A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 9
—Elles não pensam senão em irritar-nos com successivos reptos. Agora lembraram-se de imitar o exemplo dos lentes secundando o famoso prestito de José Caetano com um _outeiro_ na sala grande dos actos e não sei que mais festanças provocadoras.
—Deixal-os! Eu não quero saber d’isso.
Effectivamente, os academicos absolutistas planearam commemorar solemnemente a quéda do constitucionalismo. O plano vingou, de accôrdo com os lentes.
Em fevereiro de 1824 um triduo de ruidosas festas foi como um novo cartel arremessado á face dos estudantes liberaes pelos absolutistas. A provocação chegou a ponto de convidarem o famoso dominico Rochinha, muito constitucional, e cathedratico de theologia, para recitar a oração congratulatoria. Queriam compromettel-o pela recusa. Mas o doutor Rocha acceitou, comquanto o machiavelismo do convite irritasse profundamente o animo dos liberaes. D’este propositado rastilho nasceu o incendio.
Emquanto na sala grande dos actos se celebrava o annunciado _outeiro_ com tumultuosos incidentes, no páteo da Universidade, vistosamente illuminado, a festa era perturbada pela expansão do despeito liberal.
Ao passo que no _outeiro_ os estudantes constitucionaes, como um que se chamava Antonio Feliciano de Castilho, recitavam composições poeticas, em que o amor da liberdade transparecia ouzadamente, promovendo tumulto entre as duas facções adversarias, no páteo da Universidade os retratos da familia real e os emblemas allusivos á Restauração eram derrubados por mão desconhecida.
Castilho tinha conquistado um logar saliente no seio da academia pela circumstancia de ser cego e poeta. Estudava pelos olhos dos irmãos, e avantajava-se aos irmãos no boleio dos versos e na delicadesa da inspiração, sendo que todos os Castilhos eram apaixonados cultores das bellas-lettras.
Antonio Feliciano descobrira a veia poetica de José Maximo, e instou-o para que concorresse com elle ao _outeiro_. Procurou demovel-o com a leitura do _Sonho de Fénelon_, que escrevera expressamente como protesto contra os intuitos absolutistas d’aquella commemoração litteraria. José Maximo resistiu, desculpando-se com a insufficiencia do seu éstro indigno de hombrear com o do joven Milton portuguez. Mas prometteu a Castilho ir ouvil-o, e foi.
XV
Politica de estudantes
São cousas de moços.
Gil Vicente—Farça do «Juiz da Beira.»
Na sala grande dos actos, José Maximo e Jayme de Carvalho, sentados um ao pé do outro, assistiam ao _outeiro_.
N’um dos bancos anteriores estava Manuel Rodado no meio de um grupo de estudantes absolutistas, que denunciavam uma superabundancia de enthusiasmo, suspeita de copiosas libações intencionalmente liberalisadas pelo filho do brazileiro.
Todo este grupo se voltava frequentes vezes para traz, olhando zombeteiramente para os dois academicos constitucionaes, sorrindo e fallando d’elles com escarneo.
José Maximo disse para Jayme de Carvalho:
—Eu cá faço de conta que não é nada comnosco.
—E eu tambem.
Quando os poetas absolutistas subiam ao estrado, a facção liberal arrastava os pés ruidosamente.
O obéso conservador _Cabaças_, alcunha que resultára do seu feitio espheroidal, rompia logo coxia acima, á frente dos verdeaes, para surprehender em flagrante delicto os pateantes. Mas a pateada cessava, para começar depois.
Ouviam-se vozes de—Fóra! fóra!
E o grupo de Manuel Rodado, pondo-se de pé, olhava acintosamente para José Maximo e Jayme de Carvalho, como se quizesse indicar ao conservador que elles eram os cabeças de motim.
Mas os dois mantinham-se imperturbavelmente serenos, facto que aliás era notado pelo corpo cathedratico, que occupava as tribunas de honra. Uma vez aconteceu que o proprio reitor, vendo que o _Cabaças_ observava os dois amigos, lhe fizera signal de que o tumulto partia de outro ponto da sala.
Os poetas liberaes eram festejados pelos seus correligionarios com enthusiasticas manifestações de applauso. José Maximo e Jayme de Carvalho abstinham-se, mas abriram excepção para Castilho, a quem deram palmas, e que fôra obrigado a repetir muitas vezes o _Sonho de Fénelon_.
