# Á hora do crime phantasia dramatica em 1 acto a proposito do assassinato do General Prim

## Part 2

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Fé!... Sei que a sua é viva e sincera, Castellar; não ignoro quanto a patria deve á sua dedicada abnegação e ás suas profundas convicções; sou o mais enthusiastico admirador desse talento collossal, que assombra a patria, e a Europa, e o mundo; mas sou velho, e na friesa que dão os sessenta annos, e na impassibilidade filha de uma longa experiencia, vejo as cousas por um prisma tristissimo, fatal! Vejo que quando o italiano fôr o senhor d'este paiz, por mais altivo e orgulhoso que o povo hespanhol seja, o jugo ferreo do despotismo ha de vir em seguida comprimil-o nas cadeias de escravo, e a emancipação da patria ficará por isso longamente addiada, porque as hecatombes e as carnificinas hão de levar o desanimo onde hoje existe o enthusiasmo, hão de levar a indifferença onde hoje vive o amor da patria!

D. EMILIO

(_Com gesto sublime_) Basta velho! Que o ancião não pronuncie jámais em presença de correligionarios seus tão eloquentes palavras de descrença! A fé e a esperança são principios religiosos do christão, e devisa inalteravel do democrata! E christãos, e republicanos somos nós, para que aos nossos ouvidos possam chegar a descrença e o desespero, apostolados por um dos nossos! Reanima-te, nobre ancião! soldado velho da liberdade! evangelisador sincero da republica! O futuro, se não é risonho e festival, não é completamente negro e carregado de nuvens procellosas! A republica tem feito grandes conquistas no mundo! Na França opéra milagres! na Suissa dá nobres exemplos! na America offerece lição proficua! no nosso irmão e amigo Portugal cria profundas raizes! e até na propria Prussia produz phenomenos, porque ao passo que os exercitos devastadores do autocrata allemão talam os campos verdejantes da bella França, para asphyxiar a democracia, o povo de Berlim, que é povo, e que por isso é nobre, e generoso, e republicano, como todos os seus irmãos no mundo, elege para seu representante ao parlamento o chefe ostensivo do partido republicano d'Allemanha! E é n'esta conjunctura, que a voz auctorisada de um velho respeitavel ha de trazer o desalento ao espirito dos valentes campeões da democracia hespanhola?... Não, D. Ramon! O futuro é nosso! Ao triumpho completo da França, e elle ha-de vir, deve seguir-se o derrocamento dos thronos! Á emancipação do povo francez seguir-se-ha a emancipação da Europa! A derrota do tyranno allemão deve necessariamente ser o signal da queda de todos os despotas do mundo!

(_Durante esta falla tem entrado successivamente pelo fundo muitos individuos, e pela porta lateral D. Carlos, que recebe todos com cordialidade e affecto._)

TODOS

Apoiado!... Muito bem!... É assim!...

SCENA V

*Os mesmos, D. Carlos, e os recem-vindos*

D. EMILIO

(_Voltando-se para o fundo_) Eil-os, os nossos amigos! Em todos a mesma fé! Em todos a mesma esperança!

D. RAMON

(_Aos recem-chegados_) Conversavamos, eu e D. Emilio, acerca do futuro do paiz, e do obstaculo, não insuperavel, que a eleição do rei pode trazer é realisação dos nossos desejos!

D. EMILIO

Tratemos porém agora do assumpto que aqui nos traz hoje. (_A D. Ramon_) D. Ramon, occupae a presidencia, vós, que sois o mais velho. (_A D. Carlos_) E vós, D. Carlos, exporeis as rasões que vos determinaram a convocar esta reunião dos nossos amigos.

D. RAMON

(_Occupando a presidencia_) Acceito, não por vaidade; mas por condescendencia. Este logar pertence de direito ao honrado chefe do partido republicano hespanhol; que, modesto até ao extremo, nem mesmo entre os seus mais intimos e mais leaes amigos quer ser o primeiro; quando a verdade é que nenhum de nós se lhe avantaja, nem em talento, nem em virtude, nem em dedicação!

TODOS

Apoiado! Apoiado! (_D. Emilio agradece com o gesto_)

D. CARLOS

Meus senhores, o rei está a chegar, o general Prim parte esta noute para Cartagena, a fim de o acompanhar a Madrid; é mister pois que o partido republicano tome uma deliberação definitiva ácerca do procedimento que deve adoptar no dia da coroação do italiano.

