A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 3

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—Esta moeda, disse o frade referindo-se ao _napoleão_, ficou com algumas outras no pé de meia da minha familia como memoria historica de uma epocha nefanda. Quero eu que vossa mercê a possua como um vademeco que lhe ha de espiritar o amor á patria e á liberdade, quando se lembrar de que os tyrannos pretendem escravisar os povos não só pelo ferro, mas tambem pelo ouro.

José Maximo agradeceu, confundido, a generosa dádiva de frei Simão, e sahiu da casa do Outeiro tão fascinado pela recordação deliciosa d’aquelle dia como pela ambição de poder ser, aos olhos de Anna de Vasconcellos e da patria, um libertador audaz, um redemptor immortal.

Metteu por atalhos até encontrar, á distancia de uma legua, a estrada real de Coimbra ao Porto.

Graças á generosidade de frei Simão, poderia fazer o resto da jornada mais commodamente, logo que encontrasse no caminho um almocreve ou um lavrador que lhe quizesse alugar um macho.

Marchou desembaraçadamente toda a noite. Só quando já alvejavam os primeiros clarões da manhã, descançou recostado ao tronco de uma arvore, por alguns momentos. Então uma voz de camponesa, plangentemente cadenciada, começou a cantar a pequena distancia:

Quem quer vêr um infeliz, Que nasceu ao pé da faya? Não ha desgraça nenhuma, Que n’este infeliz não caia!

José Maximo, instinctivamente, levantou os olhos para a arvore a cujo tronco se tinha encostado: era uma faya.

Esta coincidencia impressionou-o.

Elle tinha bebido com o leite materno a credulidade nas superstições populares. Os agouros são a tea de aranha em que se enrédam muitas organisações audazes, que não costumam tremer deante de perigos reaes. Um vago presentimento intimida-as mais do que um franco adversario. E comprehende-se que seja assim, porque os fortes, por isso mesmo que não receiam os homens na lucta com elles, apenas podem acobardar-se deante do poder mysterioso que regula os acontecimentos humanos.

Aquelle rapaz, que parecia haver nascido para luctar, tinha, como Achilles, um calcanhar vulneravel: era a indole supersticiosa.

Por isso, ergueu-se rapidamente, seguindo jornada para fugir a esse logar de triste recordação,—como quem se dá pressa em cortar o inesperado encontro de um ruim agouro.

IV

A iniciação

...a elle aprouve que não per officio, mas per indiguação, não por premio, mas de graça, e mais offerecido que convidado...

João de Barros—«Década primeira».

José Maximo chegou ao Porto e correu a casa de Frederico Pinto para lhe entregar a carta de frei Simão.

Eram as suas credenciaes de revolucionario: desejava apresental-as sem demora.

Na casa de Santo Ovidio, o _camarada_ de Frederico Pinto disse-lhe que o sr. alferes ajudante devia estar no quartel.

José Maximo atravessou rapidamente a rua, foi procurar o ajudante. Pelo Campo passeiavam alguns officiaes, mas o estudante, tão cego ia, que não fez reparo n’elles.

Chegando á porta do quartel, perguntou á sentinella:

—Pode dizer-me onde está o sr. alferes ajudante?

—Acolá, conversando com o nosso coronel, respondeu a sentinella.

Então José Maximo viu que effectivamente o coronel e o ajudante andavam passeiando junto ás arvores, que ao oriente marginam o Campo de Santo Ovidio.

Dirigiu-se para os dois e, parando deante d’elles, disse tirando o chapeu:

—Desejo entregar ao sr. alferes uma carta de frei Simão de Vasconcellos.

Frederico Pinto mostrou-se algum tanto inquieto: receiou más noticias de Cezár.

—Peço licença ao meu coronel... disse elle.

—Á vontade, respondeu Sepulveda, affastando-se um pouco, e continuando a passeiar.

O ajudante leu com visivel interesse, e a sua physionomia, durante a leitura, revelava surpreza.

Quando chegou ao fim da carta, mediu com um olhar perscrutador a pessoa de José Maximo. Tudo o que se estava passando lhe devia parecer muito extraordinario, porque Frederico Pinto mostrava-se enleiado, sem atinar com o que havia de dizer.

Felizmente encontrou uma formula dilatoria, que lhe permittiu tirar-se do embaraço.

