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Chapter 1

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"E se tardar para que saibas como deves portar-te na Casa de Deus que é a Igreja do Deus vivo, coluna e firmamento da verdade" I Timóteo 3:15

Pondo de parte qualquer outra asserção do Apóstolo no texto, é meu intento, prezados irmãos, indagar nesta hora alguma coisa sobre a natureza do Deus vivo, que afirma S. Paulo ser a Casa de Deus, coluna e firmamento da verdade. Em face das idéias errôneas que sobre este ponto reinam em nossa sociedade e das tremendas conseqüências que delas se tiram, a importância do assunto se recomenda por si mesma. Cristo prometeu estar com a sua Igreja até a consumação dos séculos, e edificá-la sobre a rocha inabalável, de modo que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Diante dessas promessas importantes, ensina-se a nosso povo que a Igreja de Cristo é uma congregação visível a palpável de pessoas contidas dentro de uma organização determinada, e que essas pessoas pelo simples fato de estarem dentro dessa organização, são herdeiros das promessas, e por conseqüência, não podem errar, são coletivamente infalíveis. E quando a história mostra que em nome dessa Igreja infalível e com sua autoridade se tem praticado horrendas carnificinas e acendido milhares de fogueiras homicidas; e quando com as Santas Escrituras se provam que, sob essa autoridade que não podem errar, espalham hoje mesmo as doutrinas mais anticristãs, respondem: “Cale-se a ímpia história fementida, cale-se a orgulhosa razão ante a Santa Madre infalível!” Com tais preconceitos, a voz da Igreja, como o disse alguém, torna-se uma espécie de cabeça de Medusa, que tem petrificado o bom senso de muitos.

No curto espaço desta hora só poderei apresentar-vos a verdadeira noção ou concepção bíblica da Igreja, mostrando ao mesmo tempo o sentido em que as promessas se têm cumprido e se cumprirão. Procurarei evidenciar que a Igreja é um reino espiritual e, por conseqüência, não pode encerrar-se necessariamente nos limites materiais de uma organização qualquer, e, si bem que não seja meu propósito refutar de uma maneira direta, neste momento, os erros mencionados, espero, todavia, que ante a representação da verdade, clara e simples, desmorone-se aos nossos olhos o soberbo edifício que tem levado séculos a se construir sobre os alicerces levadiços da ignorância e indiferença religiosas.

Abrindo o Novo Testamento encontramos em muitos lugares a palavra “Igreja”: o exame desses lugares é o meio mais fácil e seguro de chegarmos à compreensão daquilo que o Espírito Santo designa por essa palavra. S. Paulo, nas duas epístolas escritas aos cristãos da cidade de Corinto, projeta brilhantíssima luz sobre o sentido religioso da palavra “igreja”.

Tão claras são as palavras do Apóstolo, que nos podem servir de chave segura para a interpretação de todos os textos em que se encontra mesma palavra. Principiando, a primeira palavra declara que ele a dirige a “Igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Jesus Cristo, chamados santos com todos os que invocam o Nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. É claro que o Apóstolo chama “Igreja de Deus” a reunião dos santificados em Jesus Cristo, dos que invocam com sinceridade o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, dos fiéis que, segundo a Escritura, são chamados santos. Este mesmo sentido manifesta o Apóstolo claramente no primeiro versículo de sua segunda epístola aos Coríntios: “A Igreja de Deus que está em Corinto, e a todos os Santos, que há por toda a Acaia.” É, portanto, incontestável que nesses dois lugares entende Paulo por igreja, a sociedade dos fiéis, a congregação dos santos. Um exame atencioso de todos os outros lugares levar-nos-á à conclusão de que este é o único sentido religioso em que a palavra é empregada. Esta significação apostólica da palavra “igreja” está de acordo com sua etimologia. Ela tem sua origem num coletivo grego – Ekklesia que, por sua vez, deriva-se dum verbo Kaleo, que significa chamar denotando conseqüentemente a assembléia ou sociedade daqueles que são eficazmente chamados por Deus. O profeta do Apocalipse torna bem saliente esse sentido quando declara no capítulo 17, versículo 14, que os que estão com o Cordeiro de Deus “são os Chamados, os Escolhidos, e os Fiéis.” Assim a verdadeira Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo, aquela que é chamada a Esposa imaculada do Cordeiro, é composta unicamente dos que são verdadeiramente chamados, dos escolhidos e dos fiéis de todos os tempos e lugares. “Não sabeis vós” diz ainda S. Paulo à Igreja de Deus em Corinto, “que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus mora em vós?” (1 Co 3:16). Afirmando a mesma sublime verdade escreve S. Pedro aos escolhidos de Deus que receberam a santificação do Espírito para prestarem obediência a Deus e terem parte na aspersão do sangue de Jesus Cristo. A estes cristãos admoesta S. Pedro: “Chegai-vos para ele (Cristo), como para a pedra viva, que os homens tinham sim rejeitado, mas que Deus escolheu, e honrou; também sobre ela vós mesmos, como pedras vivas, sede edificados em casa espiritual, em Sacerdócio Santo, para oferecer sacrifícios espirituais, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo” (1 Pe 2:4,5).

