Chapter 13
Lentamente ella limpava as lagrimas, já silenciosas, á ponta do avental negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais arregalados, devorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem, cedinho, de madrugada?...--Foi o Bento que a convenceu, com violencia:
--Oh mulher, vossê até parece atrevida! Ora essa! Pois duvida da palavra do Snr. Dr.?
Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou simplesmente:
--Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...
E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que ella acarretára desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a aconchegára entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete annos, encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lençol que seccava, seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia despedaçadamente, n'um cabecear de somno e cançasso, a arquejar, a gemer contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de alperces na arca, palpou a mão com que elle, sem cessar, raspava pela abertura da camisa encardida o peito ainda mais encardido.
--Mas esta creanca tem febre!... E vossê, com uma noite d'estas, traz o pequeno assim desde os Bravaes, mulher?
Da cadeirinha baixa, onde se sentára prostrada, ella murmurou, sem erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:
--Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae, coitadinhos!
--Vocemecê é doida, mulher! E pretende talvez voltar para os Bravaes, debaixo d'agoa, com as creanças?
Ella suspirou:
--Ai! volto, volto... Não posso deixar sózinha a mãe do meu homem, que tem oitenta annos e está entrevada.
Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os braços--no embaraço d'aquella aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas creanças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama, não soffreria com a caminhada, bem achegadinha ao collo da mãe, debaixo de uma manta grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...
--Esse fica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido. Como se chama elle? Manoel... Bem! O Manoel fica cá. E vá descançada, que a Sr.^a Rosa toma cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes dias lá lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo... Vá socegada!
De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso que a invadira, a amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de submissão:
--Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...
O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma «aberta», o negrume a levantar. Gonçalo immediatamente apressou a volta aos Bravaes:
--E não tenha medo, mulher. Vae um moço da quinta com uma lanterna, e um guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemecê até podia levar uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...
E quando o Bento trouxe o «impermeavel» de longa romeira, o lançou por sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu ruge-ruge de seda--foi na cozinha uma divertida risada. O pranto passára, como a chuva. Agora era uma visita amoravel, findando n'um arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada de gosto:
--Assim é que vocemecê fica uma bonita Madama, hein!... Se fosse de dia, olhe que se juntava gente!
A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:
--Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!
Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente, Gonçalo acompanhou o rancho até á porta do pomar, gritando ainda--«Agasalhem bem a pequena!»--quando já a lanterna do moço se fundia na humida espessura da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.
--Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle precisava tambem era esfregado a côco... Que porcaria de gente! Emfim fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima alguma cousa para eu cear, cousa solida, que não jantei, e o sarau foi tremendo!
Na livraria, depois de mudar os chinellos, descançar, Gonçalo escreveu ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do Casco. E accrescentava:--«É o primeiro pedido que lhe faz o deputado por Villa-Clara (comprimente!), porque acabo de receber telegramma do nosso André, annunciando que «_tudo feito, ministro concorda, etc._» De sorte que precisamos communicar! Queira pois vossa mercê vir jantar ámanhã a esta sua Torre, á sombra do Titó e com acompanhamento de Videirinha. Estes dous benemeritos são indispensaveis para que haja appetite e harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar a remessa de circulares eloquentes...»
Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E, trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o rijo sol d'Agosto...
Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao Gouveia pelo «Deputado de Villa-Clara» escapava desassocegadamente da velha Honra de Santa Ireneia--esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da Lisboa do S. Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava esbaforido--incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel Bragança com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou para a ceia. E á mesa espalhou livremente a imaginação por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na Graça, atravez das salas mais modernas de cultos e alegres amigos--parando ás vezes deante de visões que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sessões de S. Bento sempre luvas côr de perola, uma flor no peito. Por commodidade levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...
O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao Joaquim da Horta com a recommendação de correr logo ás seis horas a casa do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia até soltarem o Casco.
--E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que tenho o somno leve, se elle berrar... Mas já dorme regaladamente.
--Está socegado, hein? acudiu Gonçalo, sorvendo á pressa o calice de cognac. Vamos vêr esse cavalheiro!
E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo, abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria, n'um desbotado camapé de damasco verde, a Rosa dobrára carinhosamente a roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaçado, as calças enormes, só com um botão. Dentro o leito de pau preto, vasto leito de ceremonia, atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens verdes. Ao lado dos dous postes torneados, á cabeceira, pendiam dous paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um folio, um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado á espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E nos altos colchões o Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.
Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra do lençol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou que não entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento buscar uma lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo quarto, para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E sahiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho do Casco velado pelos dous nobres Ramires--o Bispo com o seu Tratado, o Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.
Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passára a calma, depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre susurros de agoas correntes, a folhear um volume do _Panorama_--Gonçalo encontrou sobre a mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o surprehendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma obreia. E dentro a assignatura, desenhada a tinta azul, era um coração chammejante.
