A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 15

Chapter 153,933 wordsPublic domain

E foi receber á sala Ignacio da Fonseca.

O tio de José Maximo vinha, disse elle, _visitar o sr. abbade_.

—O sr. abbade, respondeu padre Antonio, não está cá; mas eu tenho muito praser em receber a visita e qualquer ordem de Vossa Mercê.

Emquanto isto respondia, accentuava-se no espirito do coadjuctor uma justa extranhesa. Pois seria crivel que Ignacio da Fonseca não tivesse dado pela sahida do abbade, que, segundo o costume, partira com grande estrépito de cavallos, e cortejo de criados? Não era. Então havia qualquer motivo secreto n’esta inesperada visita.

A breve trecho, notou padre Antonio que Ignacio da Fonseca não só não fallava de politica, que era o seu thema predilecto, mas parecia preoccupado em observar o que quer que fosse.

—O sr. abbade, insistiu padre Antonio procurando esclarecer a suspeita que lhe assaltára o espirito, foi ao Porto visitar os seus parentes. Costuma sempre demorar-se alguns dias. Mas admira que Vossa Mercê não soubesse da sua ausencia...

—Não sabia...

—Vossa Mercê parece-me hoje muito distraido! Tem algum negocio grave, que lhe dê cuidado?

Ignacio da Fonseca mostrou-se contrariado com esta pergunta do coadjuctor.

—Eu!? Não tenho nada que me dê cuidado!

E, levantando-se de repente, fingiu dar grande attenção a um retrato, em gravura, que pendia da parede.

—De quem é este retrato?

—Do grande Bossuet, bispo de Meaux, gloria da Egreja Catholica.

—Ah! não sabia! Sempre o sr. abbade tem aqui cousas muito bonitas! Olhe que lindo contador! é o melhor que tenho visto!

—Vossa Mercê já o tem visto, decerto, muitas vezes. É que não fez reparo...

—E que lindas talhas da India! Sempre tenho ouvido dizer que o sr. abbade é quem, n’esta comarca, possue melhor serviço de louças finas. Nunca lh’as vi. Estão na sala do jantar?

—Estão. E como Vossa Mercê é amigo dedicado do sr. abbade, e pessoa de confiança na casa, nenhuma duvida tenho em mostrar-lh’as, se lhe apraz.

—Pois acceito, e estimo vel-as.

Já não restava duvida, no espirito do coadjuctor, de que Ignacio da Fonseca ia ali com segundas vistas, tão extraordinaria era a ignorancia, que simulava, sobre as loiças do Passal, que mais de uma vez devia de ter visto.

Quando se dirigiam para a sala do jantar, Ignacio da Fonseca, vendo entre-aberta a porta do quarto de padre Antonio, olhou, de passagem, para dentro do quarto.

Não passou isto despercebido ao coadjuctor.

O tio de José Maximo deu mediana attenção ás loiças da India, de que aliás nada entendia.

—E como vai por cá sua tia, a sr.ª Gertrudes Magna?

—Como velha, coitada! Ella ahi está na cosinha. Se Vossa Mercê quer vel-a, pode entrar.

Ignacio da Fonseca aproveitou logo o offerecimento, e enfiou pela cosinha dentro.

Mostrou-se jovial com a velha, dizendo-lhe:

—Ora viva! viva! Parece mesmo uma rapariga!

—Salvo o caruncho, que já não é pouco, respondeu a tia do coadjuctor.

—Qual caruncho?! Mas para que trabalha ainda vossemecê?

—Eu trabalho porque quero. Ahi está o sr. Ignacio com a mesma teima de meu sobrinho! A mim o que me pésa é que seja pouco o trabalho quando o sr. abbade cá está, porque então não falta por’qui criadage. Mas agora, que somos dois, faz-se todo o serviço com uma perna ás costas, e ainda sobeja tempo.

—O peior é se vem por ahi algum hospede, cuidando que o sr. abbade está em casa.

Padre Antonio ficou receioso da resposta que sua tia ia dar.

—Isso sim! respondeu ella. São cousas que logo se sabem, porque o sr. abbade não vai em segredo p’ra parte nenhuma.

Padre Antonio tranquillisou-se.

—Pois muito estimei vel-a, sr.ª Gertrudes, tão bem disposta como parece!

—Isso é dos bons olhos com que Vossa Mercê me vê...

E, no corredor, Ignacio da Fonseca, parando de subito á porta do quarto de padre Antonio, perguntou:

—Este é o seu quarto, sr. padre Antonio?

