A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 4
Por este motivo resolveu-se que Fernandes Thomaz viesse a Lisboa. Veio, e trouxe comsigo José Maximo, que retomára o seu antigo disfarce de criado, para o acompanhar.
A regencia do reino, avisada de que Fernandes Thomaz tinha partido para Lisboa, expediu contra elle apertadas ordens de prisão.
Um dia, Fernandes Thomaz tinha sahido logo pela manhã para avistar-se com um amigo, que morava ao Arco da Graça. José Maximo ficou em casa a preparar-se para ir entregar umas cartas, que o desembargador havia escripto na vespera á noite.
Descia elle a escada, no seu disfarce de criado, quando entraram dois beleguins.
—Olá! ó rapaz! perguntou-lhe um dos esbirros, tu és criado cá da casa?
—Sou, sim, senhor.
—Dize-nos uma coisa: não está aqui hospedado um sujeito que veiu do Porto?
José Maximo respondeu sem a menor hesitação:
—Está, sim, senhor. Está lá em cima, no quarto. Chegou ante-hontem.
Os beleguins subiram a escada contentissimos, e José Maximo, não menos contente, correu ao Arco da Graça a avisar Fernandes Thomaz do que se tinha passado.
Foi tão feliz, que o encontrou no caminho, de volta para casa. Fernandes Thomaz retrocedeu, e n’essa mesma noite retirava com José Maximo para o Porto, demorando-se, de passagem, algumas horas em Coimbra, para conferenciar com o seu particular amigo José Maria da Encarnação.
José Maximo tinha ganho, definitivamente, as suas esporas de ouro de conspirador. Se não fosse elle, Fernandes Thomaz haveria sido preso, e a revolução do Porto teria abortado. Fernandes Thomaz, bem como todo o _Synhedrio_, reconheceu, com palavras de muito louvor, esse importante serviço.
Sepulveda felicitava-se de ter concorrido para a iniciação de um tão importante e dedicado auxiliar.
A felizmente mallograda occorrencia de Lisboa determinou o _Synhedrio_ a precipitar os acontecimentos.
No dia 24 de agosto rebentava no Porto a revolução. Todos os coroneis dos corpos da guarnição a apoiaram. O tenente-general Canavarro adheriu, como se esperava. O senado da camara tambem.
No Campo de Santo Ovidio, á frente das massas populares, que davam vivas á tropa, distinguia-se José Maximo, cujo chapeu andava n’uma constante rodaviva, regendo os compassos do enthusiasmo revolucionario, como se fosse a _batuta_ de um _maestro_.
Numerosos grupos percorriam as ruas da cidade, acclamando os vencedores.
Na occasião em que um d’esses grupos passava pela porta do governador das armas, José Maximo avançou e, fazendo concha com ambas as mãos sobre a bocca, berrou para uma das janellas, em que a doidivanas Catharina parecia muito admirada de o vêr:
—Ó sr.ª Catharina! agora é que eu estou na minha fresca ribeira!
O Teixeira, muito contrariado com os acontecimentos d’aquelle dia, mas sempre muito discreto, abstinha-se de fallar, comquanto não pensasse n’outra coisa.
—Parece impossivel, matutava elle, que o sr. general deixe em liberdade todo este desafôro! Até os criados de servir já se mettem a patriotas! Pois o Manuel era um bom rapaz, mas corromperam-n’o! Que pena e que desgraça!
VI
Uma nuvem em ceu azul
Que buscas por aqui por esta serra Que segundo o que julgo vás errado?
Frei Agostinho da Cruz—«Varias poesias».
Quando a noticia da revolução do Porto chegou a Cezár, frei Simão de Vasconcellos, delirante de alegria, quiz commemoral-a festivamente.
Embandeirou as janellas da casa do Outeiro, e mandou á Feira, por um proprio, comprar morteiros e bombas.
Estas demonstrações de jubilo irritaram profundamente os visinhos que eram absolutistas.
A cada morteiro que estrondeava de dia ou de noite, Ignacio da Fonseca, desesperado, lamentava que o sobrinho estivesse ausente, porque, dizia elle, havia de o mandar disparar muitos tiros, por troça, ao pé da casa do Outeiro.
Na sua opinião não havia ninguem como José Maximo para dar tiros á tôa.
