A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 5
Era uma ordem categorica, que saltava por cima de certas formalidades estabelecidas para taes casos. O rei mandava admittir Margarida Candida não só ao noviciado, mas tambem á profissão. Tudo isto se conseguiu com uma simples pennada.
André Pinto, para coroar a obra, imaginou fazer passar a sobrinha, quando a enviou a Arouca, pela prisão onde Joaquim Maria jazia entre ferros.
Por entre as lagrimas que lhes turvavam a vista, poderam os dois namorados trocar um fugitivo olhar n’esse lance de suprema angustia.
Saciada assim a vingança de André Pinto, quiz elle ver-se livre de Joaquim Maria, que foi desligado do regimento de cavallaria 6 e deportado para Aveiro.
VIII
Entre ferros
Despotismo cruel! tua face vejo... Com Joye te mediste. Altivo levantando a voz sem pejo: Antropóphago crú, lavado em sangue, Monstro sem lei, que as leis todas despreza, E arrastra sem vergonha O código da sabia Natureza
Marqueza d’Alorna—«Obras poeticas».
Margarida Candida entrou no mosteiro de Arouca com a firmeza dos martyres, que não tremem deante do sacrificio.
Depois que em Chaves trocou com Joaquim Maria aquelle saudoso olhar afogado em copiosas lagrimas, nunca mais tornou a chorar. A sua angustia concentrára-se n’um silencio doloroso, estrangulado. Liam-se-lhe no semblante os signaes de um grande soffrimento, mas os olhos conservavam-se enxutos e o olhar sereno contrastava com as frequentes contracções nervosas do rosto excessivamente pallido.
Toda a communidade de Arouca, com excepção d’uma unica pessoa, era absolutista.
Margarida Candida foi, portanto, recebida com uma irritante seccura, quasi hostilidade.
Percebe-se. Era um adversario que chegava; mais um, porque no mosteiro já havia outro, D. Ernestina de Carvalho, ainda aparentada com o coronel de milicias reformado, Manuel Monteiro de Carvalho, um dos justiçados do Campo de Sant’Anna, em 1817.
Esta senhora era orphã de um guarda-livros do Porto, que nenhuns bens tinha deixado. Foi soccorrida, bem como a mãe, por um tio viuvo que vivia em Lisboa e tinha apenas um filho, que se destinava ao curso de leis. Mas como este tio morresse, tendo gasto com a propria familia e com a do irmão todos os seus honorarios de funccionario publico, Ernestina teve de solicitar a entrada n’um convento, até que o primo se formasse e podesse ganhar dinheiro pela advocacia. A viuva do guarda-livros ficára residindo no Porto, e vivia pobremente de dar lições de primeiras lettras por casas particulares.
Ernestina de Carvalho, constitucional por tradição de familia, foi a unica pessoa que no mosteiro de Arouca disse a Margarida Candida uma phrase amoravel. E só muito de fugida lh’a poude dizer, porque toda a communidade vigiava attentamente os passos das duas recolhidas, que entraram precedidas da reputação de constitucionaes.
Ernestina, no momento de abraçar Margarida Candida, segredára-lhe com solerte disfarce: «Pode contar comigo.»
Esta simples phrase foi para a sobrinha de André Pinto como que uma promessa de amisade e auxilio, que lhe deu maior coragem para o sacrificio.
Ernestina sentiu-se desde logo attraída para aquella pobre menina de Chaves, que tinha a seus olhos o duplo prestigio de ser constitucional e de o ser por amor de um homem. Bastaria a primeira circumstancia para a recommendar á condolencia de quem estava ligada por laços de parentesco á memoria de um dos justiçados de Lisboa; mas o facto de se inscrever voluntariamente no martyrologio dos constitucionaes por dedicação ao capitão de dragões Joaquim Maria de Vasconcellos, era um tão galante heroismo, que sobredourava, aos olhos de Ernestina, aquelle predicado.
No mosteiro de Arouca sabia-se, de antemão, toda a biographia de Margarida Candida.
