A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 14

Chapter 143,904 wordsPublic domain

A noite ia alta, não tardaria a arraiar a primeira claridade da manhã. Não sabia a que porta podesse bater sem o perigo de uma denuncia, quando avistou as duas torres da egreja de Cezár. Lembrou-se então das palavras da Sagrada Escriptura: _pulsate et aperietur vobis_. O abbade era um absolutista moderado; mas frei Simão conhecia-lhe bem a alma incapaz de uma vingança politica; quanto ao padre Antonio Pinheiro, bastou recordar-se das doces palavras de charidade evangelica, que elle lhe havia dito quando o confessára.

Resolveu-se a ir pedir abrigo á abbadia. E foi.

Bateu á porta da Residencia na occasião em que o padre Pinheiro, na ausencia do abbade, estava fazendo as orações da manhã. Uma voz perguntou de dentro:

—Quem está ahi?

Frei Simão conheceu a voz de padre Antonio, e respondeu:

—Um desgraçado.

Sentiu dar volta á chave. A porta abrira-se.

Padre Antonio achou em frei Simão um homem desconhecido; não sabia quem fosse. O seu primeiro movimento denunciou talvez alguma inquietação.

Frei Simão disse-lhe, parado no limiar:

—Vejo que o sr. padre Antonio me não conhece. Pois eu sou um desgraçado. Chamo-me frei Simão de Vasconcellos.

—Ah! exclamou padre Antonio com o rosto subitamente illuminado de uma alegre tranquillidade. Seja bem vindo a esta casa. Se fosse um desgraçado, teria aqui o seu logar; mas não são desgraçados aquelles a quem não falta a misericordia de Deus. Porque a verdade é que, no meio das angustias que tem padecido, Vossa Reverencia recebeu do Todo Poderoso o favor da resignação ou da coragem, que jamais o desamparam.

Frei Simão explicou o seu desejo de ir ao Outeiro vêr a pobre paralytica, e o receio de poder ser denunciado pelo vendilhão que encontrára no caminho.

—Espreitaremos a occasião de realisar o seu justo desejo, respondeu-lhe padre Antonio. Vossa Reverencia deve considerar-se aqui em inteira segurança. Eu sou ministro de uma religião de misericordia: adoro o Deus do Calvario, que morreu perdoando. O sr. abbade, quando voltar do Porto, comprehenderá e desculpará o meu procedimento. Tambem não estão cá os criados, porque, segundo o costume, acompanharam seu amo. Minha tia é uma alma honesta e leal, incapaz de fazer aquillo que eu não desejar que ella faça. De modo que não deve Vossa Reverencia receiar da sinceridade dos hospedeiros, mas apenas desculpar-lhes a insufficiencia da hospedagem. Comtudo, quem está habituado a duros trabalhos não tem tamanhas exigencias de bem estar como aquelles que nasceram e teem vivido felizes.

—O que eu não queria era incommodar o sr. padre Antonio, e muito menos compromettel-o no caso de uma denuncia.

—Comprometter-me?! Pois acaso compromette-se um sacerdote quando exerce uma das obras de misericordia: dar pousada aos peregrinos? De mais a mais, toda a gente aqui suppõe que Vossa Reverencia, depois da sua fuga da Villa da Feira, tinha ido esconder-se no Porto.

—A minha fuga deve ter causado grande indignação. Mas o instincto da liberdade é innato no homem. Obedeci a elle.

—Assim é. As paixões politicas são por via de regra intransigentes; não poupam os adversarios. Era pois natural que a noticia da evasão causasse surpresa e até colera. Estamos n’uma epocha calamitosa, de sentimentos fogosos e cegos. Mas felizmente Vossa Reverencia dispõe de um animo forte para arrostar com todos os perigos. Agradeça-o a Deus. Se a historia da evasão, que aqui se conta, é exacta, o sr. frei Simão operou prodigios de perseverança na adversidade.

O frade descreveu minuciosamente todos os episodios da fuga. Havia nas suas palavras um vivo colorido, que padre Antonio admirava, e que o impressionava muito.

—Meu Deus! o que tem passado! exclamou padre Antonio quando frei Simão concluiu a narrativa.

—O que eu tenho passado! repetiu com profunda tristesa o frade. E a minha pobre irmã paralytica, perdida talvez para sempre! A minha pobre Anninhas! Deus perdôe a quem lhe fez saber a ruim noticia, que a reduziu á vida de estatua.