UMA VOZ

Formule a sua proposta.

D. CARLOS

(_Continuando_) É o que vou fazer. Eu proponho que nós todos empreguemos os esforços possiveis, para que os nossos correligionarios madrilenos, sem excepção de um só, se apresentem vestidos de lucto pesado no dia da chegada de Amadeu a Madrid. Creio que faremos assim uma imponente manifestação, visto que imperiosas rasões partidarias obstam a que ella seja mais ruidosa e mais energica. É um protesto solemne contra a invasão ambiciosa do estrangeiro, e ao mesmo tempo um aviso ao seu espirito, que verá de certo no lucto do povo um argumento vehemente contra os que por adulação, por servilismo, por vil baixesa lhe hão de dizer no paço real, que elle inspira amor áquelles que só sentem por elle profunda indifferença, se não lhe votam do intimo d'alma rancor e odio!

D. EMILIO

Approvo a idéa; mas peço para fazer uma observação, talvez desnecessaria. A manifestação dos republicanos deve ser digna e nobre, para ser magestosa! Envidemos toda a nossa energia, ponhamos em acção toda a nossa actividade, para que nem o italiano, nem o general que o fez rei d'Hespanha, soffram sequer um insulto! Amadeu é um principe ambicioso, talvez; mas julga acceitar legalmente a corôa, por que legalmente lh'a julgou offerecer a maioria da assembléa constituinte, no erro fatal a que a levou o seu grande respeito por Prim, e o desconhecimento dos poderes limitados que lhe conferia o seu mandato! O marquez de los Castillejos, por mais fatal que fosse para a patria a sua obsecação, ou quem sabe se a difficuldade da sua posição politica, é hespanhol e liberal, foi o mais valente caudilho da revolução de Cadix, é um cidadão benemerito, é um general aguerrido, é o heroe do Mexico, de Reus, de Castillejos, de Marrocos e de Saragoça! Que um e outro sejam pois respeitados por nós! Que Amadeu, quando o povo lhe indicar imperiosamente o caminho da sua patria, não possa accusar os republicanos d'Hespanha de uma grosseria, ou de uma crueldade! Que Prim possa ser de futuro o esteio solido da republica, como tem sido mais de uma vez o sustentaculo valente da liberdade! (_Ouve-se fóra uma grande detonação._)

TODOS

(_Erguendo-se e correndo á janella_) Que é isto? Que é isto?

D. RAMON

(_Á janella_) Vejo muito povo aglomerado na esquina da rua do Turco... soldados e populares que correm para aquelle lado... e um fumo denso que é de certo produzido pelos tiros que ouvimos!

SCENA VI

*Os mesmos, Izabel e depois Pablo*

IZABEL

(_Da porta lateral, correndo_) Que é isto, meus senhores? Não ouviram uma horrivel detonação? Foi de certo um crime tremendo que acabou de se perpetrar!

ALGUMAS VOZES

Ouvimos! Ouvimos!

D. CARLOS

(_Na janella_) Lá corre um homem de bluze azul!... Toma a direcção do Prado!

PABLO

(_Do fundo. Vem precipitadamente, e hesita vendo tanta gente_) Perdão, meus senhores... não sabia...

D. EMILIO

(_Inquieto_) Falla! falla! O que aconteceu.

PABLO

Uma grande atrocidade, meus senhores!... Que tambem, verdade seja, elle tem feito morrer bastantes desgraçados, e os senhores, quem sabe? talvez que algum dia tivessem de pagar o patau n'uma morte parecida com a que elle teve!

VOZES

Mas falla... dize... o que foi?

PABLO

Ora, o que foi? O general Prim vinha do Congresso, dirigia-se ao ministerio da guerra; vae senão quando...

IZABEL

Meu Deus! O general! Não mentiram os meus presentimentos!

PABLO

(_Continuando_) Vae se não quando, o trem pára, por que a rua estava tomada por duas carruagens que a obstruiam; e palavras não eram ditas, quando um dos ajudantes do marechal deita a cabeça de fóra para vêr o que aquillo era, uns poucos d'homens disparam á queima roupa os seus trabucos para dentro da carruagem, e, por Maria Purissima! lá ficaram todos de certo com os anjinhos!

