Chapter 12
A todos o caso parecia «d'estrondo!» E subitamente um silencio esmagou a Arcada, trespassada d'emoção. Na varanda, entre as vidraças abertas vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fidalgo da Torre, conversando, risonhos, de charutos accesos. Os largos olhos do Cavalleiro pousaram logo, com malicia, sobre os «rapazes» apinhados em pasmo á borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de visão. S. Ex.^a remergulhára no gabinete--o Fidalgo tambem, depois de se debruçar da varanda, espreitar a caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:
--Viva! Reconciliação!
--Acabou a guerra das Rosas!
--E as correspondencias da _Gazeta do Porto_?...
--É que houve peripecia tremenda!
--Temos o Gonçalinho administrador d'Oliveira!
--Upa, Ex.^{mo} Snr., upa!
Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fidalgo reappareciam, n'uma enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidencia da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro, com uma familiaridade carinhosa, bateu nas costas do Gonçalo--como se publicasse a sua reconciliação diante da Praça maravilhada. E outra vez se sumiram, n'esse passear conversado e intimo, que os trazia da sombra do gabinete para a claridade da janella, roçando as mangas, misturando o fumo leve dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais excitado. Passára o Mello Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado: e, chamados com ancia, cada um correra, devorára esgazeadamente a novidade, embasbacára para o velho balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do relogio do Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dous Villa-Velhas, outros «rapazes», estafados, retrocederam ás cadeiras de verga da Tabacaria. O Dr. Delegado, que jantava ás quatro e soffria do estomago, despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando ao Pestana seu visinho «que apparecesse ao café, para contar o resto...» Mello Alboim, esse, enfiára para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do Largo: e da janella, disfarçado por traz da mulher e da cunhada, ambas de chambres brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Ex.^a com um binoculo. Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas. Então o Barão das Marges, na sua impaciencia borbulhante, decidiu subir ao Governo Civil, «para farejar!...»
Mas n'esse momento André Cavalleiro assomava de novo á varanda--sózinho, com as mãos enterradas no jaquetão de flanella azul. E quasi immediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil, atravessou a Praça, com os stores verdes meio corridos, descobrindo apenas, áquelles cavalheiros avidos, as calças claras do Fidalgo.
--Vae para os Cunhaes!
Lá o apanhava pois o Barrôlo! E todos apressaram o bom Barrôlo a que montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances d'aquella paz historica! O Barão das Marges até lhe segurou o estribo. Barrôlo, alvoroçadamente, trotou para o Largo d'El-Rei.
Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhaes, seguia para a Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanço á parelha esfalfada. E logo depois das ultimas casas da cidade subiu as stores, respirou deliciosamente, com o chapeo sobre os joelhos, a luminosa frescura da tarde--mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as tardes da sua vida... Voltava d'Oliveira vencedor! Furára emfim atravez da fenda, atravez do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!... Abençoado Gouveia, esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na vespera, pela calçadinha de Villa-Clara!...
Sim, de certo, fôra custoso aquelle mudo momento em que se sentára seccamente, hirtamente, á borda da poltrona, junto da pesada meza administrativa de S. Ex.^a. Mas mantivera muita dignidade e muita simplicidade...--«Sou forçado (dissera) a dirigir-me ao Governador Civil, á Auctoridade, por um motivo de ordem publica...» E a primeira avença partira logo do Cavalleiro, que torcia a bigodeira, pallido:--« Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo, que Gonçalo Mendes Ramires se dirija...» Elle ainda se conservára retrahido, resistente, murmurando com uma frieza triste:--«As culpas não são decerto minhas...» E então o Cavalleiro, depois de um silencio em que lhe tremera o beiço:--«Ao cabo de tantos annos, Gonçalo, seria mais caridoso não alludir a culpas, lembrar somente a antiga amizade, que, pelo menos em mim, se conservou a mesma, leal e séria.» A esta sensibilisada invocação, elle volvera, com doçura, com indulgencia:--«Se o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu não posso negar que em mim tambem ella nunca inteiramente se apagou...» Ambos balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desaccordos da vida. E quasi insensivelmente se trataram por _tu_! Elle contou ao Cavalleiro a torpe ousadia do Casco. E o Cavalleiro, indignado como amigo, mais como Auctoridade, telegraphára logo ao Gouveia um mandado forte para inutilisar o valentão dos Bravaes... Depois conversaram da morte do Sanches Lucena, que impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro recordou a manhã, na _Feitosa_, em que entrando pela porta pequena do jardim, a surprehendera, dentro d'um caramanchão de rosas, a apertar a liga. Uma perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Anna, apezar dos duzentos contos e da divina perna...--Já entre elles se restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era «tu Gonçalo, tu André, oh menino, oh filho!»