O abbade Moreira Maia não gostou da «funcçanata» do Porto, como elle classificou ironicamente o inicio do movimento liberal, mas isso não o impediu de montar a cavallo como tinha por costume. Padre Antonio Pinheiro, porém, encerrado no seu quarto, rezava de joelhos, com os olhos fechados, e, ao estrondo de cada detonação festiva na casa do Outeiro, estremecia de terror como se o mundo desabasse em torno d’elle.
José Maximo, no dia vinte e seis de agosto, ao fim da tarde, sahiu do Porto depois de ter ido perguntar a Frederico Pinto se queria alguma coisa para a sua familia.
Este irmão de frei Simão tinha casado havia um anno, como já sabemos.
Frederico Pinto, constitucional dedicado, disse a José Maximo que abraçasse por elle o irmão, ao qual, aproveitando o ensejo, escreveu uma carta.
José Maximo recebeu a carta aberta, mas fechou-a na presença de Frederico Pinto. E partiu.
Fez a jornada a cavallo, acompanhado por um arrieiro, que despediu a uma legua de distancia de Cezár, no ponto em que tinha de abandonar a estrada real do Porto a Coimbra.
Não desejava ser visto por ninguem da casa de Ignacio da Fonseca, mas já o não assustava a hypothese de que o tio viesse a saber que elle estava em Cezár.
A embriaguez capitosa da victoria duplicava-lhe a ousadia.
Em caminho do Outeiro, viu por entre as plumas amarellas de um campo de milho, que pertencia ao tio, apparecer uma cabeça de homem. Cozeu-se com o muro do atalho, e passou.
Na casa do Outeiro foi recebido como um vencedor. Frei Simão deu-lhe uma boa duzia de abraços muito expansivos.
Anna de Vasconcellos felicitou-o com ternos olhares, mais gloriosos para José Maximo do que uma corôa de louros. E o estrondo dos morteiros, augmentando, reavivou o desespero de Ignacio da Fonseca e o sobresalto do padre Antonio Pinheiro.
Largamente contou José Maximo os trabalhos por que tinha passado no Porto, a sua ida a Lisboa com o desembargador Fernandes Thomaz, factos de que em carta cifrada havia mandado summaria noticia a frei Simão.
Estava encantado de ouvil-o, o frade. Sentia-se orgulhoso de _ter inventado_ aquelle revolucionario, por cuja intervenção collaborára tambem no movimento do Porto. Era como que uma vaidade de editor, que acabasse de dar ao prelo uma preciosa obra até ahi inédita e, portanto, desconhecida.
—E, agora, o que tenciona vossa mercê fazer? perguntou frei Simão a José Maximo.
—Eu sei lá! Estou ao serviço da junta provisional, e farei o que me mandarem.
—Volta então para o Porto?
—Tenciono voltar esta noite, porque apenas pedi licença por vinte e quatro horas.
—Que pressa! Tem vossa mercê deante de si um bello futuro. Mas pena é que não adopte uma carreira definida: a das armas ou a das lettras. São as unicas que no nosso paiz dão presentemente accesso ás maiores honras. Por que não pensa vossa mercê em continuar os seus estudos?
—Farei o que os meus amigos quizerem que eu faça.
Lembrou-se José Maximo de entregar a carta de Frederico Pinto a frei Simão.
O frade leu-a com interesse, e chamou em alta voz as irmãs para repetir a leitura.
Frederico Pinto convidava Anninhas—como na familia lhe chamavam—a ir passar algum tempo no Porto, em companhia da cunhada.
«Individualiso a Anninhas, dizia o ex-ajudante de infanteria 18, por ser a mais nova das manas, e por isso a que menos falta poderá fazer no Outeiro. Seria muito agradavel a minha mulher ter aqui uma menina da sua condição e do nosso sangue com quem repartisse as alegrias e os cuidados de mãe feliz e dedicadissima. O nosso Frederico promette ser um rapagão sádio e forte. Mas a Margarida queixa-se de que eu não tenho geito nenhum para ajudal-a a enfaixar e adormecer creanças.»
Mal podia imaginar José Maximo que essa carta, de que fôra portador, havia de lhe dar tão agradavel surpresa. Ficou doido de alegria. Anna de Vasconcellos tambem não poude dissimular todo o contentamento que a alvoroçou.