TODOS

Horror! Infamia!

IZABEL

(_Desvairada_) E Martinez... tambem ia... tambem morreu?

PABLO

Eu sei lá, menina! Eu não o vi; mas se lá ia dentro...

IZABEL

(_Desfallecendo_) Morto!... elle!... (_Desmaia; mas só Pablo lhe presta soccorro, porque os demais personagens estão preoccupados com a noticia_)

D. EMILIO

(_Em tom solemne e com sentimento_) Meus senhores, tinhamos razões de desamor, não sei se profundo; mas quero bem crer que temporario, pelo heroe que depois de affrontar mil vezes a morte, no campo aberto da batalha, e de conquistar, para si e para a patria, immarcessiveis louros, acaba de soccumbir a um tão covarde crime! Foi nosso companheiro no exilio, não chegou a comprehender os generosos intuitos do nosso partido, opôz uma barreira de ferro ás nossas aspirações democraticas; mas era hespanhol e christão, e cumpre-nos, primeiro que tudo, enviar a Deus uma prece fervente pelo repouso da sua grande alma! De joelhos, amigos, e oremos! (Joelham todos.--Martinez aparece ao fundo.)

SCENA VII

*Os mesmos e Martinez*

MARTINEZ

(_Entre a porta do fundo, maravilhado_) Que vejo!... Todos estes homens orando! Elles!... os alcunhados pedreiros livres! Elles!... os temidos hereges! Elles!... os republicanos!

D. RAMON

(_Erguendo-se_) De que te espantas, meu filho? Somos christãos, e oramos a Deus pela alma do teu general, tão infamemente assassinado!

MARTINEZ

Felizmente são orações perdidas, porque o marechal apenas se acha levemente ferido! Mas não foi perdida a scena que acabo de presenciar, o espectaculo commovente que vim surprehender! Bemdita a fatalidade que sem produzir os resultados negros a que mirava, operou a conversão espontanea de um illudido, que se deixou desvairar pela calumnia atroz dos que infamemente pretendem esmagar o credito dos republicanos! (_Abraçando D. Ramon_) Acceite no seu gremio um convertido!

D. CARLOS

Mas o general... não morreu?

IZABEL

(_Despertando_) Estas vozes... Estes rostos alegres... (_Vendo Martinez_) Tu... vivo!... (_Palpando-o_) Nem sequer foste ferido? (_A D. Ramon_) Perdão meu pae! (_Aos demais_) Desculpem, meus senhores! Martinez é meu noivo... e em poucos dias será meu marido!

MARTINEZ

Socega! Não morreu ninguem! Eu estou são; o meu general foi levemente ferido n'uma das mãos, pelos tiros d'aquelles miseraveis, e Nandin tambem tem um ferimento, que felizmente não é grave.

TODOS

Ainda bem! Ainda bem!

D. CARLOS

(_A si mesmo_) Não digo eu--ainda bem--porque sou medico. Receio bastante que a ferida seja mortal, por que sei que o ferimento produsido pela arma de fogo é quasi sempre fatal, quando o frio é intenso, como o d'estes dias tem sido.

D. EMILIO

Rendamos graças a Deus, por ter permitido que se frustrasse um tão negro crime. É que a Providencia reserva ainda de certo o general Prim, para algum grandioso commettimento em favor do seu paiz!

IZABEL

E oxalá que assim seja! Oxalá que um dia chegue, em que aquelle valente militar possa comnosco bradar:--Viva a republica!

TODOS

Viva a republica!

IZABEL

Desculpa, Mantinez! O meu coração é teu, e da idéa generosa e sublime de que estes cavalheiros são dedicados apostolos!

MARTINEZ

E de que eu começo hoje o noviciado!

IZABEL

(_Muito contente_) Converteste-te?!... Oh! é mais um presente da Providencia! Eu vol-o agradeço, meu Deus!...

D. RAMON

É um anjo, que sente como nós santo amor pela republica!

