A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 2
Succedia que o cardeal Bartholomeu Pacca tinha estado como nuncio em Lisboa, para onde viera em maio de 1795, sendo então arcebispo de Damietta. Vinha já de representar o Papa na côrte de Luiz XVI, d’onde se retirára quando o scisma rebentou. Demorou-se em Lisboa até 1800. No principio do anno seguinte, Pio VII chamou-o a Roma, deu-lhe o chapeu cardinalicio, e investiu-o nas funcções de prosecretario d’estado. Bartholomeu Pacca soffreu, ao lado do Pontifice, as prepotencias de Napoleão I. Esteve preso em França, porque o imperador via n’elle o instigador da bulla d’excommunhão com que havia sido fulminado. Em 1814 voltou com Pio VII a Roma, e reassumiu as funcções que antes desempenhava.
Durante a sua nunciatura em Portugal, o cardeal Pacca creára em Lisboa muitas relações com pessoas de alto valimento, _persónas gratas_, que lhe podiam recommendar, com efficacia, qualquer memorial.
Não se vae porém a Roma n’um dia, diz o proloquio, tão verdadeiro em relação ás pessoas como aos negocios. De mais a mais, a politica napoleonica continuou a dar que fazer á Santa Sé: em 1815 Murat marchou sobre Roma, e o cardeal Pacca, depois de ter protestado contra a violação do territorio e nomeado uma junta provisoria para governar a cidade sagrada, fugiu.
A pretensão de frei Simão de Vasconcellos foi retardada por todos estes acontecimentos politicos.
Mas quando em junho d’esse anno o cardeal Pacca voltou a Roma, redobraram-se junto d’elle as instancias movidas por frei Simão e auctorisadas com a informação favoravel do geral da ordem de S. Bernardo e do bispo do Porto.
Antes de sahir como enviado extraordinario para Vienna, em 1816, o cardeal Pacca referendou, a 17 de março, o breve de secularisação de frei Simão de Vasconcellos, com o fundamento de poder «prestar auxilio a quatro irmãs germanas, sómente emquanto d’elle carecessem», e com a reserva «de trazer sob o habito de presbytero secular algum signal do seu habito monastico, e de observar a parte substancial dos votos da sua profissão».
Frei Simão era então um homem de vinte e sete annos. Louro, de olhos azues—esses bellos olhos que caracterisavam toda a sua familia—largo de hombros, peito amplo, cabeça desenvolvida, estatura regular.
Com grande alegria recebeu elle o breve que o emancipava da vida conventual.
Mas não despiu a cogulla branca, nem tirou o chapeu preto, nem desatou o cordão que enrolava á cinta. Sahiu assim de Alcobaça, e assim, indo alem da imposição que superiormente lhe fôra feita, o viam os seus parentes e visinhos desde que regressára a Cezár.
Certos visinhos não o tornaram a ver com bons olhos, porque o temiam como homem e o aborreciam como frade secularisado, que não se pejava de mostrar-se inclinado á corrente de ideias revolucionarias que tinham vindo de França.
Mas frei Simão, fazendo-se lavrador ou trabalhando n’uma improvisada officina de mecanica, que montára na casa do Outeiro, dava mediana importancia a visinhos de ao pé da porta.
Alguns mendigos de Cezár, da Feira e de Oliveira de Azemeis iam esmolar ao pateo da casa do Outeiro. Frei Simão soccorria-os. Animados por este precedente, alguns trabalhadores recorreram ao frade para que lhes emprestasse qualquer quantia de que urgentemente precisavam. Frei Simão attendia-os, e perguntava-lhes:
—Quando julgas tu poder pagar?
—Saiba vossa reverencia que d’aqui a seis mezes.
—Pois bem. Dou-te outros seis mezes de espera, mas toma sentido, que se d’aqui a um anno me faltares, comigo terás de haver-te.
Se, passado um anno, o devedor ia pagar pontualmente, conquistava por esse facto a sympathia e confiança de frei Simão: podia contar, de futuro, com a sua algibeira. Se faltava á fé do contrato verbal, o frade, quando acontecia encontrar o devedor, crescia para elle, colerico, de bordão em punho, ameaçando punil-o corporalmente.
Frei Simão tinha uma justiça propriamente sua, principalmente baseada nos dictames da consciencia: bom para os bons, severo para com os delinquentes.
