A Harpa Do Crente Tentativas Poeticas Pelo Auctor Da Voz Do Pro
Chapter 3
Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos, nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre é o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente, Em seus terrores, o senhor das turbas. Passae depois. Se a mão da Providencia Esmigalhou a fronte á tyrannia; Se o déspota caíu, e está deitado No lodaçal da sua infamia, a turba Lá vai buscar o sceptro dos terrores, E diz--é meu--; e assenta-se na praça; E involta em roto manto, e julga e reina. Se um ímpio, então, na affogueada boca De volcão popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sobe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolação; e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos, Cava fundo da Patria a sepultura, Onde, abraçando a gloria do passado E do futuro a ultima esperança, As esmaga comsigo, e ri morrendo.
Tal és cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder:--sentina impura Da corrupção, eu não serei teu bardo!
XI.
Cantor da solidão, eu me hei sentado Juncto do verde cespede do valle; E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do ceu, por este sitio, De virtudes depois tão rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compuncção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que espirando perdoava, o Justo Que entre os humanos não achou piedade.
Religião! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, Tu consolas aquelle, que ouve o verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia á meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagem tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo.
Eremiterio antigo, oh se podesses Dos annos que lá vão contar a historia; Se ora, á voz do cantor, possivel fosse Transsudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis, Broncas pedras, fallar, o que dirieis!
Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da magoa, ou do remorso as longas noites! Aqui veio talvez buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trévas do infortunio: Aqui, talvez, gemeu o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero: aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram Suas vestes mortaes, nenhum vestigio Resta dos nomes seus.--E isso que importa, Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes Elle contou, para as pagar com gloria?
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda, Que dos montes além conduz ao valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida, em mar de escolhos: Ao christão infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe: a patria tua É lá no ceu:--abraça-te comigo: Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dôr, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança Vem derramar seu coração afflicto: É do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio.
XII.
Feliz da terra, os monges não maldigas; Do que em Deus confiou não escarneças!-- Folgando segue a trilha, que ha juncado, Para teus pés, de flores a fortuna, E sobre a morta crença, em paz descança. Que mal te faz, que goso vae roubar-te O que ensanguenta os pés nas bravas urzes, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma oração erguida, Nas solidões, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos céus, só Deus escuta? Oh, não insultes lagryimas alheias, E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam--rasga-os. Teus menestreis te venderão seus hymnos, Nos banquetes opiparos, em quanto O negro pão repartirá comigo, Seu trovador, o pobre anachoreta, Que não te inveja as ditas, como aos bardos Do prazer dissoluto eu não invejo Essas crôas, que ás vezes cingem frontes, Onde, por baixo, se escreveu--_Infamia!_--
*A Voz.*
A Voz.
É tão suave ess'hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia;
Se em alcantís marinhos Nas rochas assentado, O trovador medita, Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa Co' a vespertina brisa, E no casal da serra A luz já se divisa.
E tudo em roda cala, Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso, Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta Nos desvarios seus; E nessa paz que o cerca Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente;
E sóbe, e cresce, e immensa, Nos ceus negra fluctua, E o vento das procellas Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor: Do vagalhão nas ribas Expira o vão furor.
E do poeta a fronte Cubriu véu de tristesa: Partiu-se á luz do raio Seu hymno á naturesa.
Feia alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa, Que triumphava em fim: Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim:
"Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas;
E o fremito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga;
Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem, É do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno Em dia de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas, Quando se turba o mar: No Deus, que é pae, confia, Do raio ao scintilar.
Elle o mandou:--a causa Disso o universo ignora-- E mudo está:--seu nume, Como o universo, adora!"
* * * * *
Oh sim: torva blasphemia Não manchará seu canto! Brama procella embora; Pese sobre elle o espanto;
Que de su' harpa os hymnos Derramará o bardo, Aos pés de Deus, qual oleo De recendente nardo.
_Leça da Palmeira 1835_
*A Victoria e a Piedade.*
A Victoria e a Piedade.
Eu nunca fiz soar meu canto humilde Nos paços dos senhores: Eu jámais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se Á porta do abastado, O qual com ouro paga a alhêa infamia, O cantico aviltado. O filho das canções, da gloria o bardo Não manchou o alaude; O ingenho seu ha consagrado á Patria; Seu canto é da virtude. Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste Nos dias de afflicção, Qual solto vento em areal deserto, Livres teus cantos são. No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente: Pela terra natal, na flor dos dias, Eu suspirei ausente. O solo do desterro, ah, quanto ingrato É para o foragido; Ennevoado o ceu; arido o prado; O rio adormecido! Eu lá chorei, na idade da esperança, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu;--e antes de tempo Ergueu hymnos á morte. E que infeliz ha hi, a quem não ria Da sepultura a imagem? Alli é que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem.
