A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 18
Mas não desanimou. Estimulou, com energicas palavras, a coragem dos guerrilheiros, e organisou de prompto a defesa.
O resto da guerrilha bateu-se com assombrosa bravura, apesar de muito castigado pelo fogo dos miguelistas.
Foi longo e renhido o combate, e as munições de frei Simão eram já escassas.
A devassa, para engrandecer a victoria, diz que os guerrilheiros presos eram vinte e um, e que tinham os boldriés ainda municiados de cartuxame. Seria preciso não conhecer frei Simão para acreditar que elle não luctasse até esgotar as suas munições.
Francisco Marques disse ao frade:
—Sr. frei Simão, eu vou atar o lenço na espingarda para acabarmos com isto, que já não pode durar muito.
—Não! nunca! replicou, indómito, o frade. A inimigos encarniçados não se pede paz. Quando se nos acabar o ultimo cartuxo, que nos matem ou que nos prendam, pouco importa. Tanto monta morrer hoje como amanhã.
E até gastar o ultimo cartuxo, a guerrilha de frei Simão sustentou, com heroico denodo, o tiroteio.
A derrota estava prevista; era certa.
As ordenanças cercáram a guerrilha, cada vez mais redusida pelo morticinio.
Eram onze horas da manhã.
Frei Simão e seis dos seus valorosos companheiros foram presos, condusidos a Arouca, onde entraram ao som festivo dos sinos do mosteiro, que repicavam em triumpho.
As freiras, engalanadas com laços de fita escarlate, davam vivas a D. Miguel I, nas janellas do edificio.
Na cella da abbadeça houve beberete de vinho fino do Porto, esponjado em pão de ló de S. Bernardo, guloseima lendaria n’aquelle mosteiro.
Margarida Candida chorava, abraçada a um crucifixo, na hora em que o frade de Cezár, irmão de Joaquim Maria, passava, entre as ordenanças, caminho da cadeia.
Frei Simão, na attitude de um vencido que tem a consciencia de haver cumprido o seu dever, atravessava por entre a multidão, que o cobria de injurias, sem baixar a cabeça nem o olhar.
Mas ao passar em frente do mosteiro, a cabeça descahiu-lhe, o olhar rastejou no solo.
Uma onda de tristesa inundou-lhe o forte coração. Tudo estava perdido. Ia morrer, sem ter cumprido o seu juramento, realisado o seu ideial. Via a Terra Promettida, sem poder entrar os seus muros, transpôr as suas portas. E, de subito, lembrou-se da inexplicavel melancolia que o acommetteu, annos antes, a ultima vez que ali estivera. «Era um aviso de Deus!» pensou o frade.
As madres, parecendo-lhes que frei Simão ia succumbido, esganiçaram-se em redobrados gritos de alegria, vivas a D. Miguel I, ao corregedor, e ás ordenanças, que tambem festejavam com palmas.
Após curta demora em Arouca, foram os presos condusidos a Lamego, e d’ahi para Vizeu, onde entraram no dia 19 de setembro, atravessando por entre os apupos, os insultos, as pragas da multidão, que enchia as ruas.
Frei Simão e os seus companheiros tinham feito toda a jornada a pé, com inquebrantavel coragem. Caminhavam para a morte com a firmesa de verdadeiros heroes.
Em Vizeu estava funccionando o _tribunal de terror_, a commissão mixta, composta de trez magistrados civis e de quatro vogaes militares, que os ia julgar e que, fatalmente, os condemnaria.
Este sanguinario tribunal já havia mostrado o seu implacavel rigor na sentença que, em agosto, pronunciára contra trez sacerdotes liberaes.
Eram elles os padres Lauriano Antonio Pinto de Noronha, Caetano José Pinheiro e Antonio Alberto Pereira Pinto Monte-Roio, que foram presos quando navegavam Douro abaixo com o proposito de reunir-se á expedição libertadora no Porto.
Ia tambem com elles frei Joaquim dos Santos Pereira, mas esse, por haver sido ferido gravemente no peito com uma bala, não foi logo julgado, e assim logrou salvar a vida, porque o tratamento não tinha ainda acabado quando a liberdade triumphou[8].
Menos felizes, os seus trez companheiros foram arcabusados no Campo da Ribeira em Vizeu, no dia 23 de agosto.
Só em dezembro, a _Chronica constitucional do Porto_ tinha noticia relativa ás primeiras victimas d’aquelle tribunal de terror.