E em questões de dinheiro era de uma meticulosidade intransigente, tanto em relação a si mesmo como aos outros.
Frequentemente percorria todas as propriedades da familia desde Oliveira de Azemeis até Arouca, auxiliando na direcção agricola dos bens o irmão Frederico, antes e depois de casado.
Pela irmã mais velha, que lhe era especialmente dedicada, soube frei Simão que D. Anna José correspondia ao amor de um rapaz, natural do Fundão, de appellido Fonseca, e sobrinho de um visinho do Outeiro.
O frade não conhecia o namorado da irmã, que só apparecia em Cezár no tempo das ferias, mas acertou de se encontrar com elle na occasião em que o general Gomes Freire e os seus companheiros de infortunio já estavam entre ferros como réos de alta traição.
Gostou do rapaz, que era elegante, alto, moreno, cheia a physionomia de vivacidade peninsular: os olhos, muito pretos e luminosos, denunciavam-lhe o ardor da imaginação insoffrida.
O estudante e o frade começaram por conversar de superficialidades cerimoniosas, vindo frei Simão a saber que José Maximo da Fonseca cursava ainda preparatorios no Collegio das Artes, porque o pae levára tempo a consentir em que trocasse a agricultura pela vida litteraria.
Mas o estudante, com a confiança que lhe inspirava o facto de frei Simão ser irmão da mulher amada, e liberal convicto, não tardou a abrir-se em confidencias com elle.
Contou-lhe que em Coimbra era caloiro do alumno de medicina José Maria de Lemos, parente proximo do bispo-conde, e unico estudante que admittiam ás suas conferencias os organisadores da loja maçonica _Sapiencia_, a qual no anno seguinte começou a funccionar perto do Collegio Novo.
Pela convivencia com o Lemos, a quem era cegamente dedicado, ganhára José Maximo decidido enthusiasmo pelos principios liberaes, que sentia não poder defender ainda a peito descoberto em razão de ser estudante de somenos categoria.
Contou-lhe mais que quem o recommendára ao academico Lemos fôra o major reformado José Maximo Pinto da Fonseca Rangel, seu padrinho e parente, que de uma quinta de Traz-os-Montes tivera de evadir-se para Hespanha, por estar implicado na mallograda revolta constitucional de Lisboa.
Todo o seu desejo era vingar algum dia os trabalhos que o padrinho estava soffrendo por amor da liberdade.
Revelou a frei Simão que escrevêra uma óde em honra de Gomes Freire, e que a mandára ao padrinho para Hespanha.
Finalmente, segredou-lhe que occultava as suas ideias ao tio de Cezár, que não podia vêr liberaes, e que lh’as occultava porque gostava de vir passar com elle as férias.
N’este lance, calou José Maximo, discretamente, a razão capital por que preferia Cezár ao Fundão para passar as férias, a qual razão vinha a ser estar namorado de D. Anna de Vasconcellos, a mais linda entre todas as irmãs de frei Simão.
O frade comprehendeu José Maximo, e affeiçoou-se-lhe pela concomitancia de sentimentos liberaes, que os igualava em pontos de vista politicos, apesar do frade ser alguns annos mais velho que o estudante.
Frei Simão gostou do rapaz, poeta da liberdade aos vinte annos.
Mas Ignacio da Fonseca, o tio de José Maximo, surprehendendo-o uma vez a conversar com frei Simão, empoleirados ambos no muro de um atalho, berrou com o sobrinho, quando elle entrou em casa, e prohibiu-lhe expressamente que mantivesse relações com um sujeito de tão más ideias, disse Ignacio da Fonseca, e peiores sentimentos.
José Maximo, tendo inquadrada na alma ardente a imagem de D. Anna de Vasconcellos, só a ella via emquanto Ignacio da Fonseca berrava. E para evitar a contrariedade de ser expulso de Cezár, metteu-se debaixo dos pés do tio, attribuindo a um encontro casual a conversação no atalho.
—O que te disse elle? perguntava apopletico o lavrador. Havia de fallar-te d’esses marotos de Lisboa, raça infame de pedreiros-livres, corja maldita de maçons, que querem dar cabo da Santa Religião e d’El-Rei nosso senhor...