Cresceu com esta ovação a colera dos absolutistas, a breve trecho atiçada pela noticia, que logo circulára na sala, de que tinham sido despedaçados os emblemas que ornamentavam o páteo da Universidade.
O reitor entendeu que era mais prudente encerrar o _outeiro_, e a onda dos estudantes galgou desordenada para o páteo, onde se travaram pequenos conflictos, a que a ronda universitaria, _Cabaças_ á frente, logo acudia, varrendo adeante de si a multidão.
José Maximo e Jayme de Carvalho passaram indifferentemente atravez da turba, seguidos a pequena distancia pelo grupo de Manuel Rodado, que, vendo-os caminhar pausadamente, como quem vae prevenido para uma aggressão, não ouzava atacal-os.
José Maximo chegára a dizer para Jayme de Carvalho:
—Não estamos armados. O melhor é irmos para casa.
—Pois vamos, mas de vagar. Salvo o caso...
—Bem sei que caso é, atalhou José Maximo; salvo o caso de nos aggredirem.
Mas a aggressão não veio. José Maximo entrou em sua casa com Jayme de Carvalho e, apenas acabavam de entrar, quando todas as vidraças estalavam com uma rajada de pedras. Uma bala, entrando por uma das janellas, zuniu sobre a cabeça de Jayme de Carvalho.
—Isto agora é mais serio! exclamou José Maximo. O ficarmos aqui encurralados já não seria prudencia, era vergonha.
Foi direito ao quarto de um condiscipulo, onde sabia haver um bacamarte.
—Está carregado, felizmente! disse elle apossando-se da arma.
—E eu? perguntou Jayme de Carvalho.
—Tu? Procura por ahi um punhal, uma bengala, qualquer coisa.
Nova saraivada de calhaus bateu contra as portas das janellas, fazendo tinir o pouco que restava das vidraças.
José Maximo desceu de um salto a escada, e abriu a porta. Jayme de Carvalho, armado de um cacete, seguiu-o immediatamente.
Apenas José Maximo assomou ao limiar, foi agarrado pelos estudantes absolutistas, que se perfilavam ás hombreiras. Jayme de Carvalho, brandindo o cacete por sobre o grupo, descarregava bordoada a torto e a direito n’um rapido sarilho de esgrima. José Maximo poude libertar-se, mas o grupo, sentindo a pequena distancia um extranho tropel, largou a fugir em debandada.
Vinham fugindo, em sentido opposto, alguns estudantes, que corriam gritando:—Fujam! fujam! Mataram o _Cabaças_ ao Arco do Bispo.
Toda a caterva desappareceu como por encanto, e José Maximo e Jayme de Carvalho entraram precipitadamente em casa, fechando a porta.
Subindo á sala, disse Jayme sentando-se, muito fatigado, n’uma cadeira de pinho:
—Ora aqui está no que vieram a dar os nossos planos de prudencia!
—É verdade! Mas fomos provocados. Só se não tivessemos sangue nas veias!
—E se effectivamente mataram o _Cabaças_, teremos alçada, pagará o justo pelo peccador, quem sabe se não seremos tambem arrastados na rêde?
—Nós?! exclamou José Maximo. Mas o que temos nós com isso?!
—Temos que somos constitucionaes, e é o peior que podemos ser n’esta occasião. Estamos á mercê das vinganças e das delações de todo o fiel patife absolutista, como o _Narciso doirado_, e quejandos. Pois olha que qualquer complicação me faria agora differença, no quinto anno!
—E a mim, no primeiro! disse desalentadamente José Maximo, que se lembrou de Anna de Vasconcellos, dos seus ternos pedidos para que se abstivesse de politica, bem como dos prudentes conselhos de frei Simão. Melhor eu não tivesse ido ouvir o Castilho!
—O que está feito, está feito! apostrophou Jayme de Carvalho. Vou embora, preciso dormir.
—É mais prudente que fiques. Se mataram o _Cabaças_, e se te apanham na rua, corres o risco de ser preso para investigações.
—Mas olha que não deixa de ser compromettedor o facto de não ficar em casa!
—Tambem é verdade. Vou acompanhar-te.
—Não quero!
—Mas quero eu.
