A Illustre Casa de Ramires

Chapter 14

Chapter 143,753 wordsPublic domain

E então elle mostrára muito asperamente ao José Ernesto a inconveniencia de dispôr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a elle, Governador Civil--e dono do circulo... E como o José Ernesto se arrebitava, alludia á conveniencia superior do Governo, elle logo, estendendo o dedo firme:--«Pois Zésinho, flôr, ou trago o Ramires por Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!...» Espantos, escarceus, berreiros--mas o José Ernesto cedêra, e tudo findou jantando ambos em Algés com o tio Reis Gomes, onde á noite, ao «bluff», as senhoras lhe arrancaram quatorze mil reis.

--Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos attentos. O José Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o meu genio... Mas ha os compromissos, as pressões... E agora a novidade pittoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?... Adivinha... O Julinho!

--Que Julinho?... O Julio das photographias?

--O Julio das photographias.

--Diabo!

O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:

--Arranja dez votos á porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha politica de Lisboa!

Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:

--Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda lá não vou!

O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque--que experimentára abotoado, depois repuxadamente aberto sobre o collete de fustão côr de azeitona onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por uma saphira. Por fim, encharcando o lenço com essencia de fêno:

--Nós estamos bem alliados, bem consagrados, não é verdade? Então, meu caro Gonçalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?

--Magnifico! affirmou Gonçalo.

--Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos poisos e te florires com uma rosa de Corinde.

E logo no corredor, ornado de jarrões da India, de arcas de charão, enlaçando o braço de Gonçalo, do seu recuperado Gonçalo:

--Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.

Gonçalo accudiu ingenuamente:

--Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!

E um embaraçado silencio pesou--como se entre elles surgisse a imagem entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperanças, quando André e Gracinha procuravam as ultimas violetas d'Abril, sob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da Mãe d'Agoa. Ainda em silencio desceram a escada de caracol--por onde ambos outr'ora se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo, n'uma sala abobadada, rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas, André quedou deante da porta envidraçada do jardim, ondeou um gesto desconsolado e languido:

--Eu tambem, agora, pouco appareço em Corinde. E, comprehendes bem que não me reteem em Oliveira os cuidados da Administração... Mas este casarão arrefeceu, alargou, desde a morte da mamã. Ando aqui como perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns passeios tristonhos por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua Grande?... Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!

Gonçalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:

--Eu tambem m'aborreço na Torre...

--Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.

Correu, com um esforço, o fecho perro da porta envidraçada. E limpando os dedos ao lenço perfumado:

--Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes cerros escalvados, grandes rochedos agrestes... Ás vezes, cá dentro d'alma, necessito o ermo de S. Bruno...

Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com preciosidade, atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E no terraço, junto á balaustrada de pedra enramada d'hera, galhofou, louvando o areado alinho, o relusente viço do jardim:

--Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre anda um chavascal.

--A prima Jesuina gosta de flôres. Tu não conheces a prima Jesuina? Uma velha parenta da mamã, que governa agora a casa. Coitada! e com um escrupulo, com um amor... Se não fosse a santa creatura, os porcos fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não ha saia, não ha ordem!

Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça azul que trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India. Gonçalo recordou a vespera de S. João em que rolára por aquelles degraus, n'um trambulhão tremendo, com os braços carregados de foguetes. E lentamente, atravez do jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se conservava o trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião heroica da força, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob a magnolia, lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o _Fronteiro d'Arzilla_. E o alvo? O alvo onde se exerciam á pistola, para os futuros duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho Syndicato Constitucional?...--Oh! toda essa parte do muro, que pegava com o lavadoiro, fôra derrubada depois da morte da mamã, para alargar a estufa...

--De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por esse tempo entrei tambem no Syndicato... E agora entras tu, pela porta que eu te abro!

Então Gonçalo, que colhêra e esmagava entre os dedos, para lhe sorver o perfume, folhas de lucia-lima--acudiu com uma franqueza, que aquelle desenterrar de recordações tornava mais penetrante e sentida:

--E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afianças a eleição, com segurança? Não surgirá difficuldade, Andrésinho?... Esse Pitta é um habil!

O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:

--Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Cavalleiros...

Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o tão celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que deleitára uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta confirmava a segurança da Eleição. Gonçalo, caminhando respeitosamente como n'um Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:

--Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes... Aquellas repolhudas, além, que luxo! E estas amarellas? deliciosas!... Olha este encanto! o ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!

O Cavalleiro cruzára os braços, com gracejadora melancolia:

--Pois vê tu! Tal é a minha solidão social e sentimental que, com todas estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!... Estou reduzido a florir as Louzadas!

Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do Fidalgo:

--As Louzadas! Oh que desavergonhadas!