—Sim, senhor. Se Vossa Mercê quer entrar?

O tio de José Maximo entrou, e, n’um lance de olhos, viu tudo.

—O sr. padre Antonio, disse elle, parece, mettido n’este quarto, um frade do Bussaco!

—Porque?!

—Porque é o aposento mais pobre da casa!

—Cada um, replicou o coadjuctor, deve viver em conformidade com o seu nascimento. Eu nasci sobrinho da criada do sr. abbade, e assim quero viver para não vexar a minha propria familia. Que pensaria o sr. Ignacio da Fonseca a meu respeito, se eu me collocasse em affrontosa opposição com os habitos humildes de minha tia,—uma pobre criada do Passal?

—Sim... lá isso!

—O sr. abbade nasceu rico, e vive como nasceu, mas não tapa os ouvidos aos clamores da pobresa que generosamente soccorre. Eu nasci pobre, e pobre quero viver. Não invejo a felicidade dos outros, porque não sou, felizmente, cego do entendimento. A Deus o agradeço. Mas ha cegos, cegos do corpo, e tambem do espirito, que mettem a sua alma no inferno, aquelles porque se desesperam contra a miseria em que vivem; estes, porque não pensam senão em offender a Deus e em provocar a justiça divina.

Ignacio da Fonseca não gostou da severidade com que padre Antonio pronunciou estas ultimas palavras.

—Elle desconfiaria de alguma cousa? perguntava a si mesmo o tio de José Maximo quando sahia do Passal.

E padre Antonio, fechando a porta logo que elle sahiu, foi direito á cosinha, e disse a Gertrudes Magna:

—Que grande ousadia esta! Elle veio espionar-nos! Suspeitaria da estada de frei Simão aqui? Então é certo que eu sou um cego, um imprevidente, e que quem tinha razão era o nosso hospede. Está-me parecendo que os desgraçados são como as gaivotas, que presentem os temporaes. Bem fez frei Simão em voar para longe, em fugir para o Porto.

Ignacio da Fonseca, chegando irritadissimo a casa, disse ao Manel Zarôlho, um rapazote vêsgo, de má cára, que costumava comprehender e executar todos os planos secretos do amo:

—Tu és uma grande bêsta! Isso é que tu és! Vires dizer-me que «vistes» luz, fóra das horas do costume, por baixo da porta na sala da Residencia e que, escutando á fechadura, «ouvistes» a voz do coadjuctor e outra voz que era a de frei Simão! Logo me quiz parecer que tudo isso cheirava a asneira grossa! O padre Antonio recebia lá um pedreiro-livre, um’alma de chicharro, que tresanda a enxofre! E eu tão tôlo, que acabei por dar-te algum crédito, quando tu teimavas que uma das vozes era a do frade _malhado_! Eu já te devia conhecer, grande burro!

E o Manel Zarôlho resmungou por entre dentes:

—Quando me mandou ir pôr o papel na janella do Outeiro, com risco de lá deixar a vida, como já tinha deixado antes o chapeu, não me chamou elle grande burro! Deixa estar, meu patife, que eu, para outra vez, te mandarei bugiar.

N’esse momento, o Zarôlho nutria no coração uma surda cólera contra o amo, que acabava de o insultar, esquecendo os seus damnados serviços. Mas contentou-se apenas com resmonear, porque, como todos os cobardes, era capaz de morder na sombra, posto fosse absolutamente incapaz de, no ataque ou na defesa, affrontar a luz do sol.

XXIV

A organisação da guerrilha

Que me siga quem tem a vaidade De ouvir ballas sem nunca tremer; Que me siga quem quer liberdade, Quem não teme na lucta morrer.

Luiz Augusto Palmeirim—«O guerrilheiro».

A vida de frei Simão no Porto era a de um foragido sempre receioso.

A celebridade tornava maior o perigo. Tinham soado ao longe as suas façanhas de liberal: principalmente, a resistencia aos milicianos em Cezár, e a aventurosa fuga da cadeia da Villa da Feira.

Quando o frade ali chegou, Frederico Pinto andava escondido, por isso que, na qualidade de commandante dos voluntarios de Villa Nova, havia adherido, como sabemos, ao mallogrado movimento de 16 de maio de 1828. O governo de D. Miguel, além de lhe ter mandado sequestrar a propriedade do Outeiral em Arouca, privou-o da reforma que lhe havia sido concedida. Não tendo emigrado para a Galliza, como tantos outros, Frederico, abandonando a casa em que ultimamente morava na rua da Cruz, a Cedofeita, escondera-se, sem comtudo sahir da cidade.

