A Igreja

Part 2

Chapter 22,341 wordsPublic domain (Wikisource)

O Novo Testamento declara na epístola aos Hebreus que toda esta organização exterior do culto judaico. Todo esse “jugo de escravidão”, na expressão de S. Paulo, foi abolido – “eram sombras de bens vindouros, eram figuras postas até o tempo da reforma” (Hb 10:1,9,10). Onde está no Novo Testamento o livro que preserve os ritos que deviam substituir o cerimonial levítico? Não existe. O Novo Testamento contrariamente do Velho ocupa-se muito com a essência ou doutrina e pouco com a forma. Respondendo a perguntas da Igreja de Corinto sobre certas cerimônias e costumes, S. Paulo indica o livro que os cristãos devem consultar sobre essas coisas secundárias que não se acham reveladas no Novo Testamento: “Julgai lá vós mesmos” “nem a natureza vo-lo ensina” diz em 1 Co 11:13,14; 13:26,40). Os ritualistas de hoje se escandalizam com semelhante liberdade, mas seus antecessores nos tempos apostólico, já tiveram do ilustre Apóstolo dos Gentios, digna resposta quando este declarou-lhes que não vivemos mais debaixo de tutores e curadores, por termos no “Ministério do Espírito”, na dispensação cristã, atingido a nossa maioridade espiritual.

De fato, o regime da liberdade pode ser abusado pelos sérios efeitos do jugo da escravidão, pelos menores que não têm bastante natureza para dispensar tutela: nunca pelos que gozam da liberdade dos Filhos de Deus, dos que têm alcançado a maioridade na plena luz e ardente caridade do Evangelho.

No gozo desta liberdade, foram os apóstolos e discípulos em cumprimento da ordem recebida, fundando igrejas ou comunidades particulares entre todos os povos. É assim que o Novo Testamento fala-nos de igrejas organizadas em Jerusalém, Antioquia, Éfeso, Roma, etc. Nenhuma dessas igrejas era mãe e senhora das outras. Isto é ponto incontroverso para quem lê o Novo Testamento, ou a história da Igreja Primitiva.

Jerusalém não recebia ordens da igreja de Roma; Roma, por sua vez, era independente das outras igrejas. Cada uma dessas igrejas era um organismo particular, autônomo, unido aos outros pelo laço áureo da caridade e profunda simpatia fraterna, fomentado pela identidade das crenças emanadas de um Código comum, cuja autoridade infalível todos reconhecem. Eram repúblicas confederadas, cujos pontos controversos se decidiam em assembléias ou concílios de seus pastores chamados bispos ou presbíteros.

Quanto à organização externa, quanto à hierarquia eclesiástica e disciplina dessas diversas repúblicas ou congregações, na parte em que não havia recomendações expressas servia naturalmente de norma segura o exemplo ou a práxis apostólica. Os mesmos Apóstolos, reconhecendo a liberdade nestas coisas secundárias, permitiam certa diversidade no aspecto exterior das diversas igrejas. É assim que, permitindo às igrejas da Judéia conservarem certos costumes ou cerimônias da Lei mosaica, proibiam, todavia, imporem certas cerimônias às igrejas dos gentios, que tinham outros costumes mais adaptados ao caráter delas (At 15:20-27). Circunstâncias incidentais foram, com o correr dos tempos, traçando linhas divisórias, cada vez mais visíveis, na forma exterior dessas igrejas separadas pela distância, pelas raças e costumes sociais. Mas, essas diferenças que se acentuavam cada vez mais, eram o fruto natural da liberdade e o produto espontâneo da atividade inteira.