—Deus perdôe. Mas não façamos juizos temerarios. Deus tomará contas ao verdadeiro culpado.

N’isto sentiu-se levantar o fecho da porta da cosinha.

—É minha tia, que vem da horta, disse padre Antonio. Deixe-me Vossa Reverencia ir avisal-a do que tem de fazer. Entretanto, venha descançar ao meu quarto.

Frei Simão ficou só no quarto de padre Antonio, onde a mobilia contrastava, pela humildade, com as cadeiras, contadores e tamboretes, que opulentavam a sala de recepção do abbade Moreira Maia.

Parou um momento a olhar para um pequeno papel pregado na parede. Era uma tabella das missas que padre Antonio devia dizer n’aquella semana. Sob o titulo de _Vivos e defuntos_, frei Simão leu o seu proprio nome. Era o terceiro da lista, e coincidia com aquelle mesmo dia da semana.

Foi grande a commoção do frade.

—Que santa alma a d’este padre! disse mentalmente.

E, como padre Antonio se aproximasse, frei Simão de Vasconcellos, quando elle voltou, cahiu-lhe aos pés, de joelhos, beijando-lhe a mão.

Padre Antonio, muito surprehendido, abençoou-o, dizendo:

Não tem Vossa Reverencia que agradecer. Buscae e achareis, diz a Biblia. O que Vossa Reverencia aqui tem, é Deus que lh’o envia e concede.

Alludia á hospedagem; não suspeitando de que o frade houvesse lido a tabella das missas.

—Agora, continuou, são horas de eu ir para a egreja. Ó minha tia, disse levantando a voz, faça favor de picar o sino. Vão sendo horas.

E tornando a voltar-se para frei Simão:

—Vossa Reverencia não pode ir á egreja, mas pode acompanhar-me em espirito. Deus está em toda a parte.

—Ouvirei d’aqui, em joelhos, a missa que Vossa Senhoria vae celebrar. Estas paredes serão transparentes para a minha fé n’esta hora de gratidão fervorosa.

Padre Antonio não comprehendeu o duplo sentido d’estas palavras.

Quando o sino tangeu pela segunda vez, o coadjuctor de Cezár foi vêr á tabella a tenção da missa d’aquelle dia. Não denunciou no rosto o menor signal de surpresa pela coincidencia. Sahiu sem olhar para frei Simão, dizendo um affectuoso: _Até já_.

Passado um quarto de hora, frei Simão, que estava de joelhos rezando com as mãos postas, voltado para a egreja, sentiu bater de rijo á porta da cosinha.

Procurou concentrar-se na oração, quando ouviu fallar; não queria ser perturbado. Mas pareceu-lhe ouvir o seu nome, pronunciado por uma voz de mulher, e cedeu á tentação de escutar, apurando o ouvido direito, que restava illeso.

—Era elle, sr.ª Gertrudes, dizia a interlocutora da tia de padre Antonio. Disse-me o Elias peixeiro que era elle, com umas barbas grandes, que até parecia um salteador. Arrenego eu o homem!

—Não mettas a tua alma no inferno, mulher! respondia Gertrudes Magna. Trata de vender o teu pão fresco, e não andes a dar noticias que podem causar desgraças, e que tu não sabes se são verdadeiras. O Elias peixeiro pode ter-se enganado, e de certo se enganou.

—Elle disse que se não era o frade do Outeiro, o diabo o jurasse.

—Credo! mulher! que logo pela manhã começas a fallar no cão tinhoso! Tu encarregas a tua alma! O que consta é que o sr. frei Simão está escondido no Porto. Lá era elle tão pouco atilado que viesse metter-se na bôca do lobo! Olha que eu quero a minha sêmea mais leveira. Não sabes que já não tenho dentes?! Melhor tu olhasses mais pela vida!

N’este momento o sino dava o signal de—_Levantar a Deus_.

—Vai-te embora, mulher, disse a velha Gertrudes Magna. Deixa-me rezar um _Bemdito_ entre a hostia e o calix, já que não posso ir á missa para ter o almoço prompto a meu sobrinho.

Frei Simão continuou acompanhando mentalmente o cánon da missa.

—_Hoc est enim corpus meum_, pensára elle, e conservava-se recolhido como se tivesse nas mãos a particula sagrada.

Na cosinha, Gertrudes Magna concluia em voz audivel a oração correspondente ao levantar da hostia.

—...tão real e perfeitamente como está nos altos ceus.

