A guerrilha de Frei Simão: romance historico
Part 13
Ora, no caso presente, declarou ás pessoas da casa que não podia deixar de extranhar as circumstancias da idade juvenil da doente, da invasão brusca e intensa, e da aphonia completa.
Receitou um preparado de belladona, por ser um medicamento de reconhecida acção anti-convulsiva. E disse que voltaria no dia seguinte para acompanhar a marcha da doença, ainda na esperança de que D. Anna recuperasse a voz, por ser a aphonia, n’esta especie morbida, um caso novo na sua clinica.
Eis o que a experiencia lhe dictava; sabia principalmente o que os factos lhe haviam ensinado.
Se elle possuisse toda a sciencia do seu tempo, poderia ter justificado o diagnostico da _paralysia agitante_ com uma brochura que sobre o assumpto dera á estampa, onze annos antes, o medico inglez Parkinson.
Os professores do protomedicato tinham-lhe ensinado o que Galeno dizia ácerca do tremor paralytico e do tremor clonico ou antes do _tremor_ e da _palpitação_; mais nada. Mas a experiencia guiara-o a conhecer praticamente os caracteres fundamentaes da doença, a sua marcha normal, e etiologia.
Anna de Vasconcellos não readquirira a voz. Estava completamente privada de communicar, fallando, os seus pensamentos, em virtude da aphonia; e escrevendo, em virtude da convulsão e deformidade da mão direita.
A sua vida era pois uma tortura horrorosa. Pensava, recordava, vivia o bastante para atormentar-se pela memoria; mas não podia sahir de si mesma para desabafar a sua dôr.
A aphonia hysterica, como diria um medico do nosso tempo, privava-a de communicar pela palavra com o mundo exterior, se bem que D. Anna, no segredo do seu espirito, talvez agradecesse a Deus o ter perdido o uzo da palavra escripta ou fallada, que só poderia servir-lhe para insistir nas recordações cruciantes do passado.
Chegou a inesperada noticia á cadeia da Villa da Feira, e frei Simão disse á irmã mais velha:
—Vae tu para o Outeiro. Eu vou indo melhor. Melhorei o que podia melhorar. O resto não tem cura. A nossa infeliz Anninhas precisa mais de ti do que eu. Logo que me deixem sahir d’aqui ou que eu possa sahir, irei vêl-a. Cumpra-se a vontade de Deus; acceitemos resignados a desgraça com que experimenta a nossa fé.
Padre Antonio Pinheiro, se tivesse ouvido estas palavras, não as extranharia.
O virtuoso sacerdote, conversando com Ignacio da Fonseca, que bramia maldições contra a familia do Outeiro, especialmente contra o frade, disse-lhe serenamente:
—Julgo frei Simão um crente, a quem as paixões humanas teem allucinado, mas cuja consciencia não conserva odios nem rancores.
—Ora essa! sr. padre Antonio! observou, indignado, Ignacio da Fonseca. Não sabe que os pedreiros-livres não crêem em Deus, e que são capazes de mentir a Nosso Senhor por isso mesmo que não o temem?!
—Sei. Mas Deus é misericordioso, e ouve os que lhe imploram a conversão das almas transviadas. Frei Simão seria favorecido pela misericordia divina. Não affirmarei que seja um bom catholico o frade que voluntariamente despiu o habito, mas cuido não errar dizendo que descubro n’elle a consciencia tranquilla de um bom christão.
—Fraca consciencia a que não tem remorsos dos seu crimes!
—Conheço de ha muito tempo os erros de frei Simão, mas desconheço os seus crimes.
—Pois não foi elle que perdeu meu sobrinho? Não foi aquella maldita casa do Outeiro que o perverteu?!
—Quem perdeu e perverteu seu sobrinho foram as idéas d’este seculo corrupto e impio; foi a corrente das paixões desenfreadas e loucas. Vossa Mercê, sr. Ignacio, falla da sua paixão, e eu comprehendo-o, e lastimo os seus desgostos. Tambem frei Simão se deixou tocar por essa desgraçada corrente, que lhe allucinou a cabeça, mas que não conseguiu, creio eu, minar-lhe ainda o coração.
Ignacio da Fonseca não podia duvidar das crenças politicas de padre Antonio, mas ficou pensando que o espectaculo dos grandes crimes, que a liberdade tinha commettido em França, Hespanha e Portugal, lhe haveria escurentado a razão.
