A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 16

Chapter 163,771 wordsPublic domain

No dia 15 de julho a guerrilha estava prompta a marchar.

O desejo do frade seria dirigir-se logo a Cezár, para tranquillisar as irmãs e justar contas com os seus adversarios, seguindo depois para Arouca a cumprir o juramento que fizera.

Chegára a dizer a Francisco Marques:

—Vamos n’um pulo ao Outeiro socegar as senhoras. Se encontrarmos a geito Ignacio da Fonseca, pedir-lhe-hei que restitua a saude a minha irmã Anninhas...

Mas frei Simão foi despedir-se do imperador na noite d’esse dia.

D. Pedro, que, como sabemos, se levantava muito cedo, jantava tarde, nunca antes das oito horas, porque primeiro cuidava dos negocios da guerra que de si mesmo. A vida trabalhosa do Porto veio a ser a principal causa da sua morte prematura.

O imperador recebeu frei Simão quando acabou de jantar. Estava no Paço o conde de Villa Flor, que assistiu á audiencia.

Então D. Pedro lembrou ao frade a conveniencia de se demorar algum tempo pairando nas cercanias do Porto para facilitar a passagem dos fornecimentos e limpar do terreno as pequenas guerrilhas, que se entregassem á pilhagem.

Teremos occasião de vêr que esta indicação era previdente; mas podêmos saber desde já que ella contrariou a impaciencia do frade.

Pouco antes da guerrilha partir, Francisco Marques perguntou a frei Simão:

—Sempre vamos então a Cezár?

O frade respondeu de mau humor:

—Fica sabendo que não tens d’aqui em deante o direito de fazer perguntas. És soldado, cumpre-te obedecer-me, como eu tambem obedeço aos meus superiores. E mais nada, ouviste?

XXV

José Maximo

Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes, O calis da amargura; Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo...

Alexandre Herculano—«A tempestade».

José Maximo da Fonseca não se julgou seguro em Hespanha, onde a seita apostolica, protegida pela Princeza da Beira, poderia perseguil-o, se descobrisse a sua identidade.

Depois de ter passado enormes trabalhos, dos quaes o menor seria a fome, metteu-se aos Pyreneos, caminho de França.

Singular apêgo parecia ter á vida este desgraçado homem, a quem ella pesava como um infortunio irremediavel. Só a esperança alimenta a existencia dos infelizes, e José Maximo havia perdido a esperança. Por isso acho eu singularissima a energia com que fugia aos algozes um homem, que fôra o primeiro algoz de si mesmo.

Em França, como em Hespanha, vivia famintamente do seu officio de caldeireiro ambulante. Se ganhava dois ou trez _sous_, não ambicionava mais, e aturdia-se interessando-se pelos acontecimentos politicos que prefaciaram a queda de Carlos X e o advento de Luiz Filippe ao throno.

José Maximo odiava Carlos X, que fizera correr o sangue do povo, e via no duque de Orleans o salvador da França constitucional.

A accidentada odyssea d’este principe, que tinha abraçado os principios de 1789 e applaudido a tomada da Bastilha, o seu alistamento no exercito republicano, o seu exilio na Suissa, a necessidade de vender os seus cavallos e de desempenhar o logar de professor de geographia, os seus longos errores pelo norte da Europa, a sua viagem ao Novo-Mundo, todas as aventuras politicas d’este principe liberal, que conspirava ao lado dos constitucionaes e de Lafayette, faziam com que José Maximo encontrasse affinidades biographicas entre o destino do duque de Orleans e o seu.

A 29 de julho de 1830, José Maximo bandeou-se com o povo, que invadiu o Louvre e as Tulherias, e que saudou com enthusiasmo a reapparição da bandeira tricolor, proscripta havia quatorze annos, sobre o zimborio do palacio real.

Viu o general Lafayette occupar o _Hotel de ville_, convertido em quartel-general da insurreição.

Quando soube que Carlos X havia retirado as _Ordenanças_ e demittido o gabinete, sorriu de desdem, repetindo a phrase de Schonen, que desde logo se tornára celebre: «_Il est trop tard!_»

Parava ás esquinas das ruas de Pariz e commentava com fervorosa adhesão os pasquins que proclamavam o duque de Orleans como _un roi-citoyen_ escolhido pelo povo e baptisado pela revolução.