Assim hoje as mesmas coisas devem produzir os mesmos efeitos. Em todos os países e cidades em que os cristãos invocam com sinceridade o nome do Senhor, eles se congregam para o culto divino e administração dos sacramentos. Essas congregações, organizando-se regularmente, sob influência da atividade e liberdade cristãs, hão de forçosamente divergir, em sua organização externa, de outras corporações congêneres. Desde que não temos um livro de Levítico, nem mesmo um capítulo do Novo Testamento prescrevendo diretamente uma liturgia ou mesmo uma determinada forma de governo à Igreja Cristã, é evidente que o temperamento, a diversidade do meio e educação social, os modos diversos por que o espírito humano encara a mesma verdade, são coisas que mui naturalmente atuam de modo a produzir a diversidade ou variedade na forma exterior das corporações cristãs.

Para evitar essa diversidade era necessário mutilar-se o cristianismo, abolindo aquilo que justamente caracteriza a última fase da Igreja sobre a terra – a liberdade. Para que isso se efetuasse, era preciso que, nos impenetráveis decretos de Deus, uma dessas igrejas particulares, ensoberbecendo-se, tivesse a sacrílega audácia de se proclamar – “mãe e senhora” de suas irmãs. Depois, sob pena de excomunhão, procuraria impor sua liturgia, sua forma exterior às igreja do Oriente e do Ocidente. Porém, na evolução natural das coisas humanas, um abismo chama outro abismo, e essa igreja, ensoberbecendo-se, sentir-lhe-ia crescer a ambição na embriaguez dos primeiros triunfos. De particular tornar-se-ia universal ou católica, de falível, infalível.

A simplicidade evangélica da Igreja Primitiva foi perdida na engrenagem complicada de pompas luxuosas de uma cleresia aristocrática. E não contente em mutilar exteriormente o cristianismo, ela estenderia mão profana sobre a essência, ou sobre o corpo doutrinário e novos dogmas ir-se-iam agregando ao credo dos Apóstolos. Porém, no dia em que essa igreja particular começasse a assassinar moral e espiritualmente suas irmãs, nesse dia a mão da Justiça divina cortaria esse ramo da árvore do cristianismo, e ela, como Caim, sairia da presença de Deus levando em sua fronte entre todas as tribos, línguas e nações as palavras que já o Profeta lera, nas visões apocalípticas: “Mistério: a grande Babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra” (Ap 17:5).

E coisa por certo admirável, meus ouvintes, é que estas oposições sejam não somente fatos históricos, mas previsões proféticas. Lançando um olhar retrospectivo sobre a Igreja falei-vos de um período de 1260 anos em que ela devia ser vencida, porém, não aniquilada. Não me refiro agora a essas predições, mas a um pressentimento profético do grande Apóstolo dos gentios que tem de certo com eles relações íntimas e que é bem significativo sobre o ponto que nos ocupa. S. Paulo, como sabeis, escreveu nove cartas, que constam no Novo Testamento, a igrejas particulares. Entre estas existe uma dirigida à igreja particular de Roma. No capítulo nove dirigi-lhes S. Paulo, com os olhos do futuro, uma solene admoestação: declara-lhe que os ramos judaicos foram cortados da oliveira santa por causa da sua incredulidade, e que ela, igreja de Roma, fora enxertada para ser um ramo dessa oliveira. Pois bem – acrescenta o Apóstolo, versículos 20 a 22 - não te ensoberbeças, mas teme, porque se não permaneceres na benignidade de Deus, também tu serás cortado. Coisa singular! Realizaram-se os pressentimentos do Apóstolo: o galho do zambujeiro enxertado quis ser a árvores, e ameaçou cortar todo o ramo que não declarasse ser ela a oliveira santa. Deus, porém, executou a sentença, e o galho do romanismo foi cortado da árvores cristã, realizando a grade apostasia de que fala S. Paulo aos Tessalonicenses (2 Ts 2:3, 1 Tm 4:1,2).