Foi um amigo commum dos dois irmãos quem tratou de acautelar a existencia do frade, fazendo-o esconder n’uma agua-furtada do Passeio das Virtudes, pequena mansarda onde morava uma cega protegida pela familia d’esse cavalheiro.

Da janella da trapeira, sobreposta ao segundo andar do prédio, podia ao menos frei Simão distrair os olhos por um dos mais formosos panoramas da cidade.

Avistava ambas as margens do Douro,—a direita, accidentada em pittorescos degraus na quinta das Virtudes, prolongando-se com as montanhas da Torre da Marca e da Arrabida até descer para a reintrancia do Ouro e tornejar pela estrada de Sobreiras á Foz; a esquerda, coroada de pinheiros no alto, povoada, sobre o caes, de grandes armazens ribeirinhos e do convento umbroso de Val-Piedade, recortada salientemente na curva que, junto á Furada, bója para o rio.

Ao fundo, o mar, a amplidão infinita da agua e do ceu esbatendo-se n’um azul longinquo de saphyra embaciada para alem da barra.

Do meio da salêta, que era o seu unico aposento, podia frei Simão abranger esse vasto panorama, tão bello como melancolico, sem comtudo se expôr a ser visto por quem andasse passeiando no paredão das Virtudes.

Entretinha-o muito o espectaculo que diariamente lhe offerecia o convento de Val-Piedade, por cuja calçada transitavam a toda a hora os frades mendicantes, que sahiam em peditorio, e recolhiam com grandes esmolas, muitas d’ellas em fructos e cereaes, pesadas cargas que os donatos, vestindo a sua roupeta de saragoça, transportavam após os frades, de quem eram criados.

Ao fim da tarde desciam rio abaixo as lanchas dos pescadores de Valbom e paravam em frente do convento, d’onde o padre porteiro as abençoava para que tivessem abundante pescaria. Quando as lanchas recolhiam do mar, tornavam a parar junto ao convento, acostando ao caes para dizimar o peixe que, em retribuição da benção recebida, era repartido com os frades.

A egreja de Val-Piedade, virada ao nascente, encimando uma extensa escadaria, comquanto fosse uma das melhores do Porto, não tinha torre, mas os sinos, collocados n’um campanario sobre a portaria, passavam por ser dos mais sonoros e afinados da cidade.

Sempre que os ouvia, frei Simão de Vasconcellos sentia rebates de vaga saudade pelos dias que em Alcobaça vivêra contrariado, porque esses dias da mocidade, se os cotejava com os trabalhos do presente, chegavam a parecer-lhe felizes.

Algumas vezes, alta noite, o frade, sedento de liberdade, sahia á rua para exercitar as pernas, que a reclusão entorpecêra.

A solidão era ali profunda, quasi sepulcral. Frei Simão podia, sem perigo, dar alguns passeios em frente das casas. Mas quando sentia os passos de algum raro transeunte, que vinha dos Fogueteiros ou subia a calçada da Esperança, recolhia-se, por cautela, dentro do portal. Depois recomeçava o hygienico passeio, até que o ceu principiava a dealbar-se no oriente, por cima da casaria da cidade.

Não recebia noticias do Outeiro senão por intermedio de Francisco Marques, que de tempos a tempos, e não sem algum risco, ia levar-lh’as pessoalmente. A correspondencia escripta poderia, ainda que houvesse disfarce no endereço, ser aberta no correio e denunciar a residencia do foragido. Por isso fôra supprimida. Todas as noticias eram verbaes, transmittidas pelo dedicado Marques,—um postilhão audaz.

Por elle sabia o frade que D. Anna, comquanto houvesse recuperado a voz, continuava a soffrer as convulsões nervosas de que tinha sido atacada, e que se n’uns dias a agitação era menor, n’outros dias recrudescia. Fallava pouco, e nunca para fazer referencia ao incerto destino de José Maximo.

O doutor Corrêa Ribeiro, que uma vez por outra ia a Cezár, dizia que D. Anna era um phenomenal exemplar pathologico, uma caprichosa organisação hysterica, vibratil a todas as commoções, e que um medico não podia fazer prognostico seguro, visto que só as commoções occasionaes tinham absoluto imperio sobre aquella organisação. E citava, como prova, a subita aphonia, que tambem subitamente desapparecêra. Mas não desesperava da cura completa, antes a esperava, se José Maximo voltasse. Comtudo uma ruim noticia poderia exacerbar a doença e conduzil-a rapidamente ao seu periodo terminal, ao total esgotamento do systema nervoso.