E fôra André, naturalmente, que alludira á desapparição do Deputado do Governo, á surpreza do circulo vago... Elle então, com indifferença, estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa, murmurára:
--Sim, com effeito... Vocês agora devem estar embaraçados, assim de repente...
Mais nada! apenas estas indolentes palavras, murmuradas através do rufo. E o Cavalleiro, logo, sem preparação, apressadamente, empenhadamente, lhe offerecera o Circulo!--Pousára os olhos n'elle com lentidão, como para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:
--Se tu quizesses, Gonçalo, não estavamos embaraçados...
Elle ainda exclamára, com surpreza e riso:
--Como, se eu quizesse?
E o André, sempre com os olhos n'elle cravados, os largos olhos lustrosos, tão persuasivos:
--Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado por Villa-Clara, já não estavamos embaraçados, Gonçalo!
_Se tu quisesses_... E perante esta insistencia que rogava, tão sincera e commovida, em nome do Paiz, elle consentira, vergára os hombros:
--Se te posso ser util, e ao Paiz, estou ás vossas ordens.
E eis a fenda transposta, a aspera fenda, sem rasgão no seu orgulho ou na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo gabinete, desde a estante carregada de papeis até á varanda--que André abrira, por causa d'um cheiro persistente de petroleo entornado na vespera. André tencionava partir n'essa noite para Lisboa--para conferenciar com o Governo, depois d'aquella inesperada desapparição do Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como o unico Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial--pelo nome, pelo talento, pela influencia, pela lealdade. E eis a eleição consummada! De resto (declarára o Cavalleiro, rindo) aquelle Circulo de Villa-Clara constituia uma propriedade sua--tão sua como Corinde. Livremente, poderia eleger o servente da Repartição que era gago e bebado. Prestava pois um serviço esplendido ao Governo, á Nação, apresentando um môço de tão alta origem e de tão fina intelligencia... Depois accrescentára:
--Não tens a pensar mais na eleição. Vaes para a Torre. Não contas a ninguem, a não ser ao Gouveia. Esperas lá, muito quietinho, telegramma meu de Lisboa. E, recebido elle, estás Deputado por Villa-Clara, annuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens almoçar comigo a Corinde, ás onze.
Então ambos se apertaram n'um abraço que fundiu de novo, e para sempre, as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o acompanhára, André, repenetrando timidamente no Passado, murmurou com um riso pensativo:--«Que tens tu feito ultimamente, n'essa querida Torre?» E, ao saber da Novella para os *Annaes*, suspirou com saudade dos tempos de Imaginação e d'Arte em Coimbra, quando elle amorosamente lapidava o primeiro canto d'um poema heroico, o _Fronteiro de Ceuta_. Emfim outro abraço--e alli voltava deputado por Villa-Clara.
Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da caleche, era elle que os representava em Côrtes, elle, Gonçalo Mendes Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus! Porque já as idéas o invadiam, viçosas e ferteis. Na Vendinha, emquanto esperava que lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de savel, meditou, para a Resposta ao Discurso da Corôa, um esboço sombrio e áspero da nossa Administração na Africa. E lançaria então um brado á Nação, que a despertasse, lhe arrastasse as energias para essa Africa portentosa, onde cumpria, como gloria suprema e suprema riqueza, edificar de costa a costa um Portugal maior!... A noite cerrára, ainda outras idéas o revolviam, vastas e vagas--quando o trote esfalfado da parelha estacou no portão da Torre.
Ao outro dia (terça feira) ás dez horas, o Bento entrou no quarto do Fidalgo com um telegramma, que chegara á Villa de madrugada. Gonçalo pensou com um deslumbrado pulo do coração:--«É do Governo!»--Era do Pinheiro, gritando pela Novella. Gonçalo amarrotou o telegramma. A Novella! Como poderia labutar na Novella, agora, todo na impaciencia e no esforço da sua Eleição?... Nem almoçou socegadamente--retendo, atravez dos pratos que arredava, um desejo desesperado de «contar ao Bento.» E, sorvido o café n'um sorvo impaciente, atirou para Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia. O pobre administrador jazia de novo no camapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a tarde, na estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou os talentos do André, «homem de governo e de idéas, Gouveia!»--celebrou o Ministerio Historico, «o unico capaz de salvar esta choldra, Gouveia!»---desenrolou vistosos Projectos de Lei que meditava sobre a Africa, «a nossa esperança magnifica, Gouveia!»--Emquanto o Gouveia, estirado, só rompia a mudez e a immobilidade, para murmurar chôchamente, apalpando o calor das papas:
--E a quem deve vossê tudo isso, Gonçalinho?... Cá ao meco!»
Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensamento saltou logo soffregamente para o André Cavalleiro, que a essa hora, em Lisboa, almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz, André se conservára fiel ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente atravez do silencio da casa e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus giros de Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos Ministerios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da Justiça. Outro convidado certamente seria o José Ernesto, Ministro do Reino, condiscipulo do Cavalleiro, seu confidente politico... N'essa noite, pois, tudo se decidia!
--Ámanhã, pelas dez horas, tenho cá telegramma do André.
Nenhuma noticia chegou á Torre:--e o Fidalgo passou a lenta quinta feira á janella, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o moço do telegrapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonné d'oleado e pela perna manca. Á noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou um moço a Villa-Clara. Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pela mesa d'aquella «besta do Nunes do Telegrapho!» Não havia telegramma para o Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa difficuldades! E toda a noite, sem socego, n'uma indignação que rolava e crescia, imaginou o Cavalleiro cedendo mollemente a outras exigencias do Ministro--acceitando com servilismo para Villa-Clara a candidatura d'algum imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do Partido!
Pela manhã injuriou o Bento por lhe trazer tão tarde os jornaes e o chá:
--E não ha telegramma, nem carta?
--Não ha nada.
Bem, fôra trahido! Pois nunca, nunca, aquelle infame Cavalleiro transporia a porta dos Cunhaes! De resto, que lhe importava a burlesca Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam outros meios de provar soberbamente o seu valor--e bem superiores a uma ensebada cadeira em S. Bento! Que miseria, na verdade, curvar o seu espirito e o seu nome ao rasteiro serviço do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca! E resolveu logo regressar aos cimos puros da Arte, occupar altivamente todo o dia no nobre e elegante trabalho da sua Novella.
Depois de almoço ainda abancou, com esforço, remexeu nervosamente as tiras de papel. E de repente agarrou o chapéo, abalou para Villa-Clara, para o telegrapho. O Nunes não recebera nada para sua exc.^a!--Correu, coberto de suor e pó, á Administração do Concelho. O snr. Aministrador partira para Oliveira!... Positivamente vencera outra combinação--eis a sua confiança burlada! E recolheu á Torre, decidido a tomar um desforço tremendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada sobre o seu nome, sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada Sexta-feira a consumio amargamente meditando esta vingança, que queria bem publica e bem sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do infame com chicotadas, na escadaria da Sé, um domingo, á sahida da missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal debicára, n'aquelle despeito e humilhação que o pungiam, envergou o casaco para voltar a Villa-Clara. Não entraria no Telegrapho--já com vergonha do Nunes. Mas gastaria a noite na Assembléa, jogando o bilhar, tomando um alegre chá, lendo risonhamente os Jornaes Regeneradores, para que todos recordassem a sua indifferença--se por acaso, mais tarde, conhecessem a trama em que resvalára.
