A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 17

Chapter 173,887 wordsPublic domain

«Hontem pelas nove horas da noite pegou em armas toda a guarnição da Serra, porque os rebeldes se haviam aproximado das nossas linhas. A guerrilha de frei Simão retirou algum tanto, porque a força inimiga, dividida em duas columnas, mostrava apparencias de a querer flanquear. Em consequencia da parte dada por frei Simão, foram immediatamente reforçados todos os nossos pontos; a força commandada por frei Simão matou trez guerrilheiros, e ao romper da manhã o campo estava limpo de inimigos. Soube-se que a força que está nos Carvalhos consiste em duas peças de artilheria, alguma cavallaria, parte do regimento 24, e guerrilhas.»

Frei Simão, impaciente de ir a Cezár, aproveitou a evolução que fôra obrigado a fazer na noite de 26 de agosto, para affastar-se do Porto. Salvava-se ao mesmo tempo de ser flanqueado pelas duas columnas inimigas, e realisava o seu mais ardente desejo.

Muitas vezes tinha elle pensado em que uma bala miguelista o poderia matar antes de justar contas com os perseguidores da sua familia e de arrancar Margarida Candida ao carcere conventual de Arouca. Essa ideia atormentava-o, mas, no momento em que o perigo era imminente, quando chegava a hora de combater, frei Simão arremessava-se, destemido, contra os seus adversarios, e o receio da morte apagava-se completamente no seu espirito.

Os adversarios detestavam-n’o, porque o temiam. Esse representante do clero liberal, tão valente como guerrilheiro e tão celebrado pela sua já lendaria dedicação á causa da Rainha e da Carta, irritava os miguelistas a ponto que julgavam um grande triumpho o poder surprehendel-o e aniquilal-o.

Frei Simão apenas dispunha de um braço, como sabemos. Mas na destresa da pontaria não o excediam nem igualavam os melhores atiradores.

Todas estas circumstancias avultavam a lenda da sua heroicidade, e chamavam sobre elle a attenção e o odio dos adversarios.

Desde o mez de agosto que no Porto deixaram de receber-se noticias de frei Simão.

O imperador, que de nada se esquecia, pensava algumas vezes no seu famoso guerrilheiro, e respondia aos que lhe fallavam d’elle:

—Frei Simão deve estar a caminho de Arouca, se já lá não estiver.

Houve quem perguntasse a D. Pedro:

—Mas que razão poderia elle ter para tão aventurosa marcha?

D. Pedro respondeu laconicamente:

—Um juramento...

O que é certo é que, na _Chronica constitucional do Porto_, se fez um longo silencio sobre o destino de frei Simão no decurso de agosto a setembro.

Mas nós, que temos presentes os autos de summario e a respectiva devassa rapidamente instaurados mais tarde contra frei Simão, e que podêmos, por outras noticias fidedignas, corrigir o que ha de invenção facciosa n’esses documentos judiciaes, vamos encontrar a guerrilha no dia 8 de setembro em caminho de Cezár.

Não podêmos comtudo explicar a demora da marcha, a não ser pelas difficuldades do transito provenientes do encontro e das escaramuças com numerosas guerrilhas miguelistas.

Diz a devassa que frei Simão tinha sahido do Porto na noite de sete de setembro. Não é exacto. O silencio da _Chronica constitucional_ abona a negativa. Frei Simão não tornou a entrar na cidade, o que seria contradictorio com os fins da sua missão. Tambem diz a devassa que a guerrilha se compunha de cêrca de quarenta homens. Pode ser que tivesse augmentado em numero pela adhesão de alguns voluntarios, mas quando sahiu do Porto não excedia vinte homens.

O que é certo, porém, é que frei Simão, com a sua gente, appareceu em Cezár no dia 8 de setembro pela manhã.

Toda a guerrilha, incluindo o commandante, vestia jaqueta de policia, como então se dizia, com boné listado de azul e branco.

Pelo que respeitava á sua pessoa, parecia a frei Simão que o uniforme militar era mais decente do que o habito arregaçado, a calça justa, as botas de montar, a banda e a espada á cinta, o bacamarte a tiracol com que ordinariamente os frades miguelistas se exhibiam no commando das suas respectivas guerrilhas.

Frei Simão apenas trazia, como distinctivo do estado ecclesiastico, a cruz peitoral entalada entre a camisa e a jaqueta.

A devassa, no seu proposito de aggravar as responsabilidades de frei Simão, diz que elle entrára em Cezár dando tiros, matando, incendiando. Não foi assim.