Todo o arrazoado do dr. Corrêa Ribeiro vinha a resumir-se n’uma formula hoje geralmente acceita pelos pathologistas modernos: que a paralysia estabelece a transição entre as doenças do espirito e as do corpo.

D. Anna passava longas horas silenciosa, muitas d’ellas encostada a uma das janellas da casa, com o olhar triste perdido nos pinheiraes sombrios.

Contára Francisco Marques a Frei Simão, com as lagrimas nos olhos, que «a sua rica menina» tinha dito um dia:

—Não sei se Deus me favoreceu mais quando me tirou a voz se quando m’a restituiu...

E frei Simão, muito pensativo, respondêra:

—Entendo...

Os visinhos de Cezár, segundo tambem Francisco Marques contava, pareciam satisfeitos com as desgraças que tinham chamado sobre a casa do Outeiro, especialmente com a ausencia de frei Simão. Só uma coisa mostravam desejar ainda: era haver ás mãos o frade para mandal-o pendurar na forca. E como o suppunham refugiado em Arouca, para lá mandavam instantes solicitações reclamando a prisão do fugitivo.

Assim foram decorrendo os mezes até que principiaram a correr incertas noticias de que D. Pedro, finalmente resolvido a reivindicar os direitos da Rainha, ia arregimentar os emigrados para invadir Portugal.

Estas informações, a principio dubias, foram-se accentuando, correndo com insistencia.

Constou depois que o imperador estava na Terceira, onde assumira a regencia, e preparava uma expedição com dinheiro que podéra levantar nas praças extrangeiras.

O boato fôra confirmado. A expedição liberal viria, mas não se sabia ao certo se desembarcaria na Madeira ou no continente.

Finalmente, na noite de sete de julho de 1832, eccoou no Porto uma noticia de grande sensação: a esquadra de D. Pedro estava á vista.

No dia seguinte, a noticia irradiou por muitas leguas em roda do Porto: chegou até Cezár.

Francisco Marques não poude contêr a sua impaciencia e metteu-se ao caminho para ir saber se o boato era verdadeiro ou não.

Entrou na cidade mais facilmente do que suppunha. A confusão no exercito miguelista era enorme. O Marques encontrou já na estrada muitas familias absolutistas, que por cautela fugiam.

Na madrugada do dia nove batia elle á porta da mansarda de seu amo. A cega, muito agitada, cheia de medo, disse-lhe que o sr. frei Simão tinha sahido, doido de alegria, ainda com de noite.

O Marques subiu á Cordoaria, onde encontrou alguns curiosos, que o informaram do que se passava.

Disseram-lhe que a expedição tinha desembarcado na vespera junto a Villa do Conde, e que estava em marcha para a cidade.

O Marques não quiz ouvir mais nada. Metteu pela rua de Cedofeita adeante, para seguir a estrada de Villa do Conde ao Porto.

Cêrca das oito horas da manhã encontrou no Carvalhido a guarda-avançada do exercito liberal.

Deu-lhe vivas, gesticulando como um possesso. Não sabia se havia de voltar para traz, se proseguir até encontrar o grosso do exercito. Adoptou este ultimo expediente. Foi andando.

Á medida que avistava as tropas libertadoras, uma nova vibração de enthusiasmo lhe sacudia os nervos.

Perguntou pelo imperador. Responderam-lhe que não tardaria muito. Com effeito viu apparecer D. Pedro, seriam umas onze horas da manhã.

O imperador vinha mal montado, mas ao Marques pareceu que jamais um general apertára sob os joelhos um cavallo de maior preço.

E ficou n’uma allucinação de jubilo quando viu frei Simão, de jaqueta, cruz ao peito, chapeu emplumado de hydranjas, e escopêta ao hombro, dando vivas a D. Pedro, cujo cavallo o frade seguia a pequena distancia.

Atravessou de um salto para junto do amo, que lhe disse muito excitado:

—Ah! és tu?! Ha novidade?

—Nenhuma. Vim ver isto.

—Chegou a nossa hora, finalmente! exclamou frei Simão.

E logo continuou a gritar:

—Viva o imperador! Viva a rainha! Viva a Carta!