No numero do dia 3 dizia o orgão official do governo de D. Pedro:
«Já se contam trez individuos espingardeados por estes monstros. As primeiras victimas, segundo nos consta, foram trez clerigos; esses apregoados defensores do altar e throno folgam de banhar as mãos no sangue dos ministros da Religião, quando estes fieis á legitima Rainha, e inimigos do perjurio e da usurpação, recusam tornar-se cumplices do crime de seus algozes!»
Frei Simão, cuja importancia politica era maior que a dos outros ecclesiasticos até ahi julgados pelo tribunal de Vizeu, sabia que seria condemnado á morte, mas essa certesa em nada lhe quebrantava a hombridade de caracter, que sempre conservou.
—Para mim, rejeitaria a generosidade dos usurpadores, se elles podessem ser generosos alguma vez, dizia frei Simão; mas só eu devo ser responsavel pelo levantamento da minha guerrilha, e pelos seus actos.
Repugna, por inverosimil, a affirmação da devassa quando diz que frei Simão declarou ter acompanhado a guerrilha forçadamente.
Ao contrario, elle procurava salvar da morte os seus homens de armas, inculcar-se como unico e verdadeiro culpado.
De nada valeu, porém, essa nobre tentativa.
No dia 16 de outubro reuniu-se a commissão mixta, e summariamente condemnou á morte, dentro de vinte e quatro horas, frei Simão de Vasconcellos com os seus seis companheiros de guerrilha.
Eram elles:
Antonio Joaquim, natural da cidade do Porto, furriel do batalhão de caçadores n.º 12.
Joaquim Gonçalves, natural da freguesia de Casaes, concelho e comarca de Penafiel, soldado do mesmo batalhão.
Francisco José Marques, natural do logar e freguezia de Sanfins, comarca da Villa da Feira, soldado do batalhão da Serra, organisado no Porto.
José de Oliveira, natural do logar de S. Geão, freguesia do Souto, lavrador, soldado do batalhão de Villa Nova, organisado no Porto.
Joaquim José da Silva, natural do Porto, freguesia de Santo Ildefonso, soldado de caçadores 2.
Luiz Ferreira da Costa Sant’Anna, natural de Ranhados, proximo a Vizeu, residente no Porto, e hortelão dos Loyos.
Frei Simão julgava que eram esses os seus unicos guerrilheiros que tinham sobrevivido ao combate na ribeira de Adaufe; mas um d’elles, José Ferreira, natural de S. Martinho de Argoncelhe, termo e comarca da Villa da Feira, podera escapar-se no caminho, sendo, porém, recapturado pelos miguelistas, e tambem, mais tarde, condemnado á morte.
Immediatamente á leitura da sentença, frei Simão e os seis guerrilheiros foram introdusidos no _oratorio_ em uma das aulas nos claustros do Seminario.
O frade, muito sereno, pediu que lhe mandassem um confessor, papel e tinta.
Confessou-se ao religioso que lhe enviaram, e que, depois da confissão, se lhe mostrou muito affeiçoado.
Em seguida tomou apenas um caldo, e sentou-se a escrever tranquillamente.
Começou por uma carta a seu irmão Frederico Pinto.
Tenho-a deante dos olhos: a lettra é firme, clara; nem uma entrelinha.
Diz assim:
«Vizeu em o Oratorio, 16 de outubro
Mano do C. Ámanhan vão pôr termo aos meus trabalhos, estimarei seja o ultimo sangue que se verta: por outra via te escrevi que creio ahi te será entregue, pessoalmente. Peço-te me ajustes contas com todos os acredores, e me desencarregues a minha alma: visitas á Mana, pequenos e mais familia e que me encommendem a minha alma ao Creador; peço-te se o meu sangue te servir de alguma cousa ajudes as Manas com especialidade Maria e Anna que muito tem soffrido. Adeus. Este religioso a quem sou muito devedor fica com as minhas declarações que te enviará ou ás Manas de ellas ter resposta. (_Sic._) Adeus. Teu mano affectivo
F. Simão.»
Dobrou o papel, e sobrescriptou: Ill.ᵐᵒ Sr. Frederico Pinto Pereira de Vasconcellos.
—Agora, disse elle voltado para o religioso que estava rezando, vou fazer as minhas declarações. Mas é trabalho que requer mais vagar, porque não desejo que me esqueça nada.
