A Harpa Do Crente Tentativas Poeticas Pelo Auctor Da Voz Do Pro
Chapter 4
Sibilla o vento:--os torreões de nuvens Pesam nos densos ares: Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas Pela extensão dos mares: A immensa vaga ao longe vem correndo, Em seu terror involta; E, d'entre as sombras, rapidas centelhas A tompestade sólta. Do sol, no occaso, um raio derradeiro, Que, apenas fulge, morre, Escapa á nuvem, que, appressada e espessa, Para apaga-lo corre. Tal nos affaga em sonhos a esperança, Ao despontar do dia, Mas, no acordar, lá vem a consciencia Dizer que ella mentia.
As ondas negro-azues se conglobaram; Serras tornadas são, Contra as quaes outras serras, que se arqueam, Bater, partir-se vão.
Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume, Da naturesa açoite! Tu guias os bulcões, do mar princesa; E é teu vestido a noite! Quando no pinheiral, entre o granizo, Ao sussurrar das ramas, Vibrando sustos, pavorosa ruges, E assolação derramas, Quem porfiar comtigo, então, ousara Da gloria e poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro, Turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu, por balouçar-me Das nuvens nos castellos, E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados Os rebatidos élos! Eu rodeára, então, o globo inteiro: Eu sublevára as aguas: Eu dos volcões, com raios accendêra Amortecidas fráguas: Do robusto carvalho e sobro antigo Accurvaria as frontes; Com furacões, os areaes da Lybia Converteria em montes: Pelo fulgor da lua, lá do norte No polo me assentára, E víra prolongar-se o gelo eterno, Que o tempo amontoára. Alli eu solitario, eu rei da morte, Erguêra meu clamor, E dissera: sou livre, e tenho imperio: Aqui, sou eu senhor!
Quem se poderá erguer, como estas vagas, Em turbilhões incertos; E correr, e correr--troando ao longe-- Nos liquidos desertos! Mas entre membros de lodoso barro A mente presa está!.... Ergue-se em vão aos céus:--precipitada, Rapido, em baixo dá.
Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas, Entre escarceus erguidos, Que eu te invoco, pedindo-te feneçam Meus dias aborridos: Quebra duras prisões, que a naturesa Lançou a esta alma ardente; Que ella possa voar, por entre os orbes, Aos pés do Omnipotente: Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem Desça, e estourando a esmague; E a grossa proa, dos tufões ludibrio, Solta, sem rumo vague!
Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam O somno do existir: Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças Nas trévas do porvir. Dôce mãe do repouso--extremo abrigo De um coração oppresso-- Que ao ligeiro prazer, á dor cançada Negas no seio accesso, Não despertes--oh não--os que abominam Teu amoroso aspeito; Febricitantes, que se abraçam, loucos, Com seu dorido leito! Tu, que ao misero ris com rir tão meigo, Calumniada morte; Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo Contra o furor da sorte; Tu que esperas ás portas dos senhores; Do servo ao limiar; E eterna corres, peregrina, a terra, E as solidões do mar, Deixa, deixa sonhar ventura os homens; Já filhos teus nasceram: Um dia acordarão desses delirios, Que tão gratos lhes eram. E eu, que vélo na vida,--e já não sonho, Nem gloria, nem ventura; Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes, O calis da amargura; Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo, Morrer sentindo inspirações de bardo, Do coração no fundo; Sem achar sobre a terra uma harmonia De alma, que a minha entenda; Porque seguir, curvado ante a desgraça, Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa Fragor da tempestade; Psalmo de mortos, que retumba ao longe; Grito da eternidade!....