Mas, quando o pranto me queimava as faces, O pranto da saudade, Deus escutou dos profugos as preces, Teve de nós piedade. Armas!--bradaram do desterro os filhos: Bem-disse-os o Senhor: E vencer ou morrer juncto com elles Jurou o trovador. Pelas vagas do mar correndo affoutos, Á gloria nos votámos; E, nos campos nataes, pendão invicto Os livres, nós, plantámos. Fanatismo, ignorancia, odio fraterno; De fogo céus toldados; A fome, a peste, o mar avaro, as hostes De innumeros soldados; Um futuro sem raio de esperança; Ouvir o vão lamento De infante, a vida incerta conduzido Por mão do soffrimento; Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo Em regelado inverno; Eis contra o que, por mezes de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas constancia e valor tudo ha vencido: Ganhou-se eterna gloria; E dos tyrannos apesar, colhemos Os louros da victoria.
Teça-se, pois, o cantico subido Aos fortes vencedores. Livres somos!--Sumiram-se qual fumo Da Patria os oppressores. Sobre essa encosta, sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou, por mais de um anno, Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; Pedir inspirações A amiga noite, o genio que me ensina Suavissimas canções.
Reina em silencio a lua, o mar não brame, Os ventos nem bafejam..... Mas que ossadas são estas, que na encosta, Aqui e alli, alvejam? Esses?--São ossos vís, que não resguarda O sussurrar da gloria; Herdeiros só das maldicções das gentes, Das maldicções da historia: São os restos dos homens, que luctaram, Valentes no seu crime, Contra nós, contra a mão da Providencia, Que os maus derruba e opprime. Mas quem porá padrão que aos evos conte, Seus feitos derradeiros! Quem dirá--aqui dormem portuguezes; Aqui dormem guerreiros--? Quem virá na alta noite erguer por elles Resas de salvação? Quem ousará pedir para o vencido Um ai de compaixão? Virão, acaso, alevantar seus filhos O pranto solitario, Pelo que lhes legou de avós o nome Involto em vil sudario? Será a esposa, que lhes cubra as cinzas Com oração piedosa? Não!--nenhuma ousará dizer, chorando, Eu fui do escravo esposa. Será a amante?--Em tremedaes a pura Rosa nascer não sabe: A mais bella paixão não é de servos; Vil goso só lhes cabe. De mãe o amor tentára, unicamente, Sobre os corpos gelados, Vir chorar a esperança, em flor colhida, De seus annos cansados: Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito Do rude velador; Da noite os medos; de armas, já sem donos, Nas trévas o esplendor.
Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeam juncto a mim? Quem seu perdão da Patria implorar ousa, Seu perdão de Elohim? Eu:--o christão:--o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que não sei cuspir o fel da affronta Sobre uma ossada nua. O misero pastor desceu dos montes, Abandonando o gado, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por phariseus chamado. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, não nós, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, A virtude insultando, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre os restos da Patria, tu bem creste Folgar de nosso mal, E, sobre as cinzas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração insipiente, Disseste--Deus não ha!-- Elle existe, malvado!--e nós vencemos: Treme.... que tempo é já. Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes. Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes! Perdão--oh vencedores! Não insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. Que resta aos desditosos?--Somno eterno, Da Patria a maldicção, A justiça de Deus, tremenda, ignota, E a humana execração. Mas nós, saibamos esquecer os odios De guerra lamentavel; É generoso o forte, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdão para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle é mudo:--pedi-lo já não póde; O da-lo a nós deixou. Da lei a espada puna o criminoso, Que vê a luz dos céus: O que legou á terra o pó da terra, Julga-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa inteira victoria, Não precisaes do trovador o canto; Vosso nome é da historia. Eu do vencido consolei a sombra; Eu perdoei por vós. Filhos da infamia os desgraçados eram; Ricos de gloria nós.
_Porto--Agosto de 1833_
NOTA.
Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia dos precedentes versos, pertence a um livro já todo escripto no entendimento, mas de que só alguns capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo. Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de _D. Branca_, do _Camões_, de _João Minimo_; o Sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riquesa poetica. Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais é que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de regra, tanto como poesia de politicos.