Escreveu seguidamente duas folhas de papel almasso, que tambem tenho deante dos olhos.
A mesma firmesa de lettra; e uma só entrelinha, apenas.
São, effectivamente, declarações sobre negocios domesticos, menção de quantias que lhe deviam ou de que era devedor. A sua placidez de espirito era tamanha, que não se esqueceu de mencionar pormenores sobre a administração da casa. Refere-se escrupulosamente ás missas que deixou por dizer, e que quer sejam ditas sem falta. Torna a recommendar as irmãs, especialisando Maria e Anna, aconselhando aos seus que «vivam bem e sejam amigos.»
Depois de ter escripto por mais de uma hora, frei Simão sentou-se de fronte do crucifixo, que tinham posto no oratorio, e assim se conservou meditando durante toda a noite.
Ao romper da manhã tomou outro caldo, e ajoelhou largo tempo em oração.
—Irmão, disse-lhe o religioso, creio que se avisinha a hora tremenda. Veja se quer mais alguma cousa de mim.
—Sim, meu padre, quero entregar-lhe as minhas declarações; mas ainda me falta escrever mais alguma cousa.
Tinha apenas traçado duas linhas, quando a porta se abriu.
Era o momento fatal.
Frei Simão entregou as declarações e a carta ao religioso, a quem abraçou e beijou a mão.
Depois sahiu serenamente e assim se dirigiu, no meio da escolta de milicias de Bragança, para o terreiro contiguo, chamado de Santa Catharina.
Ahi abraçou os seus companheiros de desgraça, pedindo-lhes perdão, e agradecendo-lhes a sua lealdade. Ao Marques abraçou por duas vezes. Não chorou. Tornou a abraçar e a oscular o religioso, que lhe havia assistido.
Firmemente foi collocar-se em alvo na linha dos condemnados.
Ouviu-se então a voz de apontar.
Frei Simão, erguendo o braço direito como para deixar o peito bem a descoberto, gritou:
—Viva Deus! Viva a liberdade! Viva a Rai...
A voz de fogo cortou, nos labios de frei Simão, a sua ultima palavra.
Sete homens cahiram varados pelas balas.
Vizeu estava em festa. A infima plebe dançava á roda dos cadaveres, tripudiando n’um festim selvagem, que durou todo o dia.
Alguns dos cadaveres ensanguentados foram levados de rojo até ao fosso onde costumavam lançar os animaes mortos.
O religioso impediu que o de frei Simão tivesse igual destino: elle mesmo o acompanhou á capella de S. Martinho.
_A Chronica constitucional_, continuando a referir-se ás sentenças do sanguinario tribunal de Vizeu, noticiava no dia 8 de dezembro a morte de frei Simão, e no dia 15 renovava o assumpto, dizendo:
«Foi espingardeado a 19 de outubro passado (aliás 17, como se prova pelas declarações e carta que examinamos) o patriota frei Simão, cuja severidade de alma e firmesa, no meio dos tormentos que padeceu, chegou a assombrar os proprios algozes que o condemnaram.»
E era verdade.
O frade constitucional de Cezár morrêra como um heroe, christã e politicamente encarado.
Sobre este e outros exemplos de grandiosa dedicação architectou a liberdade a sua conquista.
Esquecel-o é um crime, e comtudo, ás vezes, completamente o esquecemos!
XXVIII
Epilogo
Estes são os espelhos, em que nos devemos todos vêr, e n’elles ver-se a luz, e guia que deante vai.
Luiz de Souza de Lima—«Avisos do céu».
Em agosto de 1833 Margarida Candida teve occasião de recuperar a liberdade, e recuperou-a.
Frei Simão não poude chegar a abrir-lhe as portas do mosteiro, mas a sua familia, na primeira hora de triumpho, logrou não só cumprir a promessa do frade, mas até vingar por um acto publico a morte d’elle.
Segundo a informação publicada pela _Chronica_ no seu numero correspondente ao dia 31 d’aquelle mez e anno, o capitão-mór de Arouca, sabendo que se tratava de acclamar ali a senhora D. Maria II, mandou prender o capitão d’ordenanças, por suspeito de proteger a conspiração, e com o fim de o enviar á commissão mixta de Vizeu.
«Este acto de violencia, diz a _Chronica_, despertou o brio dos conjurados, e por diligencias de Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos, que com zelo incançavel fez deliberar o resto dos amigos apalavrados, no mesmo dia se dirigiram á cadea, soltaram o preso, e concluiram depois o acto solemne da acclamação da senhora D. Maria II.»
Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos era, como se sabe, o irmão mais novo de frei Simão. Mas um documento de familia diz-nos que o pae, apesar de velho e doente, tambem se associou á conspiração planeada pelo filho mais novo.
«O capitão-mór fugiu—prosegue a _Chronica_—com os abbades de Santa Eulalia e S. Salvador, bem como as freiras do convento, excepto quatro. D’estas tem voltado algumas, sabendo que reina a boa ordem, e que não se commettem as violencias com que o partido da usurpação intimida os povos, fazendo-lhes crer que as vinganças e a desordem é ao que aspiram os constitucionaes.»
Margarida Candida foi das freiras que fugiram, e não voltaram.
Teve razão, porque a hydra do absolutismo não ficára ainda esmagada em Arouca.
O capitão-mór fugitivo requisitou forças que fossem prender José Bernardo Pereira de Vasconcellos e seu filho Antonio, motivo por que ambos emigraram para o Porto.
A dentro das trincheiras liberaes, no Porto, Antonio Pinto, no empenho de fazer triumphar a causa que lhe tinha victimado dois irmãos, tomou sobre si a tarefa de organisar um batalhão de voluntarios de Arouca, que se lhe foram reunir.
Saibamos o destino de Margarida Candida, depois que fugiu do mosteiro.
Restaurada a liberdade, appareceu em Aveiro uma senhora vestida de preto, e acompanhada por uma criada, sua unica familia. Alugou casa n’aquella cidade, e ali se domiciliou. Todos os dias, pela manhã, visitava a egreja de Santo Antonio, e orava longo tempo ajoelhada sobre a sepultura de Joaquim Maria de Vasconcellos.
Esta senhora era a sobrinha de André Pinto.
O tio vivia ainda, mas estava refugiado em Hespanha, temendo-se principalmente dos seus adversarios politicos de Traz-os-Montes. Constava que tinha feito testamento deixando a pessoas extranhas algumas propriedades que tinham escapado á voragem de grandes despesas politicas. Mas, vindo a morrer em Hespanha, não se lhe encontrou o testamento, pelo que Margarida Candida se habilitou á herança.
Em Aveiro suppunha-se que a familia Vasconcellos de Cezár tinha estipulado a Margarida Candida uma mesada, que ella receberia em quanto os tribunaes a não reconheceram como herdeira do tio.
Ninguem revelou a D. Anna de Vasconcellos o fim tragico de frei Simão, mas é de suppôr que ella suspeitasse o que tinha acontecido, porque os seus padecimentos aggravaram-se desde 1833.
A enfermidade de que soffria pareceu retomar o seu antigo curso, por algum tempo interrompido, ou pelo menos attenuado. Sobreveio a difficuldade dos movimentos, a atrophia gordurosa dos musculos, a inercia, a cerrada tristesa que obscurecia o espirito, mas o tremor nervoso tinha diminuido.
Quando, porem, o periodo terminal da paralysia agitante tendia a accentuar-se, uma doença intercorrente, em 1837, apressou a morte.
D. Anna de Vasconcellos foi sepultada na egreja de Cezár.
O pai, acompanhado por alguns amigos, trouxe, uma noite, o feretro da filha para a capella de familia, onde se acha depositado.
Do fim de José Maximo da Fonseca sabemos pelo livro do sr. Martins de Carvalho, intitulado _Apontamentos para a historia contemporanea_.
«No dia 15 de dezembro de 1865—diz este livro, a pag. 102—falleceu em uma casa da misericordia de Lagos, no Algarve, um individuo com o nome supposto de Manuel do Nascimento, e conhecido pela alcunha de _Fresca Ribeira_.
«Este individuo, que tinha por profissão habitual concertar pratos e outros objetos de louça, e que se apresentava como caldeireiro ambulante, tinha o rosto desfigurado com polvora e com algumas cicatrizes.
«Era em todo o Algarve, em Beja e outras povoações do Alemtejo, voz geral que este homem fôra um dos que tomaram parte no crime commettido no dia 18 de março de 1828.
«Via-se que não era o que inculcava, porque mal podia comprehender-se que, sendo elle o que dizia, fallasse com correcção as linguas francesa e hespanhola, e tivesse conhecimento muito regular do latim.»
