A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta

Part 2

Chapter 23,686 wordsPublic domain

Eis o poema da minha mocidade: são os unicos versos que conservo desse tempo, em que nada neste mundo deixava para mim de respirar poesia. Se hoje me dissessem: faze um poema de quinhentos versos ácerca da Semana Sancta, eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo: entretanto eu mesmo ha nove annos realizei esse absurdo. Não é esta a primeira das minhas contradiccções, e espero em Deus, e na minha sincera consciencia, que não seja a ultima.

Quando compuz estes versos, ainda eu possuia toda a vigorosa ignorancia da juventude; ainda eu cria conceber toda a magnificencia do grande drama do christianismo, e que a minha harpa estava affinada para cantar um tal objecto. Enganava-me; a Semana Sancta do poeta não saíu semelhante á Semana Sancta da Religião. O que é esta, de feito?--Um poema representado, um drama, cuja essencia é um facto universal, o maior de todos; o que veio mudar idéas, civilisação, e destinos do genero humano inteiro. Tinha eu forças para o tractar? Não por certo; porque até hoje só houve um Klopstock; talvez só um haverá até a consummação dos seculos.

Assim, eu corri as memorias do passado, e as esperanças do fucturo; chorei sobre Jerusalem, e sobre a minha patria; subi aos ceus, e desci aos infernos; saudei o sol, e as trévas da noite; em tudo, e em toda a parte busquei inspirações, menos onde as devia buscar; por que acima da minha comprehensão estava o meu objecto--a redempção, e as suas consequencias. Foi disto justamente que eu não tractei; e era disto que eu devia tractar, se o podesse ou soubesse fazer.

Porque, pois, não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fogueira! Porque publíco um poema falho na mesmissima essencia da sua concepção!

Porque tenho a consciencia de que ha ahi poesia; e porque não ha poeta, que, tendo essa consciencia, consinta de bom grado em deixar nas trévas o fructo das suas vigilias.

[Pag. 9.]

_A loucura da Cruz não morreu toda_

"Verbum enim Crucis pereuntibus quidem stultitia est".

_Paul. Ad Corinth. 1.--1._

[Pag. 15.]

_ignoto vate_ _Teceu_

Ainda que os Psalmos se attribuam geralmente a David, ha ácerca disso muita incertesa, e o que, ao menos, parece indubitavel é que alguns lhe não pertencem, por fallarem no captiveiro de Babylonia, e trazerem allusões a épochas mais recentes. Verdade é que se chegou a crer heretica semelhante opinião; mas os Padres gregos, e com elles Sancto Hilario, e S. Jeronymo, julgam absurdo attribui-los todos a David. Esdras voltando do captiveiro foi quem reuniu estes hymnos, e nessa collecção é provavel fizesse entrar todas os poesias hebraicas deste genero lyrico e religioso.

[Pag. 16.]

_E ao esconder-se o sol entre as montanhas De Bethoron_

Bethoron inferior, cidade situada perto de Gadara ou Gazara e de Bethel, e todas ellas em uma serie de montanhas no extremo da Tribu de Ephraim, ao occidente de Jerusalem. Cumpre não a confundir com a outra Bethoron ou Bethra, a quatro milhas de Jerusalem para o norte, no caminho de Sichem ou Naplusa.

[Pag. 16.]

_O Psalmo._

Commota est, et contremuit terra: fundamenta montium conturbata sunt, et commota sunt, quoniam iratus est eis.

Ascendit fumus in ira ejus: et ignis à facie ejus exarsit: carbones succensi sunt ab eo.

Inclinavit coelos et descendit: et caligo sub pedibus ejus.

Et ascendit super cherubim, et volavit: volavit super pennas ventorum.

_Psalm. 17--v. 8--9--10--11._

Quò ibo a spiritu tuo? et quò à facie tua figiam?--

Si ascendero in coelum, tu illic es: si descendero in infernum, ades.

Si sumpsero pennas meas diluculo, et habitavero in extremis maris:

Etenim illuc manus tua deducet me: et tenebit me dextera tua.

Et dixi: Forsitan tenebrae conculcabunt me: et nox illuminatio mea in deliciis meis.

Quia tenebrae non obscurabuntur a te, et nox sicut dies illuminabitur: sicut tenebrae ejus, sicut et lumen ejus.

_Psalm. 138--v. 7--8--9--10--11--12._

arcum suum tetendit et paravit illum.

Et in eo paravit vasa mortis, sagittas suas ardentibus effecit.

_Psalm. 7--v. 13--14._

[Pag. 18.]