D. Pedro tinha ficado muito surprehendido quando frei Simão de Vasconcellos correu a beijar-lhe a mão na estrada, levantando enthusiasticamente no ar o chapeu florido das côres constitucionaes. Sabia que os frades lhe eram adversos, e a extranhesa do caso fizera-lhe agradavel impressão. Um movimento de sympathia brilhára nos olhos expressivos do imperador.

Frei Simão, acompanhando sempre D. Pedro, seguira-o até á Praça Nova, onde o principe apeiára para entrar na Casa da Camara.

N’essa occasião era estentorosa a voz do frade, quando gritava:

—Viva o imperador! Viva a rainha! Viva a Carta! Viva a liberdade!

D. Pedro sahiu do palacio municipal para se dirigir ao dos Carrancas, onde ia hospedar-se.

Tudo isto se realisára n’um triumpho pacifico: o exercito de D. Miguel tinha retirado inexplicavelmente.

O frade acompanhou D. Pedro á Torre da Marca, e ahi continuou a vozear, em frente do palacio, gritos atroadores.

O imperador viera a uma das varandas para agradecer a ovação com que alguns grupos, frei Simão á frente, continuavam a acclamal-o.

Dando com os olhos no frade, tornou a reparar n’elle, que gesticulava freneticamente com o braço direito, agitando o chapeu, e com a cara no ar, muito afogueadas as faces.

Momentos depois, o marquez de Loulé, cunhado do imperador, dava ordem a um criado para vir á rua chamar um frade, que tinha hydranjas no chapeu, e estava dando vivas.

Frei Simão galgou dois a dois os degraus da escadaria de pedra.

D. Pedro não tardou a recebel-o, de pé, a meio da sala grande de entrada.

O imperador, esvelto, moreno, queimado do sol dos tropicos, com a barba crescida, o olhar incisivo e luminoso, denunciava comtudo na physionomia um certo cansaço e o que quer que fosse de amargurada expressão.

—Como te chamas? perguntou D. Pedro ao frade.

—Frei Simão de Vasconcellos.

—A que convento do Porto pertences?

—A nenhum, meu senhor. Sahi ha dezeseis annos de Alcobaça por um breve pontificio. Desde então não tenho feito senão amar a liberdade e soffrer por ella. Mas estou prompto a dar a vida por Vossa Magestade e pela causa da Rainha, que é a causa da liberdade e da patria.

O imperador, em cujos olhos passára um relampago, que lhes augmentou o brilho, mostrava-se cada vez mais surprehendido e interessado.

—Bem está! disse D. Pedro. O que tiveste n’esse braço? perguntou reparando que o frade movia com difficuldade o braço esquerdo.

—Fui ferido pelas costas quando tentava escapar ao destacamento que cercou a minha casa, e que me perseguiu a tiros.

—Mas, apesar de ferido, podeste fugir?

—Cahi e apanharam-me. Da segunda vez não fui tão feliz como da primeira, em que consegui salvar-me.

—Estiveste então na cadea?

—Sim, meu senhor, na da Villa da Feira, mas evadi-me e tenho estado escondido desde então.

O imperador trocava com o marquez de Loulé um olhar de profunda surpresa.

—Tens então, meu frade, passado muito?

—Nem Vossa Magestade pode imaginar! A minha familia está desgraçada. Malvados! Um só de meus irmãos, frei José, prégador geral da ordem de S. Bento, foi realista, mas esse, em vez de perseguir alguem, morreu de desgosto em Lisboa, o anno passado, quando soube que tinha entrado no Tejo a esquadra franceza, e que o barão de Roussin havia sido mandado a Portugal para calcar aos pés o direito das gentes e vexar uma nação, cujo governo, cobarde perante o extrangeiro, apenas sabia ser tyranno com os naturaes que politicamente o hostilisavam.

—Frei José, teu irmão, replicou o imperador, podia ser um realista, como tu dizes, mas era principalmente um portuguez, que zelava a honra da sua patria.

—É certo, meu senhor. Ao menos resgatou pela morte o erro das suas opiniões politicas, aliás inoffensivas.

—Quero ouvir-te com mais vagar. Volta cá ás sete horas da manhã.

—Ás sete horas?! perguntou frei Simão espantado de que um principe lhe marcasse uma hora tão matutina.

—Sim, amanhã ás sete horas. Adeus.