—É tolice. Dado o caso de eu encontrar a ronda, que necessidade tens tu de ser tambem preso?
—Seguirei o teu destino.
—Muito obrigado. Mas se fôr preso, prefiro que tu o não sejas, porque poderás mais facilmente justificar-me.
Perante este argumento, José Maximo deu-se por convencido. Ficou. Deitou-se. Mas não poude conciliar o somno. A imagem de Anninhas apparecia-lhe lacrimosa a lastimar-se de não terem sido attendidas as suas supplicas. E a folha de trêvo, consultada como oráculo, revoluteava no cerebro de José Maximo á semelhança de uma borboleta negra, presaga.
Jayme de Carvalho não teve pelo caminho qualquer mau encontro. As ruas estavam desertas, dir-se-ia que o terror fizera dispersar toda a academia, n’uma noite de festa e de luar, vespera de feriado.
—Alguma coisa grave se passou effectivamente! tinha pensado Jayme de Carvalho.
Os seus companheiros de casa, que já haviam recolhido todos, contaram-lhe que a ronda da Universidade fôra atacada a tiros de bacamarte no Arco do Bispo, mas que o _Cabaças_ não morrêra, como a principio constára. Apenas o meirinho e alguns verdeaes tinham ficado feridos. O caso, porém, não deixava de ter gravidade.
—Quem foi que atacou a ronda? perguntou Jayme de Carvalho.
—Vá lá saber-se! Fomos nós, foste tu, foram todos os que não são absolutistas. É o que ha de dizer-se.
—Eu não ataquei ninguem; mas olhem que fui atacado.
—Foste atacado?? perguntaram-lhe.
—Pelo grupo do _Narciso doirado_, que apedrejou a casa de José Maximo. As pedras não passaram das vidraças, que ficaram partidas, mas eu senti zunir uma bala por cima da cabeça.
—Patifes! disse um estudante.
—Vamos nós fazer o mesmo ás janellas do _Narciso_? propoz outro, mais exaltado.
—Não sejam tolos! respondeu Jayme. Eu vou mas é deitar-me. Boa noite, rapazes.
No dia seguinte corria em alguns circulos absolutistas a seguinte versão:
Manuel Rodado e outros estudantes, que recolhiam do _outeiro_, tendo encontrado ao Arco do Bispo um grupo que lhes pareceu suspeito, perseguiram-n’o para reconhecel-o. Dois individuos d’esse grupo entraram em casa de José Maximo, e como ahi mesmo fossem vigiados, sahiram á rua armados de bacamarte e cacete. Esses dois individuos tinham sido reconhecidos: eram José Maximo e Jayme de Carvalho. O primeiro não poude fazer uzo do bacamarte, porque o seguraram. O segundo descarregou muitas cacetadas contra os seus perseguidores, um dos quaes, Manuel Rodado, ficára ferido na cabeça.
Esta versão tinha por fim insinuar que José Maximo e Jayme de Carvalho não eram extranhos á emboscada do Arco do Bispo.
A versão liberal contava os factos como elles realmente se tinham passado e preconisava o denôdo dos dois amigos, que fizeram frente a um grupo numeroso, abrindo a cabeça a muitos absolutistas.
Este acontecimento vinha coroar a reputação de valente, que José Maximo tinha ganho á Porta Férrea. Pelo que respeitava a Jayme de Carvalho, a sua reputação estava feita, e fôra elle proprio que engrandecera a gloria do seu amigo divulgando os serviços prestados á causa da liberdade no Porto e era Lisboa. José Maximo havia-lhe contado, no decorrer do tempo, todos os episodios da sua aventurosa existencia.
De todos esses episodios o que mais exaltara a imaginação da rapaziada havia sido a metamorphose em criado de servir sob o disfarce de _Fresca Ribeira_.
Muitos academicos liberaes foram a casa de José Maximo felicital-o; entre outros, estivera ali Antonio Maria das Neves Carneiro, natural do Fundão, seu patricio e amigo de infancia.
N’esse improvisado parlamento constitucional discutiram-se durante longas horas os acontecimentos da vespera. Reconheceu-se a necessidade de uma forte concentração de elementos partidarios como nucleo de resistencia contra as insidias e perfidias da facção contraria. Foram indicados os nomes de José Maximo e Jayme de Carvalho como sendo os dos academicos que inspiravam maior confiança para a organisação e direcção dos trabalhos do partido. E d’esta acclamação unanime resultou achar-se José Maximo envolvido nos negocios politicos da academia, que vinte e quatro horas antes estava resolvido a evitar completamente.