Fôra André Pinto que informára a freira sua parenta sobre o delicto amoroso da sobrinha, historiando-o miudamente. É certo que pedira segredo, e sóror Maria das Cinco Chagas, ao receber a extensa carta do primo de Chaves, talvez quizesse guardal-o. Mas, a meio da leitura, ou os óculos se lhe começaram a embaciar ou ella achou tão monstruosamente interessante a narrativa, que reconheceu a necessidade de desabafar com alguem. Ambas as coisas seriam talvez. Sóror Maria das Cinco Chagas mandou chamar sóror Genoveva do Espirito Santo para que se encarregasse de continuar a leitura da carta de André Pinto.
Ora sempre que uma freira mandava chamar outra á puridade, havia caso grave no mosteiro, fosse de politica domestica, algum assumpto de portas a dentro, ou de politica externa, alguma noticia importante que tivesse vindo de fóra.
Sóror Genoveva correu trigosamente ao chamamento. Estava rezando aos santos predilectos da communidade, S. Bernardo, S. Pedro, S. Paulo e Santa Mafalda, quando a criada de sóror Maria das Cinco Chagas lhe bateu á porta da cella. Ouvido o recado, sóror Genoveva deixou em meio o Padre-nosso que todos os dias rezava a Santa Mafalda, certa de que esta Santa corôada, por ser pessoa de casa, não se offenderia com a interrupção.
Chegada, sem demora, á cella de sóror Maria, e sabendo do que se tratava, não se limitou apenas a continuar a leitura da carta; quiz recomeçal-a, glosando-a periodo a periodo com muito piedosas exclamações, taes como esta:
—Que rica peça nos mandam para cá! (referia-se a Margarida Candida). É lé com cré! Ha de fazer uma boa parelha com a outra! (a outra era Ernestina de Carvalho).
Sóror Maria das Cinco Chagas recommendou o maior segredo a sóror Genoveva do Espirito Santo, e ambas estavam convencidas de que, para não dar maus exemplos á communidade, era de toda a conveniencia que fossem ignorados os factos escandalosos narrados na carta de André Pinto.
Fizeram pois o pacto de guardar sobre o caso absoluta reserva.
E, sempre com a discreta intenção de manter o sigillo ajustado, sóror Maria das Cinco Chagas contou muito confidencialmente a historia de Margarida Candida á madre escrivã, que era um poço sem fundo para guardar segredos, e sóror Genoveva do Espirito Santo, não menos confidencialmente, revelou o contheúdo da carta a outras madres, que, posto escrevessem menos do que a escrivã, fallavam mais do que ella, por serem muitas.
Dentro de duas horas, toda a communidade de Arouca conhecia a biographia amorosa da menina flaviense, que lhe iam mandar, por ordem de el-rei, para que a tivessem bem guardada e bem vigiada no mosteiro. A noticia, com todos os seus pormenores, incluindo o de Joaquim Maria ser irmão do frade apóstata de Cezár, até chegou ao conhecimento de Ernestina de Carvalho, que, pelo labéo de constitucional, não «bebia do fino» em bisbilhotices de convento. Mas outra sóror qualquer achou que seria conveniente avisal-a do que se passava, com o fim altamente moral de a admoestar dizendo:
—Veja agora a menina, que tem a cabeça cheia de minhocas constitucionaes, se mostra mais juizo do que a tal Margarida Candida, de Chaves.
Não se offendeu Ernestina de Carvalho, ao contrario do que se poderia esperar, com a picaresca phrase: «minhocas constitucionaes». Perdoou-a, contente com a boa nova de lhe annunciarem uma companheira, que pensava politicamente como ella, e que tinha uma historia amorosa muito suggestiva de sentimentalidade romantica.
Sóror Maria das Cinco Chagas, quando soube que já corria em todo o mosteiro a noticia da proxima chegada da sua parenta de Chaves, e das secretas razões que a motivavam, agastou-se com sóror Genoveva do Espirito Santo, que costumando aliás ser tambem um poço sem fundo, d’aquella vez alcatruzára indiscretamente um segredo baldeando-o de cella em cella.
Mas sóror Genoveva do Espirito Santo repelliu energicamente a accusação de que se dizia victima innocente, accusando por sua parte sóror Maria das Cinco Chagas de lhe ter recommendado silencio, indo, pouco depois, metter tudo no bico á madre escrivã, que, na opinião de sóror Genoveva, era mais falladora do que uma gralha.