Durante o dia, D. Pedro tornou a lembrar-se do frade, com essa agudeza de memoria, que é peculiar aos Braganças. Apesar das graves preoccupações que lhe agitavam o espirito, o imperador pediu novas informações a respeito de frei Simão de Vasconcellos.

Contaram-lhe a historia, muito conhecida, da resistencia á escolta, da prisão e da fuga. Descreveram-lhe o energico perfil moral do frade já legendario pelo seu valor, e dedicação á causa da liberdade.

D. Pedro, que via enublado o futuro apesar da facilidade com que entrára no Porto, consolou-se até certo ponto com a certeza d’essa dedicação pessoal, que podia valer muito como exemplo.

E, no dia seguinte, cumprindo a sua promessa, recebeu frei Simão, que, ás sete horas da manhã, já encontrou as salas do palacio cheias de officiaes superiores. Estavam ali, entre outros, o marechal conde de Villa Flor, commandante em chefe do exercito, o coronel de cavallaria D. Thomaz de Mascarenhas, que se dizia ia ser nomeado governador militar da cidade, o tenente-coronel José Baptista da Silva Lopes, chefe do estado-maior, o tenente-coronel Diogo Thomaz de Ruxleben, director da intendencia geral de viveres e transportes, e alguns officiaes extrangeiros, taes como o sr. de Saint-Léger, ajudante de campo do imperador, e o sr. de Lasteyrie, neto do general Lafayette.

Quiz D. Pedro ouvir a narrativa das perseguições soffridas pelo frade e sua familia.

—Apenas posso conceder-te vinte minutos, mas desejo ouvir-te, disse o principe.

Frei Simão resumiu as violencias politicas de que seu irmão Joaquim Maria fôra victima, e impressionou o imperador, quando contou como havia promettido ao moribundo ir arrancar Margarida Candida ás grades do mosteiro de Arouca no dia em que a liberdade resurgisse.

—Chegou essa hora, disse-lhe D. Pedro. Pois não crês que a nossa causa ha de triumphar?

—Creio, meu senhor, mas é preciso não poupar nem deixar em descanço o inimigo. Elle é poderoso pelo numero. Não se illuda Vossa Magestade com o dia de hontem.

O imperador, visivelmente triste, ficou a olhar no frade, muito fito.

Depois frei Simão bosquejou os infelizes amores de José Maximo, o liberal exaltado, com Anninhas, cuja doença descreveu tambem a traços largos.

—Pobre senhora! disse commovido o imperador. Eu tive na minha familia um triste exemplo do que são as doenças nervosas. Minha avó... Mas não sabes—perguntou com subita transição—o que é feito do estudante?

—Não sei, meu senhor. Comtudo José Maximo era tão brioso, que receio não lhe soffresse o animo resistir á nodoa do roubo feito aos lentes.

—Foi effectivamente um desatino, disse D. Pedro, que nada aproveitou á nossa causa. Melhor elles viessem agora defendel-a com as armas na mão. Ahi trago eu um dos estudantes, o Solano, que é alferes de caçadores 5, e que procura resgatar pelo arrependimento e pelo valor a memoria do passado.

Frei Simão roçou muito de alto pelos seus proprios soffrimentos e trabalhos, mas voltou a fallar no juramento que tinha feito ao irmão moribundo.

—E como pensas em cumpril-o?

—Com os meios que Vossa Magestade se dignar fornecer-me.

—Quaes?

—Dezoito ou vinte homens á minha escolha para organisar uma guerrilha. Nós não temos guerrilhas, e comtudo são um excellente meio de propaganda para levantar a opinião nas provincias.

—Tens rasão. Vou dar ordem para que te sejam concedidos os homens que escolheres. Mas lembro-te que não podêmos distrair muita gente.

—Poucos me bastam, meu senhor, comtanto que eu os escolha.

—Concedido. Até á vista, frei Simão, e boa fortuna. Enthusiasma-me bem essas aldeas. Vou dar ordem. Espera, que te será entregue agora mesmo.

O frade sahiu, e D. Pedro veio á porta, chamando para fóra:

—Ó Villa Flor! vem cá.

N’esse mesmo dia, frei Simão principiara a recrutar os seus companheiros de aventura pelas boas informações, que a respeito d’elles podera colhêr. Dois, como que lhe cahiram do ceu. Um era o Marques, que por caso nenhum se dispensou de seguir o destino do amo. O outro era José de Oliveira, que já conheciamos da casa do Outeiro, e que as irmãs de frei Simão, inquietas pela demora do Marques, tinham mandado ao Porto para saber noticias.