Consultada por frei Simão, respondeu de prompto que acceitava o convite. As outras irmãs sorriram, e frei Simão imitou-as involuntariamente. José Maximo, vendo sorrir as trez senhoras e o frade, tambem deixou entrevêr um sorriso, de que chegou a envergonhar-se. Só Anninhas, cahindo de repente em si, ficou n’um pudibundo enleio, que a tornou mais graciosa.
Durante o dia, José Maximo, aproveitando um momento de estar a sós com frei Simão, disse-lhe improvisamente:
—Tenho que fazer um pedido a vossa reverencia.
—Um pedido! exclamou o frade.
E receiou que José Maximo se lembrasse de pedir-lhe a mão de Anninhas. Frei Simão adorava esse rapaz, é certo, mas não poderia consentir n’um casamento, que desde logo não garantisse a independente subsistencia dos conjuges. A suspeita de ter que recusar, quando quereria conceder, sobresaltou-o dolorosamente.
—Um pedido, repetiu serenamente José Maximo. Vai vossa reverencia fazer-me o favor de acceitar uma restituição, sem que se dê por affrontado.
—Como?! perguntou frei Simão cada vez mais surprehendido. Uma restituição?!
—A ultima vez que estive n’esta casa obsequiou-me vossa reverencia com uma peça de ouro, dez crusados novos e um _napoleão_. Restituo a moeda portugueza, e guardarei a de França, como recordação historica, a que a significação, que vossa reverencia lhe deu, duplica o valor.
—Mas então, perguntou o frade, vossa mercê não precisou tocar n’esse dinheiro?!
José Maximo sorriu e respondeu:
—Esquece-se vossa reverencia de que fui durante algum tempo serviçal assalariado do governador das armas do Porto?! Depois d’isso subi de categoria e tenho recebido honorarios pelo meu trabalho de amanuense da junta. Quiz recusal-os, mas o sr. Fernandes Thomaz disse que, conhecendo os meus apuros, não podia dispensar-me de receber um modesto estipendio. A minha hesitação cessou completamente quando elle accrescentou que apenas queria remunerar os serviços materiaes, porque não havia ouro que pagasse uma dedicação sincera. Ora eu repito a mesma cousa a vossa reverencia: restituo aquillo de que não precisei, mas permanecerei devedor insoluvel pela gratidão eterna que devo a vossa reverencia.
Frei Simão estava como absorto deante d’aquella hombridade de caracter, d’aquelle orgulho de fidalgo pobre n’um moço que, por servir a liberdade, se tinha sacrificado ao ponto de assoldadar-se como serviçal. E quasi sentiu remorsos de ter receiado que José Maximo lhe quizesse pedir a mão da irmã. «Não! pensava o frade, um homem d’estes fará minha irmã princesa ou não casará jamais. É muito altivo para lhe impôr o sacrificio da pobresa. Os caracteres que mais facilmente se sacrificam são os que mais obstinadamente procuram evitar o sacrificio alheio.»
Frei Simão conhecêra a preceito a alma de José Maximo. Abraçou-o visivelmente commovido, e guardou o dinheiro sem oppôr maior resistencia.
Foi já de noite que José Maximo sahiu do Outeiro para o Porto.
Nunca elle havia trilhado aquelle caminho em tão alegre disposição de espirito.
A causa da liberdade estava ganha. Com a excessiva credulidade que é propria da gente moça, imaginava José Maximo que a revolução liberal era um monumento inabalavel e duradouro como as pyramides do Egypto. Tão cego de enthusiasmo estava, que nem a lição do que se tinha passado em Hespanha lhe acudia á memoria; não se lembrava de que, depois da revolução de Cadiz, Fernando VII se repatriára em triumpho e fôra acclamado rei absoluto pelas tropas do general Elio, com applauso da nação. O que José Maximo apenas via ou queria vêr era a victoria da liberdade em procissão festiva pelas ruas do Porto, e a ventura que n’aquella cidade o esperava na hora em que Anna de Vasconcellos lá chegasse. O coração e o espirito estavam satisfeitos. Parecia a José Maximo que todos os ideiaes da sua vida tinham attingido uma realidade tão feliz como perduravel.
Ao entrar no atalho que cortava os milharaes de Ignacio da Fonseca, viu, de repente, trez homens sentados no rebôrdo do muro, que era feito de pedras soltas. Conversavam fumando. José Maximo não gostou do encontro, mas não se acobardou. Levantou a gola da niza, derrubou o chapeu sobre a testa, e seguiu.