A phrase que Ernestina de Carvalho poude segredar disfarçadamente ao ouvido de Margarida Candida, logo no dia da chegada, deu alento á pobre menina de Chaves, porque lhe deixou entrevêr a esperança de ter uma confidente sempre que o seu attribulado espirito carecesse de expansão, e muitas vezes seria.
Quanto se enganava, porém, Margarida Candida! Fraco auxilio lhe poderia prestar Ernestina de Carvalho, sempre espionada pela communidade. A phrase «Pode contar comigo» revelava apenas um impulso de espontanea sympathia, de instinctiva condolencia, mas difficilmente poderia traduzir-se em factos, e a prova não se fez esperar muito.
Como a biographia de Margarida Candida já era conhecida no mosteiro quando a abbadeça recebeu a ordem do prelado, acompanhada de uma copia do respectivo aviso regio, para ser admittida a sobrinha de André Pinto _não só ao noviciado, mas tambem á profissão_, a communidade redobrou de vigilancia com o fim de não deixar aproximarem-se uma da outra as duas meninas constitucionaes.
De modo que decorreram muitos dias sem que Ernestina de Carvalho e Margarida Candida podessem trocar entre si outra qualquer phrase, tantos e tão desconfiados eram os muitos olhos e ouvidos que constantemente as espiavam.
A sobrinha de André Pinto poude reconhecer que a sua solidão n’aquelle mosteiro teria de ser maior do que no primeiro dia se lhe afigurára.
E seria realmente assim, se, passados uns quinze dias, Ernestina de Carvalho, sahindo do côro hombro a hombro com Margarida Candida, sem lhe dizer palavra, lhe não tivesse intromettido rapidamente nos dedos da mão direita um papelinho vincado em muitas dobras.
Logo que entrou na sua cella, a sobrinha de André Pinto fechou-se por dentro, e leu sôfregamente o bilhete de Ernestina de Carvalho, que lhe dizia:
«Escrevo com o meu proprio sangue e com o bico de um alfinete para lhe repetir o que lhe disse no primeiro dia: Pode contar comigo. Sou a sua unica amiga n’esta casa. Mas por isso mesmo que estamos rodeadas de inimigas, não podemos fallar, como tem visto. Resta-nos apenas o meio de trocarmos os nossos pensamentos por escripto. Mas como nos não dão papel, nem pennas, nem tinta, aconselho-lhe que se não quizer ferir-se para escrever com o seu proprio sangue, como eu agora faço, procure colhêr na cêrca algumas amoras sem ser vista, para escrever com o summo d’ellas, que produz uma tinta soffrivel. Eu pude encontrar este bocadinho de papel em que lhe escrevo; mas a menina vá arrancando algumas folhas ou margens dos livros de orações, que já lhe deram decerto, e aproveite-as para escrever-me. As suas cartas e as minhas devemos escondel-as debaixo da pedra curva no tanque da _Cozinha velha_. Mas é preciso todo o cuidado para não sermos vistas. Mais uma vez lhe repito, minha boa amiga: «No pouco que eu puder, conte sempre comigo.»
Este bilhete deu algum lenitivo ao coração amargurado de Margarida Candida. Não lhe promettia, como ella desejava, uma franca convivencia, sem péas e sem obstaculos, com a boa Ernestina de Carvalho, que a Providencia lhe deparára ali, no carcere conventual de Arouca. Mas dava-lhe ao menos a certeza de que sob as abobadas do mosteiro havia um coração, que comprehendia o seu sacrificio, e que o lastimava espontaneamente. Os grandes desgraçados parecem-se com os pequeninos passaros que pousam sobre um fragil ramusculo: qualquer ponto de apoio os aguenta. A vida humana conserva-se ás vezes suspensa sobre um abysmo por um tenue fio de retroz.
Margarida Candida respondeu agradecendo reconhecida a commiseração de Ernestina de Carvalho, e acceitando-a. Como era natural que acontecesse, pedia-lhe que descobrisse um meio qualquer de se corresponder com Joaquim Maria. Mas para onde? Para a cadea de Chaves, julgava Margarida, porque nada mais sabia do que se tinha passado depois da sua entrada no mosteiro. Receiava, porém, que Joaquim Maria, na qualidade de preso politico, não recebesse a correspondencia, que lhe era destinada. Lembrou-se então de que o melhor seria dirigir as cartas para a casa do Outeiro, freguezia de Cezár, pelo correio de Oliveira de Azemeis.