Logo que chegou, o frade deu voz de descanço á guerrilha, e foi, elle só, bater á porta do Passal.

Alguns timidos camponezes, que se metteram em casa cheios de medo quando avistaram o frade do Outeiro á frente de um bando de homens armados, julgaram que era chegado o seu ultimo momento.

Mas, depois que elle passou, espreitaram-n’o com olhos de lynce, não sem alegre surpresa por a guerrilha não ter incommodado ninguem.

Viram-n’o dirigir-se ao Passal, e conjecturaram que o abbade e o coadjuctor seriam, por sua categoria, as primeiras victimas da vingança de frei Simão.

O povo, tendo sempre ouvido dizer a Ignacio da Fonseca e outros absolutistas que o frade era maçon, julgava-o inimigo irreconciliavel do throno e do altar.

Frei Simão, sem fazer reparo nas flores e estatuetas do jardim, subiu a escada de pedra e entrou na Residencia, não como um adversario, mas como um pacifico e agradecido amigo.

Padre Antonio Pinheiro não estava. Tinha ido a Oliveira de Azemeis confessar, por dedicação, um velho entrévado, antigo parochiano de Cezár, que mudára de terra, e não quizera mudar de confessor. Mas o abbade Moreira Maia, que era, como sabemos, um miguelista tolerante, e que por padre Antonio havia sido informado de tudo o que se passára com frei Simão, recebeu delicada e bondosamente essa inesperada visita.

—Não quiz passar aqui, disse-lhe o frade, sem vir agradecer o hospitaleiro acolhimento com que o padre coadjuctor me deu asylo, quando d’elle careci. Agradeço em primeiro logar ao sr. abbade, porque estive sob o seu tecto, e á sombra da sua tolerancia; mas desejo mais uma vez testemunhar a minha gratidão áquelle que, na ausencia do sr. abbade, tão bem comprehendeu e honrou a hospitalidade christã.

O abbade explicou o motivo da excepcional ausencia de padre Antonio; e frei Simão mostrou sincero sentimento de o não poder vêr e abraçar.

—Vossa Reverencia, apostrophou, de golpe, Moreira Maia, veio só?! Não vê que soou a terrivel hora de uma guerra fratricida, e que, portanto, se expõe a novos e grandes perigos?!

—Vejo, respondeu o frade, mas tenho plena confiança na minha guerrilha.

—É pois certo o que constava! Vossa Reverencia vem a Cezár em som de guerra!? Vae então correr sangue! Oh! que desgraça! que desgraça!

—Os meus homens estão acolá em descanço, com as suas armas ensarilhadas, respondeu frei Simão indicando o sitio onde a guerrilha fizera alto. Bem vê Vossa Senhoria que não tenho pressa de fazer correr sangue, comquanto tenha fome e sêde de justiça.

—Mas, por Deus! sr. frei Simão, se as minhas supplicas podem valer de alguma cousa, supplico-lhe que seja generoso e magnanimo. O sangue não remedeia as desgraças consumadas, antes as aggrava, porque atiça os odios e clama vingança.

—Vossa Senhoria, que sempre tem sido tolerante, e cujo coração padre Antonio conhecia melhor do que eu quando me offereceu segura hospedagem, afere os sentimentos alheios pelos proprios, e não poderá comprehender, por isso, quanto os meus adversarios teem ferido, esmagado o meu coração, quanto as minhas desgraças, devidas a elles, e as de toda a minha familia me teem feito soffrer ha tão longo tempo!

—Pelo amor de Deus! sr. frei Simão! lembre-se de que Jesus Christo perdoou aos deicidas que o crucificaram. Tem soffrido, é certo, não o negarei eu, mas pague-se da sua desgraça deixando que os outros, errantes agora e foragidos, soffram igual tormento. Não exagere a sua desforra, não appelle para o morticinio.

—Vossa Senhoria sabe que eu não sou uma féra, mas esperei, soffrendo, a hora da justiça, da justiça apenas, sr. abbade, e essa hora acaba de soar. Acceitarei as resoluções da Providencia. Foi Deus que assim o quiz. Os designios da Providencia acceitam-se, não se discutem. Esteja Vossa Senhoria tranquillo. Eu vou ali ao Outeiro vêr minhas irmãs, que não sabem o que é feito de mim.

—Só isso? perguntou o abbade tremulo de commoção.

