A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 8

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Deu, pois, esta interpretação ao facto de o não vêr na egreja de Santa Clara, quando a fina flôr da mocidade tradicionalista se agglomerava deante do pulpito onde frei Manuel de Almeida fazia a apotheóse da auctoridade dos reis como delegação do poder divino.

Mas, na duvida, não era Manuel Rodado homem que, para desaffrontar-se, se aventurasse a arriscar pela segunda vez as costellas.

Esperava cautelosamente a occasião de poder vingar-se, quando tivesse as costas quentes, e essa occasião, se não se tinha azado n’aquelle dia, facilmente a poderia encontrar na vida de Coimbra, em algum inevitavel conflicto travado entre estudantes absolutistas e liberaes.

José Maximo recebêra uma carta de frei Simão, que lhe dava duas noticias agradaveis: participava-lhe que D. Anna já estava na casa do Outeiro, e felicitava-se de ter obtido um subsidio da Intendencia, com cujo auxilio José Maximo poderia frequentar a Universidade sem maiores privações e trabalhos.

Feito o ultimo exame de humanidades, com um prodigioso esforço de intelligencia e applicação realizado em pouco tempo, José Maximo foi a Cezár agradecer mais aquelle testemunho de estima, que frei Simão tão espontaneamente lhe havia dado.

E o desejo de tornar a vêr Anninhas comprazia-se de encontrar um tão justificado pretexto, como era o da gratidão e reconhecimento pelo favor recebido.

José Maximo sentia-se um homem feliz ao entrar na casa do Outeiro.

Suppunha-se nobilitado aos olhos de D. Anna de Vasconcellos pelo proximo ingresso á carreira universitaria, que lhe promettia uma posição social digna da consideração publica. Por occasião da romaria do Senhor de Mattosinhos achava-se ainda n’um plano inferior ao de Manuel Rodado; agora, sendo pobre, ia nivelar-se litterariamente não só com os filhos dos ricos, mas até com os filhos dos nobres.

Frei Simão louvou-lhe o esforço intellectual com que em tão pouco tempo conseguira desembaraçar-se das disciplinas professadas no Collegio das Artes.

José Maximo allegou modestamente que já não era hospede em geometria, por isso que mais ou menos a versára antes de abandonar Coimbra.

—Agora, disse-lhe frei Simão, precisa Vossa Mercê pôr todo o seu cuidado em evitar os perigos da politica de Coimbra, que, segundo o que me consta, está mais brava do que nunca. Os lentes são fanaticos, os estudantes são moços, e, como taes, exaltados: o exemplo dos lentes estimula-os, e a certesa da impunidade torna-os destemidos. O que fazer então? Evitar com prudencia todo o pretexto para um conflicto, em que a victoria seria d’elles, que em Coimbra não teem quem os reprima, e que em Lisboa teem quem os proteja. Olhe Vossa Mercê para isto que lhe digo, como sendo o conselho de um amigo sincero, que lhe quer como a pessoa de familia.

O que frei Simão disséra com tão bom juizo, repetira-o pouco depois Anninhas com maviosa ternura.

Fôra o proprio frei Simão que proporcionára aos dois namorados o ensejo de poderem fallar sem testemunhas.

—Vamos ali ao pomar, gozar a sombra, dissera elle. Anda d’ahi, Anninhas, para fazeres as honras da casa ao nosso hospede, emquanto eu vou regar as minhas flôres.

O pomar da casa do Outeiro, ao qual se descia pela escada de pedra do páteo, era pequeno. Hoje quasi não existe. Encostado á parede do edificio havia um canteiro, onde frei Simão cultivava algumas flôres. Sob uma macieira, um banco de cortiça era o poiso predilecto do frade.

Anna de Vasconcellos e José Maximo, tendo descido as escadas, ficaram por algum tempo de pé, junto á macieira, cuja sombra cobria o banco.

Frei Simão pareceu desde logo muito entretido em regar as flores do pequeno canteiro, que era em Cezár a mais alegre das suas distracções. De costas voltadas para os dois, andava curvado, simulando dar a maxima attenção ao que estava fazendo.

Anninhas entretanto dizia a José Maximo:

—Eu não te sei aconselhar com os argumentos do mano frei Simão, mas peço-te que sigas os seus conselhos, e que não queiras saber mais de politica. Ah! como eu detesto a politica, que tanto nos faz soffrer aqui pela hostilidade de quasi todos os nossos visinhos!