Tinha já passado pelo grupo, quando um dos trez homens gritou:
—Ó sr. José Maximo!
Fez que não ouvia. Mas outra voz insistiu:
—Então não quer o sr. José Maximo jogar o entrudo comnosco?! Ora quem elle é! O sobrinho do patrão! Vá com Deus, sr. José Maximo, e boa viagem.
Nem uma nem duas. José Maximo, que distinguiu perfeitamente a voz de Manel Zarôlho, criado de seu tio, foi andando sem responder. Mas levou a certeza de ter sido reconhecido pelo grupo.
Justamente esse criado era o que andava trabalhando no campo quando José Maximo passára para o Outeiro. Viu o sobrinho do patrão, e asseverou aos outros dois criados que era José Maximo em carne e osso.
—Aqui anda marosca por força! accrescentou. De casa do frade não sahe cousa boa.
Eram as ideias do patrão, a opinião dos absolutistas de Cezár com relação a frei Simão de Vasconcellos.
—Homem! pode ser que te enganasses, objectaram-lhe os outros.
—Qual historia! Não conheço eu outra cousa! Senão p’ra quê, havemos de desenganar-nos. De dia ou de noite, elle hade sahir do Outeiro, e como foi ás escondidas decerto se não demora muito. Havemos de vêr-lhe a figura.
Esperaram-n’o, e reconheceram-n’o, apesar de José Maximo não ter respondido.
O povo parece gostar de ser alviçareiro de ruins novas, sobretudo quando se lhe afigura que o revelal-as pode parecer dedicação pelo interessado em sabel-as.
Correram pois os trez criados a dar conta a Ignacio da Fonseca do que se tinha passado.
O lavrador, que andava aturdido com a revolução do Porto, ficou boqui-aberto.
Deu-lhe um bate no coração.
—Querem vocês ver, disse elle, que meu sobrinho vai feito com frei Simão e com toda essa maldita cambada de pedreiros-livres?! Pois se assim fôr, não quero que torne a pôr-me a vista em cima, nem tornar a vêl-o n’este mundo ou no outro.
VII
Angustias
A vida, se a não desejára para vos servir, pouco me dêra perdel-a aqui...
Francisco de Moraes—«Palmeirim de Inglaterra».
—E a _Flor do Támega_? pergunta decerto a leitora, aborrecida de não ter tornado a receber noticias de Chaves.
Tem razão, minha senhora. Mas antes v. ex.ª se interesse pelos personagens d’esta novella, que se enfade de os vêr e ouvir. Essa pergunta é uma prova de que v. ex.ª tem seguido a narrativa até ao momento em que estamos agora.
Pois, muito respeitosamente, vou informar v. ex.ª do que continuou a passar-se em Chaves, depois que no Porto rebentou a revolução de 20.
André Pinto, soffreado pelo conselho de Antonio da Silveira, já despeitado com os constitucionaes, não se atreveu a fazer novos destempêros contra a sobrinha nem contra o capitão de dragões. Amaciou, mas apenas apparentemente. O seu despeito não era menor por concentrado.
Desde o momento em que Antonio da Silveira deixou de presidir á junta do governo por incompatibilidade com os seus collegas de Lisboa, que se desfizeram d’elle, toda a familia dos Silveiras ficou unificada no odio ás novas instituições politicas.
Trataram logo de conspirar, atiçados de Queluz pela rainha D. Carlota Joaquina, que regressára do Brazil com a côrte, e que só podia contar com as provincias, visto que Lisboa acabara por adherir ao movimento do Porto.
Em Chaves, o conciliabulo dos conspiradores reunia-se em casa do juiz de fóra, Antonio Bernardo de Figueiredo, e ahi concoriam todas as noites varios militares, alguns abbades, e outras pessoas em correspondencia com os Silveiras.
André Pinto era certo.
Tratando-se de procurar attrair ao conciliabulo outros militares, de quem ainda se duvidava ou de quem se receiava mais, alguem fallou no capitão Joaquim Maria de Vasconcellos.
André Pinto abanou a cabeça, em signal negativo.
Mas não obstante esta manifestação, que se tornou suspeita, porque toda a gente já sabia em Chaves que o capitão namorava a sobrinha de André Pinto, resolveu o conciliabulo que o coronel reformado Manoel Caetano Teixeira Pinto ficasse encarregado de vêr até que ponto se poderia contar com a adhesão d’aquelle official.