Todos estes ensinos das Escrituras vêm esclarecerem o nosso texto com refulgente luz: “A Casa de Deus vivo que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e o firmamento da verdade” é, não resta a menor dúvida, diante do Novo Testamento, a congregação dos eleitos, dos verdadeiros fiéis.

Conservando sempre a mesma compreensão, variam os apóstolos muitas vezes a extensão do termo. Ora, o termo “igreja” designa congregação, ora particulares, ora a Igreja única, universal ou católica, que abrange no vasto seio maternal a universalidade dos verdadeiros fiéis, dos que estão na terra e dos que estão no céu.

Essa Igreja universal é nas Escrituras representada por várias corporações designativas de sua natureza, e relações com seu único chefe. É comparada a um templo, a uma casa, e neste caso Cristo é a pedra angular (Mt 16:18); Ef 2:20); a um corpo, e Cristo é cabeça (Ef 1:23); a uma esposa, e Cristo é o Esposo (Ap 21:3); a uma videira, e Cristo é o tronco que alimenta os galhos (Jô 15); a um rebanho, e Cristo é o Supremo Pastor. É também chamado o Reino de Deus, que se divide em duas províncias, a Igreja Triunfante no Céu e a Igreja Militante na terra. Esse povo, esse reino, essa Igreja, reuniu sempre em si todos os caracteres da verdadeira Igreja. Desde que seus membros são unicamente os convertidos pela palavra da vida e pelo Espírito Santo, “os santificados em Jesus Cristo”, ela não pode deixar de ser uma santa, católica e apostólica. Uma – não na uniformidade monótona, ou no automatismo estéril de uma liturgia pomposa; mas, na unidade maravilhosa de seus credos, na comunhão viva das doutrinas fundamentais do Cristianismo, na fraternidade cristã de seus membros: “santa” – não pelo calendário de nomes próprios canonizados pelo voto falibilíssimo de homens pretensiosos, mas, na santidade de suas doutrinas emanadas diretamente de uma fonte pura – o Livro Sagrado da Revelação Divina, e na pureza de seus membros; “católica” – não na universalidade de um cadáver, que realizando as profecias, estende os seus membros inertes entre todas as tribos, línguas e nações, mas porque abrange a universalidade daqueles que em todos os tempos e lugares mantiveram-se firmes no único fundamento, cabeça e pedra angular, a saber, Cristo (At 4:11, Ef 3:20); apostólica – não na transmissão absurda de uma consciência apostólica através dos séculos, pelo contato manual, mas na sustentação diligente das doutrinas pregadas pelos santos apóstolos. A preservação desses caracteres através dos tempos, em um grupo de pessoas escolhidas, a despeito de todas as circunstâncias e falibilidade humana, só pode ser atribuída à ação poderosa e sempre presente do Vigário de Cristo que é a terceira pessoa da Santa Trindade. Graças à presença eficacíssima do Espírito Santo, a Igreja de Deus vivo tem conservado em todas as idades seus títulos gloriosos, suas gloriosas prerrogativas, e tem sido em todos os tempos coluna e firmamento da verdade, a luz do mundo e o sal da terra.