—Folgo muito de conhecer o sr. José Maximo, e, como deseja meu irmão, estou inteiramente ao seu dispôr. Louvo a sua patriotica resolução, e oxalá que ella possa ser util á salvação do reino. Mas vossa mercê comprehende que n’este momento não podêmos alongar-nos n’uma conversação, que lhe aproveite. O meu coronel está esperando por mim. Ámanhã fallaremos, se me der o prazer de procurar-me em minha casa. Acolá...

E indicou-lhe o predio em que morava e que José Maximo já aliás conhecia.

O estudante retirou-se um pouco contrariado. Imaginava elle que o mesmo seria chegar ao Porto e iniciar-se no segredo das combinações revolucionarias.

Frederico Pinto contou ao coronel Sepulveda o que acabava de passar-se. Leu-lhe a carta de frei Simão, accentuando os periodos que diziam:

«Este moço possue uma alma generosa e heroica. Adivinho n’elle um homem de acção. Aproveital-o será bem servir a patria. Entrego-t’o para que o protejas e dirijas.»

Sepulveda riu d’esta inesperada apparição de um rapaz exaltado até á loucura do heroismo.

—Feliz idade! disse o coronel. Mas desgraçada familia, a quem elle decerto prepara os grandes desgostos que resultam das contingencias politicas.

—O que eu não sei é o que lhe hei de dizer! Que vá estudando, é talvez o melhor conselho que posso dar-lhe. E se elle quizer ficar no Porto, offerecer-lhe-hei o auxilio que precisar.

—Sim, respondeu Sepulveda muito reflexivo. Mas não me parece conveniente que o hospéde em sua casa. O rapaz é exaltado, pode comprometter o hospedeiro. De mais a mais, ninguem tem o dom de adivinhar ao certo quanto tempo durará ainda a incubação de graves acontecimentos. E lembre-se o ajudante de que, se o seu casamento se antecipar, o que é possivel, a presença de um hospede permanente ser-lhe-ha incommoda.

—Tudo isso me tinha lembrado, coronel, e foi essa a razão de lhe não offerecer a minha casa.

—Mas, continuou Sepulveda sempre reflexivo, eu hei de fallar n’este caso ao Fernandes Thomaz. Veremos o que elle diz. Entretanto o ajudante vá-lhe dizendo que espere, sem lhe dar outras explicações, que nos possam comprometter.

—De certo, meu coronel. Farei isso.

Aquillo, no Porto, estava ainda muito atrazado. Refiro-me aos trabalhos preliminares da revolução. Fernandes Thomaz pensava n’ella; Ferreira Borges tambem. Sepulveda estava disposto a auxiliar o movimento. Mas não passava tudo ainda de vagos projectos, descosidos e nublosos.

Comtudo, o coronel, logo que esteve com Fernandes Thomaz, contou-lhe a historia de José Maximo. Riram ambos com o caso, mas Fernandes Thomaz, com a sua intuição de revolucionario, acabou por dizer:

—Quem sabe se o rapaz nos poderá prestar para alguma cousa, visto que frei Simão o afiança! Veremos.

Trez dias depois, José Maximo escrevia para Cezár a frei Simão. A sua carta, em cifra, denunciava certo desalento.

«Seu irmão, dizia-lhe elle, recebeu-me muito bem, mas, quanto ao que nós sabemos, apenas me disse: Espere. E eu estou esperando que o coração da patria accorde. Ardo na febre da impaciencia, e receio que ella chegue ao periodo agudo do desespero».

Aproximando-se o natal de 1817, José Maximo consultou Frederico Pinto sobre se deveria ir, como costumava, passar as ferias em Cezár. Já o ralavam saudades de Anna de Vasconcellos. E, pelo que tocava á revolução, não estava menos atormentado, se bem que Frederico Pinto lhe tivesse dito uma ou outra vez com mais alguma decisão: «Isto vai indo.»

Que fosse a ferias, aconselhou-lhe d’ahi a dias o alferes ajudante, para que o tio de Cezár não desconfiasse da sua estada no Porto. Mas concluiu por dizer-lhe em tom imperativo: «Vossa mercê deve voltar depois do Natal, porque parece que os seus serviços vão ser aproveitados.»