André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto reparo de curiosidade:

--Por quê?... Desavergonhadas, por quê?

--Por quê? Por que o são! Pela sua natureza, e pela vontade de Deus!... São desavergonhadas como estas rosas são vermelhas.

E o Cavalleiro, tranquillisado:

--Ah, genericamente... Com effeito têm immensa peçonha. Por isso eu as cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com ellas um chá respeitoso!

--Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.

Mas o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo com o guardanapo na mão, a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavalleiro colheu para Gonçalo uma «rosa triumphal»--e para si um «botão innocente...» E, enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume de outras roseiras--quando o Cavalleiro parou com uma ideia:

--A que horas vaes tu para Oliveira, Gonçalinho?

O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava apparecer em Oliveira, toda essa semana...

--Por quê? É urgente que vá a Oliveira?

--Pois certamente, filho! Ámanhã mesmo precisamos conversar com o Barrôlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu querido Gonçalo, não podemos adormecer. Não é pelo Julio, é pelo Pitta!

--Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado. Parto para Oliveira.

--Por que então, continuava André, vamos ambos logo, a cavallo. É um bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de mandar á Torre, por causa de roupa...

Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de malas, conservava nos Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella até á casaca. E entrava em Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas--com uma simples bengala e paciencia infinita...

--Delicioso! declarou André. Fazemos então logo a nossa entrada official em Oliveira. É o começo da campanha.

O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão apparatosamente fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse apromptar o _Rossilho_ e a egoa do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem ás sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas André protestou:

--Não, é uma secca, chegamos á noite. Precisamos entrar com solemnidade, á hora da musica no Terreiro... Ás cinco, hein?

E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:

--Pois sim, ás cinco.

Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de flôres e fructas sobre um papel vermelho imitando damasco, André occupou a veneranda cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das pratas, a frescura das rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima Jesuina--que, com dôr d'entranhas n'essa manhã, não se vestira, almoçava no quarto... Gonçalo louvou aquella elegante ordem, tão rara n'uma casa de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuina na Torre... E André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com a esperança que Gonçalo contasse aos Barrôlos o confortavel luxo de Corinde. Depois, picando com o garfo uma azeitona:

--Pois é verdade, meu querido Gonçalo, lá estive n'essa grande Capital, depois um dia em Cintra...

O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.^a o amanuense do Governo Civil, que esperava.

--Pois que espere! gritou S. Ex.^a.

Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome...

--Pois que almoce! gritou S. Ex.^a.

Aquelle secco desprezo de André pelo pobre empregado, esquecido no banco d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos--constrangia o Fidalgo. E espetando tambem uma azeitona:

--Dizias então, Cintra...

--Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda, femeaço mediocre... E já me esquecia. Sabes quem lá encontrei, na estrada de Collares? O Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos _Annaes_, de chapéo alto. Ergueu logo os braços ao céo, desolado:--«E então esse Gonçalo Mendes Ramires não me manda o romance?» Parece que o primeiro numero da Revista sae em Dezembro, e elle precisa o original em começos d'Outubro... Lá me supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E tu devias acabar a Novella... Até convem que, antes d'entrares na Camara, appareça um trabalho teu, um trabalho serio, d'erudição forte, bem portuguez...

--Pois convem! concordou vivamente Gonçalo. E á Novella só falta o Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais preparação, mais pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza d'esta infernal eleição... Não é o animal do Julio que me inquieta. Mas a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?

Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:

--Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma creança pequena, afflicta, com medo que te não chegue o prato de arroz doce. Socega, menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com o Pitta. _A Verdade_ tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta, agora quando souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me é soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta não me tiram o appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta, necessita do Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta com um circulo... Ainda no ultimo dia me disse na Secretaria, até lhe achei graça:--«Eu vejo que os deputados por Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu Ramires morrer em breve, então entra o Pitta.»

Gonçalo recuou a cadeira:

--Se eu morrer!... Que animal!

--Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por exemplo, se nos zangassemos, se ámanhã entre nós surgisse uma dissidencia... Emfim o impossivel!

O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.

--A elle! exclamou André. E não se falle mais de Circulos, nem de Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D. João V?... Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa, Portugal sob os Philippes...

* * * * *

Os tres quartos, depois das seis, batiam no relogio sempre adeantado da Egreja de S. Christovão, em Oliveira, quando André Cavalleiro e Gonçalo, descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça (agora _Largo do Conselheiro Costa Barroso_).