—Não fallamos de politica, meu tio, respondia José Maximo mentindo com quantos dentes tinha na bocca. Que me importa a mim a politica?
—Mas o que te esteve então elle dizendo?
—Contou-me historias dos frades de Alcobaça.
—Bonitas historias deviam ser essas! contadas por um frade impio, que abandonou a casa de Deus para vir ser vadio e espião na sua terra!
—Espião! exclamou involuntariamente José Maximo.
—Espião, sim, que se não pode dar um passo sem ser presentido por elle. Mas que tome cuidado, que assim como Gomes Freire e os outros estão com a vida por um fio, bem lhe pode acontecer o mesmo, e não se perde grande cousa.
—Eu ignorava que o tio não queria que fallasse com frei Simão. Mas para o futuro cumprirei as suas ordens.
—Eu sei lá! Tu foste levado á pia do baptismo por um maçon (referia-se ao major reformado Fonseca Rangel), tens o mesmo nome, podes ter tambem as mesmas manhas do teu padrinho. Mas põe os olhos n’elle, que lá anda a monte por Hespanha, por ser jacobino e cuspir na sagrada face de Jesus Christo.
—Meu padrinho fazia isso? perguntou José Maximo com inadvertida incredulidade.
—Pois o que fazem todos os pedreiros-livres, toda a cáfila dos maçons?! Se o não sabes, não o queiras saber, porque mettes a tua alma no inferno. Juizinho, sr. José Maximo, e não me ande por esses campos de Cezár a ler livros que não sei d’onde lhe vieram, nem a cochichar com o frade do Outeiro, que fez pacto com Satanaz. Que livros são esses que tu lês?
—São os meus livros de Coimbra, tio.
—Pensei que fossem de França ou de Hespanha... Estás em ferias, não estás? Pois descansa, e diverte-te. Pega n’uma espingarda e atira aos passaros. Isso é que é divertimento proprio de um rapaz, quando não tem que fazer.
José Maximo, logo que o tio voltou costas, foi esconder entalada n’uma trave do sótão a Folhinha do Père Gérard, publicação revolucionaria, vinda de França, de que um francez, Jacques Borel, havia mandado imprimir em Pariz doze mil exemplares, que, traduzidos em portuguez, foram expressamente destinados a Portugal.
Esse era o livro que elle, dias antes, andára lendo por disfarce nas circumvisinhanças do Outeiro, de modo a poder vêr de longe D. Anna de Vasconcellos, que de quando em quando chegava a uma das janellas empanadas por uma espêssa cortina de parietárias.
Elle bem tinha visto passar o tio, de enxada ao hombro, em direcção á _presa_, cujas aguas ia soltar para a réga.
Todo o cuidado de José Maximo, n’essa occasião, foi mostrar-se muito absorvido na leitura, para evitar que o tio podesse suspeitar que a cabeça de D. Anna José estava espreitando por sob as bambolinas da trepadeira.
Mas, se se livrou de um perigo, cahiu n’outro, porque Ignacio da Fonseca, se não suspeitou do namoro, desconfiou do livro.
Ainda bem que o lavrador lhe manifestou essa desconfiança, porque José Maximo preveniu-se escondendo a Folhinha do Père Gérard. Se Ignacio da Fonseca a tivesse podido haver á mão, decerto a teria ido mostrar ao abbade Moreira Maia ou ao padre Antonio Pinheiro, que lhe abririam os olhos sobre a inconveniencia de tal leitura,—uma peste revolucionaria.
O abbade Moreira Maia era um conservador sincero, mas tolerante, talvez porque a indole sentimental lhe amaciasse as convicções politicas. Era um poeta, que amava os versos e as flores. Posto gostasse de exteriorisar um grande respeito pelas tradições fidalgas, de exhibir pomposamente cavallos e lacaios, dedicava-se a cultivar os canteiros no jardim do presbyterio, jardim embonecado de estatuas mythologicas, com disticos em verso compostos pelo abbade.
Todos os dias Moreira Maia descia a escada de pedra do Passal para ir tratar das suas flores. Só depois de satisfeita essa predilecção artistica, vestia uma casaca de sêda verde, ultimava a sua _toilette_ elegante de cavalleiro.