Pensamento infernal!--Fugir cobarde Ante o destino iroso? Lançar-me, involto em maldicções celestes, No abysmo tormentoso? Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me Nas lagrymas da terra; Guardarei minha estancia attribulada, Com meu desejo em guerra. O fiel guardador terá seu premio, O seu repouso, em fim; E atalaiar o sol de um dia extremo Virá outro apoz mim. Herdarei o morrer!--Como é suave Benção de pae querido, Será o despertar; vêr meu cadaver, Vêr o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda Ao pobre velador: Deus lhe deixou, nas trévas da existencia, Doce amisade e amor. Tudo o mais é Sepulchro, branqueado Por embusteira mão; Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem Remorso ao coração. Passarei minha noite a luz tão meiga, Até o amanhecer; Até que suba á patria do repouso, Onde não ha morrer.
_A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Março de 1853._
*O Soldado.*
O Soldado.
I.
Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio: Dos campos, que elle rega, Mansissimo armentio:
Rocío matutino: Prados tao deleitosos: Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos:
Terra da minha infancia: Tecto de meus maiores: Meu breve jardimzinho: Minhas pendidas flores:
Harmonioso e sancto Sino do presbyterio: Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio,
Onde os avós dormiram, E dormirão os paes; Onde eu talvez não durma, Nem rese, talvez, mais:
Eu vos saúdo!--E o longo Suspiro amargurado Vos mando.--É quanto póde Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vós já fiz soar Meus cantos dolorosos.
Na proa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que só minora Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e cresce, Quando é tranquillo o mar; Quando da Patria o céu Céu puro vem lembrar,
Quando, lá no occidente, A nuvem vaporosa A frouxa luz da tarde Tinge de côr de rosa;
Quando, qual globo em brasa, O sol vermelho crece, E paira sobre as aguas, E em fim desapparece;
Quando no mar se estende Manto de negro dó; Quando ao quebrar do vento, Noite e silencio é só;
Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em torno a sombra aclara.
II.
Eu já ouvi, de noite, No pinheiral fechado, Um fremito soturno Passando o vento irado:
Assim o murmurio Do mar, fervendo á prôa, Com o gemer do afflicto, Sumido, accorde soa:
E o scintillar das aguas Gera amargura e dôr, Qual lampada, que pende No templo do Senhor,
Lá pela madrugada, Se o oleo lhe escacêa, E a espaços expirando, Affrouxa e bruxulêa.
III.
Bem abundante messe De pranto, e de saudade, O foragido errante Colhe na soledade!
Para o que a patria perde É o universo mudo; Nada lhe ri na vida; Móra o fastio em tudo;
No meio das procellas; Na calma do oceano; No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno;
E no entestar co'a terra Por abrigado esteiro; E no pousar á sombra Do tecto do estrangeiro.
E essas memorias tristes Minha alma laceraram; E a senda da existencia Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trévas do futuro:
Do meu paiz querido A praia ainda beijei; E o velho castanheiro No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso; E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperança vinham Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta Se passa, e não conforta? Minh'alma deu em terra, Como se fosse morta,
Foi a esperança nuvem, Que o vento some á tarde. Facho de guerra acceso Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva Irmão a irmão lançára; E o grito: _ai do vencido!_ Nos montes retumbára.
As armas se hão cruzado: O pó mordeu o forte: Caiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou; E o adro do estrangeiro Seus ossos não tragou.
Elle herdará, ao menos, Aos seus honrado nome: Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome.
IV.
E a balla sibillando, E o trom da artilharia, E a tuba clamorosa, Que os peitos accendia;
E as ameaças torvas, E os gritos de furor, E desses, que expiravam, Som cavo de estertor;
E as pragas do vencido, Do vencedor o insulto, E a palidez do morto, Nu, sanguento, insepulto,
Eram um cháos de dores, Em convulsão horrivel, Sonho de accesa febre, Scena tremenda e incrivel!
E suspirei:--nos olhos Me borbulhava o pranto; E a dor, que trasbordava, Pediu-me infernal canto.
Oh, sim!--maldisse o instante, Em que buscar viera, Por entre as tempestades, A terra em que nascêra.