A sua história é o testemunho constante do amor de Deus; sua conservação em todos os tempos, o monumento imperecível do seu poder. Um olhar rápido sobre seu passado confirmando o que tinha dito, ajudar-nos-á a compreender a natureza das promessas que lhe foram feitas. Logo depois da queda do homem separar a humanidade nos dois grupos que a dividem hoje – os filhos de Deus e os filhos dos homens na expressão de Gênesis. As águas do dilúvio exterminam os filhos dos homens, mas, sobre seu dorso imenso flutua na Arca de Noé a Igreja de Deus vivo, composta de oito pessoas. Manifesta-se a apostasia e na descendência de Abraão é preservada a linhagem santa. Retirado do cativeiro do Egito esse povo de Deus é introduzido na terra da promissão. Aí estabelecido no reinado do ímpio Acabe, manifesta-se a apostasia em larga escala. A idolatria domina a Igreja: o ídolo de Baal parece divorciá-la completamente de seu Deus.

Só um homem permanece de pé, procurando debalde em torno de si a Igreja de Deus: é o profeta Elias. “Senhor, mataram os teus Profetas, derribaram os seus Altares: e eu fiquei sozinho, e eles me procuram tirar a vida” (Rm 11:3). Porém a resposta de Deus patenteia o engano do Profeta: “Eu reservei para mim sete mil homens que não dobraram seus joelhos diante de Baal” (v. 4). Chegam, afinal, os dias gloriosos da última Dispensação. O Verbo se fez carne e “veio para o que era seu, e os seus não no receberam.” Os edificadores rejeitaram a pedra angular, preciosa, que anunciará o Profeta (Is 26) dever ser posta em Sião. O pontífice, e os sacerdotes, os levitas, a nação judaica, a Igreja quase que em peso, apostatou, rejeitando o Cabeça, renunciando solenemente a Jesus Cristo. Teria pela primeira vez desaparecida a Igreja do Deus vivo? Não, responde S. Paulo: “Do mesmo modo que no tempo de Elias, Deus, segundo sua graça, salvou a um pequeno número, que ele reservou para si” (Rm 11:5).

De seu Chefe recebe esse “pequeno número”, que era a Igreja de Deus, ordem de marchar é a conquista do mundo: “Ide por todo o mundo”. Durante 300 anos, sublevam-se contra a Igreja as forças tremendas das potências infernais. O dragão procura afogá-la num rio de sangue (Ap 12:15), porém o sangue dos mártires é a semente da Igreja.

Vendo a inutilidade da guerra franca, muda satanás de tática, e inaugura uma nova fase de luta, fase que dura até nossos dias. Cessaram as perseguições, sobre o trono imperial; no princípio do 4º século, senta-se Constantino e declara-se protetor dos perseguidos. Manifesta-se a corrupção no seio da Igreja que se torna oficial. Desencadeiam-se sobre ela os ventos pestíferos da heresia: levanta-se Ário no ano 317 e nega a divindade de Cristo, e “o orbe todo gemeu”, diz S. Jerônimo, admirado de se ver ariano – ingemuit totus orbis terrarum, et Arianum se esse miratus est.

O concílio de Selêucia no Oriente, e o de Rimini no Ocidente, compreendendo quase 800 bispos, sustentavam a heresia Ariana, e a maioria dos bispos, inclusive Libério, bispo de Roma, “papa infalível”, subscreveram às heréticas decisões. Atanásio e o pequeno número dos que sustentavam a divindade do Senhor Jesus, perseguidos, tomaram caminho do exílio. Ter-se-iam acaso falhado as promessas de Cristo? Teriam, porventura, as portas do inferno prevalecido contra sua Igreja? “Não”, responde S. Jerônimo, “a Igreja não consiste nas paredes das ricas catedrais, mas na verdade dos dogmas, onde estava a verdadeira fé, aí estava a Igreja”. Ecclesia ibi es, ubi fides Vera est.