N’este momento, frei Simão viu a cabeça branca de Gertrudes Magna espreitando avidamente a meio do corredor!

—Venha cá, disse-lhe o frade, venha cá, santa e boa mulher, a quem devo muita dedicação. É digna do virtuoso sobrinho que tem,—concluiu frei Simão voltando-se para o abbade e abraçando a velha. Mais uma vez, ao sr. abbade, a padre Antonio, a esta boa creatura renovo a expressão de um eterno reconhecimento.

E sahiu, saudando respeitosamente o abbade.

Gertrudes Magna, petrificada a meio da porta do corredor, exclamou soluçando:

—Deus tenha piedade d’elle, que grandes perigos anda correndo!

—Nem eu sei, replicou commovido o parocho, como elle poude chegar até aqui são e salvo!

—E logo o meu padre não estar cá hoje! Bem dizia elle que não tornava a vêr o sr. frei Simão! Tambem me parece agora que padre Antonio dizia a verdade!

O frade foi d’ali direito, com a sua guerrilha, a casa de Ignacio da Fonseca. Dispoz em cordão os guerrilheiros, e elle mesmo quiz bater á porta. Ninguem veio abrir. Tornou a bater. O mesmo silencio.

—Ou abrem ou metto a porta dentro! gritou, com colera, frei Simão.

Então, um criado, tremendo como varas verdes, veio abrir. Era o Manel Zarôlho.

Frei Simão, acompanhado apenas por dois homens, entrou altivamente.

—Dize a teu amo, ordenou elle ao Zarôlho, que lhe quero fallar.

—Meu amo, respondeu muito gago o criado, não está em casa.

—Veremos isso, respondeu frei Simão entrando.

E começou a revistar minuciosamente a casa.

N’um dos quartos interiores encontrou a mulher de Ignacio da Fonseca, que estava de joelhos, com os olhos fechados, rezando deante de um oratorio.

—Não tenha Vossa Mercê receio, disse-lhe o frade. Devo suppol-a isenta de toda a culpa. Ninguem ousará maltratal-a. Mas seu marido onde está?

—Meu marido, respondeu a pávida mulher, abrindo a custo os olhos, meu marido fugiu de casa.

—Ah! fugiu! Era a consciencia do crime! Elle bem sabe que na casa do Outeiro ha uma pobre creatura, que lhe não tinha feito mal nenhum, e a quem elle condemnou a um soffrimento atroz.

—Meu Deus! meu Deus!

—Se seu marido temesse Deus, não haveria feito o que fez. Fugiu? Pois bem, a justiça de Deus o alcançará onde quer que elle esteja.

Frei Simão continuou a revistar todos os compartimentos do predio. Ignacio da Fonseca não apparecia; devia effectivamente ter fugido.

Voltando ao quarto onde a dona da casa estava ainda ajoelhada, o frade disse-lhe com intimativa:

—Senhora, os seus criados não lhe fazem falta, e eu preciso augmentar a minha guerrilha. Leval-os-hei comigo. Devem estar bem armados. E a vida de Vossa Mercê responderá pela segurança da familia do Outeiro. Ella por ella. Tendo fugido o dono da casa, não são precisos aqui os criados, porque não ha quem os dirija. E na ociosidade poderiam lembrar-se de praticar algum maleficio. Previno assim novas calamidades. Para o serviço de Vossa Mercê cá ficam as suas criadas, que devem chegar. Dito isto, pode Vossa Mercê ficar tranquilla, porque não correrá risco algum, se a minha infeliz familia não fôr aggravada.

Os criados de Ignacio da Fonseca não offereceram resistencia a entrar no meio da guerrilha. O frade distribuiu-lhes as armas e petrechos que encontrou na busca a toda a casa.

—O que tentar fugir, disse elle mandando marchar a guerrilha para o Outeiro, será fusilado como desertor.

De todos os criados, o que mais tremia era o Manel Zarôlho.

Frei Simão pouco se demorou no Outeiro.

Anninhas, que se alvoroçou ao vêl-o, sentiu-se mais convulsa, mas o frade procurou aquietal-a dizendo-lhe que a liberdade triumphava, e que o futuro compensaria todos os trabalhos e desgostos do passado.

Era um meio indirecto de lhe dar uma vaga sensação de esperança.

D. Maria Albina informou á puridade o irmão de que Anninhas continuava no mesmo estado, umas vezes peior, outras melhor, mas sempre concentrada e melancolica, fallando pouco. Tinha dias em que o tremor quasi cessava. Mas n’aquelles em que recrudescia, D. Anna passava muito mal as noites, apenas dormia somnos curtos, queixando-se de calor excessivo.