Desceu ao páteo, onde as arvores adensavam a sombra do crepusculo carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando esbarrou com um rapaz que s'esbaforia sobre a perna manca e gritava:--«É um telegramma!» Com que voracidade lh'o arrancou das mãos! Correu á cozinha, ralhou desabridamente á Rosa pela falta da luz tardia! E, com um phosphoro a arder nos dedos, devorou, n'um lampejo, as linhas bemditas:--«_Ministro acceita, tudo arranjado_...» O resto era o Cavalleiro lembrando que no domingo o esperava em Corinde, ás onze, para almoçarem e conversarem...
Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao moço do telegrapho--galgou as escadas. Na livraria, á claridade mais segura do candieiro, releu o telegramma delicioso. _Ministro acceita, tudo arranjado!_... Na sua transbordante gratidão pelo Cavalleiro, ideou logo um jantar soberbo, offerecido nos Cunhaes pelo Barrôlo, cimentando para sempre a reconciliação das duas Casas. E recommendaria a Gracinha que, para mais honrar a doce festa, se decotasse, pozesse o seu collar magnifico de brilhantes, a derradeira joia historica dos Ramires.
--Aquelle André! que flôr, que rapaz!
* * * * *
O relogio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E só então Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que elle, embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de imaginações, não sentira o rumor sobre a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos limoeiros.
Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na Novella. E realmente agora convinha que terminasse essa _Torre de D. Ramires_ antes do afan da Eleição--para que em Janeiro, ao abrir das Côrtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado pela Erudição e pela Arte. Envergou o roupão de flanella. E á banca, com o costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o começo do Capitulo II--que o não contentava.
Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que Lourenço Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido e captivo do Bastardo de Bayão. Pelo Almocadem dos peões, que, com o braço varado por uma chuçada, voltára em desesperada carreira ao Castello, já Tructezindo Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.--E n'este lance o tio Duarte, no seu poemeto do Bardo, com um lyrismo molle, mostrava o enorme Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade d'esse filho, flôr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado, amarrado n'umas andas, á mercê da gente de Bayão...
Lagrimas irrepresas lhe rebentam, Arfa o arnez c'o soluçar ardente!...
Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas primeiras do Capitulo, esboçára o velho abatido sobre um escanho, com lagrimas relusentes sobre as barbas brancas, as duras mãos descahidas como as de languida Dona--em quanto que nas lages, batendo a cauda, os seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana. Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coherente com a alma tão indomavelmente violenta do avô Tructezindo. O tio Duarte, da casa das Balsas, não era um Ramires, não sentia hereditariamente a fortaleza da raça:--e, romantico plangente de 1848, inundára logo de prantos romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro de Sancho I! Elle porém devia restabelecer os espiritos do Senhor de Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse descorado e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples Tructezindo não cuida do filho--adia a desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se commette a apressar os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar ás Senhoras Infantas os soccorros de que as privára a embuscada de Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na sala-d'armas, regia a ordem da arrancada--eis que os esculcas, abrigados do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para além do arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada subindo para Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando aos eirados da torre albarrã--e reconhece o pendão de Lopo de Bayão, o seu toque de trompas á mourisca, arrastado e triste no silencio dos campos. Então arqueia as cabelludas mãos na bôca, atira o alarido:
--Armas, armas! que é gente de Bayão!... Besteiros, ás quadrellas! Homens em chusma ás lavadiças da carcova!