_------ e um som soturno Do orgam partiu-o:_

O orgam é um instrumento propriissimo para acompanhar os hymnos religiosos. Os protestantes, apartando-se da communhão romana, e fazendo voltar o culto quasi á simplicidade primitiva, conservaram nos seus templos este instrumento, cujos sons melodiosos, e ao mesmo tempo severos, se adaptam tão bem ás idéas que suscitam os cantos da Igreja. O primeiro orgam, que se viu no occidente da Europa, foi o que mandou, em 758, Constantino Copronymo, imperador de Constantinopola, a Pepino, pae de Carlos-Magno. Depois o seu uso se tomou quasi exclusivo nos templos.

[Pag. 18.]

_Modulando o Nebel_

O _Nebel_, que os gregos traduzem por _Psalterion_ ou _Nablon_, era entre os hebreus um instrumento proprio da musica religiosa, como entre os christãos o orgam. A sua fórma triangular, e o ser instrumento de cordas, fez com que na Vulgata se vertesse a palavra hebraica _Nebel_, umas vezes por lyra, outras por cythara, sem ser nenhuma das duas cousas. Veja-se a Dissertação de Calmet ácerca da musica dos hebreus.

[Pag. 18.]

_Do immundo Stellio_

O Stellio é o lagarto da 1.ª especie, ou a salamandra de Lacepede. _Stellio_ manibus nititur et moratur in aedibus regis. _Prov. 30 v. 28_--Migale, et chamaeleon, et _stellio_, et lacerta, et talpa. _Levit. 11--v. 30._

[Pag. 19.]

_Nas margens do Kedron a rãa grasnando_

A torrente de _Kedron_, que passa entre Jerusalem e o monte Olivete, ao oriente da cidade, sécca inteiramente no estio, e no hynverno as suas aguas são torvas e avermelhadas. D'ahi o seu nome, que sôa como--_torrente da tristeza_--. Alguem lhe chamou--_torrente dos cedros_, tomando a palavra hebraica _Kedron_ pelo plural grego _Kedron_.

[Pag. 19.]

_O vate de Anathoth_

Jeremias era natural de Anathoth cidade sacerdotal na Tribu de Benjamim.--Verba Jeremiae filii Helciae, de sacerdotibus qui fuerunt in Anathoth, in terra Benjamim. _Jer. 1--1._

[Pag. 19.]

_Entre o povo infiel, de Eloha em nome_

_Eloha_ ou _Elah_--Nome de Deus em hebraico, ou antes chaldaico, e palavra assás commum na Biblia. O auctor do Genesis usa do plural _Elohim_ ou _Elahim_ para significar, ora o _Deus uno_, ora os deuses dos pagãos. Consulte-se Volney, _Recherches sur l'histoire ancienne._ Cap. 17.

[Pag. 19.]

_Inspirára Moysés_

Allusão ao cantico depois da passagem do mar roxo.

[Pag. 20.]

_A Lamentação._

Quomodo sedet sola civitas plena populo!--Facta est quasi vidua Domina Gentium: princeps provinciarum facta est sub tributo.

Plorans ploravit in nocte, et lachrymae ejus in maxillis ejus: non est qui consoletur eam ex omnibus caris ejus: omnes amici ejus spreverunt eam, et facti sunt ei inimii.

Viae Sion lugent, eò quod non sint, qui veniant ad solemnitatem: omnes portae ejus destructae: sacerdotes ejus gementes: virgines ejus squallidae, et ipsa oppressa amaritudine.

_Threni c. 1--v. 1--2--4._

Omnis populus ejus gemens, et quaerens panem: dederunt pretiosa quaeque piro cibo ad refocilandum animam.

_C. 1--v. 11._

A Egypto dedimus manum, et Assyriis ut saturaremur pane.

_Oratio Jerem. 6._

Jacuerunt in terra foris puer, et senex.

_Threni c.--v. 21._

Manus mulierum misericordium coxerunt filios suos: facti sunt cibus earum in contritione filiae populi mei.

_Thren. 4.--v. 10._

Recordare Domine quid acciderit nobis: intuere et respice opprobrium nostrum.

Haereditas nostra versa est ad alienos; domus nostrae ad extraneos.

Servi dominati sunt nostri: non fuit qui redimeret de manu eorum.

Quare in perpetuum oblivisceris noatri? derelinques nos in longitudine dierum?

_Orat. Jer. v. 1--2--8--10._

[Pag. 22.]