Desde que ella tornára a vêr o frade, quando fugiu da cadeia, a doença entrára n’um periodo irregular, caprichoso, que principalmente parecia depender das modalidades psychicas, e das variações da atmosphera e da temperatura.

Não era já a marcha franca da paralysia agitante, mas uma irritabilidade nervosa, extremamente susceptivel, que mantinha, comtudo, visiveis affinidades com essa terrivel enfermidade no seu mais exacto diagnostico.

Frei Simão disséra a D. Maria Albina:

—Aqui só a inesperada apparição de José Maximo nos podia valer.

—E o mano não sabe nada a esse respeito?

—Nada! respondeu com funda tristeza frei Simão.

Sahindo do Outeiro, o frade disse ás irmãs, principalmente a D. Anna, que estivessem tranquillas, porque ninguem as incommodaria, e accrescentou, mostrando-se alegre e confiante, que não tardariam muito os dias felizes da victoria e da paz.

Anninhas ouviu-o sem parecer acredital-o.

E frei Simão sahiu com o coração amargurado por comprehender a impressão que as suas palavras deixáram no espirito da irmã.

Poz em marcha a guerrilha, e abalou com ella, internando-se no pinhal.

A breve trecho mandou fazer alto.

Ordenou aos criados de Ignacio da Fonseca que dessem quatro passos á frente.

—Quero saber, intimou elle, quem foi que poz aquelle maldito papel na janella do Outeiro.

Fez-se um silencio profundo. O Manel Zarôlho batia o queixo n’uma sezão de mêdo, quasi terror.

—Foste tu, poltrão? perguntou o frade.

—Fui eu, meu senhor, por ordem de meu amo.

O Marques ia a metter a arma á cara.

—Não quero que o mates! gritou o frade. Não faltarão balas para elle. Não ha maior castigo para os poltrões do que prolongar-lhes a tortura do mêdo.

E, voltando-se para os fieis camaradas que o tinham acompanhado desde o Porto, disse:

—Muita vigilancia com este canalha, e com os outros. Vamos acampar aqui, porque eu quero observar se, suppondo-me já longe, ha novidade em Cezár.

Receiava o frade de alguma represalia contra as irmãs.

Estabelecidas sentinellas no improvisado acampamento, frei Simão adormeceu. Estava fatigado physica e moralmente.

Dormiu cêrca de trez horas, e foi accordado á voz de alarme pelas sentinellas, que tinham avistado um forte destacamento de milicias.

O frade ergueu-se de um salto, esfregou os olhos, cresceu na grandeza do seu vulto, como se o odio o agigantasse.

Dispoz a guerrilha em linhas de atiradores. Na frente, os criados de Ignacio da Fonseca. O Zarôlho, mettido na fileira, batia os joelhos um contra o outro, tremendo de medo.

—Cara p’ra frente, cobarde! gritou-lhe frei Simão.

O Zé de Oliveira, que tinha boa vista, disse ao commandante:

—É um destacamento de milicias da Feira, que vem de Oliveira d’Azemeis.

E era. Tendo chegado a esta villa a noticia da aproximação da guerrilha, o destacamento de milicias da Feira, que ali estava, sahiu em marcha forçada á procura de frei Simão. Assim conseguiu vencer cêrca de trez leguas em pouco mais de duas horas.

Ignacio da Fonseca, que por cautela se tinha ausentado para Oliveira d’Azemeis, quando soube o motivo por que sahia o destacamento, resolveu acompanhal-o. Julgava facil o destroço da guerrilha, e não quiz perder por isso o ensejo de completar a sua vingança.

—Olha! exclamou um dos criados do Fonseca, o nosso amo tambem lá vem!

—Tambem?! rugiu frei Simão. Fogo, rapazes! fogo!

O destacamento respondeu logo á fusilaria.

O frade obrava prodigios de valor, commandando a guerrilha, e carregando elle proprio, apezar de quasi lhe faltar o braço esquerdo, a sua espingarda.

Logo aos primeiros tiros, o Marques, como o Zarôlho recuasse, empurrou-o para a frente com um pontapé.

O tiroteio foi cerrado, vivo.

A primeira linha da guerrilha tinha cahido quasi toda. O Zarôlho ficára de costas com uma bala no peito.

—Que o diabo te leve! praguejou o Marques.