Augmentára, com o dialogo que tinha ouvido, a fé de frei Simão de Vasconcellos. Senão fôra o Passal, estaria, áquella hora, em perigo de perseguição. O peixeiro havia-o conhecido ou pelo menos suspeitava da sua chegada a Cezár. A faltar-lhe a protecção que encontrára na abbadia, o fugitivo seria recapturado e posto em maior segurança.

Quando padre Antonio voltou da egreja, frei Simão saudou-o dizendo:

—Foi, pode dizer-se, um _Te-Deum laudamus_ rezado.

Padre Antonio illudiu a resposta observando:

—Sempre temos motivo para louvar o Senhor. Que Elle se digne continuar a proteger os que carecem da Sua protecção.

—E eu mais do que ninguem, replicou o frade contando ao coadjuctor o dialogo que tinha ouvido.

—Não importa, disse padre Antonio. Vossa Reverencia pode considerar-se, debaixo d’este tecto, ao abrigo de perseguições. Ninguem se lembrará de o vir aqui procurar. E, ouvindo esse dialogo, já teve occasião de experimentar a lealdade de minha tia. Deixemos passar o vento da desconfiança, acalmar-se o mar das suspeitas. O peior é de Vossa Reverencia, que terá de permanecer alguns dias aqui. Quando julgarmos opportuno, irá ao Outeiro vêr a sua familia, onde aliás não convém que se demore.

Aconselhado pelo coadjuctor, frei Simão de Vasconcellos cortou as barbas, que já tinham sido notificadas pelo vendilhão de peixe.

O boato da apparição do frade em Cezár corrêra durante um ou dois dias, mas padre Antonio, a quem Ignacio da Fonseca e outros visinhos fallaram no assumpto, foi de parecer que, depois das duas buscas dadas pela justiça á casa do Outeiro, frei Simão não iria metter-se por muito tempo na bôca do lobo. Ou não teria vindo ou já se teria retirado.

Ora o coadjuctor havia dito a frei Simão:

—Se me communicarem a suspeita da vinda de Vossa Reverencia a Cezár, responderei, sem encarregar a minha alma, com a subtileza do franciscano, que enfiou uma das mãos pela manga da outra e affirmou que por alli não tinha passado certo criminoso. O meu dever é servir a Deus, e Deus manda dar pousada aos perigrinos. Vossa Reverencia, na situação em que se acha, não é senão um perigrino.

Quando chegou a noite em que frei Simão tinha de ir a Cezár, padre Antonio disse-lhe com uma resolução que não estava muito nos seus costumes de malleavel brandura:

—Eu vou com Vossa Reverencia, sem o menor intento de prejudicar o recato das suas expansões. Mas como hospedeiro, quero correr a mesma sorte do hospede.

Frei Simão procurou demovêl-o do proposito; não conseguiu.

—Figuraremos, insistiu o coadjuctor, ir levar o viatico a um moribundo; _quod Deus avertat_. Vossa Reverencia veste uma das minhas batinas e cobre um dos meus capotes; são andainas velhas, mas que servem para de noute. Preveniremos assim o caso de algum mau encontro, o que aliás não é de esperar. Mas, de passagem, ninguem poderá averiguar se Vossa Reverencia é o nosso sachristão ou algum ecclesiastico, que accidentalmente seja hospede do sr. abbade.

E, receioso de que frei Simão podesse vêr n’estas involuntarias palavras alguma allusão pungente, accrescentou com promptidão:

—E não se enganarão n’este ultimo caso, porque Vossa Reverencia, se deixou o convento, não deixou a Deus. Eu o sei.

Frei Simão não conseguiu, mais uma vez, evitar que padre Antonio Pinheiro o acompanhasse.

Sahiram ambos da abbadia, alta noite, caminhando em silencio. A distancia é pequena: os dois edificios, o Passal e o Outeiro, avistam-se um ao outro.

A familia de frei Simão estava prevenida. Foi Francisco Marques quem veiu abrir, discretamente, a _Porta Vermelha_. E logo após elle correram pressurosas D. Maria Albina e D. Antonia[5]. As lagrimas d’estas duas senhoras diziam mais do que as palavras, n’aquelle lance solemne.

Padre Antonio assistia, como em extasi, a esse commovente drama intimo, em que uma familia estreitava, no infortunio, os seus laços de extremoso affecto. E mais uma vez, depois que conhecia de perto frei Simão, o coadjuctor de Cezár lastimava a cegueira das paixões politicas, que fazem com que os adversarios se apreciem uns aos outros com revoltante injustiça. Ali estava elle no meio de uma familia de _malhados_, e não poderia encontrar outra mais respeitavel, nem mais exemplar na resignação christã.