Padre Antonio vivia muito concentrado, resando prostrado no oratorio, e teria enlouquecido de terror na meditativa solidão do presbyterio. O facto de ter sido chamado para confessar frei Simão de tal modo abalaria a sua debilitada intelligencia, pensava o tio de José Maximo, que não conservava uma limpida recordação d’esse facto. Não ouvira o frade, não soubera explorar-lhe a consciencia, estivera junto d’elle sob a commoção do terror.
Ora a verdade era que padre Antonio fôra á casa do Outeiro muito constrangido pela supposta aproximação de um impio. A pallidez que levava nas faces o denunciava. Mas a impressão com que voltára era de grata surpresa, por haver encontrado uma consciencia honesta, até meticulosa, a par de um cerebro ardente, exaltado pelas paixões politicas da epocha. Frei Simão podia ser um desvairado, e era-o, mas tinha horror ao crime e ao sangue. Padre Antonio voltára do Outeiro com esta agradavel convicção.
Quando D. Maria Albina chegou a casa, o estado de Anninhas não tinha soffrido alteração.
O doutor Corrêa Ribeiro, reconhecida a inefficacia das applicações da belladona e do opio, limitava-se a evitar que sobreviesse o marasmo pelo confinamento no leito. Procedia de accôrdo com o parecer unanime de outros collegas, de muitas leguas ao redor, que tinham ido observar, por curiosidade, esse extranho caso de aphonia na paralysia convulsa.
Obrigava a doente a levantar-se todos os dias.
Vestida, não sem difficuldade, pelas irmãs, Anninhas erguia-se a custo, lentamente; hesitava durante alguns segundos, até que se resolvia a dar alguns passos, timidos a principio, rapidos depois, com o corpo muito inclinado para deante, como se fosse a cahir.
Francisco Marques amparava-a na propulsão, receioso de a vêr perder o equilibrio; era a sua muleta.
Um dia, Anninhas, depois de ter hesitado ainda por mais tempo que de costume, avançou, n’essas carreiras vertiginosas que a irmanavam a uma creança quando ensaia as primeiras passadas, na direcção do corredor, que conduzia ao pomar.
Francisco Marques não quiz contrarial-a; acompanhou-a amparando-a.
Como se subitamente se houvesse fatigada, Anninhas sentou-se no banco onde tinha estado com José Maximo no dia em que elle consultara a folha de trêvo. Mudava de posição a cada momento, voltando o tronco para o lado direito e para o lado esquerdo, com a cabeça erecta, o pescoço rigido. Com o olhar muito fixo, encarava nas arvores e no banco, onde parecia notar um logar devoluto junto a si. O Marques e as outras pessoas da casa, muito sobresaltadas, queriam tiral-a d’aquelle banco, comprehendiam o que se estava passando no seu espirito, mas não ouzavam compellil-a a levantar-se.
Como porém o tremor dos braços augmentasse quando Anninhas rastejou os olhos pelas folhas verdes do trêvo, Francisco Marques soergueu-a delicadamente, e com affavel pressão a foi obrigando a entrar em casa.
Mas reparou em que a propulsão era então menos violenta, e em que, pelo contrario, havia tendencia para a retropulsão, como tibia manifestação talvez do desejo que a doente provavelmente sentia de permanecer no pomar.
Não era difficil adivinhar todo o pensamento de D. Anna de Vasconcellos: o trêvo, consultado no dia em que José Maximo e ella estiveram ali sentados no banco de cortiça, fallára verdade,—uma horrivel e irremediavel verdade.
Se a pobre senhora tivesse lido algum dia as elegias de Camões, lá haveria encontrado este verso presago:
O trevo, que é sentido apartamento.
XXI
O napoleão de ouro
Perdi a minha Nize, a gloria minha, A minha liberdade: Remotos estes bens, que bem me resta?
Bocage—«Ode á Fortuna».
José Maximo, entrando em Hespanha, passou uma vida miseravel até chegar a Ciudad-Rodrigo.