_Bem como aquella que atterrou um ímpio._

Baltasar rex facit grande convivium optimatibus suis mille; et unusquisque secundùm suam bibebat aetatem.

Praecepit ergo jam temulentus ut afferrentur vasa aurea et argentea, quae asportaverat Nabuchodonosor pater ejus de templo, quod fuit in Jerusalem, ut biberent in eis rex et optimates ejus, uxoresque ejus, et concubinae. Tunc allata sunt vasa aurea et argentea, quae asportaverat de templo, quod fuerat in Jerusalem: et biberunt in eis rex, et optimates ejus, uxores et concubinae illius. Bibebant vinum el laudabant deos suos aureos, et argenteos, aereos, terreos, ligneosque et lapideos. In eadem hora aparuerunt digiti, quasi manus hominis scribentis contra candelabrum in superficie parietis aulae regiae: et rex aspiciebat articulos manus scribentis. Tunc facies regis commutata est, et cogitationes ejus conturbabant eum; et compages renum ejus solvebantur, et genua ejus ad se invicem collidebantur. Haec est autem scriptura, quae digesta est: _Mane_, _Thecel_, _Phares_. Et haec est interpretatio sermonis: _Mane_: numeravit Deus regnum tuum et complevit illud. _Thecel_: appensus es in statera, et inventus es minus habens. _Phares_: divisum est regnum tuum, et datum est Medis, et Persis.

_Danielis Proph. c. 5--v. 1 a 6--25 a 28._

[Pag. 23.]

_Hoje, campo de lagrymas, só cria Humilde musgo de escalvados cerros._

Varios passos, cem vezes citados, de Tacito e de outros escriptores gravissimos da antiguidade, nos provam que a Judea foi um paiz feracissimo. Os viajantes modernos no-la descrevem como uma região arida e inculta. O despotismo, que ha seculos tem opprimido a Syria, e a rapacidade dos arabes; são em grande parte causa da aniquilação da agricultura na Palestina; porém a sua esterilidade não se póde attribuir, por certo, a uma causa politica. Os sectarios do Crucificado não podem deixar de vêr neste phenomeno os effeitos da maldicção de Deus sobre a terra que bebeu o sangue do _Filho do Homem_.

[Pag. 23.]

_Ide vós a Mambré:_

O valle de Mambré estava situado juncto de Kariath-Arbé [Hebron] na tribu de Judah, e ao Meio-dia de Jerusalem. O carvalho ou terebintho de Abrahão, que, segundo o testemunho de S. Jeronymo, ainda existia no tempo de Constantino, o tornava notavel. Ácerca desta arvore célebre existem muitas tradições entre os Judeus; e até para os christãos dos primeiros seculos era o valle de Mambré um logar de devoção e romagem. Sozomeno nos descreve o _Valle de Terebintho_ como um sitio de festivas reuniões, e foi a sua narração quem suscitou este pedaço de Poema.

[Pag. 23.]

_na primavera Vinham os moços adornar-lhe o tronco_

Aqui [em Mambré] ha um logar que hoje chamam Terebintho, distante de Chebron, que lhe fica ao meio-dia, 15 stadios, e de Jerusalém quasi 250.--Os habitantes deste sitio, no tempo do estio, fazem uma feira a que concorrem os vizinhos do valle, e ainda povos mais remotos, como os Palestinos, os Arabes, e os Phenicios. _Sozom. Histor. Eccles._

[Pag. 24.]

_No Golgotha plantada a cruz clamára_

O monte Golgotha ou Calvario foi o logar onde crucificaram J. C.--Esta palavra significa: _Logar onde repousam os craneos dos mortos._

[Pag. 24.]

_No Moriah sentou-se:_

O monte Moriah, onde estava o templo de Salomão, levantava-se no meio de Jerusalem, e ficava-lhe ao norte o monte Sion. Diz-se que neste logar estivera Abrahão para sacrificar seu filho.--_Calmet Diction._

A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.

SEGUNDA SERIE.

LISBOA--1838

NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.

_Rua direita do Arsenal--n.º 55._

*A Arrabida.*

A RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES,

ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,

_Em testemunho da sincera amizade,_

Offerece o Auctor.

A Arrabida.

[1830.]

I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! Salve, oh terra de paz, deserto sancto, Onde não chega o sussurrar das turbas! Sólo sagrado a Deus, podesse o bardo Ser um dos teus, e não voltar ao mundo!

II.

Suspira o vento no alamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra Nos rochedos da concava bahia: Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro, Insondado oceano, e o ceu ceruleo Se abraçam no horizonte: immensa imagem Da eternidade e do infinito, salve!