Um dos ultimos estudantes que sahiram foi Antonio Maria das Neves Carneiro.
José Maximo, muito pallido, chamou-o de parte, e disse-lhe:
—Ó Antonio, tu viste por lá minha mãe?
E rebentaram-lhe as lagrimas, embaciando-lhe a vista.
—Vi, sim, respondeu Neves Carneiro. Vive muito atormentada por tua causa. E encarregou-me, a occultas de teu pae, de te dar um abraço, quando estivessemos sós.
José Maximo abriu os braços, e apertou Neves Carneiro contra o coração.
N’esse momento, chorava copiosamente. Parecia-lhe que tinha sentido palpitar, na dôr e na desolação, o coração de sua mãe.
O governo mandára uma alçada a Coimbra para syndicar dos acontecimentos de fevereiro, que, segundo a phrase de um chronista consciencioso[1], os odios e malevolencia do partido absolutista adrede exageravam para se vingar dos seus adversarios.
Sabia-se, apesar do segredo da alçada, que José Maximo da Fonseca e Jayme Henrique de Carvalho tinham sido compromettidos pelo depoimento de Manuel Rodado e outras testemunhas absolutistas.
Foram horriveis de anciedade os dias que para aquelles dois estudantes decorreram, desde que chegou a alçada e morosamente funccionou para que não ficasse por averiguar o menor delicto, até que em 30 de abril se mallogrou em Lisboa o novo movimento promovido pelo infante e pela rainha, recolhendo-se D. João VI a bordo da nau ingleza _Windsor Castle_ e sendo D. Miguel obrigado a retirar-se para o extrangeiro.
O mallogro da _abrilada_ pela intervenção da diplomacia causára dolorosa impressão a todos os absolutistas, incluindo os de Coimbra, que tinham julgado aberto o caminho da reacção sanguinaria pelo assassinato do marquez de Loulé em Salvaterra.
Lastimavam a ausencia do infante, e receiavam que se robustecesse a politica moderada e conciliadora, adoptada nos processos governativos depois da restauração de Villa Franca, e que fôra a causa determinante do segundo movimento tentado por D. Miguel.
Tinham razão para receiar, porque assim veio a acontecer.
A amnistia de 5 de junho de 1824 suspendeu as perseguições politicas; deteve o gladio da vingança.
Ficaram por este motivo sem effeito os processos instaurados nas devassas a que a alçada, que em fevereiro tinha ido a Coimbra, procedeu rigorosamente.
José Maximo e Jayme de Carvalho poderam respirar desafogados. Mas esse mesmo facto, que significava um tenue triumpho obtido pelos liberaes sobre os absolutistas de Coimbra, fez augmentar o prestigio politico de José Maximo, deu-lhe maior importancia partidaria.
Estava livre, graças á amnistia, mas, infelizmente, a politica havia-o empolgado de novo, fazia-se em torno do seu nome, de preferencia a Jayme de Carvalho, uma atmosphera de celebridade capitolina, porque José Maximo, como primeiranista, era o sol que nascia, e Jayme de Carvalho, estudante do quinto anno, era o sol que ia desapparecer.
A politica é sempre a mesma em toda a parte.
XVI
Falso triumpho
Não era a demissão de um simples ministro que a regente assignava, era a demissão da causa constitucional.
D. Antonio da Costa—«Historia do marechal Saldanha».
N’um dos ultimos dias de fevereiro de 1826, Jayme de Carvalho, que havia mais de um anno tinha estabelecido banca de «lettrado» na cidade d’Evora, para onde fôra advogar por suggestão de um alemtejano seu contemporaneo em Coimbra, apresentava-se na portaria do mosteiro de Arouca, acompanhado de uma senhora, a reclamar a entrega de sua prima Ernestina.
A senhora que o acompanhava era a mãe da secular.
Jayme, que se estreiára com felicidade, e estava fazendo importantes interesses, podéra preparar com um certo conforto o seu lar conjugal.