O coronel desempenhou a sua missão o mais habilmente que poude, mas Joaquim Maria repelliu com energia todas as propostas que lhe foram feitas.
Vendo-se rechaçado, o coronel procurou ferir a corda sensivel do amor no coração do capitão de dragões.
Lembrou-lhe, sem rebuço, que, amando elle uma sobrinha de André Pinto, e sendo André Pinto um dos mais conspicuos membros do conciliabulo, decerto proviriam grandes desgostos de uma tão intransigente obstinação. E que pensasse serenamente, porque esses desgostos iriam reflectir-se, principalmente, n’uma pessoa que ou havia de submetter-se ou desgraçar-se. Referia-se a Margarida Candida, presumptiva herdeira de André Pinto.
Respondeu Joaquim Maria que a sua honra o impedia de adherir á projectada contra-revolução, porque todo o homem que não respeita as suas proprias convicções, se deshonra a si mesmo. Que, visto que a sua inclinação pela sobrinha de André Pinto era conhecida em publico, só lhe restava, ainda que para o fazer tivesse de despedaçar o coração, mandar dizer a essa senhora que a desligava do destino de um homem por quem, se continuasse a amal-o, teria que soffrer grandes amarguras.
O coronel transmittiu ao conciliabulo a resposta de Joaquim Maria.
André Pinto sorriu ironicamente e commentou:
—Então não dizia eu que aquillo é um pedreiro-livre dos quatro costados?!
Ninguem se atreveu a responder-lhe.
Joaquim Maria cumpriu o que dissera. Escreveu a Margarida Candida uma longa carta, regada por abundantes lagrimas, que pareciam envergonhar a farda de um dragão de Chaves. Dizia-lhe um eterno adeus, e pedia-lhe que se conformasse com a vontade do tio, para evitar desgostos e soffrimentos, dos quaes o menor seria a pobresa a que elle certamente a condemnaria.
André Pinto, recolhendo do conciliabulo, correu a dar parte á sobrinha da resposta do capitão.
—E agora, perguntou elle, ainda não terás vergonha de namorar um descaradissimo maçon, para quem vales menos do que a Constituição?!
—Agora, meu tio, respondeu ella com firmesa, agora é que eu acho que elle é, mais do que nunca, um homem digno do meu amor.
—Ah! sim! exclamou André Pinto muito apopletico. Ah! sim! pois eu te ensinarei, minha tonta!
E fechou-se no quarto a pensar na melhor maneira de castigar a audacia da sobrinha.
A sua primeira idéa foi expulsal-a de casa: que fosse comer o pão que o diabo amassou. Pedisse esmola de porta em porta, já que não tinha juizo nem vergonha.
E deitou-se com esta idéa.
Mas de manhã accordou com outro projecto, que pareceu ser conselho do travesseiro.
Mandal-a-ia para um convento, e esse convento seria o de Arouca, onde havia uma freira sua parenta.
Margarida Candida, por sua vez, respondeu ao capitão narrando-lhe o que se tinha passado com o tio. Não podia dar mais eloquente resposta á carta em que Joaquim Maria lhe dizia um «adeus eterno.» Fosse muito embora eterno esse adeus, ella não amaria jamais outro homem: a prepotencia de André Pinto não conseguiria vencer a sua constancia, que era inabalavel.
O conciliabulo de Chaves jurou pela pelle de Joaquim Maria. Se vencessem, como esperavam, haviam de castigal-o severamente.
E André Pinto, desenvolvendo uma actividade extraordinaria, como quem tem sêde de vingança, mostrava-se encanzinado em adeantar os trabalhos preparatorios da contra-revolução.
O seu desejo seria mandar desde logo a sobrinha para o convento de Arouca, mas temia-se da influencia da familia do Outeiro junto do governo e das côrtes de Lisboa. Receiava que ou não admittissem Margarida Candida no convento ou que a fizessem sahir de lá pouco depois de ter entrado.
Os dois namorados esperavam todos os dias a realisação das ameaças de André Pinto. O capitão de dragões sabia que os conspiradores tratavam de apressar o movimento em toda a provincia de Traz-os-Montes, e prevenira o general da provincia; fizera mais, escrevêra cartas anonymas aos ministros, avisando-os.