III.

Oh, como surge magestosa e bella, Com viço da creação, a naturesa, No solitario valle!--E o leve insecto, E a relva, e os matos, e a fragrancia pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os ha lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconda o justo.

E lá campeam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que é sancto: Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o ultimo abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes.

Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o clarão; a brisa esvae-se Por esses matos de alecrim florído, Embalsamando o ar de brando aroma: O rocío da noite á rosa agreste No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dará um dia!

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que verdecem, Ricas d'encantos, co'a estação propicia; Suavissimo aroma, que manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ares, És digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vós filhas da espessura, Que só teceis da natureza os hymnos; O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixões e opprobrio, E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma só vez pura saudar-lha.

Comvosco eu sou maior: mais longe a mente Pelos seios dos céus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solidão solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro.

V.

Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruina ás matas de alecrim e murta, Que nesta encosta ondeam, meneadas Pelo vento do sul, foste já lindo, Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A tua formosura: as grossas chuvas, Despedidas das nuvens, se arrojaram Sobre ti, oh rochedo, arrebatando A terra e o viço, que te ornava o cimo. Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te: Tua alvura passou: tão negro és hoje, Quanto de mar erguido escuras vagas.

Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o ceu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te Do vasto dorso, o fundo deste valle Te váe servir de tumulo: e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os freixos, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te: E tu, ora medonho, e nú, e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre.

Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle Dos tumulos cair; quando uma pedra Os ossos me esmagar, se me fôr dada, Não mais reviverei: não mais meus olhos Verão o pôr do sol, em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Váe provar que um Deus ha a estranhos povos, E alem das ondas tremulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Nem mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.

VI.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, então quêdas, do oceano, Eu tambem o louvei, sem ser um justo: E meditei--e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas.

Como abraço materno, era suave A aragem fresca do caír das trévas, Em quanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. Tudo calado estava: o mar somente As harmonias da creação soltava, Em seu rugido; e o freixo do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos O pranto me correu, sem que o sentisse, E aos pés de Deus se derramou minha alma.

VII.

Oh, que viesse o que não crê, comigo, Á vecejante Arrabida, de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povoa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:--elle chorára, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vão orgulho.

VIII.

É aqui neste valle, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado: aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte.

Essas penhas, que, lá no alto da encosta, Negras, despidas, dormem solitarias, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico, e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante á paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas serranias, É o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz o céu e a terra.

Como tu vens cercado de esperança, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso recúa horrorisado: Após si volve os olhos; na existencia Deserto árido só descobre ao longe, Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo chegando á meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueou na terra, Sem encontrar um coração de fogo, Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondêra a inveja, Elle não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, Ao pé da sepultura, é som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saborea, Entre os braços, da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro: Em vão o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Rega de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria, E para sempre as flores se murcharam,

IX.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma, Aspirando o futuro além da vida, E um halito dos ceus, gemer, atada Á columna do exilio, a que se chama, Em lingua vil e mentirosa, o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no coração, bem juncto Com minha fé, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada, por mão do homem, Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro, E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano, é livre no ermo A bonina rasteira, e o freixo altivo: Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças: Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou; se a flor pendida murcha, É que o rocio não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Ceu livre, terra livre, e livre a mente, Paz íntima, e saudade, mas saudade Que não doe, que não mirra, e que consola São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram.

Ahi, na branda encosta, hontem de noite, Alvejava por entre as azinheiras Do solitario a habitação tranquilla: E eu vagueei por lá: patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança, Sob as azas de Deus, á luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos, Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia!--A leve aragem lhe ondeava As raras cãas na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo atravez passava um raio Da lua--astro de paz, astro que chama Os olhos para o ceu, e a Deus a mente-- E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades;

Comparei o deserto silencioso Ao perpétuo ruido que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortesão suberbo, que só cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldicções e perennal remorso. Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva, Ao som do choro da viuva, e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens--seus irmãos--flagella e opprime. Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar, para traga-lo, Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagem de marmore, que esconde O cadaver do grande, é mais duravel Do que esse chão sem inscripção, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos pés do throno Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.

X.

Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixões, e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeando Os theatros, e os paços, e o ruido Das carroças dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os praseres de uma vida Tempestuosa, e o tropear contínuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortesão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadaver putrido!--Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, Honra, infamia, pudor, e impudicicia, Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria Da humanidade?--O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas á rua, á praça, ao templo, Que a noite sorve, e que vomita o dia, Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixesa extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram; E depois sobre o nada adormecendo.