Os ultimos annos da existencia de José Maximo foram a suprema miseria de um desgraçado.
Quando em Beja apurou discretamente que D. Anna de Vasconcellos tinha morrido, torturada por tão longos soffrimentos, começou a embriagar-se, o que até ali jámais havia feito.
Os curiosos, explorando o ébrio, faziam-lhe perguntas, a que elle então respondia, dizendo inconscientemente a verdade: Que tinha sido estudante de um e outro direito em Coimbra; que tivera parte no crime do Cartaxinho; que fugira e andára emigrado pela Belgica, França e Hespanha; e que ainda durante o governo de D. Miguel viera por algumas vezes a Portugal a vender _matala-uva_, sem que ninguem o reconhecesse, graças ao seu completo disfarce.
Apesar de embriagado, José Maximo chorava, n’uma funda tristeza, quando fazia estas revelações.
Mas nunca pronunciou uma unica phrase allusiva a D. Anna de Vasconcellos.
Esse segredo era para elle tão instinctivamente inviolavel, que nem a «verdade do vinho» lh’o podia arrancar.
O sr. Martins de Carvalho completa as suas informações escrevendo:
«Dizia-se em Beja e no Algarve que este homem era natural d’uma terra do Alemtejo, onde tinha familia.
«Em Beja ensinava aos estudantes do lyceu, quando com elles se encontrava no largo d’este edificio, latim, logica, e outros preparatorios, recebendo por isso o que lhe queriam dar.
«Conta-se que um seu contemporaneo do Alemtejo, fallando com elle, o reconhecêra; que instara para que deixasse a vida em que andava, e que até lhe dera facto novo para vestir. Apesar d’isso, continuou sempre até morrer no seu modo de vida.»
Faremos ligeiros commentarios a estas informações.
O dizer-se que o Fresca Ribeira era natural do Alemtejo proviria do facto de elle, no tempo em que no Porto adoptou aquella alcunha, se inculcar como natural d’essa provincia.
A circumstancia de José Maximo, no regresso a Portugal, onde certamente o attrairia a saudade da patria que refina nos desgraçados, não sahir das provincias meridionaes, a mim mesmo a explico pelo horror que experimentaria em tornar a vêr as regiões do norte do paiz, onde a felicidade lhe tinha sorrido no amor.
Era-lhe dolorosa consolação poder erguer os olhos ao ceu da patria e pisar terra portuguesa, sem comtudo ter animo para transpor a linha ideal, que na carta geographica de Portugal separava o seu passado do seu presente.
Para atormental-o, bastavam-lhe as dilacerantes recordações que levava em si mesmo para toda a parte. Mas aclarar a memoria de tantos logares conhecidos, visitando-os, reconstituir scena a scena o drama da sua existencia pela exacta renovação do proscenio e do scenario, seria sacrificio superior ás forças de quem já tão quebradas as trazia pelos embates e conflictos de um amargo destino.
O contemporaneo que, fallando com elle no Alemtejo, o reconhecêra, devia ter sido talvez Jayme de Carvalho, o marido de Ernestina.
Assim acabou no catre de um hospital, ultimo paradeiro de todos os desgraçados, aquelle enthusiasta poeta da liberdade, que, melhor orientado, poderia haver prestado ao seu paiz relevantes serviços e occupado os mais honrosos cargos na gerencia dos negocios publicos.
Mas, na miseria em que viveu, a morte foi para elle um beneficio da Providencia. Desde 1828, José Maximo da Fonseca não era senão o epitaphio ambulante de si mesmo: epitaphio em que não se lia um nome, nem uma data, mas apenas, como acontece algumas vezes, uma simples invocação á piedade dos viandantes.
Quem em Beja ou no Algarve via passar o caldeireiro, coberto de remendos e cicatrizes, e sabia que elle preleccionava aos estudantes varias disciplinas, teria porventura dó d’esse mysterioso homem, que, apesar de redusido a tão humilde mister, denunciava haver tido mais alto nascimento e uma selecta educação litteraria.
A piedade que elle inspirava era como que o _Pater noster_ do viandante ao passar pela cruz negra das encruzilhadas sinistras.
Havia ali uma victima, cujo nome se ignorava.
«Emquanto ao seu verdadeiro nome—perora o sr. Martins de Carvalho com referencia ao _Fresca Ribeira_—e á sua naturalidade, nem mesmo embriagado o revelava.»