Oh! que doida alegria a que estas laconicas e mysteriosas palavras deram a José Maximo! Ia vêr Anna de Vasconcellos e entrar, finalmente, nos segredos da conspiração. Sentia-se duas vezes ditoso. Sob esta agradavel impressão partiu para Cezár.

Uma vez em ferias, tudo se passou como de costume. José Maximo, de arma ás costas, rodeiava, com disfarce, a casa do Outeiro, para avistar Anna de Vasconcellos, que perpassava no pateo de pedra voltado para os campos ou assomava de fugida a alguma das janellas viradas ao nascente ou passeiava com as irmãs no souto de Santa Luzia.

N’aquelle tempo Cezár era uma terra morta, muito solitaria. Não a povoavam, como hoje, prédios garridos, de brazileiros dinheirosos. As duas torres da egreja, uma sem sinos, pareciam envergonhadas, em sua modestia, de defrontar-se com as estatuas pretenciosas do jardim do abbade,—unica pompa evidente em Cezár. O basto pinheiral da serra do Pinheiro, ao norte, occultava n’uma solidão melancolica alguns vestigios de construcções celticas, ruinas do passado. E ao sul, a capellinha alvejante da Senhora da Graça era a unica nota risonha, que quebrava a monotonia triste do pinheiral, prolongado e basto.

José Maximo não aguentaria o aborrecimento de Cezár, se a imagem de Anna de Vasconcellos, vista de longe, não pairasse sobre toda aquella adormecida solidão de pinheiros e campos de milho, illuminando-a como uma aurora. Mas forçoso era contentar-se com isso, vêl-a de longe, a discreta distancia, e com alguma secreta entrevista que tinha com frei Simão na espessura da serra do Pinheiro e em que juntos scismavam no que viriam a dar as mysteriosas combinações revolucionarias do Porto.

Chegado o dia de Reis, José Maximo, ardente de impaciencia, mandou um adeus escripto a D. Anna de Vasconcellos e partiu.

Ao cabo de algumas semanas de espera no Porto, passado o dia 21 de janeiro de 1818, Frederico Pinto disse-lhe com grande reserva:

—Amanhã, pelas oito horas da noite, vossa mercê irá á casa n.º 32 da rua das Taypas. Subirá cautelosamente até ao primeiro andar, e ahi baterá quatro pancadas na porta, com os nós dos dedos. Se de dentro lhe responderem com identico signal, vossa mercê poderá entrar com plena confiança, porque estará entre amigos, e fará o que lhe disserem.

José Maximo não dormiu essa noite, nem teve vontade de comer no dia seguinte.

Dirigindo-se, á hora convencionada, para a rua das Taypas, entrou na casa que Frederico Pinto lhe indicára, e bateu quatro pancadas na porta do primeiro andar, com os nós dos dedos. Houve um momento de silencio e de demora. Mas outras quatro pancadas responderam de dentro, e a porta abriu-se.

José Maximo, entrando, viu trez homens sentados a uma mesa, sobre a qual ardia um candieiro de latão com trez bicos. Todos os trez homens tinham a cara coberta por uma mascara de panno preto, similhante á dos _Farricôcos_ das procissões de penitencia.

Este apparato de mysterio, em vez de maguar José Maximo, agradou-lhe, porque lhe deu a impressão de estar n’um club revolucionario, em exercicio de funcções.

Desde aquelle momento tambem elle era um conspirador.

Convidado a expôr as suas convicções politicas, José Maximo fel-o com desembaraço, até com exaltação.

Applaudiram-lhe a fé patriotica, propria de corações generosos, mas recommendaram-lhe discrição e prudencia.

—Tanto mais, disse um dos mascarados, que a missão de que vossa mercê vae ser encarregado, requer um longo e sabio disfarce. O nosso unico receio é a pouca idade de vossa mercê, que o pode fazer cahir em surprezas e armadilhas.

José Maximo replicou com grande energia de caracter que, qualquer que fosse a missão que lhe incumbissem, saberia desempenhal-a com tino e perseverança.

Havia nas suas palavras uma rara dedicação partidaria em tão verdes annos. Sentia-se n’aquelle moço, quasi imberbe, a alma de um conspirador por vocação.

Um dos mascarados, ouvindo a profissão de fé de José Maximo, passou a expôr a missão que lhe destinavam.