Depois requereu ao respectivo prelado a licença indispensavel para Ernestina sahir do convento. O prelado despachou favoravelmente, e Jayme, munido d’essa licença e acompanhado de sua tia, que tinha deixado o Porto para ir viver com elle em Evora, foi a Arouca buscar a prima que queria desposar.
A abbadeça, irritada, como todos os miguelistas, pelo exilio do infante, refinára em odio aos liberaes, e enfureceu-se sobremodo com a visita d’um pedreiro-livre, que, de cabeça alta, com orgulhosa altivez, ia dizimar-lhe o sagrado rebanho, arrancando uma victima ás vinganças da politica monastica.
De mais a mais, creando difficuldades á sahida de Ernestina, obstava á constituição odiosa de uma nova familia maçonica, no que julgava prestar um dedicado serviço á causa do absolutismo e da santa religião.
Portanto, vindo á grade receber essa impertinente visita, peremptoriamente declarou que o documento apresentado, salvo o respeito devido ao despacho episcopal, não era bastante a justificar a entrega da educanda.
Disse que Ernestina de Carvalho fôra recebida por ordem do governo, medeante auctorisação do prelado. Ora, o documento que lhe apresentavam, se tinha authenticidade ecclesiastica, carecia de sancção civil.
—Nos tempos que vão correndo agora, accrescentára a abbadeça com rispido azedume, a desordem nas coisas publicas não pode ser maior, porque todos querem mandar. Tenho aqui, é certo, a auctorisação do nosso reverendo prelado. Mas se eu deixar sahir a menina sem mais formalidades, e amanhã o governo do reino se lembrar de perguntar-me o que fiz eu de uma secular que por elle me fôra entregue, não sei o que hei de responder. Vá pois Vossa Mercê entender-se em Lisboa com os ministros d’estado, traga da chancellaria da côrte uma ordem que invalide a que me enviaram para receber a educanda, e eu lh’a entregarei então sem o menor impedimento. Nós, que fômos educadas a respeitar o poder real, não estamos habituadas nem dispostas a fazer côro com os revolucionarios que o pretendem abalar.
Jayme de Carvalho ficou fulminado com esta recusa formal. Quiz argumentar, discutir com a abbadeça, que, sem mais explicações, inclinou levemente a cabeça, e sahiu da grade.
—Não ha que ver! disse Jayme a sua tia. Tenho de ir a Lisboa! José Maximo parece que adivinhava! Espero que não terei mais demora do que chegar e voltar. Por isso resigne-se minha tia a ficar aqui em qualquer casa que por alguns dias a queira receber, evitando assim, na sua idade, os incommodos de uma segunda jornada. Eu sou novo e forte, não me fatigarei, nem demorarei muito.
Nenhuma das familias pobres de Arouca quiz receber a tia de Jayme de Carvalho, quando se soube que ella era a mãe da secular constitucional, originaria de maçons. Receiavam a colera da abbadeça, e da communidade. Entre as familias nobres uma lhe daria certamente pousada, era a da quinta do Outeiral; mas José Bernardo Pereira de Vasconcellos estava a esse tempo em Cezár no solar do Outeiro. Só em Sobrado de Paiva foi possivel encontrar hospedagem, graças ao silencio que tia e sobrinho aprenderam a guardar sobre o motivo da sua jornada.
Jayme de Carvalho chegou a Lisboa em tão má hora, que foi encontrar agonisante, nos primeiros dias de março, el-rei D. João VI.
Os ministros não davam audiencia, nem despacho. Passavam o dia na Bemposta, muito preoccupados com a magna questão politica da successão ao throno.
Fóra do Paço boquejava-se que o rei já estava morto, mas que o governo, para fazer vingar a hereditariedade de D. Pedro IV, e ter tempo de nomear a regencia interina, occultava a sua morte.
Os constitucionaes contradictavam este boato, e os miguelistas mostravam-se muito exaltados contra a postergação dos direitos de D. Miguel, por isso que D. Pedro, depois da independencia do Brazil, não era para Portugal mais do que um principe extrangeiro.
D. João VI fallecêra antes ou depois de ter apparecido o decreto, que reconhecia a successão de D. Pedro e nomeava a regencia provisoria. Mas a sua morte fôra declarada officialmente, e seguira-se o funeral e o luto da côrte, de modo que Jayme de Carvalho não poude obter uma audiencia da infanta regente.