No dia 1 de fevereiro de 1823 o governo chamara a attenção do congresso para a necessidade urgente de tomar medidas repressivas. Por sua parte, os Silveiras, vendo que o governo estava prevenido do que se passava em Traz-os-Montes, trataram de pôr quanto antes a revolução na rua.
De feito, no dia 23, por occasião de sahir em Villa Real a procissão de Passos, Manuel da Silveira, segundo conde de Amarante, soltou o primeiro grito da restauração.
A villa esteve em festa todo o dia e toda a noite.
Os revoltosos partiram d’ali para Chaves, onde foram recebidos triumphalmente com repiques de sinos, foguetes e vivas.
O conde de Amarante, saudado pelo povo flaviense, fôra hospedar-se em casa de Diogo Pereira de Lacerda, amigo de André Pinto.
Duas horas depois de ter chegado a Chaves, Manuel da Silveira mandava chamar a casa de Diogo Pereira o capitão Joaquim Maria.
—Capitão, disse-lhe o conde de Amarante, entregue-me a sua espada.
—Nunca! respondeu com altivez Joaquim Maria. Reconheço a patente de v. ex.ª, mas reconheço tambem que v. ex.ª está em rebellião aberta contra o governo legalmente constituido. Recuso pois obedecer lhe, visto que v. ex.ª é o primeiro a dar o exemplo de desobediencia e indisciplina.
O conde de Amarante não era homem para responder de prompto a um tal rasgo de audaz eloquencia. Ficou assaralhopado, mas André Pinto mandou-lhe soprar ao ouvido que mettesse na cadeia o capitão de dragões.
E assim se fez.
Manuel da Silveira, sem se importar com a destituição de todos os titulos, honras e mercês, decretada em Lisboa, continuava a intitular-se conde de Amarante, e a prégar a «guerra santa.»
O general Luiz do Rego era encarregado pelo governo de organisar uma divisão contra os Silveiras. Isso dava mais algum cuidado ao conde de Amarante do que a exauctoração e o sequestro com que de Lisboa o fulminaram.
Mas a sorte mostrou-se propicia ao conde na batalha de Santa Barbara, junto a Chaves, ferida no dia 13 de março, e os absolutistas ganharam alma nova com esse triumpho obtido sobre as tropas liberaes.
Rego, desesperado pelo revés que soffrêra, tratou de concentrar forças em Amarante, para impedir que os rebeldes podessem passar ao Porto.
Feriu se nova batalha, d’esta vez na ponte de Amarante.
A sorte mudara. Os silveiristas, desalojados por uma valente carga de baioneta, metteram-se ao Marão, emigraram para Puebla de Senábria.
André Pinto seguiu o destino dos seus correligionarios: fugiu tambem para Hespanha.
Em Chaves, o corregedor da comarca, doutor Joaquim Bernardino Rodrigues Coimbra, ordenou ao juiz de fóra substituto, porque o effectivo tinha emigrado tambem, que instaurasse devassa contra os fugitivos pelo crime de rebellião armada.
As portas da cadeia foram abertas a Joaquim Maria de Vasconcellos, e a outros presos politicos.
Um momento de felicidade sorriu aos dois namorados, que, sem obstaculos, podiam ver-se, e fallar-se, e mutuar-se ternissimos protestos de eterno amor.
Mas a devassa contra André Pinto e os seus co-réus fôra instaurada em Chaves no dia 28 de abril e um mez depois o infante D. Miguel fazia a _Villa-francada_, o poder absoluto era restabelecido em Portugal com o applauso da nação.
Os emigrados repatriáram-se, victoriosos, e Joaquim Maria foi de novo prêso. Amarrado de pés e mãos, açoutaram-n’o no carcere, na presença de André Pinto, que estimulava os flagelladores, gritando-lhes:
—Dai cabo d’esse diabo, que só se perdem as que cahirem no chão. Força, rapazes!
Foi facil a André Pinto obter de D. João VI um aviso régio pelo qual o monarcha fazia saber ao respectivo prelado que—«era servido conceder licença para poder ser admittida ao noviciado e profissão da vida religiosa no real mosteiro de Arouca, da vossa obediencia, Dona Margarida Candida Pinto, sobrinha e pupilla de André Pinto, natural da Villa de Chaves, visto n’ella concorrerem as qualidades necessarias: pagará a prestação annual e vitalicia de sessenta mil réis, e não dará dote, propinas, nem outra alguma cousa a qualquer titulo que seja, nem ainda mesmo a titulo de esmola.»