Pobre menina! as cartas! Se nem papel teria para escrevel-as!
Ernestina de Carvalho respondeu por sua vez que era completamente impossivel achar um meio de correspondencia com quem quer que fosse.
«Poucos dias depois de eu ter entrado no convento—dizia ella—quando ainda governava a Constituição e as Côrtes funccionavam em Lisboa, facto que cá dentro do mosteiro ninguem queria reconhecer, escrevi a minha mãe um bilhete em que lhe pedia que empenhasse o conde de Rio Maior em tirar-me d’aqui, porque as freiras me offendiam a cada momento, só porque eu pertencia a uma familia liberal e sou a noiva promettida de meu primo Jayme, estudante de Coimbra, liberal tambem. Um dia, estando á janella, vi passar um almocreve e atirei-lhe, da grade abaixo, o bilhete, embrulhado n’um crusado novo. Não sei se esse papel chegou ao seu destino; mas ou minha mãe o não recebeu ou não conseguiu arrancar-me d’este inferno. Esperei que o almocreve tornasse a passar e me trouxesse alguma resposta. Nunca mais, porem, o tornei a vêr! Foi-se arrastando o tempo com um vagar, que chega a causar desespero, até que a menina, entrando aqui, veio ser minha companheira de infortunio. Poucos dias depois da sua entrada vi passar um pastorsito. Fiz-lhe signal para que esperasse. Atirei-lhe da janella outro bilhete para minha mãe e o ultimo dinheiro que possuia, e era pouco. N’esse bilhete alludia eu ao primeiro, prevenindo o caso de não ter sido recebido, instava com minha mãe para que conseguisse a minha sahida, antes mesmo da formatura de meu primo Jayme, e contava-lhe que estava aqui outra victima como eu, mas recentemente chegada, e essa victima, escusado será dizer-lh’o, era a menina. O pastor certamente entregou o bilhete, porque tornou a apparecer d’ahi a dias, olhando muito para a minha janella. Perguntei-lhe por gestos se trazia alguma resposta. Entendeu-me, e mostrou-me um papel. Fiz-lhe signal para que esperasse, emquanto eu ia vêr se conseguia encontrar uma fita, um cordel, qualquer cousa com que podesse guindar o bilhete. Quando voltei á janella, já não vi o pastor. Sabe o que aconteceu? Da portaria tinham visto o que se passára, arrancaram ao pastor a resposta de minha mãe, porque a propria abbadeça m’a mostrou, sem m’a deixar lêr, e eu conheci a lettra. E, berrando como uma possessa, a abbadeça disse-me que nem eu tornaria a receber bilhetes de minha mãe, nem minha mãe receberia de Arouca outras noticias alem d’aquellas que a meu respeito ella abbadeça lhe quizesse mandar. Que desafôro! que descaramento! e que tyrannia! Pois isto tudo passou-se assim mesmo. O que será agora, que a façanha do Infante em Villa Franca subiu á cabeça das freiras! façanha que ellas apregoáram ao mundo, durante trez dias e trez noites, com ensurdecedores repiques de sinos. Minha pobre mãe foi atrozmente enganada quando consentiu que escolhessem para mim este convento, peior que a inquisição. Mas, quem sabe? talvez que todos os outros sejam o mesmo! Pela morte de meu tio, ficamos desamparadas, e meu primo, para frequentar a Universidade, teve de requerer um subsidio; mas eu, emquanto Jayme não se forma, preferiria ser guardadora de cabras a viver aqui recolhida, se soubesse o que isto era.»
Margarida Candida viu fugir-lhe a ultima illusão, e com ella a ultima esperança. A sua desgraça era sem remedio. Só lhe restava enviar atravez d’aquellas altas montanhas graniticas o seu pensamento, como uma ave errante, ao encontro de Joaquim Maria, dizer-lhe de longe, sem que elle a podesse ouvir, que o amava com a mesma firmesa e com a mesma dedicação.
Um anno se passou, lentamente, na absoluta ignorancia de tudo quanto houvesse succedido fóra do convento.