O frade encaminhou-se, seguido pelas irmãs, ao quarto de D. Anna.

Padre Antonio quedou-se no corredor com delicado proposito; mas frei Simão, voltando-se, e vendo-o parado, disse-lhe amoravelmente:

—Venha comigo, sr. padre Antonio. Todos somos familia.

Anninhas estava sentada n’um canapé: os braços ligeiramente desviados do tronco; as mãos tremulas—com os dedos muito juntos, o pollegar sobreposto ao index—apoiadas na cintura; os joelhos tendendo um para o outro n’um movimento de adducção; os pés mettidos para dentro; a cabeça pendida para deante.

Não viu frei Simão logo que elle entrou no quarto. Mas quando os seus olhos encontraram o vulto do frade, que, commovido, estacára deante do canapé, os labios da pobre senhora, ordinariamente cerrados e ás vezes franjados d’espuma, abriram-se n’uma indiscriptivel sensação de surpresa, e um grito, agudo, vibrante, como aquelle que se seguira á leitura da carta anonyma, eccoou no aposento, ouvindo-se em toda a casa.

Frei Simão, chorando effusivamente, avançou abrindo os braços para a irmã, que procurava levantar-se do canapé, e padre Antonio Pinheiro, cahindo de joelhos, disse em voz alta, uma voz repassada de uncção religiosa, este versiculo de David:

—_Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam._

Senhor, abrirás os meus labios: e a minha bôca annunciará o teu louvor.

XXIII

Previsão do frade

É um ensino efficaz o do infortunio.

Julio Diniz—«Uma familia ingleza».

Frei Simão, exultante de alegria, esquecera-se de si mesmo para só se lembrar da irmã, e dissera a padre Antonio Pinheiro:

—Aqui tem a rasão por que eu queria vir a Cezár. Dizia-me o coração que a pobre Anninhas, se me tornasse a vêr, recuperaria a voz. E assim aconteceu! Deus louvado! Louvado seja o Senhor!

—Louvado seja! respondeu padre Antonio Pinheiro.

Anninhas estava ainda convulsa, não podia andar, mas fallava, fallava menos do que chorava, abraçando o irmão e as irmãs.

—Foi um milagre! exclamava D. Maria Albina.

—Deus, respondeu padre Antonio, não falta nunca aos que se lembram de recorrer á Sua misericordia infinita. Mas não queiramos mais do que podêmos receber. Esta senhora—indicando D. Anna—está fatigada da commoção extraordinaria por que passou; precisa descançar. E o sr. frei Simão, que deve julgar-se contente com a felicidade obtida, não deve demorar-se n’esta casa. É prudente voltarmos ao Passal, que não vá alvoroçar-se a freguezia com a noticia de que alta noite se ouviu gritar alguem na casa do Outeiro,—o que significa algum acontecimento importante.

Frei Simão concordou e, abraçando as irmãs, despediu-se.

—Até quando, mano? perguntou D. Antonia.

—Eu sei lá?! respondeu frei Simão. Sou uma ave errante sem ninho certo.

O frade e padre Antonio recolheram ao Passal, e estiveram conversando largamente durante o resto da noite.

Frei Simão disse ao coadjuctor:

—Agora, meu amigo, visto que minha irmã está salva de maior desgraça, Deus louvado! resta pensar em mim. Refiro-me, sr. padre Antonio, á minha liberdade individual, a esta miseravel liberdade, cheia de duvidas e de incertesas, que eu mesmo, se a quiz possuir, tive de rehaver violentamente por meio de uma evasão,—como um salteador ou como um assassino. Mas o meu egoismo não pode ser tão exigente e tão cego, que procure acorrentar as pessoas, que eu mais estimo, aos perigos da minha aventurosa existencia. Uma d’essas pessoas é, alem da minha familia e de um desgraçado que devia fazer parte d’ella, Vossa Senhoria. Por isso, beijando as mãos ao meu generoso hospedeiro, e certificando-o de que lhe serei eternamente grato, vou-me por ahi fóra, não sei se como um peregrino sem norte ou como uma féra, que tem de emboscar-se por selvas e juncaes para não ser perseguida pelos homens.

O coadjuctor, com semblante mortificado, ficou-se a olhar para frei Simão.