Frei Simão disse:

—Foi a justiça de Deus!...

Como a fusilaria começasse a afroxar por parte do destacamento, o frade comprehendeu que lhe tinha causado grandes perdas.

—Avancemos, rapazes! gritou elle.

E a guerrilha, enthusiasmada, avançou carregando.

O resto do destacamento, muito dizimado, recuou.

Frei Simão estimulava os seus guerrilheiros gritando e correndo:

—A elles, rapazes! a elles!

Os milicianos começaram a dispersar-se, fugindo. O fogo da guerrilha perseguia-os; varria-os a saraivada das balas. Na debandada, alguns dos milicianos cahiam, outros fugiam á morte com desesperada velocidade.

Quando o terreno ficou varrido, frei Simão foi reconhecer os cadaveres e apossar-se das armas que jaziam com elles.

—Olá! apostrophou o Marques, que grande patife aqui está dormindo a sua somneca!

Era Ignacio da Fonseca, que tinha o craneo esmigalhado.

—Justiça completa! exclamou frei Simão. Deus fez justiça completa, e nós combatemos honradamente em campo aberto.

Quedou-se o frade, encostado á espingarda, a olhar para o morto.

Um turbilhão de pensamentos remoinhava no espirito de frei Simão.

—A pobre Anninhas, pensava elle, estava vingada. Fôra a Providencia, parecia, que preparára aquelle desenlace. Ignacio da Fonseca, o auctor do bilhete, ali estava morto, a pequena distancia do Zarôlho, que fôra pôr na janella esse maldito papel. Como a mão poderosa do destino combinára os acontecimentos, de modo que fosse feita justiça simultanea e completa! Os outros criados de Ignacio da Fonseca, que tantas vezes, por ordem de seu amo, tinham vexado a familia do Outeiro, ali tinham tambem morrido, á voz do chefe d’essa familia, varados talvez pelas balas do proprio amo!

Frei Simão mandou tocar a descanço. Mas elle não descançou, esteve recordando todas as extranhas circumstancias, todas as notaveis coincidencias d’aquelle rapido combate.

XXVII

Os fusilamentos de Vizeu

A guerra assoladora, a guerra infausta.

Pᵉ. José Agostinho de Macedo—«Newton».

O desejo de frei Simão era, atravez de todos os perigos e contrariedades, marchar logo sobre Arouca.

Mas, dentro do termo da Villa da Feira, tinham-se levantado guerrilhas miguelistas, que todos os dias iam engrossando, e que importava bater.

Assim lh’o representaram alguns influentes constitucionaes, que enthusiasmados com a derrota inflingida aos milicianos, correram a pedir auxilio ao frade libertador.

Uma d’essas guerrilhas era de Santo Izidoro de Romariz, e frei Simão voou ao seu encontro.

Depois de uma ligeira escaramuça de meia hora, a guerrilha miguelista foi destroçada, os chefes fugiram.

A fim de evitar que reapparecessem no dia seguinte, o frade quiz dar-lhes caça.

Informaram-n’o de que um dos chefes, o mais perigoso, tinha ido esconder-se na casa do Boiz.

Frei Simão dirigiu-se ali, e encontrou, dominadas de grande terror, muitas senhoras que se haviam refugiado n’aquella casa.

—Estejam Vossas Mercês tranquillas, disse-lhes gentilmente o frade, que nós não vimos a perseguir as damas, mas apenas a saldar contas com os nossos adversarios, que nos perseguem a ferro e fogo. A melhor defesa do sexo feminino é a sua propria debilidade: respeitamol-a, como devemos.

E, n’um rasgo de cavalheirismo medieval, desandou pela porta fóra sem querer effectuar a busca.

—Rapazes! disse frei Simão aos seus guerrilheiros, eu sei o que é a angustia d’uma mulher attribulada. D’isso tenho exemplo na minha propria familia. Aqui está a razão por que não teimei em entrar na casa do Boiz. Se ali encontrassemos um marido, um filho, um irmão de qualquer d’aquellas pobres mulheres, matal-a-iamos de desgosto. Achei, pois, que o melhor era não procurar, por tal preço, inimigos nossos, que não deixaremos de encontrar em barda com as armas na mão, sejam esses mesmos ou sejam outros.

Os liberaes de Cezár, que aliás não eram muitos, enthusiasmados com a victoria de frei Simão, e considerando-a já um definitivo triumpho, tiveram a sua hora de embriaguez politica, depois que o frade se ausentou.