Os membros da verdadeira igreja católica, que rejeitaram o jugo de Roma, usando da liberdade evangélica nas coisas que o Espírito Santo deixou ao critério de sua fé e caridade, amoldam os princípios de governo, disciplina e liturgia, de sua natureza variáveis, a seu ponto de vista peculiar; e, retendo sempre o plano evangélico da salvação, e essência divina da religião cristã, encaram diversamente certas verdades secundárias sobre a predestinação e sobre a forma e tempo do batismo. Essas divergências secundárias, sob o influxo da atividade pujante do cristianismo, dão origem à formação das diversas denominações irmãs ou igrejas particulares que se chamam – luterana, anglicana, metodista, batista, congregacionalista, prebiteriana. Cada um desses nomes, porém, significa uma força na grandiosa liberdade do cristianismo: são galhos da mesma oliveira que realizam plenamente a comparação do Apóstolo: separam-se na diversidade da aparência; ligam-se, porém, na unidade da árvore; unem-se no mesmo tronco e alimentam-se do suco da mesma raiz.

Se, em alguma coisa, esses grupos diversos denotam a estreiteza e fraqueza inerentes ao espírito humano, em não poder contemplar uma verdade do mesmo modo e com a mesma clareza, ou aplicar um princípio com a mesma exatidão: em outras, revelam que o espírito ativo e livre do cristianismo não morreu. Ali, pois, onde o observador prevenido só enxerga imperfeição, o observador imparcial descobre a liberdade! E coisa admirável! Esses frutos diversos da contingência humana, se assim o quisermos considerar, revertem em grande bem para a igreja em geral! Essas corporações diversas no seio da vasta corporação cristã dão origem a uma emulação vigilante (Hb 10:24) que, temperada pela caridade, produz os maravilhosos resultados que, gratos, contemplamos em nossos dias. Louvemos a Deus tirando o louvor perfeito da boca dos que mamam!

Desgraçadamente em todas as harmonias humanas soa sempre a nota discordante. Nessas corporações particulares há muitos membros indignos: eles fazem parte da igreja visível, mas falta-lhes inteiramente os títulos para serem membros da igreja invisível. Um olhar atencioso descobre às vezes em uma árvores frondosa certas folhas que não pertencem à árvore, mas a certa erva parasita, que oculta facilmente sua natureza a um observador inexperiente. Esses membros são os parasitas das igrejas. Debaixo deste ponto de vista, compara S. Paulo a Igreja a uma grande casa onde há vasos de honra e de desonra (2 Tm 2:20), e nosso Divino Mestre, a um campo onde ao lado do trigo cresce a cizânia (Mt 13). Esse elemento hipócrita no seio das congregações, coadjuvado pelo fanatismo, lamentável fruto da estreiteza de nossas inteligências, tem infelizmente muitas vezes convertido essa nobre emulação em uma sabedoria terrena, animal, diabólica (Tg 3:15), em um zelo amargo e orgulho sectário. Estas coisas, porém, são inevitáveis. Nosso Senhor a declara na parábola do campo e da cizânia, e também quando diz: “É necessário que haja escândalos”.

Do que ficou dito é fácil concluir-se que essas igrejas independentes, cuja totalidade constitui a Igreja católica, essas organizações autônomas, várias na forma e idêntica no fundo, têm plena razão de ser nas leis naturais do espírito humano, e plena sanção na liberdade do Evangelho. É na esfera religiosa a aplicação da lei da variedade no seio da unidade, lei que faz ressaltar por toda a parte na criação a beleza e sabedoria de Deus.

A diversidade exterior da Igreja visível é, portanto, a manifestação livre e característica de sua atividade católica, e diante desta verdade solidamente estabelecida pelo fato de não haver preceito sobre a forma e a ordem das cerimônias do culto externo, nem mesmo prescrições positivas sobre o governo eclesiástico, oferece um interesse secundário o indagar-se qual das formas existentes é a melhor. Talvez que fosse mais edificante perguntar-se qual dessas igrejas irmãs, ou ramos cristãos, é a mais excelente? É a metodista? A batista? A presbiteriana ou a congregacionalista? A resposta é fácil em tese. Qual dos galhos da árvore frutífera é o mais estimável? É aquele que sustenta com mais simetria seus ramos, ou aquele que projeto sobre o solo uma sombra mais vasta? Não, é o que mais se carrega de frutos. Pois bem, a melhor de todas essas comunidades autônomas no seio do cristianismo não é aquela com maior número de membros, nem maior soma na arca de seus tesouros, nem maior regularidade nas formas litúrgicas ou disciplinares; mas, sim, aquela em cujo seio há mais piedade e consagração ao Mestre, maior número de membros pertencentes à Igreja invisível; aquela que produz em maior quantidade o fruto saboroso do cristianismo – a caridade evangélica.