Um legitimista, que o ouviu sustentar estes principios democraticos, não lhe reconheceu a qualidade de extrangeiro, tão bem José Maximo fallava o francez, mas foi reflexionando comsigo mesmo:

—A canalha quer a Carta, embriagada pelo poderio de fazer e desfazer reis! O futuro esmagará a canalha.

Estas palavras bem as podia ter pensado algum absolutista portuguez em 1826.

No dia em que o duque de Orleans entrou em Pariz, como logar-tenente general do reino, o espirito de José Maximo delirou de jubilo quando viu representado o ideial de uma realeza democratica, meio republica e meio monarchia, na pessoa de um principe que se apresentava aos seus subditos como um burguez patriota: de chapeu baixo e rozêta tricolor na botoeira.

Na proclamação em que o duque de Orleans fallou aos habitantes de Pariz havia uma phrase, que recordava a José Maximo outro ideial já para elle consagrado pelo sêllo angustioso das suas proprias lagrimas. Era esta: «_Une Charte será désormais une verité_». Parecia-lhe ser traducção fiel do grito constitucional que Saldanha tinha levantado no Porto para fazer jurar a Carta de D. Pedro.

Confundido com a multidão, José Maximo viu o duque de Orleans apparecer a uma das janellas do Hotel-de-Ville desfraldando a bandeira tricolor. N’esse momento a monarchia, personificada em Luiz Filippe, recebia da republica, representada em Lafayette, o baptismo da democracia; surgia, segundo a propria expressão de Lafayette, um throno popular, em nome da soberania nacional, rodeado de instituições republicanas.

A onda de liberdade, que inundava a França, chegava até ao coração de José Maximo.

A fogosa imaginação do infeliz portuguez acreditava mais do que devia na sinceridade da politica. Elle, um exaltado, enganou-se, o que aconteceu tambem a Lafayette, porque a monarchia de Julho não foi a melhor das republicas.

Mas José Maximo, cabeça enthusiastica, ardente de ideiaes generosos, cria na redempção da França pela liberdade, e na sua influencia como elemento modificador do velho regimen politico de toda a Europa.

Assim como o ébrio entrevê, atravez dos fumos da embriaguez, as imagens confusas da vida real, José Maximo, recebendo directamente as impressões da «grande semana de Julho», enxergava ao longe, perdido nos nevoeiros do passado, o vulto de D. Anna de Vasconcellos,—a sombra querida que povoava todo o seu mundo de recordações dolorosas.

Em seguida á tragedia do Cartaxinho, José Maximo, julgando-se irremediavelmente perdido, apenas pensára em apagar em si mesmo o labéo de um crime monstruoso, a que involuntariamente se associara. Até a physionomia desfigurou n’um momento de desespero. Agora, ainda que novos acontecimentos politicos viessem absolver o criminoso, tudo estava perdido para o homem que já não poderia voltar sobre o passado.

Dado que chegasse a realisar-se a hypothese de D. Anna de Vasconcellos resistir á commoção do primeiro momento, elle não ouzaria apparecer-lhe na hediondez do seu disfarce.

Por isso procurava embriagar-se com o primeiro vinho que encontrava á mão, e a liberdade era ainda, como sempre fôra, a melhor embriaguez para um espirito que tanto amava a liberdade.

Proclamado rei Luiz Filippe, a revolução de julho foi como uma corrente electrica que immediatamente poz em vibração a Belgica, oppremida pela Hollanda.

A 24 de agosto são destruidos em Bruxellas os preparativos das festas publicas, que deviam realisar-se em honra do soberano hollandez. Era o prologo da independencia, o cartel de desafio arremessado por um povo oppremido contra os seus dominadores. A Belgica sublevava-se para quebrar o jugo que a prendia á Hollanda; de novo se insurgia, sedenta de liberdade como no tempo do dominio dos romanos, dos hespanhoes e dos austriacos.

José Maximo foi attraido por esse sympathico movimento de toda a Belgica; precisava continuar a embriagar-se politicamente para supportar a vida com menos enfado.

Não vacillou, pois, um momento.