Quando sentia o tinir das ferraduras do cavallo impaciente no largo que se defronta com a egreja, e a meio do qual se levanta um cruzeiro, era que o abbade apparecia á varanda aberta, que então havia no Passal, calçando ainda as suas grandes luvas de anta.
Depois, de chicote debaixo do braço, apertando por ventura algum botão das luvas, descia a escada, e examinava o cavallo, que um lacaio segurava pela rédea.
Se não tinha qualquer observação a fazer, montava com firmeza, e lá ia, como se dizia então, fazer estremecer as pedras das ruas em Oliveira de Azemeis.
Este typo de abbade, dado a proezas equestres e venatorias, padre enxertado em _sportman_, foi muito vulgar n’aquelle tempo.
A sua _toilette_ mundana era a casaca.
O famoso _bispo santo_ de Bragança e Miranda, D. Antonio Luiz, que por esse tempo era assumpto de contradictorias opiniões, queixou-se em carta ao abbade de Rebordães de que, ao tomar conta da sua diocese, o commum da clerezia trazia casaca, salvos alguns raros ecclesiasticos, mais pios, que usavam uma chamarra aberta; e accrescentava que só á força de advertencias conseguira impôr o habito talar cerrado na forma dos canones.
Mas o _bispo santo_ não fizera escola nem entre os prelados seus collegas, nem entre o clero de Bragança e outras dioceses. O que em geral os ecclesiasticos vestiam fóra da egreja era a casaca de sêda. O abbade Moreira Maia não singularisava, pois, uma excepção.
E, com a liberdade então permittida á sua classe, passava grandes temporadas longe da parochia, em festas de _sport_ e distracções artisticas, sempre com um certo cunho de elegantes mundanidades.
Levava comsigo para as caçadas e demais excursões recreativas todos os seus lacaios, todos os criados de libré, em numero ostentoso.
Na abbadia ficava apenas uma criada velha, Gertrudes Magna, tia do padre Antonio Pinheiro, que ella havia creado de pequenino, e que o abbade escolhera como coadjuctor, para curar a parochia durante as suas longas e frequentes ausencias.
Este padre era um espirito concentrado, que fugia ao mundo. Vivia habitualmente no Passal de Cezár, mettido no seu quarto, entregue á leitura dos livros santos, e sempre prompto ao trabalho parochial, que o abbade tantas vezes declinava n’elle.
Vivia uma vida simples, frugal, inteiramente opposta á do abbade.
Era uma alma sincera, incapaz de odios, mas a quem causavam horror todos os inimigos da religião christã, suppostos ou verdadeiros.
Frei Simão, para elle, estava n’este caso. Horrorisava-o, porque era pedreiro-livre, segundo se dizia, e os pedreiros-livres, sobre não ter religião, insultavam-n’a.
Por sua parte, o abbade Moreira Maia não podia gostar, como realista que era, do frade constitucional do Outeiro. Mas não o detestava, porque o seu animo era avesso a perseguições facciosas e porque, respeitador da tradição das familias, reconhecia em frei Simão um homem de boa linhagem.
José Maximo, depois das explicações que tivera com o tio, resolveu escrever a frei Simão, communicando-lhe que Ignacio da Fonseca via com maus olhos que publicamente conversassem um com o outro. Contava-lhe o caso da Folhinha do Père Gérard. E pedia-lhe que continuasse a ser seu amigo, e a manter relações com elle, embora precisassem, d’ali em deante, occultar discretamente as suas entrevistas.
Para ser mais uma vez agradavel ao tio, José Maximo limpou uma espingarda velha que encontrou a um canto da casa, e foi caçar.
Completando o disfarce, o estudante disparava muitos tiros sempre que avistava Ignacio da Fonseca trabalhando nos campos com os criados.
O tio, ouvindo as detonações successivas, olhava para o ar e, como não visse passar caça, ria-se, e dizia para os criados:
—O diabo do rapaz entende tanto d’aquillo como de lagares de azeite!
III
Loucura revolucionaria
Que erradas contas faz a phantasia! Pois tudo pára em morte, tudo em vento, Triste o que espera! triste o que confia!
Camões—«Sonetos».
A 18 de outubro de 1817 ardiam nas fogueiras do Campo de Sant’Anna em Lisboa os cadaveres dos patriotas liberaes, que haviam sido condemnados pelo crime de lesa-magestade e alta traição.