Seja-me permitido, meus irmãos, ao concluir, tirar do que tenho dito algumas considerações práticas.

A verdadeira Igreja do Deus vivo, composta dos santificados em Jesus Cristo, tem sido através dos séculos a coluna firmíssima da verdade revelada nas Sagradas Escrituras. A sua indefectibilidade lhe tem sido garantida peal eleição do Pai, pela intercessão do Filho seu único Chefe, e pela assistência poderosíssima do Espírito Santo, único Vigário de Cristo sobre a terra. Mas é bom lembrarmo-nos que a perpetuidade da árvore não quer dizer estabilidade perpétua do galho e muito menos das ervas parasitas que enroscam em seus galhos. A história da Igreja no tempo de Elias, a severidade de Deus para com os ramos judaicos, e, sobretudo, a solene admoestação dirigida por S. Paulo à igreja de Roma, devem trazer a salutar advertência a nós igrejas particulares de uma cidade, que constituímos os ramos, a nós organizações mais vastas, que formamos os galhos da Oliveira. Para que tenhamos direito de fazer para, aos olhos de Deus, da árvores do cristianismo, não basta conservarmos em nossos credos a ortodoxia das doutrinas; é indispensável mantermos em nossa prática a ortodoxia dos sentimentos.

“Eu tenho contra ti – diz o Senhor à igreja de Éfeso – que deixaste tua primeira caridade” (Ap 3:5). Se somos zelosos em cortar os membros que apregoam doutrinas heterodoxas, imitemos particularmente ao Senhor, dobremos esse zelo em lançar fora de nossa comunhão os que, perdendo a sua caridade, que é a vida divina da Igreja, mostram um zelo amargo, um espírito de seita, que é a morte dessa vida no seio de nossas comunidades. É no domínio da liberdade que se ostenta plenamente a índole celeste da imortal caridade. Quando outras razões não houvesse, pois, para essa diversidade exterior do cristianismo, seria razão aceitável o dar ela excelente oportunidade à tolerância evangélica, a essa virtude “que não ensoberbece, que não busca seus próprios interesses e que tudo tolera” – se há uma verdade que acima das outras deva ser mantida por essa “coluna e firmamento da verdade”, é, meus irmãos, a caridade fraternal que só pode realizar sobre a terra a concepção bíblica da Igreja. “Se amamos uns aos outros”, diz S. João, “Deus permanece em nós”. É, portanto, pelo amor da irmandade que podemos realizar a verdade de nosso texto, que nos pode constituir a “Casa de Deus”. Em face, pois, da natureza da Igreja de Deus, quase odiosa é a estreita intolerância, e abominável orgulho e egoísmo sectários, que se insurgem aqui e ali – pouco importa onde – contra a fraternidade evangélica, princípio conservador da unidade cristã! Presbiterianos, metodistas, batistas, anglicanos, congregacionalistas, mostremos na vasta República do Brasil que o regime da liberdade é a vida fecunda da Igreja Cristã; amortizemos a malevolência caluniosa de nossos inimigos, patenteando-lhes que em laço áureo, santo, indissolúvel nos une na comunhão dos dogmas essenciais do cristianismo, no seio natural da verdadeira Igreja católica e apostólica – é o vínculo da perfeição, último mandamento de Cristo, sinal distintivo de seus discípulos – é o amor intenso da irmandade, é a caridade fraterna!

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