Com a sua ferramenta de caldeireiro ambulante, metteu-se ao caminho, dirigindo-se para o norte, procurando a fronteira. Seguindo a estrada de Lille, ladeada por campos abertos, que de nenhum modo representam qualquer divisão natural entre os dois paizes, José Maximo, chegado á fronteira convencional da França e da Belgica, esperou que anoitecesse para illudir a vigilancia do posto de registo de Hertuin, onde os passaportes costumavam ser visados. Ao transitar de paiz para paiz, o pobre foragido precisava recorrer aos processos de que se valem os contrabandistas e os salteadores, porque nenhum documento legal podia apresentar para ter direito ao livre transito.

Foi encontrar em Bruxellas um espectaculo mais dramatico ainda do que aquelle que havia presenceado em Pariz, porque em França, Carlos X tinha abdicado logo que soube que quinze mil parisienses, commandados pelo general Pajol, se aproximavam de Rambouillet, mas em Bruxellas, nos ultimos dias de setembro, quinze mil hollandezes incendiavam a cidade com balas ardentes e foguetes de Congreve.

E ao chammejar sinistro dos incendios, o povo belga defendia-se heroicamente, como um leão.

José Maximo largou os seus utensilios de caldeireiro, e pegou n’uma arma para sustentar a resistencia de um povo escravisado contra as prepotencias do rei dos Paizes-Baixos.

N’um dos mais calamitosos dias da sublevação, quando Bruxellas parecia uma fornalha atiçada pelos hollandezes, José Maximo encontrou-se na barricada da porta de Hal com um voluntario extrangeiro, que immediatamente reconheceu.

O tiroteio era vivissimo, a lucta desesperada, mas os hollandezes foram rechaçados, e trataram de vingar-se atirando para dentro da cidade as bombas incendiarias, os Congreves destruidores.

Na primeira hora de descanço após a refréga, José Maximo chegou-se ao voluntario, e disse-lhe abruptamente em francez:

—Não esperava vir encontrar aqui outro portuguez a defender, como eu, a independencia da Belgica!

O voluntario mediu de alto a baixo, com surpresa e desconfiança, José Maximo, cuja physionomia lhe devia ter produsido repulsão.

—Engana-se! Eu não sou portuguez, respondeu, no mesmo idioma, o voluntario.

—Prouvera a Deus que me enganasse, replicou José Maximo, porque então não teriamos occasião de reconhecer-nos um ao outro como victimas de uma grande fatalidade...

—Senhor! exclamou o voluntario, avançando para José Maximo.

—Francisco Cesario Rodrigues Moacho! bem vês que te conheço. Não receies atraiçoar-te, porque estamos n’um paiz que ama a liberdade até o ponto de querer conquistar a sua independencia com as armas na mão. E, quanto a mim, fica sabendo que nada tens a temer, tambem. Somos dois emigrados, pelo mesmo motivo...

Rodrigues Moacho ficou surprehendido com as palavras d’esse extranho homem, que não conhecia.

José Maximo percebeu o que se passava no espirito do antigo presidente da sociedade dos _Divodignos_.

—Não me conheces, disse elle, e tens razão. Do homem que eu fui não resta senão a tormentosa memoria de mim proprio. Na matricula da Universidade chamava-me José Maximo da Fonseca; mas entre a academia talvez que não esteja ainda apagada a lenda portuense do _Fresca Ribeira_...

—Tu?!

—Eu mesmo.

—Mas essas queimaduras e cicatrizes?!

—São o disfarce de um criminoso ou, antes, a mascara do foragido, porque Deus sabe se estou innocente.

Rodrigues Moacho ficou horrorisado com a narrativa dos soffrimentos e trabalhos de José Maximo. Combatendo um ao lado do outro, como voluntarios, pela independencia da Belgica, a antiga amisade dos dois academicos de Coimbra renascia e retemperava-se na adversidade de um destino commum.

O baterem-se pela liberdade, posto que em terra extranha, era para elles um lenitivo que a coincidencia de se haverem encontrado tornava ainda maior.

Mas o exercito hollandez, repellido em Bruxellas e outras cidades do Brabante, havia-se refugiado em Antuerpia, seu ultimo reducto no territorio belga.

Rodrigues Moacho e José Maximo tiveram, pois, que depôr as armas, ainda antes do mez de novembro, que foi quando, intervindo a diplomacia, as potencias tomaram conta da questão e reconheceram, na conferencia de Londres, a independencia da Belgica.