Reproduzia-se, portanto, o que já se tinha dado no tempo de Elias e dos Apóstolos: verificava-se no seio da Igreja a defecção em grande número; mas então, como em todos os tempos, cumpriam-se as promessas, manifestava-se a graça de Deus, na conservação de “um pequeno número” de testemunhas fiéis, oprimidas, é certo, mas possuidoras legítimas das ricas e gloriosas prerrogativas da Igreja cristã.

Soou, porém, a hora da derrota para a heresia triunfante de Ário; mas nem por isso deixou satanás a tentativa de eliminar da superfície da terra a Igreja do Deus vivo. Mistura a astúcia à violência, sobe aos púlpitos cristãos e anuncia aos povos, mergulhados em trevas, um cristianismo a pouco e pouco falsificado. Foi lento o novo trabalho da destruição; durou do 4º século ao 16º.

Mas, durante esse longo período, esse cristianismo bastardo e perseguidor aniquilou, porventura, o legítimo cristianismo? Foi de fato destruída a Igreja cristã? Não, porque ela é imperecível. Onde estava ela então? O Profeta do Apocalipse nos ajuda a descobrir seu esconderijo apontando-nos para o deserto. Aí, diz ele, foi-lhe preparado um lugar de retiro onde Deus a sustentaria por 1260 dias (Ap 12:6).

Ajudados por estas indicações do Profeta, ser-nos-á mais ou menos fácil acompanhar, através das grandes agitações e catástrofes dos povos, a história dos grandes sofrimentos e fidelidade da Igreja desde Constantino até a Reforma do século 16º.

Mas, é crível que o cativeiro da Igreja cristã se prolongasse por tantos séculos, sem, entretanto, falharem as promessas de Cristo: A credulidade desse cativeiro ou dessa opressão secular não se firma só em fatos históricos irrefragáveis, mas em expressas profecias. Anuncia S. Paulo claramente o desenvolvimento do mistério da iniqüidade, e, sossegando os Tessalonicenses aterrados pela próxima vinda do fim do mundo, diz o Apóstolo: “Não virá sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição, aquele, que se opõe, e se eleva sobre tudo, que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se assentará no Templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus” (2 Ts 2:3,4). Referindo-se sem dúvida a essa mesma “apostasia”, ensina S. Paulo que importava serem os bispos e os diáconos esposos de uma só mulher e acrescenta: “Ora, o Espírito manifestamente diz, que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos de erro e a doutrinas de demônios, que com hipocrisia falarão mentira, e que terão cauterizada sua consciência, que proibirão casarem-se, que se faça uso das viandas que Deus criou” (1 Tm 4:1-3). E o Profeta, nas visões do Apocalipse, escrevendo sem dúvida a história futura da Igreja, fala-nos largamente nos capítulos 13 e 17, dessa apostasia a que se refere S. Paulo, e que já Daniel anunciara em visões bem significativas (Dn 7, Ap 13 e 17). Levantar-se-á, diz o Profeta, um poder, uma besta com sete cabeças, que o Anjo explica serem sete montes; sobre ela senta-se uma mulher, vestida de púrpura, tendo em sua mão uma taça de ouro cheia de abominação, de imundícia da sua prostituição. Essa mulher, diz o Anjo, é a grande cidade que reina sobre os reis da terra. A essa besta foi dado o poder de fazer guerra por 42 meses, 1260 dias, ou segundo os intérpretes, 1260 anos, foi-lhe dado poder sobre toda tribo, língua e nação. E agora repare no que diz o Profeta no capítulo 8, versículo 7: “E foi-lhe concedido que fizesse guerra aos Santos, e que os vencesse.” Assim estava decretado nos impenetráveis conselhos do Todo Poderoso que se levantaria no seio da Igreja um poder apostato que venceria os santos, isto é, os fiéis cristãos, ou ainda a Igreja do Deus vivo por 1260 anos. Assim os fatos históricos vêm confirmar as declarações do Profeta; estas declarações confirmadas pelos fatos vêm explicar-nos a natureza das firmíssimas promessas feitas por Cristo à sua Igreja. Ele prometeu estar com ela até a consumação dos séculos, de modo que as portas dos infernos, isso é, (segundo o original grego, as portas de hades, que é a região dos mortos), as portas da sepultura, em suma, o poder da morte, que prevalece contra tudo, não prevaleceria contra sua Igreja, não a extinguiria da face da terra. Jamais, enquanto houvesse mundo, fechar-se-iam as portas da sepultura sobre os cadáveres dos últimos de seus membros.