Os restos mortaes de frei Simão de Vasconcellos foram em 1836 trasladados, com os dos seus guerrilheiros e outros martyres da liberdade, por iniciativa de uma commissão patriotica, para um mausoléo de honra levantado nos claustros da Sé de Vizeu.
A trasladação realisou-se com grande pompa religiosa e apparato civico.
A tradição refere que o corpo de frei Simão estava ainda incorrupto quatro annos depois do fallecimento, quando o transferiram da capella de S. Martinho, que já não existe, para o moimento da Sé.
Tambem em Cezár me asseverou um contemporaneo de frei Simão, e seu intimo, que elle costumava trazer cilicios por baixo do habito monastico.
A inscripção lavrada no mausoléo dos liberaes arcabusados em Vizeu consta de texto latino e respectiva traducção, que diz assim:
«_Pela adhesão á liberdade, carta e rainha Maria II, por iniquas sentenças foram innocentemente condemnados e fusilados no anno de 1832 e 1833_,
(Seguem-se os nomes dos liberaes portugueses, incluindo o de frei Simão, e de alguns hespanhoes).
«_Descançam suas cinzas n’este monumento, o qual em detestação da execranda tyrannia d’aquelle tempo, e para memoria perpetua de varões tão benemeritos da patria os cidadãos de Vizeu religiosamente e por commum subscripção lhes dedicaram no dia 26 de agosto de 1836._
Esta glorificação pósthuma explica o motivo por que, na capella de familia, em Cezár, falta o cadaver de frei Simão de Vasconcellos.
Frederico Pinto, que, durante o cêrco do Porto, voltou, espontaneamente, ao serviço militar, sendo ajudante do batalhão de voluntarios de Santa Catharina, foi mais tarde empregado publico ao serviço da fazenda nacional.
Casou em segundas nupcias com D. Anna Clementina Pereira Berredo, da illustre familia dos Berredos de Gaya.
Morreu desastrosamente no sitio das Barrancas, estrada dos Carvalhos, por se ter empinado a égua que montava, ficando elle esmagado na quéda, sob o peso do animal.
O cadaver de Frederico Pinto foi condusido á capella de familia, onde jaz.
Um filho de Frederico Pinto, o major Augusto Cezár de Vasconcellos, morreu tragicamente, cumprindo o seu dever de militar, ás mãos dos soldados que o desrespeitaram na revolta de Braga, em 1862.
Tambem os seus restos mortaes estão na capella de Cezár.
O primogenito de Frederico Pinto teve o nome do pai, e já não existe. Foi elle que forneceu ao dr. Henriques Sêcco as ligeiras informações que a respeito de frei Simão este professor agrupou no primeiro volume das _Memorias do tempo passado e presente_.
Na casa de Cezár vive actualmente, como representante da familia do Outeiro, outro filho de Frederico Pinto, o sr. Alfredo Praça de Vasconcellos, engenheiro civil, que ha alguns annos abandonou a engenheria pela vida agricola.
Foi elle, mais uma vez o direi, que teve a paciencia e a bondade de me dar muitos esclarecimentos que lhe pedi sobre a vida e morte de seu tio frei Simão.
FIM
NOTAS
[1] O sr. Joaquim Martins de Carvalho.
[2] Esta senhora, tendo tomado gosto á vida conventual, veio, mais tarde, para as Commendadeiras de Santos, em Lisboa. Sahiu d’ahi, velha e doente, para ir residir n’um predio da Travessa do Convento de Jesus, onde falleceu ha cinco annos, como consta do obituario da freguezia de Santa Catharina.
[3] Este predio pertence hoje ao sr. conselheiro Francisco de Castro Mattoso Pereira Côrte Real.
[4] Este carpinteiro de Milheirós da Feira ainda vive. Chama-se Antonio Joaquim Corrêa Paes.
[5] Esta irmã de frei Simão veiu a casar, mais tarde, na casa do Bairro, em Arouca.
[6] Monsenhor Dupanloup foi depois uma das glorias do episcopado francez.
[7] «Historia da guerra civil», terceira epocha, tomo IV, pag. 4.
[8] Frei Joaquim morreu conego da Sé de Lisboa, cêrca de 1874.
ERRATAS MAIS IMPORTANTES
Nota do transcritor: Corrigido; e alguns erros adicionais também foram corrigidos.
Pag. 13-14, onde se lê—o rendimentos—leia-se—o rendimento.