Não permittiu Rodrigues Moacho que José Maximo continuasse a vestir a sua blusa de caldeireiro ambulante, e a exercer esta profissão, mas José Maximo parecia contrariado de ter que obedecer a tão dedicada exigencia.

Juntos davam longos passeios pelo campo, conversando memorias e tristesas de sua vida commum. Mais de uma vez metteram pela linda estrada que de Bruxellas vai ao bosque de Soigne e fizeram, sem quasi dar por isso, um passeio de cinco leguas. Duas suggestões, por igual attractivas, os chamavam para aquelle sitio: a belleza do bosque, pelo meio do qual passa a estrada, e a recordação historica da batalha de Waterloo, onde o colosso napoleonico desabára.

José Maximo, que detestava os tyrannos,—e assim classificava elle Napoleão—ligava, comtudo, ao vencido de Waterloo uma saudosa memoria da sua propria existencia: o _napoleão de oiro_, que frei Simão lhe havia dado, que elle conservára nas maiores privações, e que offerecêra aos seus dedicados hospedeiros de Hespanha.

Um velho camponez explicou aos dois portuguezes, n’um d’esses passeios, que a batalha não terminára precisamente ali, em Waterloo, aldea onde estivera o quartel-general inglez, mas á distancia pouco mais ou menos de uma milha, em Haiesainte.

—Aqui ou ali, pouco importa, respondeu José Maximo, o que é certo é que este ceu viu despenhar-se o monstro, que devorava nações e despedaçava exercitos. Napoleão cahiu porque acima da sua ambição pessoal não havia um ideial de justiça, um principio de philosophia social. Os principios triumpham sempre; é questão de tempo. Os homens succedem-se, e passam.

Por muitas vezes Rodrigues Moacho notára que José Maximo parecia constrangido com a cordeal hospedagem, que lhe dava; e até o ouvira referir se vagamente a sahir da Belgica.

—Mas onde queres tu ir? perguntava-lhe, admirado, o ex-presidente da sociedade dos _Divodignos_.

—Eu sei lá! Pergunta tu á folha sêca, que o vento despegou da arvore, onde ella irá parar! Não sabe!

E encolhia melancolicamente os hombros.

Na primavera de 1831 chegou á Europa a noticia da revolução do Brazil e da abdicação de D. Pedro.

Este acontecimento pareceu produzir uma grande impressão no espirito de José Maximo.

Um dia, Rodrigues Moacho, ao accordar pela manhã, deu pela falta do amigo. Não o encontrou, mas achou uma carta, que explicava a sua ausencia:

«Meu querido Moacho.

«Deste-me, durante muito tempo, uma cordealissima hospedagem, de que eu conservarei gratidão eterna. Mas não era digno de um homem consciencioso e válido viver indefinidamente dos favores da amisade. Parto, sem saber para onde. Voltando á miseria em que vivia antes de te encontrar, continuo a justa expiação dos meus erros passados.

José Maximo.»

Rodrigues Moacho exclamou ao lêr esta inesperada carta:

—Sempre digno, até mesmo nas mais temerarias resoluções. Loucura da honra, a sua!

Moacho, que nunca mais sahira da Belgica, não tornou a vêr José Maximo da Fonseca.

D. Pedro desembarcou em Cherbourg a 12 de junho. Mas o brigue francez, que conduzia a rainha de Portugal para a Europa, teve mais demorada viagem, só a 11 de julho aportou a Brest.

Era a segunda vez que essa linda princesinha, ainda na infancia, sahia do Brazil, onde nascêra, para vir correr aventuras politicas no Velho Mundo.

Em 1828 partira do Rio de Janeiro destinada a educar-se na côrte de seu avô em Vienna até que chegasse á idade de desposar o infante D. Miguel. Em Gibraltar, o marquez de Barbacena, que acompanhava a jovem rainha, sabendo da usurpação realisada pelo infante em Portugal, mudou de rumo e levou D. Maria da Gloria para Londres.

Na côrte de Jorge IV, aquella linda menina, que contava apenas nove annos, foi recebida com honras reaes, mas nada tão falso e illusorio como essas honras, porque a filha de D. Pedro IV começou por onde alguns reis teem acabado: perdeu a corôa, de que o tio se apossára.