O Senhor Jesus assegura, pois, nas suas promessas, não a infalibilidade de uma corporação determinada, muito menos o uso-fruto dessa infalibilidade como monopólio de uma classe; porém a perpetuidade de uma igreja na preservação graciosa e providencial de um certo número de fiéis.

E aí estão dezenove séculos para atestarem a fidelidade de suas promessas. Em todos os tempos de grandes apostasias, constitui sempre a sua verdadeira Igreja, fiel depositário das doutrinas reveladas, coluna e firmamento da verdade. Nos dias de Noé, como nos dias de Abraão; no tempo de Elias, como no tempo dos Apóstolos; na época do arianismo, como nos 1260 anos da supremacia do anticristo: houve sempre um grupo fiel, os 7000 que não dobraram seus joelhos a Baal.

Eis a resposta que, com a Escritura e história na mão, podemos dar aos nossos adversários, que nos perguntam ironicamente: “Se a vossa igreja é a Igreja de Cristo, onde estava a Igreja de Cristo antes da Reforma?”. Desde os primeiros passos da grande apostasia anunciada pelos Apóstolos e por Daniel, surgiram em todos os tempos, fiéis testemunhas da verdade, que não eram vozes isoladas, porém, antes, marcos históricos, que assinalam, na estrada dos séculos, a marca da Igreja do Deus vivente. Compulse a história eclesiástica e vereis em todo o período anterior à Reforma, grupos mais ou menos numerosos, perseguidos como hereges, sob nomes diversos, nomes que traduziam, em grande parte, a ironia e desprezo de seus adversários. Lede os credos desses hereges, contra os quais se invoca da espada secular horríveis morticínios, e reconhecereis, na constância inquebrantável desses grupos mártires, a Igreja de Cristo servindo de coluna inabalável às pura verdades do Evangelho. Diante desses fatos históricos, diante dos Valdenses, Albigenses, Paulicianos, Hussitas, Wiclifitas, e muitos outros, perguntar-se-á ainda: “Se a Igreja de Roma não é a de Cristo, onde estava a Igreja de Cristo, antes de Lutero?” Pois bem, a resposta acaba de ser dada.

Ela se acha no mesmo lugar em que já se tinha achado no tempo do ímpio Acabe, no tempo de Anás e Caifás, no tempo dos sucessores de Constantino, que sustentaram a ferro e fogo a heresia ariana; ela tinha tomado o caminho do deserto e do exílio; ocultava-se nos vales do Piemonte e defendia-se nas regiões da Hungria, contra o jugo apóstata dos bispos prepotentes de Roma, e muitos de seus membros que não tinham logrado retirar-se para esses esconderijos, morriam nas fogueiras inquisitórias ou gemiam no cativeiro dessa nova Babilônia, cujas muralhas derribaram os reformadores do século XVI.

Este relancear de olhos sobre a história da Igreja vem impor-nos uma verdade, já implicitamente contida na definição do termo Igreja. É que em nenhum tempo pode o homem traçar com exatidão os limites da Igreja do Deus vivo sobre a terra, porque os padrões materiais não podem servir de marcos ao Reino espiritual de Deus. Os ritos diversos que separam as corporações visíveis, não podem limitar o espírito católico, não podem restringir a expansão espiritual do Reino de Deus. Esta verdade é diretamente ensinada por S. Paulo, no seguinte lugar: “Não é o judeu o que é manifestamente, nem é circuncisão o que se faz exteriormente na carne; mas é judeu o que é no interior: e a circuncisão do coração é no espírito, não segundo a letra: cujo louvor não vem dos homens, senão de Deus” (Rm 2:28,29). Ensina, pois, o Apóstolo que a circuncisão, que era um sacramento da Igreja antes de Cristo, e, conseguintemente, todas as cerimônias por Deus prescritas, mesmo quando observadas regularmente, não davam por si só o direito a um judeu de ser verdadeiramente um israelita, um filho de Abraão. Era necessário mais do que essas exterioridades, era necessário um coração crente e um espírito reto. Esta verdade é de uma aplicação intuitiva em todos os tempos. Os sacramentos e a organização exterior da Igreja são como que a cabeça: a fé verdadeira, a caridade sincera, eis propriamente o fruto. O homem vê o exterior, enxerga os atos e presume a fé e a caridade. Deus, porém, antes de ver a aparência sonda os corações. Finalmente não podemos traçar com exatidão a linha divisória que separa a Igreja de Deus do resto dos homens, visto que as qualidades espirituais para ser-se membro dessa Igreja – a fé, o arrependimento, a caridade, a circuncisão do coração – escapam à nossa limitada intenção. Por isso declara S. Paulo: “O fundamento de Deus tem este selo: - o Senhor conhece os que são dele: aparte-se da iniqüidade os que invocam o nome do Senhor.”