E Gonçalo, coçando a testa com a rama da penna, rebuscava ainda outros veridicos brados, de bravo som Affonsino--quando a porta da livraria abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:
--O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo á cozinha?
Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem comprehender:
--Á cozinha?...
--É que está lá a mulher do Casco a levantar uma celeuma. Parece que lhe prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os pequenos, até um de mama. Quer por força fallar com o Snr. Dr. E não se calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que é mesmo uma Ignez de Castro!
Gonçalo murmurou--«que massada!» E que contrariedade! A mulher, n'uma agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes até ao portão da Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleição, apparecendo a todas as freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...--Atirou a penna furiosamente:
--Que massada! Dize á creatura que me deixe, que se não afflija... O Snr. Aministrador ámanhã manda soltar o Casco. Eu mesmo vou a Villa-Clara, antes d'almoço, para pedir. Que se não afflija, que não aterre os pequenos... Corre, dize, homem!
Mas o Bento não despegava da porta:
--Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha não acredita, quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. Até um dos pequenitos está bem doentinho, ainda não fez senão tremer...
Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á meza um murro que tresmalhou as tiras da Novella:
--Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E agora, por cima, é sobre mim que desabam as lagrimas, e as scenas, e a creança doente! Não se pode viver n'esta terra! Um dia vendo casa e quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde não haja massadas... Bem, dize á mulher que já desço.
O Bento approvou, com effusão:
--Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como é para dar uma boa nova... Sempre consola a pobre mulherzinha!...
--Lá vou, homem, lá vou! Não me masses tambem... Impossivel trabalhar n'esta casa! Outra noite perdida!
Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas--com a ideia de metter na algibeira do roupão duas notas de dez tostões que consolariam os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade, compensar com dinheiro creancinhas--a quem elle arrancára o pae, algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma boceta de alperces seccos--dos famosos alperces do Convento de Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandára Gracinha. E, cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua severidade, tão estouvada, que assim desmanchava a quietação de um casal. Depois no corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar no corredor da cozinha--tremia como um culpado.
Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando a mulher, com palradora confiança, quasi risonhos. Mas os «ais» d'ella, os ruidosos lamentos pelo «seu rico homem», resoavam, mais agudos, como a rebater e a abafar toda a consolação. E apenas Gonçalo empurrou timidamente a porta--quasi acuou no espanto e medo d'aquella afflicção estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De rojos nas lages, torcendo as magras mãos sobre a cabeça, toda de negro, parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do lençol estendido que seccava ao lume forte da lareira--a creatura estalára n'um tumulto de supplicas e gritos:
--Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam o meu homem, que m'o vão mandar para a Africa degredado! Jesus, meus filhinhos da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e por toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi perdição que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas creancinhas! Ai, o meu pobre homem que está a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem é!
Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta d'alperces, Gonçalo balbuciava, atravez da emoção que o estrangulára:
--Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue! Já dei ordem! Já o vão soltar!
E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escura creatura que gemia, recomeçava docemente:--«Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria! Logo pela manhã, o vão soltar!»--E do outro o Bento, batendo na coxa, com impaciencia:--«Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o Snr. Dr. prometteu! Logo pela manhã o vão soltar!»
Mas ella não se calmava, com o lenço da cabeça desmanchado, uma trança desprendida, soluçando e clamando atravez dos soluços:
--Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai perdão, meu rico Senhor da minha alma!...
Então Gonçalo, que aquelle infindavel e obtuso queixume torturava, como um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:
--Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de pé!... E olhe bem, olhe direita!
Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a escapar d'algemas que tambem a ameaçassem--ella arregalou para o Fidalgo os olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que lhe enchiam a face rechupada e morena.
--Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E agora diga! Acha que tenho bojo de lhe mentir, quando vocemecê está n'essa afflicção? Pois então socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra, ámanhã cedo, o seu homem está solto!
E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:
--Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus? Se o Snr. Dr. tinha promettido... Ámanhã lá tem o homem!