_Fragmento._
O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e longo da sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os dentes me rangeram de cólera, e a lagryma envergonhada de soldado me escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres dos vencidos, que ainda por ahi jaziam; porém pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de expirarem, as idéas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Então oreí a Deus por elles: antes de irmão de armas eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as affrontas da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão parecia me consolava da perda de tantos e tão valentes amigos. Havia nessa idéa torrentes de poesia; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor das minhas pobres canções.
(_Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap...._)
A HARPA DO CRENTE.
TENTATIVAS POETICAS
PELO
AUCTOR
DA
VOZ DO PROPHETA.
TERCEIRA SERIE.
LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
_Rua direita do Arsenal--n.º 55._
*Deus.*
Deus.
Nas horas do silencio--á meia-noite-- Eu louvarei o Eterno! Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, E os abysmos do inferno. Pela amplidão dos céus meus cantos soem, E a lua prateada Pare no gyro seu, em quanto pulso Esta harpa, a Deus sagrada.
Antes de tempo haver, quando o infinito Media a eternidade, E só do vacuo as solidões enchia De Deus a immensidade, Elle existiu--em sua essencia involto; E, fóra delle, o nada: No seio do Creador a vida do homem Estava ainda guardada: Ainda então do mundo os fundamentos Na mente se escondiam Do Omnipotente, e os astros fulgurantes Nos céus não se volviam.
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento Das mãos sáe do Senhor: Surge o sol, banha a terra, e desabrocha Uma primeira flor: Sobre o invisivel eixo range o globo: O vento o bosque ondêa: Retumba ao longe o mar: da vida a força A naturesa ancêa!
Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te, Ou cantar teu poder? Quem dirá de Teu braço as maravilhas, Fonte de todo o ser, No dia da creação; quando os thesouros Da neve amontoaste; Quando da terra nos mais fundos valles As aguas encerraste?!
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, Com dextra poderosa, Fez, por lei immutavel, se librassem Na mole ponderosa? Onde existia então? No typo immenso Das gerações futuras; Na mente do meu Deus. Louvor a Elle Na terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades, Do raio, e do trovão! Quão grande o Deus, que manda, em secco estio, Da tarde a viração! Por sua Providencia nunca, embalde, Zumbiu minimo insecto; Nem volveu o elephante, em campo esteril, Os olhos, inquieto. Não deu Elle á avezinha o grão da espiga, Que ao ceifador esquece; Do norte ao urso o sol da primavera, Que o reanima e aquece? Não deu Elle á gazella amplos desertos, Ao cervo o bosque ameno, Ao flamingo os paues, ao tigre um antro, No prado ao touro o feno! Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas, Consolação e luz? Acaso, em vão, algum desventurado Curvou-se aos pés da cruz? A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio, No dia da afflicção, Quando pesa sobre elle, por seus crimes, Do crime a punição.
Homem, ente immortal, que és tu perante A face do Senhor? És a junça do brejo, harpa quebrada Nas mãos do trovador! Olha o negro pinheiro, campeando Dos Alpes entre a neve: Quem arranca-lo de seu throno ousára, Quem destruir-lhe a seve? Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia Extremo Deus mandou! Lá correu o aquilão: fundas raizes Aos ares lhe assoprou. Suberbo, sem temor, saíu na margem Do caudaloso Nilo, O corpo monstruoso ao sol voltando, Medonho crocodilo. De seus dentes em roda o susto móra: Vê-se a morte assentada Dentro em sua garganta, se descerra A boca affogueada. Qual duro arnez de intrepido guerreiro É seu dorso escamoso; Como os ultimos ais de um moribundo Seu grito lamentoso: Fumo e fogo respira quando irado:-- Porém, se Deus mandou, Qual do norte impellida a nuvem passa, Assim elle passou!
Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume; Perdoa ao teu cantor! Dignos de ti não são meus frouxos cantos; Mas são cantos de amor. Embora vís hypocritas te pintem Qual barbaro tyranno; Mentem, por dominar, com ferreo sceptro, O vulgo cego e insano. Quem os crê é um ímpio!--Arrecear-te É maldizer-te, oh Deus: É o throno dos despotas da terra Ir collocar nos céus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existencia Tranquillo, e sem terror, á sombra posto Da tua Providencia.
_Plymouth--Setembro de 1831._
*A Tempestade.*
A ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO.
_Alma affinada pelas harpas de anjos; Rei das canções--entenderás meu hymno!_
O Auctor.
A Tempestade.