Ernestina de Carvalho, n’um dos bilhetes que deixara no escondrijo combinado, aconselhou Margarida Candida a que se recusasse a professar violentamente. Dizia-lhe que o costume era reunir-se o capitulo, convocado pela abbadeça, para declarar se queria acceitar a noviça como religiosa. Que se o capitulo decidia, por votos, affirmativamente, a noviça tinha de requerer ao prelado que nomeasse um commissario para proceder ao interrogatorio, a que se chamava a _exploração de vontade_. No dia em que o commissario chegava, a noviça era posta em plena liberdade, fóra da porta principal do mosteiro, e ahi interrogada sobre se era a mesma signataria do requerimento, se o fizera sem pressão e violencia ou se havia sido persuadida, indusida ou constrangida a professar o estado de religiosa.
Margarida Candida, que ignorava todas estas circumstancias, ficou, desde o momento em que as conhecêra, firmemente resolvida a assignar o requerimento para ter occasião de declarar alto e bom som ao commissario que era constrangida a professar pela coacção de André Pinto. D’este modo, conseguiria o seu fim na presença do commissario, porque o requerimento tinha pouco valor: se ella se recusasse a assignal-o, facilmente poderiam falsificar-lhe a assignatura. Melhor seria pois mostrar-se submissa para ter occasião de que o commissario podesse ouvir as suas categoricas declarações.
IX
Ultimo desengano
Maravilhas do Amor quem as entende? Os segredos do Amor quem os alcança? Uns corações em vivo fogo accende, A outros nega de si toda esperança.
Pedro de Andrade Caminha—«Poesias».
Ignorava Margarida Candida que o rei havia ordenado que ella professasse, e que o prelado, enviando para Arouca uma copia do aviso regio, implicitamente auctorisava a dispensa das formalidades reguladas pelo concilio Tridentino e pela constituição do bispado.
Pois fazia-se isso, quando não se simulava o cumprimento d’aquellas formalidades substituindo a noviça por outra qualquer pessoa do seu sexo.
D’esta vez, a unica prescripção respeitada foi a de que entre o primeiro dia de convento e a profissão devia medeiar «um anno perfeito e acabado.»
Preenchido um anno completo, Margarida Candida foi chamada ao templo, e ahi recebeu aviso para immediatamente professar.
Reagiu energicamente, rompeu em lastimosos clamores, protestando contra a violencia de que era victima, pois que nem tinha requerido, nem a sua vontade havia sido explorada pelo interrogatorio de um commissario.
—Olha a doutora! exclamou uma freira. Como seria que a _outra_ teve artes de lhe ensinar tudo isto!
Mas como a resistencia de Margarida Candida não afrouxasse, outra freira, simulando-se muito compadecida de sua desgraça, disse-lhe ao ouvido:
—Se a menina amava sinceramente aquelle homem, não terá decerto duvida em professar, porque elle morreu.
—Morreu! repetiu Margarida Candida num grito estridente, que reboou no templo.
E cahiu sem accôrdo contra o peito d’essa e outras freiras, que acudiram a amparal-a.
Ao cabo de poucos minutos, Margarida tornou a si, n’um abatimento de corpo e de espirito, que fazia d’ella um authomato.
Cortaram-lhe a trança de cabello, que era farta e bella; impozeram-lhe o veu da ordem, que ella recebeu sem reluctancia.
E, n’esse momento, o sino do mosteiro dobrou n’uma resonancia funebre, que parecia gemer nas quebradas das serras imitando os arrancos plangentes de uma voz humana.
Ernestina de Carvalho, que estava na sua cella, sahiu ao corredor quando ouviu dobrar o sino.
Viu o corredor deserto. Esperou que passasse alguem. Algum tempo depois assomou ao longe uma criada, que era ajudanta da sachristã. Quando a criada se aproximou, Ernestina de Carvalho perguntou-lhe cheia d’um tão vivo interesse, que se poderia dizer presentimento:
—Quem morreu, sr.ª Carmo?
—Não morreu ninguem, respondeu a criada com accentuada ironia; foi a sr.ª D. Margarida Candida que professou hoje. Já pertence ao numero das esposas do Senhor.
—Desgraçada menina! exclamou Ernestina fechando a porta da cella com um movimento de odiosa repulsão.
E a criada, arrastando os passos ao longo do corredor, foi resmoneando indignada:
—Que figados de pedreiro-livre que tem esta rapariga! Nem santa Mafalda lhe vale! Ha de ir direita para o inferno com o marido que lhe destinam, e que é tão bom como ella! Cruzes, canhoto! Até parece que cheira aqui a enxofre!