Em agosto de 1829 D. Maria voltava para o Brazil, acompanhada pela princesa de Beauharnais, que ia ser sua madrasta.

Agora, dois annos depois, voltava á Europa como filha de um principe desthronado, sendo ella mesma desthronada tambem.

D. Pedro, que de Cherbourg tinha ido para Londres, tornou a França, ao encontro da filha.

Celebrava-se em Pariz o primeiro anniversario da revolução de Julho. Os animos estavam ainda muito agitados, os legitimistas não tinham perdido occasião de provocar tumultos, mas as festas do anniversario deram aos parisienses um espectaculo alegre, que é a coisa que elles mais apreciam.

Ao lado de Luiz Filippe apparecêra n’esses dias festivos o desthronado imperador do Brazil: D. Pedro atirava o seu chapeu ao ar, quando ouvia vivas aos polacos, que a Russia estava absorvendo pela força, e apertava, como Luiz Filippe, a mão ás deputações de operarios.

José Maximo da Fonseca viu isto, esta confraternisação de dois reis democratas com o sentimento popular, e tambem atirou ao ar enthusiasticamente o seu velho chapeu de caldeireiro ambulante, á semelhança do que tinha feito no Porto nos dias felizes de 1820.

D. Pedro voltou, com D. Maria da Gloria, a Londres, e ahi, sob o tecto de um _hotel_, essa jovem, mas desditosa rainha, recebeu das mãos dos seus partidarios emigrados a offerenda de um sceptro de oiro, quando era certo que ninguem n’essa hora era menos rainha do que ella.

José Maximo, em Pariz, evitava os emigrados portuguezes, alguns dos quaes reconhecêra.

Á volta da Belgica, como antes, vivia só, no seu humilde mistér de caldeireiro, não se aproximando de ninguem.

Era, como elle tinha dito a Rodrigues Moacho, a fôlha sêca varrida pelo vendaval.

Em agosto, D. Pedro, sempre a braços com as incertesas e fluctuações da sua complicada situação, voltou a Pariz.

Luiz Filippe fez honra aos seus hospedes e offereceu-lhes o castello de Meudon, pondo á disposição da familia de D. Pedro cavallos e carruagens, e ás suas ordens uma guarda de capitão.

A nove kilometros de Pariz, perto da margem esquerda do Senna, Meudon, com o seu outeiro, o seu castello e o seu bosque, é um sitio delicioso, que os parisienses adoram, especialmente os namorados e os poetas.

D. Maria II parecia uma fadasinha, branca e loira, destinada a povoar harmoniosamente aquelle bosque encantado, onde os castanheiros e os carvalhos deixavam cahir a doce sombra dos dias calmosos do estio.

Tinha então apenas onze annos, mas era um formoso esboceto de mulher: carnação feita de leite e rosas, olhos castanhos e vivos, cabeça altiva, bôca a que o beiço grosso dos Braganças não prejudicava a graça nem a firmesa.

Apezar de creança, havia na sua plastica a redondez de formas que desabrocham correctas, e no seu porte um cunho de reflexiva e consciente nobresa, que ia bem a uma princesa desthronada em plena infancia.

José Maximo, sempre solitario, galgava de proposito a estrada de Meudon para vêr a jovem rainha de Portugal. Algumas vezes encontrou no caminho, á ida ou á volta, o cura Dupanloup, um padre de cerca de trinta annos, novo mas virtuoso e illustrado, que D. Pedro havia escolhido para director espiritual de sua filha[6]. E José Maximo ia pensando comsigo mesmo:

—Que este padre consiga firmar no coração da pequenina rainha as raizes da fé christã, porque ella, que parece ter nascido para soffrer, precisa encontrar no naufragio da sua mallograda realesa alguma tabua de salvação,—a melhor.

José Maximo sabia já as horas a que a rainha de Portugal costumava passeiar de carruagem em Meudon, quasi sempre acompanhada pela sua preceptora D. Leonor da Camara.

Um dia, em pleno outomno, a receita do caldeireiro ambulante excedeu o orçamento ordinario: ganhou mais alguns _sous_ do que o costume. Correu a comprar um ramo de margaritas, atou-o com uma pequena fita azul, e caminhou para Meudon.