A respectiva sentença ordenava que os corpos de doze conspiradores, depois de terem passado pelo garrote, depois de lhes haverem sido decepadas as cabeças, fossem queimados, e as suas cinzas lançadas ao mar. Apenas abria excepção, pelo que tocava á infamia posthuma da fogueira, para quatro reus. Mas a todos envolvia na confiscação dos bens que possuissem.
O tenente-general Gomes Freire de Andrade foi executado na torre de S. Julião da Barra, longe dos seus companheiros de desgraça, porque se receiou que o supplicio n’uma praça publica désse origem a manifestações populares.
O crime d’esses doze patriotas, e de outros que foram condemnados a degredo, consistia na aspiração de libertarem o paiz da tutella do marechal Beresford, como primeiro passo para a conquista de um regimen de autonomia constitucional.
A denuncia foi feita ao proprio marechal por tres individuos alliciados pelos conspiradores. Beresford tratou de coordenar as provas da conspiração. Depois entregou o processo ao conselho da regencia, para que o fizesse submetter a julgamento summario, sem admissão de recurso ao rei, que estava no Rio de Janeiro.
Mal podemos imaginar hoje a profunda sensação que este lugubre acontecimento causou nos espiritos fanatisados pelo ideal da liberdade. O sangue das victimas clama vingança. As fogueiras de Lisboa aqueceram, ao longe, nas provincias, o desejo da desfórra. Só Lisboa ficou como que mergulhada n’um enervamento de pasmo e terror.
Todas as esperanças dos liberaes se voltavam para o norte do paiz, especialmente para o Porto, terra classica das arremettidas corajosas.
Suspeitava-se vagamente que não ficariam inertes alguns homens de grande valor, cujo espirito era reconhecido n’aquella cidade como affecto ao progresso das instituições politicas. Indicavam-se nomes: o do desembargador Fernandes Thomaz e o do advogado José Ferreira Borges, secretario da Companhia dos Vinhos.
José Maximo já tinha voltado a Coimbra quando o garrote e o fogo fizeram abortar em Lisboa a primeira tentativa de revolução.
A tal ponto se exaltou, que abandonou o Collegio das Artes e, deixando uma carta confidencial ao seu _veterano_ Lemos, sahiu de Coimbra.
Chegou de noite a Cezár e foi bater á porta da casa do Outeiro, dizendo-se portador de uma mensagem secreta para frei Simão.
Após breves momentos de espera, o ex-frade de Alcobaça appareceu a receber o mysterioso mensageiro. Ficou admirado de vêr ali, áquella hora, José Maximo da Fonseca.
O estudante não justificou a visita senão pelas exaltadas palavras com que rapidamente denunciou o estado do seu espirito.
Vibrava indignado pelos acontecimentos de Lisboa. Sentia-se incapaz de estudar, revoltava-o a ideia de receber a instrucção pela taça da tyrannia, segundo o seu proprio modo de dizer. Preferia ser soldado e conspirador onde quer que a causa da liberdade carecesse dos seus serviços. Se fosse precisa uma cabeça para o sacrificio, da melhor vontade offereceria o seu corpo ao garrote e á fogueira.
Frei Simão teve um momento de bom conselho fazendo notar a José Maximo que elle arriscava o seu futuro, e incorreria não só no desagrado, mas até no odio do tio.
O estudante respondeu com fogosa convicção:
—Que me importa arriscar o futuro, se estou prompto a arriscar a vida?!
Frei Simão, encantado com o animo valoroso d’aquelle rapaz, que pelo ardor do sangue parecia seu irmão, deixou cahir a mascara, e tambem por sua vez clamou por vingança contra os algozes de homens cujo unico crime era amarem a liberdade e a patria.
Estabelecida uma intima communicação entre o frade e o estudante, como se uma corrente electrica os inflammasse simultaneamente, frei Simão contou a José Maximo que tinha recebido uma carta do Porto, de seu irmão Frederico, que em linguagem nublosa lhe dava a entender o que quer que fosse de possiveis combinações revolucionarias. Frei Simão suspeitava que Frederico o saberia por confidencia do coronel Sepulveda.
—Pois vou ao Porto! disse com resolução o estudante. E parto já.
—Já?! exclamou com surpresa frei Simão.