Sóror Maria das Cinco Chagas escreveu para Chaves informando o seu parente André Pinto dos bons serviços que lhe havia prestado justamente no momento em que Margarida Candida oppunha mais escandalosa resistencia á profissão.
«Para a desarmar e quebrar-lhe as forças—dizia a freira—tive a feliz idéa de lhe mandar dizer que o tal capitão de dragões havia morrido. Ora foi como se se deitasse agua no fogo! E depois tudo se consummou sem maior escandalo.»
Sóror Maria das Cinco Chagas orgulhava-se da sua imaginosa invenção, que cortou o nó gordio, valendo a espada de Alexandre.
André Pinto vangloriou-se de vêr realizada, com tão feliz exito, a sua obra de tyrannia, e espalhou em Chaves a noticia da profissão da sobrinha, como se se tratasse de um triumpho obtido por elle proprio.
Houve quem escrevesse a Joaquim Maria para Aveiro informando-o, com damnado proposito, da profissão de Margarida Candida. Fôra André Pinto, que ditára a participação a um amanuense, para esse fim convidado e assalariado. Era o golpe de misericordia da sua vingança contra o capitão de dragões.
Joaquim Maria recebeu na cadeia de Aveiro, onde estava com outros presos politicos, a terrivel noticia, que desde logo acreditou porque a esperava.
Elle conhecia bem André Pinto, e sabia que a sua perseguição iria até ao ultimo extremo da perversidade.
Desde esse momento a vida tornou-se-lhe um fardo inutil. Tudo estava acabado para todo o sempre.
No dia seguinte, quiz levantar-se do catre e não poude. Faltaram-lhe as forças.
Foram dizer-lhe que, para aproveitar os «beneficos effeitos da amnistia», podia justificar o seu procedimento perante a _Commissão de rehabilitação_ que o governo absoluto havia creado em Lamego.
—Não quero justificar-me, respondeu Joaquim Maria. A minha consciencia está tranquilla.
Frei Simão de Vasconcellos, vendo o irmão profundamente desalentado, e cada dia mais doente, lembrou-se de ir a Arouca averiguar pessoalmente se a noticia da profissão de Margarida Candida era verdadeira.
N’uma das suas frequentes visitas á cadeia de Aveiro, resolveu proceder a essa averiguação, sem dizer nada a Joaquim Maria. E, em vez de recolher á casa do Outeiro, seguiu jornada para Arouca, tomando em Macieira de Cambra um ligeiro disfarce.
Entre-sorria-lhe a vaga esperança de que a informação fosse falsa, e de poder vir dizer ao irmão: «Resurge de ti mesmo, porque a tua felicidade não está ainda completamente perdida.»
Mas, a espaços, tambem elle proprio desanimava, porque as vinganças politicas, especialmente na provincia, attingiam os maiores excessos. Até por experiencia propria o sabia. Em Cezár, a casa do Outeiro estava rodeada pelo odio dos visinhos, e se não fosse o terror que lhes inspirava a valentia de frei Simão, o odio absolutista teria já explodido brutalmente.
Um dos mais encarniçados inimigos de ao pé da porta era Ignacio da Fonseca, depois que teve a certeza, pela denuncia dos criados, de que José Maximo viera furtivamente á casa do Outeiro entender-se com frei Simão para algum fim politico, suppunha elle.
Logo os criados de Ignacio da Fonseca fizeram correr em toda a freguezia a noticia de que o patrão nunca mais daria a benção ao sobrinho, nem o queria tornar a vêr, noticia que frei Simão se apressou a transmittir para o Porto a José Maximo.
E como por essa mesma occasião apparecessem derrubadas algumas arvores na quinta do Outeiro, e incendiadas algumas mêdas de palha, frei Simão tratou de conter em respeito os seus inimigos, que deviam ser principalmente os criados de Ignacio da Fonseca, rondando por horas mortas, de clavina aperrada, as immediações da casa.
Uma noite pareceu a frei Simão que dois vultos de homem procuravam encobrir-se com o tronco das arvores. Metteu a clavina á cara, e disparou. Sentiu depois rumorejar a folhagem como agitada pelo rapido movimento de alguem que fugia.