Incendiaram e saquearam algumas propriedades, de preferencia as dos mais encarniçados adversarios de frei Simão. Eram movidos pelo desejo de vingal-o, e á sua familia.

A devassa imputa pessoalmente ao frade todas essas represalias, chegando a dizer que elle, em Cezár, _lançou por terra uma imagem de Christo, quebrando-lhe um braço_. Esta nota tornava-se precisa no processo para fazer acreditar que frei Simão era effectivamente pedreiro-livre.

Não apparece na devassa noticia do combate em que a guerrilha venceu as milicias, junto a Cezár. Percebe-se. Os miguelistas occultaram o desastre, por ter sido completo e esmagador; mas afeiaram o procedimento do frade para o condemnar em saldo de contas.

Todavia um homem de pé descalço foi, a correr, levar a noticia da victoria de frei Simão ao alferes commandante da guarda da Farrapa, e dizer-lhe que o frade, depois de alguma demora, mettera pela estrada da Venda da Serra.

O alferes tratou logo de levantar as suas ordenanças, enviando ao mesmo tempo o alviçareiro a Arouca com aviso ao capitão-mór para que lhe acudisse com reforço.

Foi no sitio do Soutello que o alferes alcançou o frade, cerca das trez horas da tarde. Travou-se encarniçado combate, que frei Simão demorou propositadamente até ao escurecer, com o fim de aproveitar a noite para seguir caminho de Arouca.

Effectivamente, só ao lusco-fusco foi que o frade se retirou sobre o rio Arda, que atravessou a vau, dirigindo-se pela serra de S. Martinho ao monte da Corugeira.

A esse tempo chegava, em reforço, o capitão-mór de Arouca, que a guerrilha recebeu com uma descarga. Diz a devassa que n’essa occasião, respondendo as ordenanças com muita fusilaria, frei Simão fôra ferido. Não é exacto. O frade passou incolume, seguindo em direcção a Arouca, a coberto dos montes e da escuridão da noite. Descendo pela serra da Mó, foi, muito fatigado pelos trabalhos d’aquelle dia, pernoitar na casa da sua familia, no Outeiral.

Frei Simão suppoz que as ordenanças lhe teriam perdido o rasto, e que ninguem saberia da sua chegada ao Outeiral: planeava, pois, dar ao romper da manhã um assalto ao convento, aproveitando a ausencia das ordenanças.

José Bernardo de Vasconcellos, quando viu o filho entrar na quinta, com a guerrilha, cheios de fadiga, derreados de cansaço, teve uma exclamação de profundo desalento:

—Ah! meu filho, que te vens metter no meio dos nossos inimigos!

Frei Simão sorriu e disse:

—Quiz a todo o custo chegar a Arouca, porque tenho a cumprir um juramento, e receei que o tempo me faltasse. O tempo ou a vida...

Mas ainda de madrugada já a quinta do Outeiral estava cercada por todas quantas ordenanças poderam reunir-se.

Não obstante, frei Simão deu ordem á guerrilha para que forçasse a passagem.

Pediu-lhe o pae que tal não fizesse.

—Meu querido pae, respondeu frei Simão, aqui não ha outra cousa a fazer.

As ordenanças apontaram armas contra a guerrilha, quando a viram assomar audazmente ao portão da quinta.

Soou a primeira descarga, e o fumo ennovelou-se no ar toldando, como uma grande e espessa nuvem, o azul purissimo da manhã.

Frei Simão, respondendo ao fogo, poude fazer recuar um troço das ordenanças, e abrir caminho.

Debaixo de uma chuva de balas, dirigiu-se para a serra da Freita, onde queria tomar posição.

Mas as ordenanças perseguiram-n’o em tanto numero e com tanto desespero, que a guerrilha se desconcertou: uns fugiram para a banda de Alvarenga; outros, com frei Simão, foram correndo sobre S. Pedro do Sul pela serra de Bustello e Cabreiros.

Sempre perseguido, cada vez com maior encarniçamento, frei Simão julgou que poderia desnortear as ordenanças escondendo-se para deixal-as passar.

Diz Soriano que o frade se metteu n’um côrrego da ribeira de Raques.[7] Era, diz a devassa, um barrôco da ribeira de Adaufe.

O ardil não dera o resultado que frei Simão esperava. As ordenanças descobriram o escondrijo e atacaram-n’o.

O frade conhecia toda a desvantagem da sua posição, logo que o ardil falhasse.