Correu o frade a uma das janellas e abriu-a de repente.
A madrugada clareava o ceu n’uma alvura nitente de leite crystalisado.
—Não! disse elle. Os criados de seu tio, e talvez elle proprio, já devem estar a pé. Seria uma imprudencia inutil atravessar agora Cezár, podendo ser surprehendido. Vossa mercê fica n’esta casa até que escureça, e partirá de noite. Dar-lhe-hei uma carta para meu irmão Frederico, que mora a Santo Ovidio, perto do quartel. Só lhe peço, como retribuição, que, n’uma cifra que logo combinaremos, me vá informando do que se passar no Porto.
Ficar n’aquella casa até á noite! Passar um dia inteiro sob o mesmo tecto que abrigava D. Anna de Vasconcellos! Só este programma de felicidade o poderia deter na sua louca aventura de ir ao Porto. Se fôra o amor que o trouxera a Cezár, a pretexto de desabafar com frei Simão, seria ainda o amor que o reteria ali durante umas felicissimas vinte e quatro horas, que passariam rapidas como um sonho.
José Maximo, olhando para dentro de si, sentia-se heroe. No meio d’aquella familia liberal, Anna de Vasconcellos seria decerto a primeira pessoa que lhe engrandeceria a coragem e o arrojo, e era justamente a seus olhos que elle ambicionava ser heroe laureado ou victima celebre. Pouco lhe importava que acontecesse uma ou outra cousa, comtanto que D. Anna o considerasse como um homem da estatura moral de frei Simão, capaz de arrostar com odios acerbos e de manter até ao heroismo as suas fortes convicções politicas.
Quiz frei Simão que José Maximo fosse descançar algum tempo da fadiga da jornada.
O estudante obedeceu por delicadesa, porque não sentia cansaço nem somno.
Deram-lhe o quarto _dos hospedes_, sempre preparado nas casas hospitaleiras da provincia.
José Maximo deitou-se, mas não conseguiu adormecer. A sua fogosa imaginação ardia em sonhos de vaga felicidade. Cria-se já um heroe na atmosphera d’aquella casa, a que o coração o prendia. A imagem de Anna de Vasconcellos, que devia estar ali perto, sorria-lhe como o anjo da victoria, que lhe promettesse os louros de um duplo triumpho.
Ás oito horas da manhã, frei Simão bateu á porta do quarto do hospede. Eram horas de almoço. José Maximo não se fez esperar muito tempo. O coração saltava-lhe do peito em palpitações desordenadas. Era que se aproximava o momento de, pela primeira vez, poder fitar rosto a rosto a mulher amada, que até ahi apenas tinha contemplado de longe.
Durante o almoço e as breves horas que se lhe seguiram, o precoce revolucionario do Fundão sentiu-se cobarde deante de D. Anna de Vasconcellos, a si proprio se extranhou pelo acanhamento que o enleiava. Cerca do meio-dia, o acanhamento converteu-se em extasi quando, na sala nobre do Outeiro, a formosa menina dedilhou timidamente cythara franceza, em honra do seu hospede. Ao declinar da tarde, o estudante tinha ganhado coragem, a ponto de, já senhor de si, poder dizer de fugida a D. Anna de Vasconcellos uma coisa que ella sabia a preceito: «Amo-a como se pode adorar um anjo.»
A esta incendida declaração de amor respondeu uma onda de sangue, que do coração subiu ás faces de Anna de Vasconcellos.
Pelas oito horas da noite, frei Simão chamou á parte José Maximo, que se preparava para partir, e disse-lhe:
—Vossa mercê certamente leva pouco dinheiro comsigo. Bolsa de estudante costuma ser magra.
José Maximo respondeu, de prompto, que não precisava dinheiro.
—Ha de precisar, replicou frei Simão, pelo menos para as primeiras despesas. Depois, meu irmão Frederico, como n’esta carta lhe recommendo, olhará por vossa mercê.
José Maximo quiz ainda resistir á offerta, mas frei Simão entregou-lhe uma peça de ouro, dez crusados novos, e, como galanteria, a titulo de recordação d’aquella visita, um _napoleão_, moeda franceza que Junot havia introduzido em Portugal, e que tinha corrido com o mesmo valor das peças portuguezas: 6$400 réis.