Todos os Domingos, tocando n'um coreto que o Conselheiro, quando Presidente da Camara, mandára construir sobre o velho Pelourinho demolido, a charanga do Regimento ou a philarmonica _Lealdade_ tornavam aquelle Largo o centro mais sociavel da quieta e caseira cidade. N'essa tarde, porém, como começára no Convento de Santa Brigida o bazar patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas cadeiras do Asylo espalhadas por sob as acacias. As Louzadas faltavam no seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o Terreiro, as casas que o cerram do lado de S. Christovão e do lado das Trinas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca da limonada, e até outro retiro pudicamente disfarçado por uma canniçada de heras. E o unico rancho conhecido, D. Maria Mendonça, a Baroneza das Marges, as duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade de ferro que o limita sobre a antiga muralha--d'onde se dominam campos, a cêrca do Seminario Novo, todo o pinhal da Estevinha e as voltas lustrosas da ribeira de Crêde.

Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a alêa do Largo denominada o «Picadeiro», gosando a _Marcha do Propheta_, o espanto reviveu (apezar de todos conhecerem a reconciliação famosa do Governo Civil) quando os dous amigos appareceram, ambos de chapéos de palha, ambos de polainas altas, ao passo solemne das duas egoas--a de Gonçalo airosa e baia de cauda curta á ingleza, a do Cavalleiro pesada e preta, de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lages. Mello Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma fila pasmada, a que se juntou um dos Villa-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre «aquella amigação...» O tabellião Guedes, o Guedes _pôpa_, derrubou a cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas respeitoso, descobrindo a calva n'uma cortesia immensa em que o chapeu branco lhe tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sahia do retiro encanniçado d'hera e se abotoava, embasbacou, com os oculos na ponta do nariz alçado, os dedos esquecidos nos botões das calças.

No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas que o palacete de D. Arminda Villegas domina, com o pesado brazão dos Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas por cortinas de damasco amarello. Na varanda d'esquina, o Barrôlo e José Mendonça fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao sentir as patas lentas das egoas, ao avistar tão inesperadamente o cunhado--o bom Barrôlo quasi se despenhou da varanda:

--Oh Gonçalo! Oh Gonçalo!... Vaes lá para casa?

E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:

--Nós já vamos! Jantámos cá esta tarde... A Gracinha está lá em cima, com a tia Arminda. Vamos já tambem! É um momento!

O Cavalleiro acenou risonhamente ao capitão Mendonça. Já Barrôlo mergulhára com enthusiasmo para dentro dos damascos amarellos. E os dois amigos, deixando pelo Terreiro aquelle sulco de espanto, penetraram na rua das Vellas onde um Policia se perfilou com a mão no bonet--o que foi agradavel ao Fidalgo da Torre.

O Cavalleiro acompanhou Gonçalo ao Largo d'El-Rei. Deante do Palacete um homem de boina vermelha remoía no seu realejo o côro nupcial da _Lucia_, espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta correu do pateo a segurar a egoa do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera a boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre--Gonçalo hesitou, murmurou emfim, com embaraço e corando:

--Não queres entrar e descançar, André?...

--Não, obrigado... Então ámanhã ás duas, no Governo Civil, com o Barrôlo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa... Adeus, minha flôr! Démos um bello passeio e espantamos os povos!

E S. Ex.^a, envolvendo o Palacete n'um demorado olhar, desceu pela rua das Tecedeiras.

No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo acabava de se lavar, de se escovar, quando Barrôlo se precipitou pelo corredor, esbofado, soffrego--e atraz d'elle Gracinha, offegante tambem, desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapeu. Desde a tarde em que Barrôlo «presenceára com os olhos bem acordados!» a palestra de Gonçalo e de André na varanda do Governo Civil--fervera n'elle e em Gracinha uma impaciencia desesperada por penetrar os motivos, a encoberta historia d'aquella reconciliação surprehendente. Depois a fuga de Gonçalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhaes; a repentina jornada do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle caso se abatera mais pesado que uma tampa de ferro--quasi os aterrou. Gracinha á noite, no Oratorio, murmurava atravez das resas distrahidas:--«Oh, minha rica Nossa Senhora, que será?»--Barrôlo não ousára correr á Torre; mas até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe apparecia enorme, crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as janellas dos Cunhaes d'onde elle a repellia com o cabo d'uma vassoura... E eis agora Gonçalo e André que entram na cidade a cavallo, muito serenamente, ambos de chapeus de palha, como companheiros constantes recolhendo d'um passeio!

Logo á porta do quarto, Barrôlo atirou os braços, rompeu aos brados:

--Então que tem sido tudo isto?... Não se falla n'outra coisa!... Tu com o André!

Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapeu, só balbuciava:

--E nem vens, nem escreves... Nós com tanto cuidado...

E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o «Mysterio», com a toalha ainda nas mãos:

--Uma cousa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena morreu, como vocês sabem. Ficou vago o circulo de Villa-Clara. É um circulo por onde só póde sahir um homem da terra, com propriedade, com influencia. O governo immediatamente me mandou perguntar, pelo telegrapho, se eu me desejava propôr... Ora eu, no fundo, estou de bem com os Historicos, sou amigo do José Ernesto... Estimava entrar na Camara... Acceitei.