—Podes estar certa, respondia José Maximo, de que apenas pensarei em ti por amor dos livros, e nos livros por amor de ti.

N’este momento frei Simão voltou-se e fingiu-se muito admirado de os vêr ainda de pé.

—Então, disse elle, não teem ahi esse banco de cortiça para sentar-se?! Olhem que eu, em começando a jardinar, esqueço-me do tempo, e fal-os-hei aborrecer com a demora.

Frei Simão, que nunca tinha experimentado as doçuras bucolicas do amor, comprehendeu-as n’esse momento, adivinhou-as.

Sobre o banco de cortiça cahia a sombra fresca da macieira, onde as andorinhas pipitavam n’uma alegria discreta, parecendo que, n’esse feliz parlamento aereo das aves, cada orador alado pedia a palavra por sua vez, para não perturbar o colloquio do amor humano.

Sobre o pequeno canteiro, matizado de côres vivas, em que a florescencia da vegetação accentuava tons variados e nitidos n’uma polychromia risonha, as flechas doiradas do sol incidiam, aqui e além, por entre as franças das arvores, na corolla das flores, que as abelhas procuravam.

Na orla extrema do pomar, onde a sombra era mais espêssa, passavam na verdura da horta grandes borboletas brancas volitando aos pares n’uma chorea infatigavel.

A agua cahia n’um improvisado tanque, de que já não restam vestigios, por uma calha de barro, cantando como uma ama somnolenta, que, já fatigada, acalenta uma creança rebelde ao somno.

Uma branda sensação de mollesa parecia cahir da sombra do arvoredo e do despenho monotono da agua sobre o tanque. A paz campesina envolvia a atmosphera no longo espreguiçamento d’um corpo são que adormece entre branco linho muito fresco depois de um banho consolador.

Anninhas tinha nos labios côr de rosa a eloquencia espontanea que as mulheres namoradas possuem na primeira inspiração do amor—volata do coração que accorda em extasi.

José Maximo, como todos os homens que surprehendem os encantos d’essa eloquencia maravilhosa n’um colloquio tranquillo, ouvia-a n’uma embriaguez de fascinação.

As palavras que até ahi havia trocado com D. Anna de Vasconcellos, no Outeiro ou no Porto, sempre a medo e de relance, não lhe tinham annunciado essa verbosidade apaixonada, essa fluencia de phrases simples e carinhosas, que affluem aos labios de uma mulher quando pela primeira vez pode dizer, n’uma liberdade honesta, quanto tem sentido e sonhado.

Mas o coração humano contém em si mesmo o segredo de atormentar-se na felicidade, que nunca chega a ser completa por isso mesmo.

O homem, mais do que a mulher, obedece a uma fatalidade torturante, que o leva a procurar as preoccupações dolorosas nos momentos em que a paz e a esperança pareciam apostadas em sorrir-lhe. Uma subita desconfiança invade-lhe a alma, como um veneno de lento effeito, que vae a pouco e pouco anesthesiando a sua victima.

Foi José Maximo quem se lembrou de consultar o oráculo, que, segundo a superstição dos amantes, falla nas folhas das plantas, quando consultadas por elles.

Estava ali perto um tufo verdejante de trevo, que adivinha os segredos do amor.

—Para nós sermos inteiramente felizes, dissera José Maximo, só é preciso que as folhas do trevo confirmem as tuas doces palavras.

E o oráculo, consultado folha a folha, affirmára o amor de D. Anna de Vasconcellos.

Ella rira crystallinamente no seu triumpho como uma alma sincera, que não se teme do segredo dos oráculos. José Maximo riu tambem, entre envergonhado do riso de Anninhas e contente do resultado da consulta.

Frei Simão voltou-se de subito, sorrindo por contagio, com um olhar alegremente investigador.

—É o sr. José Maximo, disse Anninhas, que está consultando as folhas do trevo como cá fazem os camponezes.

E, de repente, como que arrependida da sua propria franqueza, córou de pejo.

Frei Simão ficou encantado com o primitivo bucolismo d’aquelle casto idyllio amoroso e, para salvaguardar a sua auctoridade de irmão mais velho, procurou illudir o sentido da resposta, dizendo:

—Ah! o sr. José Maximo lembrou-se de consultar o futuro! Pois o futuro, meu amigo, pertence a Deus.

E Anninhas acudiu de prompto como se quizesse valorisar a resposta do oráculo, que lhe tinha sido favoravel:

—Mas quem faz nascer as plantas senão Deus?

Frei Simão, comprehendendo o lance, respondeu:

—Tens razão, Anninhas!

E curvou-se de novo a regar as flores e a pensar em que jámais, na sua vida monótona e árida, tinha tido motivo para consultar os oráculos do amor.

José Maximo disséra baixinho a Anna de Vasconcellos:

—É verdade! Consultemos o futuro.

E, desfolhando o trevo, dizia: _Feliz, infeliz_.

A ultima folha respondeu: _Infeliz_.

—É notavel! exclamou José Maximo, lembrando-se subitamente da cantiga que tinha ouvido ali em Cezár, quando descansára por alguns momentos, havia seis annos, sob a sombra de uma faya, na estrada. É notavel, repisava elle, a insistencia de um ruim agoiro!

E repetiu a Anninhas a cantiga que então tinha ouvido:

Quem quer ver um infeliz, Que nasceu ao pé da faya? Não ha desgraça nenhuma, Que n’este infeliz não caia!

Anna de Vasconcellos, para dissipar as apprehensões aziagas de José Maximo, procurou rir com esforço.

Frei Simão perguntou de longe:

—Tornou a fallar o oráculo?

E Anninhas respondeu:

—O mano quer saber?! O sr. José Maximo ficou agora muito triste porque o trevo lhe disse que não havia de ser feliz!

—Nunca vi homem intelligente, replicou frei Simão, que não fosse supersticioso. Chega a parecer ás vezes que a intelligencia, descontente de si mesma, quer nivelar-se com a fé céga dos ignorantes ingenuos!

—Ouviste? perguntou Anninhas a José Maximo.

José Maximo não respondeu, de preoccupado que estava.

Angustiava-o a tortura que elle proprio inventára. A serenidade rural em que o pomar umbroso pareceria adormecido no fundo de um stereoscopo, se não fosse o vôo inquieto das borboletas brancas e das abelhas loiras, encontrava no peito de José Maximo uma forte resistencia, que já lhe não deixava tranquillo o coração como meia hora antes.

XIV

Á Porta Férrea

É inveterado costume, e lei Academico-Escolastica, que todo e qualquer Novato leve a sua investida, e pague a sua patente: Não resista vossa mercê a nenhuma d’estas cousas; o que deve pedir é, que seja suave: para o que quanto aos dicterios e injurias bôca tapada, e quanto á patente, mão á bolsa.

Silveira Malhão—«Vida e feitos», tomo II.

Matriculado na faculdade de leis e canones, cujo curso era commum até ao terceiro anno, José Maximo não passou impunemente pela Porta Férrea, segundo a tradição academica.

Já Nicolau Tolentino havia dito referindo-se a Coimbra e ás caçoadas, por que os novatos tinham de passar:

Povo revoltoso, e ingrato Dentro em seus muros encerra; Em vão de adoçal-o trato, É um titulo de guerra A chegada de um novato.

José Maximo conhecia de sobra a vida de Coimbra, e esperava por isso a troça; mas, pelo facto de ser já conhecido, julgava-se a coberto das maximas torturas de que o _Palito metrico_ fallava:

........... tum cœtera turba Rodeat miserum; truxque investida comecat. Principio quatuor mandat aparare sopapos, Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes, Donec sella chegat lumbo imponenda rebeldi.

Manuel Rodado combinára porem com outros segundanistas que José Maximo fosse o principal alvo da _troça_ feita aos novatos. Queria iniciar a sua vingança, e, como era rico, remunerava bisarramente a adhesão dos condiscipulos aos seus planos. Era elle quem na _borga_ pagava as despezas de comes e bebes, as merendas de manjar branco «no fresco pateo de Cellas», as ceias na estalagem do Paço do Conde ou na tasca do Alexandre Ramalhaes ao fundo da rua das Sollas; d’aqui o seu prestigio, porque em primasias de intelligencia não se assignalava Manuel Rodado. A academia, sempre alegre e epigrammatica, pozera-lhe uma alcunha feliz, que ao mesmo passo alludia á garridice e á pecunia do sujeito: era o _Narciso doirado_.

José Maximo passou á Porta Férrea por entre duas filas de segundanistas, entre os quaes estava o filho do brazileiro.

Não reagiu contra a tradição academica do _canellão_, no primeiro dia de aulas, apesar de perfeitamente ter distinguido, na hilaridade dos trocistas, as risadas alvares, muito sarcasticas, de Manuel Rodado, o qual, vendo a submissão de José Maximo, julgou que podia exceder-se sem perigo de resistencia.

Não obstante ter grande amor ás costellas, entendeu que José Maximo, a julgar pelo seu retraimento e submissão, não era homem que tivesse coragem de repetir em Coimbra, no seio da academia, a pimponice valentona do Campo de Santo Ovidio.

Por isso, no immediato dia lectivo, quando José Maximo recebia, á Porta Férrea, a segunda dóse de _canellão_, ouzou passar-lhe a mão pela cara.

Teve resposta prompta. José Maximo fez pé atraz, e descarregou-lhe na face uma sonora bofetada, que deixou aturdido o filho do brazileiro.

Armou-se uma baralha de mil diabos. Muitos segundanistas cahiram sobre José Maximo, que, cego de colera, respondia energicamente com murros e pontapés. Tamanha coragem exhibiu no maior apêrto do tumulto, fazendo frente ao grupo dos aggressores, que alguns estudantes dos ultimos annos intervieram em favor de José Maximo, defendendo-o.

Um d’elles, que se chamava Jayme de Carvalho, quintanista de direito, por alcunha o _Sam Bartholomeu_, cobriu José Maximo com a pasta.

A academia temia o valor d’este quintanista, cujas idéas liberaes justificavam a alcunha que os estudantes absolutistas lhe pozeram por allusão ironica ao dia 24 de agosto, em que a Egreja celebra a festa de Sam Bartholomeu, e em que, trez annos antes, rebentára no Porto o movimento constitucional.

José Maximo, quando a pasta protectora de um quintanista temido lhe permittiu explicar o seu procedimento, disse que tinha dado sobejas provas de submetter-se á _troça_ e de sujeitar-se ao _canellão_, mas que a sua dignidade não lhe permittia tolerar as provocações de um inimigo pessoal, que, para vingar-se de um incidente particular occorrido entre ambos, se acobertava cobardemente com a tradição academica e com o auxilio dos condiscipulos.

Esta leal explicação causou no auditorio uma impressão excellente. Todos os _veteranos_, Jayme de Carvalho em primeiro logar, applaudiam o procedimento de José Maximo. E muitos dos segundanistas, que o tinham aggredido, acabaram por dar-lhe razão.

Discutia-se animadamente o caso nos grupos da Porta Férrea, quando appareceu um verdeal que, por ordem do conservador _Cabaças_, vinha averiguar o que se tinha passado de extraordinario.

Como José Maximo estivesse ainda rodeado pelo grupo mais numeroso, que o escutava com agrado, foi a José Maximo que o verdeal se dirigiu, abrindo caminho atravez do grupo.

Interrogado, José Maximo respondeu que por sua parte nada sabia do que se tinha passado, mas que estavam alli muitos estudantes que poderiam informar, querendo, o sr. conservador. Nenhum se mexeu; todos encolheram os hombros sorrindo, menos Manuel Rodado. Jayme de Carvalho acabou por dizer ao verdeal que se fosse em paz, porque não havia motivo para qualquer procedimento.

A academia, onde o elemento aristocratico era sanhudamente absolutista, deixou-se impressionar de uma subita sympathia por José Maximo, a quem, desde essa hora, ficou conhecendo pela alcunha de _Martim Moniz_, em memoria da sua façanha da Porta Férrea: façanha que no enthusiasmo do primeiro momento fôra pelos estudantes igualada á do heroe da porta do Castello de Lisboa no tempo de Affonso Henriques.

Manuel Rodado sentiu-se corrido. Desappareceu. Mas nunca o seu rancor a José Maximo fôra maior do que quando, ao pensar nos acontecimentos d’aquelle dia, percebeu que tinha indirectamente concorrido para dar vantajosa evidencia ao novato, que pela segunda vez o desfeiteára.

E fôra effectivamente assim. Durante o resto do dia e á noite não se fallou em outra coisa nos varios cenáculos de conversação academica. José Maximo tornára-se conhecido de todos, e estimado de muitos. Era já, na linguagem escolastica, geralmente designado por «Martim Moniz». Alguns estudantes absolutistas, com a versatilidade propria da juventude, pareciam querer mudar de opinião, qualificando de insolente reacção o procedimento de José Maximo, que tinha esbofeteado a academia na pessoa de Manuel Rodado. Mas outros, mais persistentes na primeira impressão recebida, replicavam que José Maximo respeitára as praxes universitarias submettendo-se ao _canellão_, e que apenas tomára como offensa pessoal a provocação que partira de um seu antigo inimigo. Accrescentavam que não era no meio da collectividade academica que deviam liquidar-se as pendencias individuaes. Posta a questão n’estes termos, ninguem ouzava quebrar lanças em publica defesa de Manuel Rodado, suspeito de cobarde. A pusillanimidade é o sentimento que mais repugna ao espirito dos novos, sejam quaes fôr as suas tendencias politicas e sympathias pessoaes.

Alem d’isto, os apologistas de José Maximo punham em relevo a correcção da sua resposta ao verdeal, quando appellára para o testemunho da academia; e contrastavam esse nobre procedimento com o de Manuel Rodado, que nem sequer tivera a coragem apparente de sorrir disfarçando um mesquinho resentimento.

O incidente da Porta Férrea estabelecêra ligações de amisade entre Jayme de Carvalho e José Maximo. A intimidade cresceu de pressa, porque não é proprio de gente moça moderar as suas expansões.

E cada dia uma nova revelação vinha estreitar os laços de amisade que uniam aquelles dois academicos, attraidos um para o outro pela coincidencia das suas inclinações politicas e valorosas aventuras.

José Maximo contou a Jayme de Carvalho a historia do seu amor por D. Anna de Vasconcellos para explicar a causa remota do conflicto com Manuel Rodado. Dezenhou-lhe o perfil insinuante de frei Simão, o destemido liberal de Cezár. Jayme de Carvalho ouvia-o sorrindo, sem comtudo mostrar-se surprehendido.

—Esse frade, disse Jayme, tem um irmão que está agora preso em Aveiro por vingança de um silveirista de Chaves, que se tem valido da politica para o perseguir por motivos particulares. Não é verdade?

—É verdade! Mas como sabes tu isso?

—Esse irmão do frade ama uma menina, que está no convento de Arouca. Não é tambem verdade?

—É verdade! Mas explica-te! Como sabes tu isso?

—E essa menina tem no convento uma unica amiga, que, alem de minha prima, é minha noiva. Sabias?

—Não sabia!

—Pois é isto mesmo.

—Ó homem, dá cá um abraço! exclamou «Martim Moniz» caminhando de braços abertos para «Sam Bartholomeu». Não ha coincidencias absurdas. O acaso é mais engenhoso nas suas combinações do que a chimica!

E depois d’esta affectuosa expansão de recente amisade, que parecia já tão solida como se fosse muito antiga, entraram em pormenores.

José Maximo disséra a Jayme de Carvalho:

—Põe-me ahi a tua vida em pratos limpos. Quero saber tudo.

—Eu sou pobre, disse Jayme.

—E eu tambem, disse José Maximo.

—Mas eu sou mais pobre do que tu.

—Mais pobre do que eu não ha ninguem: nem mesmo tu.

—Recebo subsidio da Casa Pia.

—E eu da Intendencia. Quem t’o arranjou?

—Foi o conde de Rio Maior. E a ti?

—Foi frei Simão de Vasconcellos por intervenção de um frade absolutista de Alcobaça.

—Outra coincidencia: somos dois pobretões subsidiados.

—É verdade! Parece que tinhamos nascido para ser amigos!

—Tens razão. Eu sentia-me só em Coimbra, disse Jayme de Carvalho, no meio d’esta grande récova de _burros_ arreatados á Universidade.

—Mas vamos á historia dos teus amores com a amiga da _Flor do Támega_.

—Quem é a _Flor do Támega_?

—É a menina de Chaves tão desgraçadamente amada pelo irmão de frei Simão de Vasconcellos.