D. EMILIO

Acompanho, intimamente regosijado, as saudações angelicas da donzella innocente, que bem representa aqui a santa virgem da democracia! Mas que o nosso enthusiasmo nos não torne suspeitos de cumplicidade no crime nefando que tanto nos indignou! É mister que todos nós, em vez das projectadas manifestações de desagrado ao rei eleito, prestemos sincera homenagem ao vulto gigante, que ia sendo victima de um tão monstruoso attentado! Tão feio crime só póde ter sido perpetrado por facinoras, por miseraveis, por maus hespanhoes! Não foram de certo, não; não foram adeptos da nossa crença, religionarios convictos da nossa egreja, os que o perpetraram! Os republicanos não são covardes! Os republicanos não são vis! Os republicanos não são assassinos! As vestes alvas da democracia, a vestal que mantem o fogo sagrado da liberdade, a santa que tem por evangelho a tolerancia, a deosa que manda respeitar a vida humana, mancharam-se de sangue no Mexico, mas jámais se ennodoarão na nobre terra d'Hespanha! Amigos, protestemos todos, bem alto, contra um tal attentado! (_Signaes de approvação._)

ISABEL

(_A Martinez_)--E partirás com o general?

MATINEZ

Não; apesar de ligeiros, os ferimentos do general impedem-lhe que parta hoje.

IZABEL

Mais um favor do ceu! Permittam, meus senhores, que eu vá tocar no piano o nosso hymno patriotico, aquelle hymno de Riego, que tanto nos tem enthusiasmado nos nossos saraus commemorativos dos acontecimentos gloriosos do partido republicano! (_Inclinam-se todos--Isabel sahe pela porta lateral_).

D. EMILIO

E quem irá a Cartagena, em logar de Prim?

MARTINEZ

O almirante Topete, que cedendo ás instancias de sua alteza o Regente, acceitou a presidencia do conselho de ministros, durante o impedimento do marechal Prim.

D. CARLOS

(_Admirado_) Topete!?

D. RAMON

(_Idem_)--O chefe dos unionistas!?...

D. EMILIO

(_Com gravidade_) O hespanhol honrado, que em presença do perigo da patria sacrifica á idéa primordial da sua crença, os compromissos particulares de um corrilho! Um republicano não devia, não podia, sem deshonra, entregar a Amadeu o sceptro hespanhol; mas um montpensierista póde, sem quebra de dignidade, sental-o no throno d'Hespanha! Que mais larga idéa traduz Antonio de Orleans do que Amadeu de Saboia? Não representam um e outro o principio monarchico? Não são estrangeiros um e outro? Não ambicionavam ambos a corôa d'Hespanha? É nobre o procedimento do almirante! Queria um rei, e por isso respeitando os votos dos seus correligionarios monarchicos, cobrirá amanhã o principe contra o qual hontem votou! Nós é que não podemos cobrir nem um nem outro; supposto que tenhamos o indeclinavel dever de respeitar ambos! Nós é que não podemos senão, no campo legal que a constituição nos offerece, ou no campo leal que as circumstancias nos traçarem, velar pela conservação das liberdades que conquistámos, e propugnar pelo larguissimo desenvolvimento d'ellas! É honroso o nosso posto! É sublime a nossa missão! É de esperança o nosso futuro! Se nem o duque de Aoste, nem o duque de Montpensier representam para nós o anjo do bem, fadado por Deus para tornar a Hespanha feliz, cumpre-nos evangelisar a republica, e mesmo batalhar por ella, para que a nossa patria possa breve proclamar o codigo politico, em que reside de certo o principio da regeneração dos povos! Firmes sempre, e sempre honrados, sacrificaremos embora as vidas e as fortunas; mas jamais venderemos o coração e a consciencia. (_Ouve-se no piano o hymno de Riego. Escutam-o todos cem respeito_).

D. EMILIO

(_Continuando, com enthusiasmo_) E ao som d'aquelle hymno patriotico, e animados pelas harmonias d'aquella musica, que tem sido a companheira fiel de todas as nossas glorias modernas, de todas as nossas conquistas liberaes, bradaremos sempre:--Viva a Hespanha! Viva a liberdade! Viva a republica!

TODOS

Viva a Hespanha! Viva a liberdade! Viva a republica!

ISABEL

(_Da porta lateral--correndo_) Perdão, meus senhores! Tambem eu quero acompanhal-os nas suas saudações! Tambem eu quero soltar um brado de verdadeiro enthusiasmo!--Gloria aos martyres da França! Amisade sincera e leal ao nosso visinho Portugal, livre e independente! Viva a republica!

TODOS

Viva a republica!

(_Rompe na orchesta o hymno de Riego._)

(_Cae o pano_)