Que é, em fraternas lides, Um canto de victoria? É um prazer mesquinho; É triumphar sem gloria.
Maldicto era o triumpho, Que rodeava o horror, Que me tingia tudo De sanguinosa côr!
Então olhei saudoso Para o sonoro mar; Da nau do vagabundo Meigo me riu o arfar.
De desespero um brado Soltou, impio, o poeta. Perdão!--chegára o misero Da desventura á meta.
V.
Terra infame!--de servos aprisco, Mais chamar-me teu filho não sei: Desterrado, mendigo serei; De outra terra meus ossos serão!
Mas a escravo, que pugna por ferros, Que herdará só maldicta memoria, Renegando da terra sem gloria, Nunca mais darei nome de irmão!
Largo o mundo ahi 'stá ante o livre; Que este mundo é a patria do forte: Sobre os plainos gelados do norte, Luz do sol tambem mana do céu:
Tambem lá se erguem montes, e o prado De boninas, em maio, se veste; Tambem lá se menêa um cypreste Sobre o corpo que á terra desceu!
Que me importa o carvalho da encosta? Que me importa da fonte o ruido? Que me importa o saudoso gemido Da rollinha sedenta de amor?
Que me importam outeiros cubertos Da verdura da vinha, no estio? Que me importa o remanso do rio, E, na calma, da selva o frescor?
Que me importa o perfume dos campos, Quando passa de tarde a bafagem, Que se embebe, na sua passagem, Na fragrancia da flor do alecrim?
Que me importa? Pergunta do inferno! É meu berço!--A minh'alma está lá! Que me importa?.... esta boca o dirá?! Maldicção, maldicção sobre mim!
Combatamos!--O ferro se cruze, Assobie o pelouro nos ares; Estes campos convertam-se em mares, Onde o sangue se possa beber!
Larga a valla!--que, apoz a peleja, Nós e elles seremos unidos! Lá, vingados, e do odio esquecidos, Paz faremos.... depois do morrer!
VI.
Assim, entre amarguras, Me delirava a mente!-- E o sol ía fugindo No termo do occidente.
E os fortes lá jaziam Co'a face ao céu voltada; Sorria a noite aos mortos, Passando socegada.
Porém, a noite delles Não era a que passava! Na eternidade a sua Corria, e não findava.
Contrarios ainda ha pouco, Irmãos em fim lá eram! O seu thesouro de odio, Mordendo o pó, cederam.
No limiar da morte, Assim tudo fenece! Inimisades callam, E até o amor esquece!
Meus dias rodeados Foram de amor outr'ora; E nem um vão suspiro Terei, morrendo, agora:
Nem o apertar da dextra Ao desprender da vida: Nem lagryma fraterna Sobre a feral jazida.
Meu derradeiro alento Não colherão os meus? Por minha alma atterrada Quem pedirá a Deus?
Ninguem!--Aos pés o servo Meus restos calcará; E o riso do despreso Vaidoso soltará.
O sino luctuoso, Não lembrará meu fim: Preces, que o morto affagam, Não se erguerão por mim!
O filho dos desertos, O lobo carniceiro Ha-de escutar alegre Meu grito derradeiro!
Oh morte!--o somno teu Só é somno mais largo: Porém, na juventude, É o dormi-lo amargo.
Quando na vida nasce Essa mimosa flor, Como a cecem suave, Delicioso amor:
Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria: Quando o presente é tudo, É inda nada a memoria;
Deixar a cara vida, Então, é doloroso; E o moribundo á terra Lança um olhar saudoso.
A taça da existencia No fundo fezes tem; Mas os primeiros tragos Doces--bem doces--vem.
E eu morrerei agora, Sem abraçar os meus, Sem jubiloso um hymno Alevantar aos céus?
Morrer!--E isso que importa? Final suspiro, ouvi-lo Ha-de a patria. Na terra Eu dormirei tranquillo.