N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda, arredondada com esmero:--«Caro e Ex.^{mo} Snr. Gonçalo Ramires. O galante Governador civil do Districto, o nosso atiradiço André Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes, olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazão dos Barrôlos. Como não era natural que andasse a estudar a architetura do Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno Chefe do Districto esperava que V. Ex.^a apparecesse a alguma das janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou sobretudo _no mirante do Jardim_, para reatar com V. Ex.^a a antiga e quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.^a em correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconciliação, e abrir os braços generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos Barrôlos. Enviamos portanto a V. Ex.^a os nossos sinceros parabens por esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso Cavalleiro e redondar em beneficio dos serviços publicos!»
Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:
--É das Louzadas!
Ainda estudou a lettra, as expressões, descortinando que _redundar_ fora escripto com um O, _architectura_ sem C. E rasgou furiosamente a grossa folha, rosnando no silencio da livraria:
--Aquellas bebadas!
Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o aterrava--porque maledicencia, lançada por tão ardentes espalhadoras de maledicencias, já certamente penetrára em todas as casas d'Oliveira, mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do André pelos Cunhaes com essa sua visita ao Governo Civil que assombrára a Arcada. Na ideia pois d'Oliveira, e sob a inspiração das Louzadas--fôra elle, elle, Gonçalo Mendes Ramires, que arrancára o Cavalleiro á sua Repartição, o conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe escancarára as portas do Palacete até ahi rondadas e miradas sem proveito, e com sereno descaro alcovitára os amores da irmã! Se taes desavergonhadas não mereciam que lhes arregaçassem as sujas saias no meio da Praça, em manhã de Missa, e lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, até que o sangue ensopasse as lages!...
E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle, traidoramente! Essa insistencia de André, cocando Gracinha, estrondeando a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua apparição á janella do Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes, nem mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua reconciliação com André a um cêrco amoroso que não começára, ou não andava tão murmurado. Tres ou quatro mezes depois, André, sem esperança ante o Palacete inaccessivel, certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas não! infelizmente quando esse André, com maior estrepito, ronda a porta almejada--é que elle acode, e abraça o rondador, e lhe facilita a porta! E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia como Verdade Publica! Infames Louzadas!
Mas agora? O que? manter rigidamente as suas relações com o Cavalleiro dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como poderia? Desde que elle se reconciliava com André, logo e tão naturalmente como a sombra segue a inclinação do ramo, se reconciliava tambem o Barrôlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como impôr ao Barrôlo que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?--«Eu sou outra vez o velho amigo do André, tu, Barrôlo, tambem--mas nunca o convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!»--Imposição desconcertada, de dura impertinencia--e que, na pequena Oliveira, logo os faceis encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrôlo, quebrariam como um barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do portão do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala de fogo na mão, para sustar a intrusão de Satanaz, Chefe do Districto! Mas tambem que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha embrulhado ao nome de André, com o nome d'elle, Gonçalo, emmaranhado atravez como o fio favoravel que os atára--era horrivel.
E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas tão asperas, que tanto o feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:
--Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas terras pequenas e coscovilheiras...
Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um certo Largo--e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr. Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil annos de nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas Louzadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas pelo espirito... O André era seu amigo, entrava em casa de sua irmã--e Oliveira que estoirasse!
E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta manhã de trabalho para que se preparára desde o almoço, relendo trechos do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do _Panorama_ sobre as guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforço d'attenção erudita abancou, mergulhou a penna no tinteiro de latão que servira a trez gerações de Ramires. E emquanto repassava as tiras trabalhadas, nunca o Castello de Santa Ireneia lhe parecera tão heroico, de tão soberana estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino, que em torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo esforço dos seus castellões!
Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia, n'essa Affonsina manhã d'Agosto e rijo sol, em que o pendão do Bastardo surgira, entre fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da Ribeira! Já por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as béstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que tentassem a escalada. O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traças de defeza, revistando os feixes de virotões, os pedregulhos d'arremesso. E no immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com terror, puchavam pelo saião d'algum apressado homem de rolda, para saberem da hoste que avançava. No emtanto a cavalgada passára a Ribeira sobre a rude ponte de pau--já, por entre os alamos, serenamente se acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra por Gonçalo Ramires, o _Cortador_. E, no socego da manhã abrazada, mais fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e triste á mourisca...
Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com termos bem sonoros, avidamente rebuscados no _Diccionario de Synonimos_, o toar arrastado das buzinas de Bayão--sentiu realmente, do lado da Torre, um gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a penna--e eis que o _Fado dos Ramires_ s'eleva offertadamente da horta, em serenada, para a varanda florida de madresilva:
Ora, quem te vê solitaria, Torre de Santa Ireneia...