A ferramenta de caldeireiro apenas lhe servia para disfarce, pois que elle ignorava completamente o officio. Pensava em aprendel-o, acceitando a indicação do acaso. Mas faltavam-lhe recursos, que aliás podia ter, para os primeiros dias de jornada. Logo explicaremos este caso. Viu-se, pois, na necessidade de ir mendigando, pedindo pelo amor de Deus um bocado de pão.
Seguira em direcção a Ciudad-Rodrigo por lhe parecer que a sua presença n’uma cidade daria menos nas vistas do que em qualquer das pequenas povoações fronteiriças, como Zarza ou Perales. Obedecendo a esta consideração, não queria comtudo affastar-se muito da raia portugueza. O coração—a saudade e o amor—prendia-o a Portugal. Receiava saber o que teria acontecido a sua mãe e a Anninhas, mas desejava sabel-o. Pobre mãe! teria talvez morrido de afflicção ao vel-o tão desgraçado. E Anninhas? Quem o podia saber! A fronteira de Portugal levantava-se agora entre o passado e o presente, impenetravel como a muralha da China.
Chegando a Ciudad-Rodrigo, viveu na maior miseria os primeiros dois dias. Esmolava por portas. Foi, no terceiro dia, bater a uma, em cujo páteo uma creança bem vestida, e sentada ao sol, estava estudando em voz alta. Era um menino de doze para treze annos de idade.
Quando o pequeno estudante deu com os olhos em José Maximo, teve um movimento de repulsão. Aquelle caldeireiro fez-lhe medo, tão feio era depois que queimara e retalhara o rosto.
José Maximo comprehendeu a impressão que produzira, e disse ao menino, em correcta prosodia hespanhola:
—Não tenha medo de mim, que não faço mal a ninguem. Sou um desgraçado caldeireiro, que, por falta de trabalho, se vê obrigado a pedir esmola.
O menino deteve-se indeciso, e o caldeireiro disse ainda para captar-lhe a sympathia:
—Vi que estava estudando latim. Custa-lhe a decorar as declinações?
O pequeno ficou admirado da pergunta, achando, sem medir todo o alcance, que não fazia sentido a profissão d’esse homem com o facto de conhecer a existencia das declinações latinas.
José Maximo, vendo a surpreza que causára, arrependeu-se do que dissera. Podia ter-se denunciado n’aquella hora. Mas conheceu tambem que, na alma do seu interlocutor, succedera á surpresa do primeiro momento um tal ou qual respeito pelo mendigo que parecia saber mais do que elle.
Perguntou-lhe o menino se sabia latim.
José Maximo, não querendo contradizer-se flagrantemente, disse-lhe que alguma coisa tinha aprendido em pequeno, mas que a sua má cabeça o levára a abandonar os estudos, pelo que se vira na necessidade de procurar um officio. Que pozesse o menino os olhos n’elle, e na sua desgraça, para estimular-se a estudar por amor do futuro.
A mãe do menino, andando na sua lide domestica, ouviu estas ultimas palavras, e veiu vêr quem era a pessoa que tão acertado conselho estava dando a seu filho.
Ficou tambem surprehendida ao vêr o miseravel caldeireiro, pouco menos de hediondo. A sua surpreza subiu de ponto, quando a creança noticiou á mãe que aquelle homem sabia latim.
Mas, após um momento de reflexão, talvez de desconfiança, disse a hespanhola ao filho:
—Que tonto que tu és! Elle sabe lá latim!
José Maximo offendeu-se com estas palavras, e repetiu a breve narração que tinha feito momentos antes, quando estava só com o menino.
E, rapidamente, declinou os nomes latinos que lhe occorreram, sem emperrar n’um unico caso.
Mãe e filho começaram a interessar-se pelo mysterioso caldeireiro. A hespanhola disse-lhe que, se tinha fome, lhe daria de comer, a troco d’elle ensinar a lição ao filho.
José Maximo confessou a verdade: tinha realmente fome. E, agradecendo á Providencia este soccorro inesperado, sentou-se no páteo a ensinar o menino. A breve trecho assaltou-o a ideia de que por aquelle caminho chamaria sobre si justificadas suspeitas. Mas logo se acalmou dizendo de si para si:
—Se tal acontecer, foi Deus que me deparou esta creança para me punir.