O Barrôlo esmagou a coxa com uma palmada triumphal:

--Então era certo, caramba!

O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:

--Acceitei, está claro, com condições; e muito fortes. Mas acceitei... N'este caso, como vocês sabem, convem que o candidato se entenda com o Governador Civil. Eu, ao principio, não queria renovar relações. Instado porém, muito instado de Lisboa, e por considerações superiores de Politica, consenti n'esse sacrificio. Nas difficuldades em que se encontra o paiz todos devem fazer sacrificios. Eu fiz esse... O André, de resto, foi muito amavel, muito affectuoso. De sorte que estamos outra vez amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei hoje com elle em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde linda!... Emfim renasceu a antiga harmonia. E a eleição está segura.

--Venham de lá esses ossos! berrou o Barrôlo, transportado.

Gracinha terminára por se sentar á borda do leito, com o chapeu no regaço, enlevada para o irmão, n'um silencioso enternecimento em que os seus doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do abraço do Barrôlo, dobrava a toalha com um vagar distrahido:

--A eleição está segura, mas precisamos trabalhar. Tu, Barrôlo, tens de conversar tambem com o Cavalleiro. Já combinei. Ámanhã no Governo Civil, ás duas horas. É necessario que vocês se entendam por causa dos votos da Murtosa...

--Prompto, menino! o que vocês quizerem! Votos, dinheiro...

E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com agua de Colonia que pingava no soalho:

--Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo acabou. Tu, Barrôlo, immediatamente te reconcilias tambem...

Barrôlo quasi pulou, no seu deslumbramento:

--Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto immensamente do Cavalleiro! Até sempre teimava com Gracinha... «Oh senhores, esta tolice, por causa da Politica!...»

--Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos separou, a Politica nos reune... É o que se chama a inconstancia dos Tempos e dos Imperios.

E agarrou Gracinha pelos hombros, com um beijo brincalhão, estalado em cada face:

--A tia Arminda? Boa, da escaldadella? Já voltou ás façanhas de _Leandro o Bello_?

Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não desfizera, a envolvia toda em claridade e doçura:

--A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou por ti... Mas, oh Gonçalo, tu de certo queres jantar!

--Não, almocei tremendamente em Corinde... Vocês, como jantaram á hora antiga da tia Arminda, ceiam, hein? Então logo ceio... Agora apenas uma chavena de chá, muito forte!

Gracinha correu, no alvoroço de servir o heroe querido. E pela escada, descendo com Barrôlo que o contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou os seus sacrificios:

--É verdade, menino, é uma massada... Mas que diabo! todos devemos concorrer para tirar o paiz do atoleiro!

Barrôlo, maravilhado, murmurava:

--E sem dizeres nada... Assim á capucha! Assim á capucha!...

--E agora outra cousa, Barrôlo. Ámanhã, no Governo Civil, deves convidar o André a jantar...

--Com certeza! gritou o Barrôlo. Jantar d'estrondo?

---Não, homem! Jantar muito quieto, muito intimo. Unicamente o André e o João Gouveia. Telegraphas ao João Gouveia. Tambem pódes convidar os Mendonças... Mas jantar muito discreto, só para conversarmos, para firmar a reconciliação d'um modo mais sociavel, mais elegante.

Ao outro dia, no Governo Civil, Barrôlo e o Cavalleiro apertaram as mãos com tanta singelleza, como se ambos, ainda na vespera, andassem jogando o bilhar e caturrando no club da rua das Pêgas. De resto conversaram summariamente sobre a Eleição. Apenas o Cavalleiro alludira com indolencia aos votos de Murtosa--o bom Barrôlo quasi se engasgou, na ancia de os offerecer:

--E o que vocês quizerem... Votos, dinheiro, o que vocês quizerem!... Vocês digam! Eu vou para a Murtosa, e é comezaina, e pipa de vinho aberta, e a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio...

O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faustoso:

--Não, meu caro Barrôlo, não! Nós preparamos uma eleição muito sobria, muito socegada. Villa Clara elege Gonçalo Mendes Ramires deputado, naturalmente, como o seu melhor homem. Não ha combate, o Julinho é uma sombra. Portanto...

O Barrôlo persistia, radiante, gingando:

--Perdão, André, perdão! Lá isso vinhaça, e vivorio, e foguetorio, e festança magna...

Mas Gonçalo, embaraçado, ancioso por suster a garrulice do Barrôlo, as palmadas carinhosas com que elle se atufava na intimidade do Cavalleiro, apontou para a mesa de S. Ex.^a: