A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 6
No dia seguinte appareceu junto a um castanheiro, em cujo tronco a bala de frei Simão fôra cravar-se, um chapeu de palha, velho, sem fita. Esse chapeu fôra reconhecido como sendo o de Manel Zarôlho, criado de Ignacio da Fonseca.
Frei Simão mandou hastear o chapeu no topo do castanheiro, como ousada provocação a novas investidas. Mas os assaltantes não voltaram, receiosos da clavina de frei Simão e dos seus mortiferos zagalotes. Tomaram ainda maior medo ao frade.
Chegando a Arouca, frei Simão entrou no pateo do mosteiro, e dirigiu-se á porteira perguntando-lhe se podia fallar á sr.ª D. Margarida Candida, de Chaves, que lhe constava estar ali recolhida.
Bem sabia elle que a resposta seria negativa. Mas fizera a pergunta unicamente com o fim de poder colhêr alguma vaga informação.
—Sóror Margarida do Amor Divino, respondeu a porteira, não recebe, nem falla a ninguem.
—Sóror Margarida!? repetiu com fingida surpreza frei Simão.
—Sim, porque professou ha coisa de mez e meio.
Frei Simão deitou conta ao tempo decorrido desde que a noticia chegára ao conhecimento de Joaquim Maria, e disse mentalmente: «É isso. Ha mez e meio.»
—Então é absolutamente prohibido fallar-lhe?
—São ordens superiores, que nos cumpre respeitar.
—Está pois em carcere privado?!
—Está na observancia dos deveres que lhe foram impostos, respondeu a porteira, com rispidez, fechando rapidamente o ralo da portaria.
Mas não o fez tão rapidamente, que não ouvisse ainda dizer ao desconhecido:
—Tempo virá em que justemos contas.
O desejo do frade seria ir procurar um machado, com que fendesse a golpes herculeos a grossa porta do mosteiro, para arrancar da clausura Margarida Candida.
Mas essa loucura, a realisar-se, daria apenas um resultado ephémero, que custaria certamente a liberdade de frei Simão, se lhe não custasse tambem a vida.
A ideia de que deixaria exposta a grandes perigos a sua familia de Cezár, especialmente suas irmãs, caso fosse preso, conteve-o.
A phrase do desconhecido, ouvida pela porteira, e transmittida á madre abbadeça, causára enorme alvoroto no mosteiro.
Aquelle homem, apesar do seu disfarce, era um padre, era decerto frei Simão, o frade apóstata, como os absolutistas lhe chamavam; era um inimigo perigoso por audaz.
A abbadeça ordenou logo que Margarida Candida fosse internada na casa-forte do mosteiro, defendida por grossas portas de castanho, chapeadas de ferro, e expediu aviso ás auctoridades da comarca para que sem demora mandassem vigiar e guardar o edificio, ameaçado de um assalto.
D’ali em deante uma força de milicias occupava militarmente o pateo do mosteiro, postando sentinellas em torno d’elle.
E as freiras, quando se lembravam de frei Simão, estremeciam de horror, soffriam hysterismos de medo, como se estivessem ameaçadas da visita de Satanaz em pessoa.
X
Morte redemptora
Muito ordinario é mandar nos Deus trabalhos, para serem meio de o buscarmos: e tambem instrumento de nos fazer mercê.
Frei Luiz de Souza—«Historia de S. Domingos», liv. III, cap. XIV.
O valle de Arouca, fertilisado pela agua de dois ribeiros, o Marialva e o Silvares, que ahi se fundem no rio vulgarmente conhecido pelo nome de Arda, é fechado por cerros alterosos, de uma melancolia agreste, ao sul a Freita, de éste a noroéste a Mó e o Gamarão.
A villa ainda hoje conserva o tom geral de uma povoação serrana, em que choças primitivas, feitas de colmo e barro, se agrupavam ao capricho de bêcos tortuosos e immundos, onde, por entre um lastro de matto sêco, os cerdos fossavam, as gallinhas esgaravatavam no chão.
O mosteiro, talhado em grande, contrasta com a rusticidade ingenua da povoação, que lhe fica proxima.
É, na phrase de um estimavel cultor das lettras, uma como rútila joia engastada n’um áro de rocha viva, o granito das montanhas que circumscrevem o valle, e de basto arvoredo, em que a oliveira frondosa predomina.
Apenas as _nuances_ da vegetação, desde a clara esmeralda do linho até ao verde cinzento do olivedo, suavisam, no valle, a impressão produzida pelo aspecto oppressivo das montanhas severas.
No topo da Mó alveja a capellinha da Senhora d’essa invocação, d’onde a vista abrange um horisonte amplissimo, recortado pelo contorno das serras distantes, que se esfumam ao longe n’um traço sinuoso de carvão azulado.
Passa, á distancia de duas a trez leguas apenas, caracterisando aquella região alpestre, o rio Paiva, confrangido entre negras penedias, espumando quando salta de fraga em fraga, represando charcos sombrios quando descansa um momento, e resoando, como um clamor subterraneo, surdo e rouco, na angustia do seu attribulado percurso até ao Douro.
Um trecho do Paiva, em Alvarenga, chega a ser medonho no perfil alcantilado, pardo e nú, das vertentes escabrosas, que se eriçam em blocos amontoados e revôltos, calcinados e bravios.
O Paiva recebe, em Paradinha, o curso do seu affluente Paivó, tambem ullulante e tôrvo, de margens desgrenhadas e duras.
Parece que, em toda essa região, a impressão da agua completa a da terra, e que um negro Cocyto foi intencionalmente conduzido por entre montanhas tartáricas, como uma integração adequada de um scenario sinistro.
Frei Simão, quando sahiu do páteo do mosteiro, e encarou o agro cariz d’aquellas asperas serras escalvadas, sentiu-se subitamente apprehensivo, abalado no seu animo forte e corajoso.
Uma vaga sensação de mal-estar, que pela primeira vez o assaltava, obrigou-o a sentar-se n’uma pedra e a deixar-se ficar meditando pensamentos fugidios e confusos, que molestamente se succediam e baralhavam.
Sobre as montanhas pairavam densas nuvens, laminadas de um azul-ferrete metallico, quentes de electricidade latente, o que aliás é vulgar n’aquella região. A atmosphera estava abafadiça, espêssa. De quando em quando cahiam grossos pingos d’agua, que a terra parecia sorver sôfregamente.
Assim esteve durante quasi meia hora, alheado n’um tumulto de idéas sombriamente incoerciveis, que ao mesmo passo o prendiam e sobresaltavam.
Por fim, querendo esclarecer a si proprio a surpresa d’aquella extranha preoccupação, attribuiu-a a um sentimento de justa repulsão por todo esse drama de tyrannia que se urdia na treva, no interior de um convento, em torno da sobrinha de André Pinto, o prepotente silveirista de Chaves.
Frei Simão, fanatico pela liberdade, idealisando eldorados de paz e de felicidade social sob a reconquista da democracia parlamentar, quanto elle se illudia! odiava aquelle carcere monastico onde uma fraca alma de mulher gemia oppressa e captiva, sem esperança de, como elle, poder emancipar-se da tutella da communidade e da escravidão do claustro.
Assim explicou frei Simão a si proprio esse desuzado torpor que por momentos lhe entibiou o espirito, rijo como o ferro em lances de maior tortura.
Relacionou mentalmente com o supplicio de Margarida Candida a desgraça de Joaquim Maria, degradado das suas dragonas de capitão, preso e enfermo, cahido n’um desalento que dia a dia se tornava maior e mais profundo.
E achando que a causa da sua indefinida preoccupação não podia ser outra, esforçou-se por combatel-a, readquirindo a habitual energia d’animo.
Um espirito menos forte haver-se-ia deixado enleiar pela apprehensão de que ha estados de alma, subitos e insistentes, que se devem attribuir a uma dupla vista, a uma lucida e inexplicavel previsão do futuro, que vulgarmente se traduz pela palavra presentimento.
Elle não. Elle não era homem que como José Maximo se deixasse avassalar por superstições e preconceitos. Envergonhado d’esse momento de cobardia, que o retivera ali, levantou-se, relanceou sobre o mosteiro um olhar de odio, que era uma nova ameaça mais eloquente talvez do que as palavras que a madre porteira lhe ouvira, e serenamente, a passos firmes, foi ao encontro do criado, que o esperava segurando a égua.
Frei Simão cavalgou com agilidade, e partiu sem tornar a pensar n’aquella meia hora de extranha indecisão doentia.
Chegando a Aveiro, encontrou o irmão no mesmo estado de torpor, que dia a dia o ia definhando.
Joaquim Maria passava a maior parte do tempo no catre, d’onde apenas sahia por instancias de frei Simão. Mas assim que o frade se ausentava, Joaquim Maria voltava para o catre.
O cirurgião da cadeia prescrevia-lhe uma therapeutica reanimadora. Vinham os remedios, e o doente emborcava-os da janella a baixo.
Mal tocava nos alimentos. Tinha um fastio mortal.
Durante o dia cahia por vezes n’um langor em que sonhava meio-accordado. Não dormia, e comtudo perdia o conhecimento de si proprio. Mas velava as noites n’uma insomnia tranquilla, muito lucido, pensando em Margarida, e crendo que lhe seria permittido encontral-a no ceu,—n’um mundo sydereo onde a Providencia devia compensar os tristes e affligidos.
Á volta de Arouca, frei Simão procurou, com a facilidade dos animos fortes, incutir alento ao irmão, insinuando a esperança de que a má noticia vinda de Chaves teria tido apenas em vista aggravar a sua tortura.
Um espirito menos corajoso que o de frei Simão haver-se-ia traído pelas lagrimas, pela sentimentalidade expansiva que involuntariamente vae até revelar uma verdade, que se desejava encobrir.
Mas nunca a esperança pareceu aquecer tão sinceramente o coração do frade como n’aquella hora em que elle era o primeiro desilludido. A cada mentira piedosa com que procurava galvanisar o doente, correspondia, sem que o semblante o denunciasse, o pungir de uma dor intima, e profunda.
Um mez depois, Joaquim Maria era um homem irremediavelmente perdido. O cirurgião disse-o a frei Simão de Vasconcellos, que sobejamente o sabia.
O proprio doente tinha a consciencia do seu estado, porque abruptamente pediu ao irmão que o ouvisse de confissão pela ultima vez.
Frei Simão não se mostrou abalado. Escutou impassivel. Joaquim Maria recordou serenamente todos os actos da sua vida, que revelavam a limpidez de uma alma honesta. Referindo-se á perseguição politica de que era victima, disse ao irmão:
—Tudo perdôo ao homem, que me reduziu a esta desgraça. Morro sem odios, e certo de que Deus terá compaixão da minha alma. Sorri-me até a ideia de, perseguido pelos homens, ir descançar na paz eterna da morte. Ao confessor não tenho mais que dizer, mas resta-me fazer ainda um pedido ao irmão e ao amigo.
—O que é? perguntou frei Simão, levantando-se com subita energia, como se adivinhasse o que Joaquim Maria lhe queria dizer.
—Não penses em vingar a minha morte, Simão, porque sou eu o primeiro a perdoal-a. Mas peço-te que procures arrancar a um infame supplicio a alma torturada de Margarida. Se algum dia a liberdade tornar a raiar n’este desgraçado reino, peço-te que te lembres de Margarida na hora do triumpho. Se a morte a não tiver libertado, liberta-a tu, corre ao mosteiro de Arouca, faze abrir de par em par as portas do carcere, e dize a Margarida: «Meu irmão morreu amargurado pela ideia de ter sacrificado o mais leal dos corações; cumpro a sua vontade vindo quebrar os grilhões que tão barbaramente escravisaram a martyr.» Para mim, Simão, não resta a menor duvida de que André Pinto obrigou Margarida a professar. Conheço de sobra a obcecação feroz dos absolutistas de Chaves, d’elle principalmente. E tenho a plena certeza de que Margarida não recuaria perante o sacrificio de toda a sua vida na hora em que a abandonasse a ultima esperança do seu dedicado amor. A noticia deve pois ser verdadeira.
Frei Simão tinha ouvido o irmão com essa attenção placida, mas absorvente, que é apanagio dos fortes. O seu olhar era vivamente incisivo, mas as linhas da physionomia não passavam pela menor crispação nervosa.
—Juro-te, disse elle com decisão, que se morreres primeiro do que eu, o que só a Deus pertence saber, hei de cumprir religiosamente o teu legado. A minha primeira homenagem á liberdade, se ella de novo felicitar este paiz, será a redempção da mulher que tão nobremente amaste. E agora, alma justa e boa, te absolvo, em nome de Deus, de tuas faltas veniaes. Eu, misero peccador, sinceramente rogo ao Todo Poderoso que me ensine a imitar o teu exemplo.
E crusando sobre a fronte pallida de Joaquim Maria a benção absolutoria, proferiu em voz baixa as palavras do ritual.
Depois despediu-se, e sahiu. Sentia-se oppresso, precisava respirar o ar puro que vinha da barra em brandas lufadas, as quaes passavam sobre a ria sem a fazer ondular.
Junto ao caes, um hiate de cabotagem parecia dormir immovel sobre a agua espelhante. E um barco de pesca deslisava suavemente, aproado ao oceano, esbatendo-se na claridade olympica da atmosphera maritima.
A quietação da paizagem e a luz gloriosa do ar contrastavam singularmente com a dolorosa concentração, que opprimia o coração de frei Simão de Vasconcellos n’uma treva de noite funda.
Chegado a Cezár, disse á irmã mais velha:
—Vou amanhã solicitar as devidas licenças para que seja permittido a um moribundo vir expirar nos braços da sua familia e em sua casa.
A irmã ouviu-o em lagrimas.
O cirurgião dos presos, ouvido sobre o requerimento de frei Simão, informou que Joaquim Maria estava irremediavelmente perdido, e poucos dias teria de vida.
Mas esta informação não conseguiu abalar o animo duro da justiça até o ponto de conceder que o capitão fosse transportado para sua propria casa. O mais que se concedeu foi que a familia de Cezár escolhesse habitação dentro da cidade de Aveiro ou perto d’ella, onde Joaquim Maria podesse ser recebido, sob fiança de uma familia conhecida.
Frei Simão obteve a annuencia da familia Rangel de Quadros, do Carmo, que se prestou a receber o preso, e a responsabilisar-se por elle.
Joaquim Maria sahiu da cadeia para a casa do Carmo nos primeiros dias de outubro d’esse anno de 1823.
Frei Simão e D. Maria Albina, a irmã mais velha, acompanharam-n’o.
O doente quiz que lhe fossem ministrados os ultimos sacramentos, e serenamente os recebeu.
O frade velava-lhe o leito, como enfermeiro dedicado. Ficou só, ao lado do irmão; fizera recolher a Cezár D. Maria Albina, e prohibira ás outras pessoas da familia que fossem alancear com a sua presença os ultimos momentos de um moribundo.
No dia 12 de outubro, que completava seis semanas de enfermidade, Joaquim Maria sentiu avisinhar-se a morte.
Apertou nas suas as mãos do frade e cravou n’elle um olhar insistente, que a agonia embaciava.
Frei Simão comprehendeu esse olhar, e disse ao moribundo:
—Não me esqueço do que prometti. Vae tranquillo.
E não podia ser mais tranquilla a morte de Joaquim Maria.
Foi o frade quem amortalhou o irmão e quem acompanhou o esquife á egreja do convento de Santo Antonio.
Quando frei Simão voltou á casa de Cezár, disse ás irmãs:
—Rezai por elle. Deus ha de premial-o, e a liberdade o vingará.
XI
Borrasca de ciume
É ciume um fogo que ateado em qualquer leve occasião, levanta ardente chamma e tão espêsso fumo, que abrasa, e céga, a quem está perto d’elle. E não só arde o sêco, mas no verde é mais perigoso.
Rodrigues Lobo—«O desenganado».
José Maximo foi desde o inverno de 1820 até junho de 1823 empregado como amanuense supranumerario na secretaria municipal do Porto.
Ignacio da Fonseca repellira-o, logo que soube que elle fraternisara com frei Simão nas alegrias do triumpho constitucional de 1820, e mandára dizer para o Fundão, ao irmão e á cunhada, que o sobrinho, em vez de estudar em Coimbra, perdia o tempo em machinações politicas, que o desviavam do cumprimento dos seus deveres.
Causou horror ao pae de José Maximo a noticia de que o filho estava filiado na seita dos pedreiros-livres. Conchavado com o irmão, tratou de averiguar miudamente qual tinha sido a vida de José Maximo nos ultimos tempos.
Ignacio da Fonseca foi de proposito a Coimbra para colhêr informações, e veio a saber que o sobrinho abandonára as aulas do Collegio das Artes, ausentando-se sem dizer para onde.
Bastaram estas denuncias, aliás incompletas, para que Ignacio da Fonseca recolhesse indignado a Cezár, e participasse ao irmão que estava resolvido a renegar um sobrinho indigno da sua estima.
O pai de José Maximo afinou pela colera do irmão. A mãe chorou amargas lagrimas pela sorte do filho, cujo destino ignorava, mas não poude abrandar a indignação do marido e do cunhado.
Os criados de Ignacio da Fonseca espalharam em Cezár, para que chegasse ao conhecimento de frei Simão, que «tanto o tio como o pai do sr. José Maximo não queriam tornar a saber d’elle.»
Frei Simão mandou esta ruim nova a José Maximo, para o Porto, e dizia-lhe por essa occasião: «Parece que estou condemnado a não poder escrever a Vossa Mercê sem ter que lhe dar noticias desagradaveis. Não bastou communicar-lhe que os criados de seu tio o reconheceram quando Vossa Mercê veio a Cezár. Agora os mesmos criados espalham por aqui que seu pai conhece tão bem como seu tio o facto de Vossa Mercê haver abandonado Coimbra. Apenas me parece que a sua familia ignora o que Vossa Mercê tem passado depois que se retirou das aulas: se o soubessem, não teriam deixado de o dizer e commentar.
«Eu passo aos olhos do sr. Ignacio da Fonseca por ser o desencaminhador, o genio mau de Vossa Mercê, e o fallatorio que por aqui vai tem visivelmente por fim apontar-me á indignação das gentes como pervertor politico de moços incautos. Mas eu, que no caso sujeito estou bem com a minha consciencia—Deus o sabe e Vossa Mercê tambem—não me incommódo com as injustiças que contra mim partem de visinhos rancorosos.»
Esta carta de frei Simão entristeceu José Maximo: elle conhecia o animo rispido do pai, e calculava, por isso, quanto a mãe teria soffrido desde que no Fundão se soube que abandonára as aulas de Coimbra.
Sentiu remorsos de ter dado esse desgosto á santa creatura que o adorava, e que elle já nem sequer via ha tanto tempo, por isso que, como sabemos, costumava ir passar as ferias a Cezár.
Não lhe pesava a ideia de não poder esperar da familia quaesquer recursos pecuniarios. Incommodava-o pouco, isso. Estava habituado a soffrêr incommodos desde que tomára o disfarce de serviçal em casa do general Canavarro.
Depois da victoria constitucional do Porto, arrumaram-n’o na secretaria do senado com um crusado novo por dia. Trez moedas chegavam-lhe bem para viver. Mas aquella situação era por de mais obscura para satisfazer o seu animo; equivalia a um bêco sem sahida. Repugnava-lhe ter que passar a vida na passividade ingloria de humilde copista, elle, que tudo tinha arriscado para fazer vingar a conspiração liberal do Porto.
Em muitas horas melancolicas reconhecia que frei Simão acertadamente lhe havia dito que só pelas armas ou pelas lettras se podia conquistar renome e posição. E no fundo do seu coração sentia pena de ter abandonado as aulas de Coimbra, fechando sobre si a porta de um futuro brilhante.
Principiou a reflectir sobre a illusão dos triumphos politicos, em que os primeiros são os ultimos, e os ultimos os primeiros. Orgulhosamente recordava que fôra elle que em Lisboa livrára Fernandes Thomaz das garras da policia, e que se Fernandes Thomaz houvesse sido preso, a revolução do Porto teria abortado.
Pois, não obstante, atiraram-lhe com um magro osso, como a um rafeiro, e nunca mais se tornaram a lembrar d’elle.
Fazia-lhe falta um diploma litterario. Se o possuisse, poder-se-ia nivelar com os corypheus do constitucionalismo, haveria sido eleito deputado ás constituintes, teria conquistado no parlamento um logar distincto.
Mas já ninguem parecia lembrar-se da abnegação, com que, no disfarce de _Fresca Ribeira_, se havia sentado ao tinélo do general Canavarro, comendo entre os outros criados.
O amor de D. Anna de Vasconcellos era a unica amarra que o prendia a uma vida descontente, e a uma esperança duvidosa. Ella ficára no Porto, em companhia de Frederico Pinto, e ficára, certissimamente, por causa d’elle.
A principio, José Maximo ia aos domingos passar a noite a casa de Frederico Pinto, e velozes lhe corriam ahi doces horas, que lhe davam alento para ir esperando um futuro incerto.
Mas um dia soubéra por D. Anna de Vasconcellos que o irmão lhe tinha dito:
—Não admitte duvida que José Maximo te ama, e que tu o amas tambem. Mas devo fazer-te vêr que elle tem um caracter exaltado, um animo fogoso, ao qual uma esperança tranquilla não bastará a dar felicidade. É pois possivel que pense, n’alguma hora de impaciencia, em antecipar um casamento, que as condições da sua posição social não podem auctorisar por emquanto. Se elle te propozer um rapto, recusa-o, porque tens obrigação, como mulher digna que és, de não vexar a nossa familia e envergonhar a minha casa.
Anna de Vasconcellos teve a imprudencia de contar isto a José Maximo, que se indignou com a certeza de que Frederico Pinto suspeitava da sua lealdade de cavalheiro.
—Teu irmão não me conhece ainda! exclamou elle exaltadissimo.
E nunca mais voltou a passar os serões do domingo em casa de Frederico Pinto.
Não contente com isto, aconselhou Anna de Vasconcellos a que voltasse para a casa do Outeiro.
—Prefiro a tua ausencia, disse-lhe elle, a ter que supportar a idea de que por tua causa me não fazem inteira justiça.
A pobre Anninhas, muito arrependida da inconfidencia, procurava desculpar o irmão, e resistia, com lagrimas nos olhos, ao alvitre de voltar para a casa do Outeiro ficando José Maximo no Porto.
Á força de rogos carinhosos conseguiu ella que José Maximo não insistisse pelo regresso a Cezár, mas não poude obter d’elle que voltasse aos serões do Campo de Santo Ovidio.
José Maximo tornára-se sombrio, concentrado. A esperança abandonava-o. Escrevia a D. Anna de Vasconcellos longas cartas, cheias de desalento, que todas as noites ella içava por um cordão de retroz da rua para a janella. Elle considerava-se uma alma incomprehendida pelo commum das pessoas, habituadas a medir o espirito humano pela bitola da vulgaridade egoista. Mostrava-se desacoraçoado do futuro, que previa «fertil e estrondoso em desgraças.» Este era o diapasão constante da sua correspondencia amorosa. «Sinto remorsos, escrevia elle uma vez, de ter feito a infelicidade de duas mulheres que eu adoro: minha mãe, e tu. O meu amor tem o triste condão da lepra: é contagioso na desgraça. Perdoa-me, bella alma, pura como as estrellas e delicada como as flores, perdoa-me o ter-te infelicitado só porque o meu coração te escolheu para amar-te entre todas as mulheres.»
Anninhas lia estas desalentadas cartas, e chorava. Ella mesma, habituada á linguagem sombria de José Maximo, começava a tremer pelo futuro, receiava-o.
Assim decorreram dois annos n’uma tortura de amor, cujas angustias a imaginação ardente de José Maximo parecia comprazer-se dolorosamente em augmentar.
Quando á contra-revolução transmontana de 1823 succedeu a desgraça de Joaquim Maria, mais se exaltou ainda em negras visões e apprehensões sinistras a phantasia lugubre de José Maximo.
«Vai-se cerrando em torno de nós, escreveu elle a D. Anna de Vasconcellos, uma atmosphera caliginosa, que parece aviso da nossa perdição futura. A desgraça pelo amor entrou já na tua familia. Fui eu que a trouxe com a minha má sina? Não sei. Mas firmemente creio que não deixarei de exceder o cruel destino de teu irmão Joaquim, e que tu não terás que soffrer menos que Margarida Candida.»
No fim de maio d’aquelle anno o infante D. Miguel restabeleceu facilmente, com a jornada de Villa Franca, o poder absoluto, de que o rei D. João VI, bem aconselhado, conseguiu apossar-se.
Os deputados liberaes, os famosos implantadores do constitucionalismo de 1820, fugiram, emigraram.
José Maximo estava tão desanimado, que indifferentemente recebeu, no primeiro momento, a noticia da restauração.
—Tanto valem uns como os outros. Não merece a pena escolhêr entre liberaes e realistas, disse elle no segredo da sua alma.