Era a hora em que a rainha passeiava no bosque, cujas folhas o outomno começava a varejar.

José Maximo aproximou-se da caléça, estendeu o braço direito, offereceu o ramo.

A jovem princesa teve um momento de hesitação, mas D. Leonor da Camara disse-lhe que acceitasse o _bouquet_.

A carruagem continuou rodando, e José Maximo seguiu-a com os olhos, pensando, não já na rainha, mas em D. Anna de Vasconcellos, que a rainha tanto lhe fazia lembrar na côr das faces e na dignidade graciosa do porte.

Em fevereiro de 1832, D. Pedro partiu de Belle-Isle com a expedição para os Açores.

José Maximo ficou.

—Eu associei-me a um crime—raciocinava elle—em nome da liberdade do meu paiz; deshonrei-a e deshonrei-me. Acceito o horror da expiação, e a consciencia não me accusa de cobardia, porque ainda não vai longe o tempo em que senti assobiar as balas dos hollandezes n’uma terra extranha. Um soldado deve poder combater de rosto descoberto, e eu tenho vergonha de mim proprio. Se algum dia a saudade da patria apertar tanto comigo que lhe não possa resistir, entrarei no meu paiz com o mesmo disfarce com que fui obrigado a sahir de lá. Sou um anonymo; envileci o meu nome. Já não sou ninguem.

XXVI

Deus escreve direito por linhas tortas

...confia em Deus; que é o mesmo que não fundar em areia movediça, mas em penha viva: nem defender-te com escudo de cêra, mas de aço.

Padre Manuel Bernardes—«Luz e calor».

Quando a expedição liberal desembarcou, as tropas miguelistas que tinham acampado junto a Villa do Conde, calculando que era impossivel a sua juncção com as do Porto, retiraram sobre a estrada de Amarante; e as que estavam postadas em Leça, avançaram para a cidade, passaram o Douro de madrugada, cortaram a ponte, e alojaram-se nas alturas de Villa Nova.

Assim deixaram o campo livre aos recemchegados!

Para responder ao tiroteio que de Villa Nova era dirigido contra a cidade, algumas embarcações da esquadra de D. Pedro, subindo o Douro, estacionaram defronte das posições occupadas pelos miguelistas e obrigaram-n’os a desalojar.

Uma divisão liberal, passando o rio em barcos, foi em perseguição do inimigo.

Assim tambem perderam os miguelistas uma excellente occasião de fortificar-se logo em Villa Nova, e o mêdo foi tamanho que Santa Martha, não se julgando seguro em Grijó, retirou sobre Oliveira de Azemeis.

Frei Simão ficou pairando, com a sua guerrilha, nas visinhanças do Porto, em cumprimento das ordens do imperador.

Não tinha um momento de descanço. Umas vezes combatia contra as guerrilhas miguelistas, como aconteceu na tarde de 11 de agosto, em Avintes, onde perseguiu alguns homens do visconde de Montalegre, atravessando o rio em seguimento d’elles até ás portas da cidade, em S. Cosme; outras vezes, como na noite d’esse mesmo dia, em Espinho, batia os piquetes, de soldados ou de paisanos armados, que pretendiam impedir a passagem de fornecimentos para o exercito liberal.

A _Chronica constitucional do Porto_ commemorava estes feitos de frei Simão, noticiando no seu numero correspondente a 14 de agosto:

«Sabemos com certeza que a guerrilha constitucional commandada por frei Simão, surprehendeu no dia 11 do corrente ás 10 horas da noite, no logar chamado _Espinho_, uma guarda de 20 paisanos ali postada para impedir o fornecimento d’esta cidade. A nossa gente lhe matou 4, prendeu 6, e o resto fugiu dispersado.

«O mesmo commandante perseguiu em Avintes na tarde de 11 alguns ladrões da força do visconde de Montalegre, e veiu batendo a estrada até ás portas de S. Cosme n’esta cidade.»

No fim de agosto ainda a guerrilha de frei Simão pairava sobre a margem esquerda do Douro, vigiando a cidade.

A _Chronica_ de 28 d’esse mez publicava a seguinte informação datada do dia anterior: