomar chá. Quer vossê, tambem?... Vossê costuma gostar das minhas torradinhas.
O Fidalgo acceitou--apezar de cançado. E logo pela Calçadinha, enlaçando o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de Lisboa, d'um amigo, com uma nova estupenda... O que?--O casamento da D. Anna Lucena.
O Gouveia parou, assombrado, atirando o côco para a nuca:
--Com quem?!
Gonçalo que inventára a carta--inventou o noivo:
--Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso ou da Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam muito em Lisboa...
Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:
--Não póde ser!... Que disparate! A D. Anna não ajustava casamento sete semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar á sepultura!
--Sim, com effeito! murmurou Gonçalo.
E sorria, sob uma doce baforada de vaidade--pensando que, sete semanas depois de viuva, ella, sem resistir, calcando decencia e luto, lhe offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craquêde.
A mentira de resto, apesar de disparatada, aproveitára--porque, depois de subirem á saleta verde do Administrador, o espanto recomeçou. Videirinha esfregava as mãos, divertido:
--Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.^a D. Anna, depois d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas, zás, se engancha com um rapazote novo...
Não, não!... Gonçalo agora, reparando, tambem considerava despropositada a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda môrno...
--Naturalmente entre ella e esse D. João havia namorico, olhadella... Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o tal D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D. João, e que ella...
--Mentira! atalhou o Administrador, debruçado sobre a chaminé do candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por excellente canal... Em fim, sei por minha irmã! Nunca, em Lisboa, a D. Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitissimo séria. Está claro, não faltou por lá maganão que lhe arrastasse a aza languida... Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa lei natural. Mas ella, nada! Nem ôlho de lado! Esposa romana, meu amigo, e dos bons tempos romanos!
Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente o bigode, regalado, recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da sala, com um gesto convencido e superior:
--Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensiveis. Bellos marmores, mas frios marmores... Não, Gonçalinho, lá para o sentimento, e para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas, magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes mulherões brancos, do genero Venus, só para vista, só para museo.
Videirinha arriscou uma duvida:
--Uma senhora tão bonita como a snr.^a D. Anna, e com aquelle sangue, assim casada com um velhote...
--Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem sentimentos velhotes!--declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa auctoridade e immensa philosophia.
Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E na _Feitosa_? Nunca se rosnára d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr. Julio...
De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a «mentira»:
--Nem na _Feitosa_, nem em Oliveira, nem em Lisboa... De resto, é o que lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de marmore!
Depois, saudando, em submissa admiração:
--Mas, como marmore... Vossês, meninos, não imaginam a belleza d'aquella mulher decotada!
Gonçalo pasmou:
--E onde a viu vossê decotada?
--Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Paço... Até foi justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço. Lá me espanejei, de calção... Uma semsaboria. E mesmo uma vergonha, toda aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar furiosamente pedaços de perú...
--Mas então, a D. Anna?
--Pois a D. Anna uma belleza! Vossês não imaginam!... Santo nome de Deus! que hombros! que braços! que peito! E a brancura, a perfeição... De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para um canto, acanhadota, não fez sensação. Mas depois lá a descobriram. E eram correrias, magotes embasbacados... E «quem será?» E «que encanto!» Todo o mundo perdidinho, até o Rei!
E um momento os tres homens emmudeceram na impressão do formoso corpo evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada. Por fim Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a sua informação:
--Pois, por mim, o que posso affirmar é que a snr.^a D. Anna é uma mulher muito aceada, muito lavada...
E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza tão intima--Videirinha contou que todas as semanas apparecia um moço da _Feitosa_, na botica do Pires, a comprar tres e quatro garrafas de agua de Colonia portugueza, da receita do Pires.
--Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos, que na Feitosa regavam as terras com agua de Colonia. Depois é que soubemos pela creada... A snr.^a D. Anna toma todos os dias um grande banho, que não é só para lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até lê o jornal dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa d'agua de Colonia... Já é luxo!
Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de todas aquellas revelações do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:
--Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh Gouveia, vossê que tem sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleição?
A creada entrára com a bandeja do chá. E em torno da mesa, trincando as torradas famosas, conversaram sobre a Eleição, sobre os informes dos Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso--e sobre o Dr. Julio, que Videirinha encontrára nos Bravaes pedinchando votos pelas portas, acompanhado por um môço com a machina photographica ás costas.
Depois do chá Gonçalo, cançado e já provido «de revelações», accendeu o charuto para recolher á Torre.
--Vossê não acompanha, Videirinha?
--Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada para Oliveira, na diligencia.
--Que diabo vae vossê fazer a Oliveira?
--Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho lá da minha patrôa, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos Emilios, levar as medidas.
Gonçalo ergueu os braços, desolado:
--Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar para Oliveira com os sapatos de banho da patrôa Pires!... Oh Gouveia! quando eu fôr deputado precisamos arranjar um bom logar para o Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle não esquecer o violão!
Videirinha córou de gôsto e de esperança--correndo a despendurar do cabide o chapéo do Fidalgo.