O Videirinha!--Correu alvoroçadamente á janella. Um chapeu côco tremulou entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:
--Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado Gonçalo Ramires!
No violão rompera triumphalmente o Hymno da Carta. Videirinha, alçado na biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava--«Viva a illustre casa de Ramires!» E por baixo do chapeu côco, sacudido com delirio, João Gouveia, sem poupar a garganta, urrava--«Viva o illustre deputado por Villa-Clara! Viva!»
Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da varanda o braço eloquente:
--Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra que me fazeis, vindo assim, n'esse formoso grupo, o chefe glorioso da Administração, o inspirado Pharmaceutico, o...
Mas reparou... E o Titó?
--O Titó não veio?... Oh João Gouveia, você não avisou o Titó?
Repondo sobre a orelha o chapeu côco, o Administrador, que arvorára uma gravata de setim escarlate, declarou o Titó «um animal»:
--Estava combinado virmos todos trez. Até elle devia trazer uma duzia de foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunião era ao pé da Ponte... Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou avisado, avisadissimo... E se não vier, é traidor.
--Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um instante me visto. E, para aguçar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta pela quinta até ao pinhal!...
Immediatamente Videirinha, têso, empinando o violão, metteu pela rua larga da horta, recoberta de parreira; e atraz João Gouveia atirava os passos em cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um pendão. Quando Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa quente--o _Fado dos Ramires_ soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal, por sob a janella aberta onde seccava o lençol do banho. E eram as quadras preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Ruy Ramires, sulcando os mares de Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus inglezas, e, do alto do seu castello de prôa, vestido de gran-vermelha, com a mão no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras, soberbamente as intima a que se rendam...
Todo alegre, e a mão no cinto. Junto da Signa Real, Gritando ás naus--«Amainae Por El-Rei de Portugal!...»
Gonçalo abotoava á pressa os suspensorios, retomára o canto glorificador--_Todo alegre, a mão no cinto_... _Junto da Signa Real_...--E, atravez do esforço esganiçado, pensava que com tal linha d'avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas horrendas. Mas o trovão lento de Titó retumbou no corredor:
--Então esse deputado de Villa-Clara?... Já está a vestir a farda?
Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:
--Entra, Titó! Os deputados já não usam farda, homem! Mas se a tivesse, c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar hospedes tão illustres!
O outro avançára vagarosamente, com as mãos nas algibeiras da rabona de velludo côr d'azeitona, o vasto chapeu braguez atirado para a nuca, desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:
--Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de lacaio.
--Ora essa!?
E o outro mais retumbante:
--Pois o que vaes tu ser, homem, senão um sujeito ás ordens do S. Fulgencio, _do horrendo careca_? Não lhe serves o chá, quando elle te mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho, ás ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E Ramires, zás, vota... É de escudeiro, homem, é de escudeiro de libré...
Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:
--Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi prehistorica... Não entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade não ha principios absolutos!...
Mas o Titó, imperturbavel:
--E esse Cavalleiro? Tambem já é rapaz de talento? Tambem já governa bem o Districto?
Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta forte na face. E quando negára elle ao André talento ou geito de governar? Nunca! Só rira, gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o serviço do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!
--E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito terrivel, um Catão com quem se não pode jantar!... Ora foi sempre o costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!
Titó, serenamente, virou as costas magestosas.
--Onde vaes, ó Titó?
--Para a cosinha!
E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta, girando como uma torre que gira, encarou o seu amigo:
--Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação, submissão, e tu em Lisboa ás cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de braço dado com o André, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa hoje se apurou, não alludamos mais a cousas tristes!
E Gonçalo bracejava, de novo protestava--quando o violão resoou no corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o _Fado_ recomeçou, mais meigo, mais glorificador:
--Velha casa de Ramires, Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavalleiro em Corinde era uma edificação dos fins do seculo XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã, toda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os tornára famosos--e lhes merecera em tempos do avô de André, o Desembargador Martinho, uma visita da Snr.^a D. Maria II. E dentro todas as salas reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.^a D. Jesuina Rollim.
Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a ante-sala, ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de galiões, que elle uma tarde rasgára jogando o espadão com André. Sob esse painel, á borda do canapé de palhinha, esperava melancolicamente um amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo creado, o fiel Matheus, gritou alegremente:
--Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi da tina... Ainda estou em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço de parabens. Depois, em quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das malas--gravatas, peugas de sêda, garrafas de perfumes--conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...
--Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar á lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis, Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se accommodára, entre uma pilha de camisas de côr e outra de ceroulas com monogramma flammante:
--E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?
O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas do bigode. E só depois de o ensopar em brilhantina, d'acamar as ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gonçalo, já inquieto, que a eleição ficára solida...
--Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino, encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande homem da _Verdade_...
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
--E então?...