Procurava todavia os ministros, expunha-lhes o estado da «sua questão», e os ministros, que estavam a vêr no que paravam as modas e que não queriam indispôr-se abertamente com nenhum dos dois partidos militantes, respondiam que o assumpto era melindroso, e que não podiam dar despacho sem levar primeiro o negocio ao conhecimento da «senhora infanta D. Isabel Maria».
Jayme estava ainda em Lisboa, sem conseguir uma resolução do poder executivo, quando chegou, pela corveta _Lealdade_, a noticia de ter D. Pedro outorgado a Carta Constitucional.
Apesar de muito contrariado por tão extranha demora, agora prolongada pela ausencia da regente, que estava em tratamento nas Caldas da Rainha, Jayme saudou com enthusiasmo a resurreição do constitucionalismo que ia inaugurar, pensava elle, uma nova epocha de felicidade para Portugal.
O ministerio e a regente receberam com dolorosa surpreza a constituição que viera do Brazil, e adiavam de dia para dia não só o juramento da Carta, mas tambem todos os negocios que podessem augmentar o descontentamento dos miguelistas.
De modo que não foi possivel a Jayme de Carvalho obter um despacho, simples na apparencia, mas que certamente desagradaria á communidade de Arouca, porque era transparente a intenção dilatoria da abbadeça.
De repente, porém, Saldanha, governador das armas no Porto, Saldanha que, um anno antes, havia cavalgado em triumpho, na volta de Villa Franca, ao lado do infante D. Miguel, arvorou-se em defensor da Carta e principal propulsor do seu immediato juramento.
Logo que isto constou em Lisboa, surprehendendo o espirito intransigente das primeiras familias da nobreza absolutista, com as quaes Saldanha estava aparentado, Jayme de Carvalho metteu-se n’um vapor, e sahiu de Lisboa para o Porto.
O seu fim era obter a protecção de Saldanha, a quem logo tratou de procurar.
Foi recebido sem demora, e expôz ao general o «estado da questão». Saldanha, caracter impressionavel e coração ardente, muito impetuoso e algo romanesco, acolheu com viva sympathia o jovem advogado, que implorava o seu valimento.
O general disse resolutamente a Jayme de Carvalho:
—Vou fazel-o acompanhar por um official da minha confiança, que irá encarregado de dizer á madre abbadeça o seguinte: «Ou ella entrega já a menina que acintosamente retém ou eu pessoalmente a vou lá buscar».
Jayme cahiu de joelhos deante do general, abraçou-lhe as pernas, beijou-lhe a mão, não obstante Saldanha forcejar por levantal-o.
N’aquelle momento historico, Saldanha era o papão dos miguelistas, que o odiavam mas temiam.
A abbadeça de Arouca, vendo na grade um official bigodoso a intimar-lhe a ameaça de Saldanha, tremeu como varas verdes, amaldiçoou a Carta, mas entregou Ernestina de Carvalho, e o casamento effectuou-se alguns dias depois, em Evora.
Jayme escreveu para Coimbra uma longa carta a José Maximo contando-lhe miudamente os trabalhos que passára para arrancar Ernestina do convento, a intervenção magnanima de Saldanha, e o triste destino de Margarida Candida que, segundo Ernestina lhe revelára, fôra illudida para professar.
Acabava por congratular-se pela outorga da Carta, e estimulava-o a mais do que nunca exercer a sua influencia sobre a academia para combater á mão armada, se tanto fosse preciso, a opposição que, segundo se dizia, os reaccionarios preparavam.
Saldanha conseguira impor-se á regente de modo a fazer jurar a Carta e a ser chamado ao poder como ministro da guerra.
Os absolutistas preparavam, effectivamente, um golpe de mão. O norte e o sul do paiz, agitado por elles, acclamavam D. Miguel rei de Portugal. Em Traz-os Montes o marquez de Chaves soprava á fogueira da reacção. O Algarve, imitando o Alemtejo, fazia um pronunciamento militar, que Saldanha, já ministro da guerra, fôra suffocar pessoalmente.
A academia de Coimbra não assistia indifferente ás luctas politicas do momento.
José Maximo, o chefe constitucional da academia, entendera-se com o deputado Alvares Pereira, que tinha ido áquella cidade expressamente para mover os estudantes a armarem-se pela defesa da Carta.