A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Part 12

Chapter 123,923 wordsPublic domain

Depois do sequestro, as freiras de Arouca, vendo a familia de José Bernardo razoirada ao nivel commum de todas as outras familias perseguidas por liberaes, perderam o respeito á filha do fidalgo do Outeiral a quem não poupavam allusões pungentes e irritantes.

D. Maria Henriqueta mandou dizer ao pai que a fosse buscar.

José Bernardo foi; teve a filha alguns dias, poucos, em sua companhia, e resolveu transferil-a para o convento de Santa Clara no Porto.

Do Outeiral, D. Maria Henriqueta escreveu para Cezár contando o que se tinha passado, e dando interessantes pormenores sobre a triste existencia de Margarida Candida no mosteiro de Arouca.

Referia que a infelicissima freira lhe tinha dito em segredo:

—Se algum dia a liberdade me puder abrir as portas d’este mosteiro, correrei a Aveiro para ir dizer a Joaquim Maria, sobre a lage da sua sepultura, que o amo na morte com a mesma dedicação e lealdade com que o amei em vida.

Frei Simão leu isto, e commoveu-se.

—Pois esteja Margarida Candida certa, exclamou elle, de que ha de cumprir a sua vontade, porque eu mesmo lhe abrirei as portas do mosteiro. Assim o prometti a Joaquim Maria; assim o farei.

José Bernardo mandou o filho Antonio acompanhar ao Porto D. Maria Henriqueta, que, para completar a sua educação, entrou no convento de Santa Clara[2].

Ignacio da Fonseca replicou ao corregedor:

—O que se faz em Arouca importa-me menos do que o que se passa em Cezár, onde vivo e tenho propriedades, e onde, portanto, a minha vida e haveres correm grande risco, vista a impunidade de que frei Simão de Vasconcellos está gozando com verdadeiro escandalo de todos os fieis vassalos d’el-rei nosso senhor.

—Pois vá Vossa Mercê socegado, disse Mourão Guedes, que eu mesmo me encarregarei da prisão do frade.

—Essa resposta agrada-me. Sr. corregedor, diziam os antigos portuguezes que quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Recebo as ordens de Vossa Senhoria.

Mourão Guedes conhecia de sobra o frade do Outeiro para não reputar facil a tarefa de prendel-o. Acautelou-se, pois, requisitando, para ir a Cezár, uma partida de tropa de linha. E, tomada esta precaução, sahiu um dia da Villa da Feira com destino á casa do Outeiro.

Fez cercar o edificio, e passou-lhe busca. Frei Simão não estava, por mero acaso, porque o frade olhava pouco á sua segurança individual.

As irmãs ficaram muito assustadas com a presença do corregedor e da tropa. Quando frei Simão recolheu a casa, pediram-lhe, exoraram-n’o a que tivesse mais cuidado em si. O frade ria do mallogro casual da busca, mas, a instancias das irmãs, e para tranquillisal-as, prometteu lhes que d’ali em deante tomaria maior cautela.

Mourão Guedes não gostou nada de ter espantado inutilmente a caça. Era de suppôr que, depois d’aquelle mau exito, frei Simão se preparasse para baldar uma nova tentativa de captura. Ou se entrincheiraria para resistir, hypothese consoante á sua tradição de valor, ou se homisiaria, o que daria em resultado o comico mallogro de uma segunda tentativa.

Reflectindo, achou que era melhor renovar a diligencia, mas abster-se elle proprio de tomar parte n’ella.

Chamou, portanto, ao seu gabinete o major do regimento de milicias da Villa, João Francisco Pinheiro, e encarregou-o de ir a Cezár, com um batalhão do seu regimento, capturar o frade.

—Se frei Simão não apparecer, disse Mourão Guedes ao major, é preciso cobrir a infelicidade da sortida apprehendendo os papeis politicos e causando a maior somma de prejuisos, que fôr possivel.

O major entendeu, e marchou com o batalhão para Cezár.

A unica prevenção de frei Simão de Vasconcellos limitava-se a pernoitar na habitação do caseiro, proxima ao solar.

O batalhão, que tinha sahido da Villa da Feira durante a noite, cercou ao romper da manhã a casa do Outeiro.

Frei Simão viu a tropa, pegou na escopeta, e preparou-se para sahir.

—Que faz Vossa Reverencia? perguntou-lhe, muito afflicto, o caseiro.

—Pensas então que me hei de deixar apanhar como um coelho na tóca? replicou o frade aperrando a arma.

—Mas podem matal-o, senhor!

—Tudo leva as mesmas voltas. Elles, depois de terem dado busca a toda a casa, procurar-me-hão em todas as dependencias da quinta, e achar-me-hão aqui. Isto não falha. Ora da prisão á forca não dista mais d’um passo. Sei o tempo em que vivo, e a gente com que estou. Vou fugir, para salvar a vida. Se me matarem, tanto monta que seja hoje como ámanhã. Elles juraram-me pela pelle. Encommendo a minha alma a Deus, que espero perdoará os meus peccados.

E abriu a porta. Dados alguns passos, encontrou dois milicianos, dos que constituiam o cordão do cêrco, e que se abrigavam, escondidos, detraz de um pequeno muro.

—Quem se mexer, morre! gritou frei Simão, mettendo a arma á cara.

Os dois milicianos ficaram tomados de assombro deante do frade, cujo valor conheciam. Frei Simão passou por entre elles, empurrando-os com violencia; e, saltando rapidamente o muro, desappareceu.

Quando os milicianos se recobraram do assombro d’aquella resistencia heroica, já se não via o frade. Ouviram-se ainda alguns tiros, disparados pelos soldados, mas foram perdidos.