É pois de necessidade que se faça uma distinção entre a igreja interior e a exterior, entre a igreja vista pelos olhos infalíveis de Deus e a contemplada pelos olhos falíveis dos homens – entre Igreja invisível e Igreja visível.

É a Igreja invisível, composta unicamente dos santificados em Jesus Cristo, dos que em todos os países invocam com sinceridade o nome do Senhor, é a ela unicamente que pertencem as gloriosas promessas do Evangelho: as ricas esperanças de seus membros não se firmam nem em Pedro nem em Paulo, mas na Rocha inabalável confessada por Pedro e e anunciada pelo Profeta (Is 28:16) “Cristo o Filho de Deus Vivo”.

Porém, a Igreja de Deus, como vos disse, apresenta-se a nossos olhos, sob um aspecto visível, isto é, como uma vasta associação, que tem atravessado os tempos estendendo-se sobre todos os países. Na sua organização exterior esta vasta sociedade dos fiéis apresenta não só no tempo, mas também no espaço um aspecto múltiplo.

A Igreja como um todo, tem, no tempo, assumido três formas fundamentais: a Igreja patriarcal, a Igreja mosaica ou levítica, e a Igreja cristã. Cada uma destas formas é caracterizada por um aspecto exterior bem distinto. Mas, porventura, não é uma só e mesma igreja, que varia de aspecto, reveste formas diversas, segundo as circunstâncias de tempo e lugar?

Entre os diversos símiles ou comparações por que é representada na Santa Escritura a Igreja de Deus, há um que nos pode servir de ilustração apropriada. S. Paulo a compara no capítulo 9 dos Romanos a uma oliveira. Os judeus comparam os Apóstolos aos ramos naturais, e as igrejas particulares organizadas no mundo gentílico, a galhos de zambujeiro enxertados na oliveira sagrada. Uma árvore traz, com efeito, a idéia de um conjunto de galhos e ramos diferenciados pela distância e aparência, muitos dos quais não se ligam entre si diretamente, senão por meio do tronco. Basta, porém, um pouco de observação para descobrir, nessa imensa variedade, perfeita semelhança ou unidade. Assim a Igreja que naturalmente tinha um aspecto uniforme nas dispensações patriarcal e levítica, porque compreendia uma só família e um só povo, necessariamente assumiria um aspecto variado desde que abrangesse todas as famílias e povos da terra. É pois natural que nesta dispensação cristã, essencialmente universal, ela realize plenamente o símile do Apóstolo. Diante destas considerações tornam-se evidentes as judiciosas observações de um autor, tendentes a demonstrar que sob a nova economia, a Igreja deve organizar-se exteriormente segundo a sabedoria e prudência de seus membros, tendo em vista seus fins e os princípios do Evangelho. Ora, como esta sabedoria e prudência variam necessariamente, a variedade no aspecto da organização externa é uma conseqüência natural da liberdade. Com efeito, não há uma forma exterior por Deus imposta à Igreja Cristã. Sob a Velha Dispensação, há o livro de Levítico prescrevendo à igreja judaica, com minuciosa exatidão. Todos os ritos, cerimônias, governo, disciplina.