O caldeireiro, a pedido do menino, voltou no dia seguinte para tornar a ensinar-lhe a lição. A hespanhola queria que o seu filho soubesse muito bem latim, porque o destinava para clerigo. O pae do menino quiz d’ahi a dias vêr o caldeireiro. Fallou-lhe, observou-o, e disse á mulher:
—Este homem teve educação. Aqui anda grande mysterio.
José Maximo mostrava-se muito grato áquella familia, que lhe matava a fome, e que todos os dias lhe proporcionava occasião, durante algumas horas, de esquecer os seus dolorosos pensamentos.
Estabelecida uma corrente de sympathia entre os hespanhoes e o caldeireiro, José Maximo julgou dever responder com lealdade ás repetidas perguntas que, com insistente curiosidade, lhe fazia o pae do menino.
Contou a sua vida, as suas aventuras politicas, os seus infelizes amores, e a parte que tomara involuntariamente no assassinio dos lentes de Coimbra.
A hespanhola chorava de o ouvir, e o marido mostrava-se muito interessado pela sincera narrativa.
José Maximo revelou tambem o desejo de saber noticias de sua mãe e de Anninhas, bem como de conhecer o epilogo da tragedia do Cartaxinho. Explicou as razões por que não queria escrever a frei Simão de Vasconcellos: era, principalmente, a vergonha da sua propria infamia, e, secundariamente, a probabilidade de que a carta fosse interceptada e a justiça de Portugal viesse a conhecer assim o seu paradeiro. Por este motivo não queria tambem escrever a um amigo, residente em Evora, e ahi estabelecido como lettrado, porque receiava compromettel-o e comprometter-se.
O hespanhol, que era negociante, prometteu a José Maximo valer-se das relações commerciaes que tinha em Portugal, na cidade da Guarda, para saber o que elle tanto desejava.
Passaram-se mezes sem que viesse resposta. O hespanhol insistiu nas perguntas. O correspondente da Guarda respondeu que os estudantes presos pelo crime de Condeixa haviam sido enforcados em Lisboa no mez de junho. A isto poderia ter respondido já, mas esperava, para o fazer, pelas noticias que pedira para o Fundão e Oliveira de Azemeis, as quaes não haviam chegado ainda. Tornaria, porem, a escrever. Admirava-se, sobretudo, de que do Fundão, por ficar a menor distancia, lhe não tivessem respondido logo.
—Enforcados! exclamou José Maximo ao ouvir a noticia. A morte com infamia, de baraço e pregão, talvez com a cabeça decepada e as mãos cortadas. Oh! é horrivel! é horrivel!
Trez semanas depois, chegava a Ciudad-Rodrigo nova carta do negociante da Guarda.
O seu correspondente do Fundão pedia desculpa de não ter respondido immediatamente por se haver esquecido da pergunta na azáfama dos negocios.
Dizia que a senhora, de quem lhe pediam noticias, se apaixonára a tal ponto pela desgraça do filho, que morrêra um mez depois do assassinato dos lentes, justamente no mesmo dia e á mesma hora em que o crime havia sido commettido. Era uma coincidencia notavel, que tinha impressionado muito os habitantes do Fundão, os quaes se lastimavam de que dois patricios houvessem tomado parte n’aquelle horrendo crime. Dos dois, um, o filho d’aquella senhora, havia fugido para Hespanha, segundo constava; o outro, Neves Carneiro, fugira, acompanhado pelo pai, tambem para Hespanha, e a justiça por pouco que o não tinha apanhado no Fundão.
José Maximo ficou profundamente impressionado com a morte da mãe, cuja responsabilidade a si proprio imputava, e com a extranha coincidencia, que a elle, mais do que a ninguem, por ser extremamente supersticioso, se affigurava acontecimento sobrenatural.
A sua tristesa augmentou. Leccionando o menino, alheiava-se a espaços, muito abstracto, perdendo o seguimento das idéas.
—Que estavamos nós dizendo? perguntava elle quando despertava das suas atormentadas abstracções.
Sentia um recondito desejo de fugir para mais longe de Portugal, de ir procurar a morte em terra onde não fosse facil encontrar quem lhe podesse avivar memorias do passado.
Mas prendia-o ainda á patria a agridoce curiosidade de saber noticias do Outeiro: queria averiguar se tambem ali seria despresado, ou esquecido.