Dormir?--Só dorme o frio Cadaver, que não sente; A alma vôa, e se abriga Aos pés do Omnipotente.
Tambem eu para o throno Accorrerei do Eterno: Crimes não são meu dote; Erros não pune o inferno.
E vós entes queridos, Entes que tanto amei, Dando-vos liberdade Contente acabarei.
Por mim livres chorar Vós podereis um dia, E ás cinzas do soldado Erguer memoria pia.
_Porto--Julho de 1832._
*D. Pedro.*
D. Pedro.
Pela encosta do Libano, rugindo, O nóto furioso Passou um dia, arremessando á terra O cedro mais frondoso; Assim te sacudiu da morte o sopro Do carro da victoria, Quando, ebrio de esperanças, tu sorrias, Filho caro da gloria. Se, depois de procella em mar de escolhos, A combatida nave Vê terra e o vento abranda, o porto aferra, Com jubilo suave. Tambem tu demandaste o céu sereno, Depois de uma ardua lida: Deus te chamou:--o premio recebeste Dos meritos da vida. Que é esta? Um ermo de espinhaes cortado, D'onde foge o prazer: Para o justo ella existe além da campa: Teme o ímpio o morrer.
Plante-se a acacia, o symbolo do livre, Juncto ás cinzas do forte: Elle foi rei--e combateu tyrannos-- Chorae, chorae-lhe a morte! Regada pelas lagrymas de um povo, A planta crescerá; E á sombra della a fronte do guerreiro Placida pousará. Essa fronte das ballas respeitada, Agora a traga o pó: Do valente, do bom, do nosso Amigo Restam memorias só; Mas estas, entre nós, com a saudade Perennes viverão, Em quanto, á voz de patria e liberdade, Ancear um coração. Nas orgias de Roma, a prostituta, Folga, vil oppressor: Folga com os hypocritas do Tibre; Morreu teu vencedor. Involto em maldicções, em susto, em crimes Fugiste, desgraçado: Elle, subindo ao céu, ouviu só queixas, E um choro não comprado: Encostado na borda do sepulchro, O olhar atraz volveu, As suas obras contemplou passadas, E em paz adormeceu: Os teus dias tambem serão contados, Covarde foragido; Mas será de remorso tardo e inutil Teu ultimo gemido: Do passamento o calis lhe adoçaram Uma filha, uma esposa: Quem, tigre cru, te cercará o leito, N'essa hora pavorosa? Deus, tu és bom:--e o virtuoso em breve Chamas ao goso eterno, E o ímpio deixas saciar de crimes, Para o sumir no inferno? Alma gentil, que assim nos has deixado, Entregues á alta dôr, Anjo das préces nos serás, perante O throno do Senhor: E quando, cá na terra, o poderoso As Leis aos pés calcar, Juncto do teu sepulchro irá o oppresso Seus males deplorar; Assim, no Oriente, de Alboquerque ás cinzas O desvalido indiano Mais de uma vez foi demandar vingança De um despota inhumano.
Mas quem ousára á patria tua e nossa Curvar nobre cerviz? Quem roubará ao lusitano povo Um povo ser feliz?
Ninguem! Por tua gloria os teus soldados Juram livres viver. Ai do tyranno que primeiro ousasse Do voto escarnecer! N'esse abraço final, que nos legaste, Legaste o genio teu: Aqui--no coração--nós o guardámos; Teu genio não morreu. Jaz em paz: essa terra, que te esconde, O monstro abominado Só pisará ao baquear sobre ella Teu ultimo soldado.
Eu tambem combati:--nas patrias lides Tambem colhi um louro: O prantear o Companheiro extincto Não me será desdouro. Para o Sol do Oriente outros se voltem, Calor e luz buscando: Que eu pelo bello Sol, que jaz no occaso, Cá ficarei chorando.
_Porto--Novembro de 1834._
End of Project Gutenberg's A Harpa do Crente, by Alexandre Herculano