—Eu sabia apenas que se chamava Margarida Candida.

—Pois chama. Mas foi Antonio da Silveira, o apóstata de Canellas, que lhe poz a alcunha de _Flor do Támega_.

—Não sabia. E pôde sahir do bestunto de um Silveira uma tão delicada alcunha?

—Parece incrivel, mas é verdade!

—Por morte de meu pae achei-me na impossibilidade de concluir o curso.

—Que pena seres já tu quintanista, quando eu ainda sou novato!

—Deixa lá! Quando dois homens nascem fadados para amigos, não é a formatura que os pode separar.

—Tambem tens razão.

—Mas se a morte de meu pae me prejudicou, maior prejuizo causou ainda a minha tia e minha prima Ernestina, de quem meu pae era o unico amparo. Minha prima, graças ainda á protecção do conde de Rio Maior, entrou no mosteiro de Arouca, aonde eu, logo que possa, a irei buscar para ser minha mulher. Olha que é uma linda rapariga, minha prima!

—Faço ideia.

—Fazes ideia? Pois eu não faço.

—Como assim?!

—Não faço ideia como ella estará agora, atormentada, flagellada pelo despotismo politico das venerandas madres de Arouca, que nem sequer a deixam escrever-me só porque minha prima pertence a uma familia liberal, apezar de eu ser o seu noivo.

—E apesar de seres o seu noivo, talvez que te não seja facil tiral-a do convento quando a quizeres ir buscar. Pelo menos hão de empregar dilações, exigir longas formalidades só para contrariar-te e contrarial-a. O absolutismo é como as feras: não larga facilmente uma victima.

—Ora essa! Minha prima pertence á sua familia! Para que servem então as leis, que nós vimos estudar em Coimbra?! O convento de Arouca não é uma cadea legal; não tem maiores privilegios do que as outras casas monasticas.

—Em conventos, meu amigo, não ha que fiar e escolher: são todos mais absolutistas do que o infante D. Miguel e sua mãe.

—Nem minha prima poude escolher, porque veio de Lisboa licença para entrar no de Arouca. Precisava ir para um: foi para aquelle que lhe designaram.

—Mas se tua prima não póde escrever-te, como sabes tu o caso da _Flor do Támega_?

—Minha prima escreveu á mãe apenas dois bilhetes desde que está em Arouca, e se o conseguiu fazer foi porque um almocreve e um pastor levaram os bilhetes ao seu destino. No primeiro, contava a perseguição politica de que estava sendo victima dentro do convento; na segundo insistia sobre o assumpto e participava que já tinha uma companheira de desgraça, certa menina de Chaves, Margarida Candida, que ali entrára por castigo de namorar um capitão de dragões, muito liberal, irmão de um celebre frade, tambem liberal, residente em Cezár. Minha tia recebeu esses dois bilhetes, e não tornou a receber nenhum outro. Mandou saber da abbadeça se minha prima passava bem de saude. A abbadeça respondeu que Ernestina gosava a melhor saude d’este mundo, que estava excellentemente, e que em havendo alguma novidade a participaria, mas que só a ella, na qualidade de prelada, pertencia avaliar a opportunidade das relações epistolares das suas subordinadas com os respectivos parentes. Dize-me agora se acabaram realmente os carceres e torturas da Inquisição ou se continuam funccionando, sempre em nome de Deus, no mosteiro de Arouca, para honra e lustre da religião catholica, apostolica, romana.

—Ha effectivamente ainda muito que derrubar e combater! accrescentou José Maximo, pensativo. A arvore da tyrannia, comquanto abalada desde o seculo passado pelos vendavaes revolucionarios, tem raizes profundas, que não poderão ser extirpadas facilmente. Mas eu já não me proponho auxiliar essa empresa demolidora. Toda a minha ambição é obter pacificamente uma carta de bacharel em leis e ir depois esconder-me n’algum canto da provincia com Anninhas e com a tranquilla felicidade da minha consciencia.

—Meu amigo, tu ainda cá tens que ficar durante cinco annos, e olha que te não ha de ser facil resistir impunemente a todas as provocações politicas, a todas as insolencias irritantes com que os altaneiros realistas, que ahi passeiam de grimpa levantada, procuram açular a nossa colera para esmagar-nos depois.

—Hei de conseguil-o; sabel-o-has.