Essas noticias chegaram tardiamente, posto que pouco minuciosas, em junho de 1829: Uma das meninas da casa, que namorava um dos estudantes homisiados, havia sido atacada de paralysia ao ter conhecimento do crime do Cartaxinho. Perdêra, com grande surpresa dos medicos, o uzo da voz. Frei Simão havia sido preso, e estava na cadeia da Villa da Feira, sem que se podesse aventar que destino viria a ter: talvez a forca.
Fulminado por este novo golpe, despenhado n’um inferno de remorsos, de angustias sobre angustias, dilacerados os ultimos laços que o prendiam a Portugal, resolveu abandonar a Hespanha, como se, affastando-se da fronteira portugueza, quizesse fugir ás chammas que esbrazeavam o inferno da sua tortura.
Ia perder o auxilio que tão compassivamente lhe prestava aquella familia hespanhola. Mas entendia que merecia esse castigo a si proprio imposto: devia morrer na desgraça quem só desgraças havia semeado em torno de si.
Procuraram os hespanhoes demovel-o d’esta resolução, que foi exposta com firmesa. José Maximo resistiu, e acabou por dizer:
—Eu trago comigo o contagio do infortunio, e não quero que elle alcance uma familia, de quem tantas mercês tenho recebido. Se eu ficasse, isso viria a acontecer fatalmente, não sei como, mas aconteceria de certo.
Esta consideração fez maior impressão á hespanhola do que ao marido.
Quando José Maximo se despediu, toda aquella familia chorou, principalmente o menino.
O hespanhol quiz entregar ao infeliz portuguez uma bolsa com dinheiro.
José Maximo recusou-a, agradecendo.
Toda a familia insistiu vivamente para que acceitasse.
José Maximo quedou-se pensativo alguns momentos, e disse por fim:
—Acceitarei, com uma condição.
—Qual? perguntou o hespanhol.
—Que _usted_ acceitará em troca, e como testemunho da minha gratidão, este napoleão de ouro, que me deu um dia frei Simão de Vasconcellos, e que eu sempre procurei conservar não obstante ter padecido fome.
O hespanhol ficou a olhar para o portuguez, muito commovido.
José Maximo pediu uma tesoura, descoseu o forro do casaco velho que vestia, tirou o napoleão que trazia escondido, beijou-o, com os olhos razos de lagrimas, e offereceu-o ao hespanhol, cuja mão beijou tambem. Depois acceitou a bolsa.
Passado um anno, em 1830, quando constou em Ciudad-Rodrigo que um dos estudantes portuguezes, Neves Carneiro, havia sido preso em Zarza, e entregue ao cordão dos soldados de D. Miguel que o esperavam na fronteira, disse o hespanhol á mulher:
—Isso mesmo aconteceria ao pobre Maximo, se não tivesse fugido. Coitado! O que será feito d’elle agora?
XXII
A paralytica
La paralysie agitante n’est pas seulement une maladie des plus tristes en ce qu’elle prive le malade de l’usage de ses membres et qu’elle le réduit tôt ou tard à une inertie à peu près absolue: c’est encore une affection cruelle par suite des sensations pénibles qu’eprouve le malade.
Charcot—«Œuvres complètes», tome I.
Havia já quatorze mezes que frei Simão estava encarcerado na cadea da Villa da Feira.
Graças á sua robusta compleição podera resistir a morte, mas o braço esquerdo ficára leso, e o ouvido correspondente perdera a audição.
Não afrouxava, porem, com estes soffrimentos o valor do seu animo corajoso, e muito menos o incommodava a ideia das enormes despesas que tinha feito no carcere, onde, durante todo esse tempo, havia sido visitado, duas e trez vezes ao dia, pelo medico e cirurgião.
O frade reagia, como um forte, contra a oppressão da desgraça, que teimava em perseguil-o. Pensava na maneira de subtrair-se ás garras do absolutismo, de fugir, para correr a Cezár, a abraçar a pobre Anninhas, victima de um destino crudelissimo, e a justar contas com os seus adversarios politicos, para vingar as desgraças que elles haviam acarretado sobre toda a sua familia.
Arriscaria a vida? Pouco lhe importava isso. Em risco estava ella desde que o feriram e prenderam. Parecia até que uma extranha fatalidade o quizera salvar dos ferimentos que recebera, para lhe preparar um genero de morte mais affrontosa, na fôrca, ás mãos dos seus inimigos.
Mas não queria agora morrer sem primeiro ter ido a Cezár: ao menos isso, já que não podia ir tambem a Arouca, libertar Margarida Candida, visto que a acclamação de D. Miguel havia estrangulado todas as liberdades publicas em Portugal.
Entrou o frade de ponderar os meios que poderiam facilitar-lhe a evasão. Eram difficeis de encontrar, a não ser pela connivencia do carcereiro. Resolveu-se a preparar o terreno para subornal-o. Mas o carcereiro, sem repellir abertamente a proposta de uma transacção n’esse sentido, temia-se da severidade com que certamente seria castigado.
—Para evitar esse perigo, ha um remedio, disse-lhe frei Simão. Vossemecê foge tambem comigo.
O carcereiro pensou no caso, e acceitou o alvitre.
Resolveu-se a fuga, mas reconheceu-se que não poderia realisar-se pela porta do edificio, sob qualquer disfarce, porque as sentinellas tinham instrucções muito severas.
Foi frei Simão quem se lembrou de que a evasão só poderia effectuar-se pelo telhado, saltando os fugitivos para cima do predio contiguo. Esta operação seria facil, mas o abrir passagem pelo grosso tecto de castanho, seria difficil. Era precisa a intervenção de um carpinteiro.
Adoptou-se o expediente de requisitar os serviços de um carpinteiro de confiança, com o pretexto de que se tornava urgente construir um armario na cellula do frade.
O carcereiro, sob sua responsabilidade, chamou um carpinteiro de Milheirós da Feira[4], de quem era amigo intimo.
Em vez de se fazer o armario, fez-se uma abertura no tecto.
Frei Simão, cuja franqueza de caracter chegava ás vezes a ser imprudencia, foi visitado na cadeia, no dia destinado á evasão, por um visinho de Cezár, Manoel Francisco Relva, miguelista moderado, e excellente homem, muito respeitoso para com a familia do Outeiro.
Á despedida, o frade disse-lhe sacudidamente:
—Fujo hoje.
—É impossivel! respondeu assombrado o Relva.
—Vossemecê o saberá, replicou frei Simão.
Effectivamente, o frade e o carcereiro fugiram n’essa noite, subindo ao telhado da cadeia, e passando ao da casa visinha.
Privado do movimento do braço esquerdo, pode calcular-se que prodigios de equilibrio e de esforço não teria frei Simão operado para, n’essas condições, realisar a evasão.
De telhado em telhado, pela viella de Rolães, foram os dois fugitivos descer á Eira.
Ahi despediram-se um do outro.
Frei Simão dirigiu-se para casa do capitão Varella, de Espargo, onde pediu abrigo por algumas horas.
Contra o conselho d’este amigo, quiz mudar de escondrijo, e seguiu jornada, durante a noite, para S. João da Madeira, contando com a protecção de outro amigo não menos dedicado que o capitão Varella.
Em S. João da Madeira soube que os seus adversarios politicos reclamavam que se galardoasse com o laço da forca a provocadora zombaria da evasão. Era á conta de provocação irritante que elles lançavam mais esse acto de audaciosa coragem.
A casa do Outeiro fôra effectivamente cercada e revistada durante duas noites consecutivas.
—Que infamia! exclamou frei Simão quando o seu amigo de S. João da Madeira lhe deu noticia do facto. Nem sequer respeitam a desgraça, a doença de minha pobre irmã!
Ao cabo de quinze dias, constou-lhe que era no Porto que as justiças o procuravam; já haviam dado um assalto á casa de Frederico Pinto.
Então achou que seria menos perigosa a sua ida a Cezár. Tomou um disfarce, que as barbas crescidas durante o tempo da prisão completavam, e metteu-se de noite ao caminho.
Encontrou na estrada um homem, que, apesar da escuridão, fez reparo no frade. Era um vendilhão de peixe miudo, que costumava percorrer as povoações com grandes cargas de sardinha fresca de Espinho. Frei Simão conheceu-o, mas ficou duvidoso sobre se tambem teria sido reconhecido; notára apenas que o vendilhão o olhára com curiosidade. Tanto bastou, porém, para que pensasse em acautellar-se.
Como? e aonde? Quanto mais se aproximava da sua terra natal, mais devia temer a perseguição.