Ao cabo de alguns momentos de doloroso silencio, disse elle:

—Pois que!? Vossa Reverencia, que obteve esta noute uma singular mercê, já descreu da misericordia divina!? Se os bens da terra não duram muito, porque a alma precisa purificar-se pelo soffrimento, os males não duram sempre. Sem esperança, a vida tornar-se-hia um fardo insupportavel. Mas a clemencia de Deus creou a esperança como lenitivo ás dores terrenas: é um raio de sol que adelgaça as trevas do soffrer humano. Todavia, para merecer as boas graças do Senhor, é preciso que o homem não desagradeça, por actos de desatino, os favores que a Providencia lhe quer dispensar. Sahir d’aqui, soffra Vossa Reverencia que eu o diga, é uma imprudencia sem justificação possivel. Para onde vai, para onde quer ir o sr. frei Simão? Está enfastiado da minha companhia? Tem razão. Mas o sr. abbade voltará do Porto ao cabo de alguns dias, e com elle poderá praticar e conviver com maior agrado. Entretanto, fique, eu lh’o peço, em nome da charidade christã, que sinceramente chorará se amanhã tiver noticia de que as paixões politicas fizeram mais uma victima...

—Oh! sr. padre Antonio! como eu lhe agradeço essa terna piedade para com um desgraçado! Vossa Senhoria tem-me amparado na dor como um pai carinhoso, cuja imagem eu conservarei eternamente no coração agradecido. Mas o dever de um fugitivo é... fugir. Para onde vou? Dir-lh’o-hei com o coração nas mãos. Procurarei um grande centro onde a tempestade das paixões humanas menos se sente por ter maior terreno para espraiar-se. Vou para o Porto, onde os visinhos incommodam menos, e onde ninguem me enxergará para alvejar-me com os golpes da vingança.

—E aqui? perguntou padre Antonio desconsoladamente.

—Aqui, respondeu frei Simão, a minha tranquillidade seria absoluta se apenas dependesse de Vossa Senhoria e do sr. abbade. Mas um acaso, o proprio faro da vindicta politica podia descobrir um dia o meu escondrijo, amanheceriamos com o Passal cercado por um cordão de soldados, que viriam levantar a lebre, e eu teria contribuido para acarretar trabalhos e perseguições sobre esta abençoada casa, onde a virtude mora.

—A virtude! repetiu com suave tristeza o coadjuctor. A virtude! A tão deshumana epocha chegamos, que já o não esquecer de todo a doutrina do evangelho parece virtude! Virtuoso, eu! Não, meu amigo (permitta-me que tambem lhe dê este nome) eu sou um conservador por amor da solidariedade das instituições sociaes, que são apenas o reflexo das instituições divinas, onde o principio da suprema auctoridade é a lei suprema de que depende a harmonia do universo. Não odeio a liberdade, mas temo-a, porque foi em nome d’ella que a republica romana se dilacerou e que a republica franceza se tornou sanguinaria. Se alguem me podesse asseverar que seria possivel a radicação de um regimen de liberdade moderada e sábia, tendo por base a egualdade christã, eu, sacerdote de Christo, abençoaria esse regimen como uma aurora de paz, que viria fazer a felicidade dos homens. Não defendo o rei porque é rei; o humilde Jesus nunca o foi, senão por irrisão na cruz do Calvario. Defendo, sim, a ordem, a obediencia indispensavel á manutenção das sociedades constituidas sobre o principio da auctoridade. Temo porem as demasias do povo, que, na sua cegueira, forçou a mão dos julgadores do proprio filho de Deus, e que não poderá ser mais clemente para com os filhos dos homens. A revolução franceza desacreditou-se pela loucura sanguinaria e impia, que não poupou o throno do Altissimo. Eu, indigno representante da Egreja Catholica, não posso pensar de outro modo, mas tambem, em nome da Egreja, não posso deixar de ser benigno para com os que, inspirados por um sentimento nobre, e até christão, o levam comtudo ás vezes aos ultimos excessos do fanatismo, condemnavel não só n’elles, mas em todos, vencidos ou vencedores... Vossa Reverencia desculpe. Eu precisava abrir-lhe a minha alma, porque ao hospede em quem se confia deve ser franqueado o coração e a casa, e eu não tinha honrado ainda inteiramente a sinceridade da hospedagem. Fil-o agora, porque a occasião ageitou a confidencia. E, porque peço a Deus que me não deixe cegar de todo o entendimento, nem endurecer o coração, aqui estou para continuar a offerecer a Vossa Reverencia, sob minha responsabilidade, a sombra d’este tecto, e a lealdade do meu peito.

Frei Simão, muito commovido, olhava amoravelmente no coadjuctor, e chorava, pela segunda vez na sua vida.

Dir-se-hia que as lagrimas, por tão longos annos represas, haviam tomado gosto a minorar os trabalhos de frei Simão.

Facilmente poderia o frade responder á sincera mas vulneravel argumentação do coadjuctor. Não o quiz fazer, para não correr o risco de parecer ingrato. Estivera ainda tentado a dizer-lhe que as grandes commoções sociaes são, como os grandes cataclismos da natureza, o prologo da paz e da ordem, que não se estabelecem nunca sem reacção; que Deus tirára o mundo do cahos, e que precisára tempo para agrupar harmonicamente os elementos e regular as leis por que se regem os astros na sua eterna gravitação; que a obra dos homens não podia ser mais rapida que a de Deus, mas que os primeiros desatinos de uma instituição social seriam indispensaveis para tornar apetecida a ordem e pacificação, que lhes haviam de succeder, como a bonança succede á tempestade.

O que frei Simão quiz ver, nas palavras do virtuoso coadjuctor de Cezár, não foi a sua sincera dialectica, mas principalmente a sua grande alma, santificada por nobres sentimentos, cheia de generosos impulsos;—alma ao mesmo tempo timida e forte, mas clara como o crystal.

Abraçou-o, sentiu consolação em pôr o coração de padre Antonio d’encontro ao seu coração reconhecido; mas insistiu na ideia de partir, procurando um destino, que, embora fosse desgraçado, o fosse apenas para elle.

Frei Simão deixou o presbyterio durante a noite seguinte.

Padre Antonio veio despedil-o fóra da porta, n’um anceio de commoção, que lhe roubava, por momentos, a luz dos olhos e lhe embargava a voz.

Gertrudes Magna, a respeitosa distancia do sobrinho, chorava limpando as lagrimas ao avental de sirguilha.

Dir-se-hia que se ausentava n’aquella hora uma pessoa de familia, o pupillo querido de duas almas virtuosas.

O coadjuctor, quando o vulto de frei Simão desappareceu por entre as arvores, disse com desalento á tia:

—Decerto o não torno a vêr...

—Cruzes! Longe vá o agouro! respondeu Gertrudes Magna, procurando reanimar o espirito do sobrinho.

—Não fallo por mim, minha tia; mas por elle. Eu vivo aqui em plena paz; elle vai sem saber para onde e para quê, e os perigos gostam de experimentar a coragem dos fortes. Aos fracos, que lhes não offereceriam resistencia, despresam.

Padre Antonio não poude pregar olho toda a noite. Revolvia-se, agitado, no leito; voltava-se de um lado para outro, inquieto.

Ao entre-luzir da manhã poz-se a pé. Ajoelhou deante do oratorio, e esteve rezando longo tempo.

Quando Gertrudes Magna veio perguntar se podia ir picar o sino, o coadjuctor, muito abstracto, disse-lhe:

—Olhe que me parece que o não torno a vêr...

—Deus ha de fazer tudo pelo melhor, respondeu Gertrudes Magna, porque elle ou não será pedreiro-livre ou não parece da laia dos outros.

—Pedreiro-livre! Ha-os, decerto, mas frei Simão não o é. Uma cabeça de fogo, sim. Não estivesse ausente o sr. abbade, e veriamos o que eu faria.

—E que havias tu de fazer, padre Antonio?!

—Iria com elle por ahi fóra; buscaria livral-o dos perigos a que o seu animo ardido decerto o exporá.

Gertrudes Magna largou a rir, a rir.

—Ora não querem lá vêr! O padre Antonio feito peregrino por montes e valles, como uma ovelha desgarrada, que se tresmalhou do rebanho!

E ria, ria. O sobrinho não a ouvia rir.

Cerca das nove horas da manhã, quando o coadjuctor tinha acabado o frugal almoço, bateram á porta.

Padre Antonio disse, com alvoroço, á tia:

—Faça favor de ir abrir.

Pensou de repente que frei Simão se teria arrependido, e voltado para traz.

Mas conheceu a voz de Ignacio da Fonseca.

—Que tolice! pensou então padre Antonio. Elle arriscava-se lá a voltar de dia, mesmo que resolvesse voltar!