Precisavam conhecer a maneira de pensar das principaes auctoridades civis e militares do Porto com relação ao projectado movimento revolucionario: sondar até que ponto poderiam contar com a sua tolerancia ou apoio; e sobretudo ser informados com solicitude do que se fosse passando em casa d’essas auctoridades, especialmente da qualidade e numero das pessoas que com ellas tivessem mais demoradas conferencias.

—Para isto, disse um dos mascarados, precisa vossa mercê tomar um disfarce qualquer, e esse disfarce não poderá deixar de ser o de uma occupação humilde, que vossa mercê supportará com paciencia e habilidade. O mais conveniente seria o de serviçal, por se adaptar melhor ao nosso plano, visto ser pessoa de portas a dentro.

—Obedecerei incondicionalmente, respondeu José Maximo.

O inesperado d’este lance excedia todas as previsões, todos os seus sonhos de conspirador. A surpresa como que o aturdira por instantes. Mas um dos mascarados, julgando erradamente que José Maximo esfriára perante o sacrificio que lhe era exigido, procurou dissipar-lhe suppostos escrupulos, dizendo:

—Os nossos adversarios auctorisaram pelo exemplo os meios de que lançamos mão. Pois não é verdade que, na mallograda tentativa do anno passado, um desembargador, ajudante do intendente geral de policia, não duvidou introduzir-se no carcere de um dos conspiradores, o architecto Sousa, para lhe arrancar revelações? Comtudo nós apenas procuramos o bem da patria; longe está do nosso animo o perseguir individuos e fazer victimas.

—Todos os meios são bons, quando os fins os justificam, respondeu resolutamente José Maximo.

—Muito bem! Vossa mercê terá que sahir de tempos a tempos da casa que o receber como serviçal, para com o maior disfarce ir relatar á pessoa, que móra no Campo de Santo Ovidio, tudo o que tiver visto e ouvido. Convem que adopte um nome supposto, e uma supposta naturalidade. Pode vossa mercê dizer-se nascido no Alemtejo. Quanto ao nome, poderá ser Manuel... Manuel...

—Do Nascimento, atalhou um dos outros mascarados. Ficará vossa mercê uzando o sobrenome e o appellido de uma famosa victima da inquisição, o illustre _Filinto Elysio_.

—Mas convém que nós assentemos no seu nome de guerra para, no caso de qualquer occorrencia desagradavel, sabermos que vossa mercê e Manuel do Nascimento, por exemplo, são uma e a mesma pessoa.

—Serei pois Manuel do Nascimento, respondeu José Maximo, e natural do Alemtejo. O resto é comigo, e supponho que vossas senhorias não terão motivo para arrepender-se.

—Assim o esperamos. Vossa mercê, segundo o nosso plano, terá que estacionar em varias casas, taes como a do governador das justiças, juiz de fôra do civel e presidente do senado, mas por agora importa que vá offerecer-se á do governador das armas, o tenente-general Filippe de Sousa Canavarro, que precisa de um serviçal, segundo noticia que temos. Como decerto lhe serão exigidas abonações, vossa mercê indicará João Pereira da Costa, seu antigo patrão, residente em Beja, negociante e proprietario, como pessoa competente para informar sobre seus costumes. O governador mandará decerto escrever para Beja, e de Beja lhe responderão satisfatoriamente. Isso é comnosco.

Pouco tempo durou a audiencia.

José Maximo, feliz por poder prestar um serviço á causa da liberdade, sahiu da casa da rua das Taypas e foi passeiar para o Campo da Cordoaria, muito ufano de si pela confiança que n’elle depositava o club revolucionario do Porto.

Ora esse club não representava por então senão o pacto secreto de trez patriotas, que tantos eram os mascarados, a saber: Fernandes Thomaz, Ferreira Borges e Silva Carvalho.

Eis o nucleo do famoso _Synhedrio_, que planeou a revolução liberal do Porto.

V

O Fresca Ribeira

E por melhor passar a vida com dissimulação me mudei n’estes trajos; que o logar não soffria mais.

Bernardim Ribeiro—«Menina e moça», cap. XXXV.

Trez dias depois, José Maximo da Fonseca estava ao serviço do tenente-general Canavarro, na qualidade de segundo criado.

Foi admittido sob condição, emquanto se esperavam as informações que o governador mandou pedir para Beja, e que o rapaz julgava lhe seriam honrosas.

Effectivamente, assim aconteceu. O _Synhedrio_ tinha preparado bem as coisas. O informador bejense chegava a lastimar que um serviçal tão activo e obediente como Manoel do Nascimento tivesse tomado a resolução de ir para o Porto, talvez seduzido pela esperança de maiores interesses, pois que outro motivo não havia.

Todos, em casa do governador das armas, gostavam de José Maximo, incluindo o Teixeira, criado grave ou _escudeiro_, como então se dizia, especie de mordomo, que era difficil de contentar pelo que respeitava ás qualidades dos seus subordinados.

Teixeira era um homem de sessenta e cinco annos, que entrára ao serviço da familia Canavarro quando tinha apenas quinze. Consideravam-n’o mais um amigo da casa do que um criado. Alto, sêcco, de maneiras exemplarmente compostas, não deixava nunca a sua casaca preta muito escovada e a sua gravata branca muito clara.

Havia sido educado em casa de uma familia nobre de Traz-da-Sé, onde o pai fôra tambem escudeiro. Essa familia extinguira-se, e elle tivera de procurar collocação em outra parte. Entrou na casa dos Canavarros, e nunca mais de lá saiu.

Aprendera desde pequeno a respeitar Deus, o Rei, e os patrões. A consciencia da sua posição levava-o, porém, a jámais discutir qualquer assumpto, que fosse extranho ao cargo que desempenhava.

Mas tinha convicções intransigentes, embora não ouzasse nunca formulal-as em voz alta.

Detestava os _maçons_, porque tinham fama de ser inimigos da religião e do throno. Nas horas vagas, mettido no seu quarto, lia as publicações contrarias á maçonaria. Sobre a sua mesa de cabeceira estavam _A nova sentinella contra maçons_, a _Atalaya contra os pedreiros-livres_, a _Historia certa da seita dos fran-massões (sic)_.

José Maximo percebeu rapidamente o feitio do Teixeira.

Poucos dias passados, teve occasião de entrar furtivamente no quarto do escudeiro, e de lêr os titulos d’aquellas brochuras. Os factos confirmavam assim as suas previsões: tinha de tratar com um adversario politico, encapotado, mas inoffensivo.

Procurou conquistar-lhe a amisade, dizendo uma vez, em voz alta, de modo que o Teixeira podesse ouvir:

—Ha criados tão atrevidos, que até se mettem em politica! Eu cá não fallo n’aquillo a que não sou chamado. Respeito Deus Nosso Senhor, abaixo de Deus o Rei, e depois do Rei os meus patrões. Gosto de rir com todos, e não offender ninguem.

Uma das feições que José Maximo adaptou artificiosamente ao seu espirito foi o humor alegre, a jovialidade expansiva.

As criadas do general riam dos seus ditos facetos, da sua inalteravel bonhomia.

—O Manuel, dizia uma serigaita, a Catharina, já muito amoriscada d’elle, está sempre na fresca ribeira!

—Pois eu, sr.ª Catharina, até era conhecido na minha terra pelo _Fresca Ribeira_!

E José Maximo desatava a rir, a rir, como se effectivamente fosse o homem mais feliz d’este mundo.

Elle conheceu, desde o primeiro dia, a cabeça leve d’esta Catharina, mas achou que poderia tirar d’ahi argumento quando fosse preciso despedir-se do serviço do general para passar a outra casa.

E não se enganou.

Teixeira começou a achar raras e estimaveis qualidades no «Manuel», a tal ponto que ia tendo com elle menos reservas do que com todos os outros criados, passados e presentes.

Um mez depois de estar ao serviço do general, José Maximo, tendo sahido pela primeira vez ao domingo, aproveitou a occasião para communicar a Frederico Pinto as suas observações.

Metteu-se n’uma mercearia da Ribeira, e escreveu-lhe uma longa carta, da qual a revelação mais importante dizia que a pessoa que repetidas vezes procurava o governador, e se fechava com elle longo tempo, _era o sr. Mello, presidente do senado da camara_.

Esta revelação, transmittida ao _Synhedrio_ por intermedio do coronel Sepulveda, foi tida como de bom agoiro.

O presidente do senado passava por ser um homem a quem as ideias modernas não repugnavam.

Seis mezes depois, José Maximo fazia uma revelação ainda mais importante: tendo sahido o Teixeira para visitar o Lausperenne, pudera escutar á porta de um gabinete em que o governador das armas e o presidente do senado estavam conversando, e ouviu, distinctamente, dizer o general:

—Se isso vier, não tomarei a iniciativa, mas hei de respeitar a opinião da cidade. As ideias não se afogam impunemente em sangue. Quando se reprimem hoje pela violencia, resuscitam ámanhã mais exaltadas.

_Isso_, na opinião de José Maximo, era a revolução constitucional. Não podia mesmo ser outra coisa, a julgar pelo tom de confidencia em que ambos estavam conversando á porta fechada.

Quando José Maximo se via só, pensava, com intensa saudade, em Anna de Vasconcellos. Mas não podia abandonar o posto de honra que lhe fôra confiado, e resignava-se lisongeado pela ideia de que na casa de Cezár era conhecida, pelas suas cartas a frei Simão, a extranha aventura politica que elle, por amor da liberdade, estava correndo no Porto.

Embora frei Simão lhe não respondesse, porque José Maximo assim lh’o recommendára, a fim de não receber cartas que, por frequentes, se podessem tornar suspeitas, a familia de Cezár conhecia a enormidade do sacrificio que lhe fôra exigido, e a coragem com que elle o acceitára.

O _Synhedrio_, que a pouco e pouco ia augmentando em numero, teve casualmente a contra-prova de que as informações de José Maximo, a respeito do general Canavarro, eram seguras. A certeza d’esta importante adhesão fortaleceu muito o plano do movimento. Desde esse momento os fautores da revolução contaram com o apoio da guarnição do Porto.

José Maximo recebeu ordem para, aproveitando o primeiro pretexto, se despedir da casa do governador das armas.

Esse pretexto tinha-o elle de remissa havia muito tempo: era, como sabemos, a perseguição amorosa que lhe fazia a leviana Catharina.

José Maximo disse em confidencia ao Teixeira que, guardando respeito á casa do general, se ia despedir por aquelle motivo. Teixeira, muito pesaroso, respondeu logo que quem devia ser despedido era a Catharina. Mas José Maximo objectou-lhe que não queria prejudicar uma pobre mulher, a quem a sua má cabeça bastava para desgraça: ao passo que elle, como homem, encontraria sempre mais facil collocação. E despediu-se.

Experimentado pela prova de dedicação que acabava de dar, José Maximo foi encarregado de outro serviço, ainda muito mais importante do que o primeiro.

Certo o _Synhedrio_ do apoio do general das armas, achou que não valia a pena sondar o animo das outras auctoridades.

Por isso, Fernandes Thomaz escolheu José Maximo para seu amanuense, especie de chanceller encarregado dos sêllos privados: era, alem de uma prova de consideração, tambem um premio merecido.

Desde esse momento, José Maximo deixou de ser Manuel do Nascimento, o _Fresca-Ribeira_, natural do Alemtejo, para subir a mais elevada categoria, passando a conviver com os deuzes do constitucionalismo no olympo revolucionario do Porto.

Foi então que elle poude conhecer Fernandes Thomaz, Ferreira Borges, José da Silva Carvalho, Duarte Lessa e outros, que lhe appareciam já sem disfarce,—com plena confiança.

Entrado o anno de 1820, rebentou em Hespanha a revolução liberal, que restaurou a constituição de Cadiz. O povo, amotinado, obrigou Fernando VII a revogar todos os actos com que tinha combatido a liberdade. E como o rei catholico cedesse promptamente, os revolucionarios hespanhoes imaginaram que estava definitivamente restabelecida em Hespanha a idadede-oiro do constitucionalismo. Que fugaz illusão de politicos de boa fé, muito theoricos ou, como hoje diriamos, muito nephelibatas! N’isto se pareceram os de cá com os de lá.

O que é certo é que a revolução de Hespanha alentou o animo dos conspiradores do Porto.

O _Synhedrio_ ia augmentando em numero: eram treze os seus membros. Declararam-se adhesões até ahi latentes. Por exemplo, o coronel Sepulveda, aliás tão dedicado á causa da revolução, começou a frequentar as reuniões realisadas em casa de Fernandes Thomaz.

Meiado julho, attento o estimulo que viera de Hespanha e a apathia de Lisboa, resolveu a junta revolucionaria do Porto não deixar esfriar esse estimulo e tentar ainda vencer o retraimento medroso da capital.