O major Pinheiro ficou desesperado com a fuga de frei Simão, que o batalhão perseguiu, mas não encontrou.

Tratou, ao menos, de cumprir a segunda parte do programma.

Todos os objectos de valor, incluindo as alfaias da capella, e o proprio calix de que frei Simão se servia quando dizia missa, foram carregados n’um carro, e conduzidos para S. João da Madeira.

N’um armario encontraram os soldados alguns pergaminhos de familia e titulos antigos, a que o major não reconheceu interesse politico. Por isso, limitou-se a mandal-os queimar n’uma grande fogueira, que se accendeu no pateo da casa.

Os absolutistas de Cezár enraiveceram-se com o desastre d’esta segunda expedição. Ignacio da Fonseca foi ao Porto pedir ás justiças que promovessem uma terceira diligencia, que, por mais apertada, pozesse termo ás zombarias de frei Simão.

D’ali a dias, o corregedor Mourão Guedes recebia na Villa da Feira ordem para colhêr ás mãos o frade de Cezár, _vivo ou morto_. Era quasi uma censura á inefficacia da sua perseguição.

Estava-se em maio de 1829, no auge das represalias sangrentas. Um forte destacamento de policia do Porto foi mandado expressamente á Villa da Feira para proceder á captura de frei Simão de accordo com uma companhia de milicianos.

O frade, sempre destemido, estava em casa no momento em que a policia e os milicianos a rodeáram.

Vendo-os, saltou por uma janella para fugir. Uma cadellinha, muito sua predilecta, saltou após o dono. O frade, que vestia uma jaqueta de cotim azul e branco e levava uma arma na mão, deitou a correr. Os soldados fizeram sobre elle varios tiros, mas nenhum o tinha ainda alcançado. Na Serenada, uma das balas matou a cadella. Então frei Simão, indignado, voltou-se para traz, apontou a espingarda, e desfechou. Redobraram os tiros dos perseguidores, mas o frade, fugindo sempre, chegou a Villarinho. Ahi um dos tiros alcançou-o pelas costas. Frei Simão tentou proseguir na carreira, mas as forças faltaram-lhe. Estava ferido. Encostou-se a uma arvore para não cahir: o sangue repuxava a jorros da ferida, escorrendo pela jaqueta.

Foi-lhe dada voz de prisão.

O commandante do destacamento, que era um official de milicianos, mandou procurar um carro para conduzir o preso á Villa da Feira.

N’este momento appareceram, correndo em grande afflição, D. Maria Albina e o criado Francisco Marques.

Foi o Marques quem alvitrou ao commandante que, transportado em braços o ferido até á casa do Outeiro, poderia um carro da casa ir leval-o á Villa da Feira.

Assim se resolveu. Pelo caminho, frei Simão ia perdendo muito sangue. Quando o ferido chegou ao Outeiro, onde as outras irmãs o receberam chorando angustiosamente, e emquanto se apparelhava o carro, frei Simão pediu um confessor. Julgava-se em artigos de morte.

—Deixemo-nos de historias! respondeu desabridamente o commandante.

O frade replicou com extranha energia:

—Se me não derem um padre, confessar-me-hei a uma pedra.

O official encolheu os hombros, e disse:

—Isso de pressa, que não ha tempo a perder.

Sahiram um criado e dois milicianos á procura do primeiro padre, que apparecesse.

Nem o abbade nem o padre Antonio Pinheiro estavam em casa. Apenas appareceu o padre José Pedro, da Herdade, que era um dos adversarios politicos de frei Simão.

Os milicianos, apenas o viram, intimaram-n’o a acompanhal-os.

Frei Simão, quando o viu entrar, tornou a dizer:

—Se me não dessem um padre, confessar-me-hia a uma pedra.

Queria decerto significar, com a repetição da phrase, que não via no adventicio o adversario, mas unicamente o sacerdote.

A confissão foi interrompida, porque, sendo muito abundante a hemorrhagia, frei Simão teve uma demorada syncope.

—Sr. official, disse D. Maria Albina ao commandante, meu irmão, n’este estado, vai morrer pelo caminho.

—Mas eu tenho instrucções para o levar vivo ou morto.

—Morto de pouco pode servir á justiça, que o mandou prender, respondeu D. Maria Albina.

—Tambem é verdade... disse o official. Vou mandar uma ordenança á Villa a pedir instrucções.

Foi a ordenança e, passadas algumas horas, voltou com um officio em que o corregedor Mourão Guedes dizia ao commandante que guardasse bem o preso até ao dia seguinte, porque o doutor Pedro José Corrêa Ribeiro iria logo pela manhã a Cezár para informar do estado de frei Simão.

Durante a noite, o frade, recostado n’uma cadeira, por não poder conservar-se deitado no leito, agitava-se em dolorosas convulsões, e tinha vomitos de sangue.

A ferida, que, junto á columna vertebral, atravessava a região superior do thorax, sangrava copiosamente. A clavicula esquerda estava quebrada, e o braço paralysado.

Frei Simão disse a D. Maria Albina:

—Não me satisfez a confissão, que fiz ao padre José Pedro. Peço á mana que mande chamar o abbade ou o padre Antonio Pinheiro. E diga-lhes que tragam os sacramentos, que me quero preparar para morrer.

O abbade Moreira Maia tinha ido n’esse dia pela manhã para Oliveira de Azemeis. Foi o padre Antonio Pinheiro que levou o viatico a frei Simão.

Padre Antonio entrou muito pallido. Ordenou aos soldados que se affastassem, emquanto ouvia de confissão o ferido. Ajoelhou-se, muito trémulo, junto á cadeira de frei Simão, e inclinou o ouvido á bôca do frade.

A confissão não durou mais de vinte minutos.

Em seguida, padre Antonio ministrou a communhão ao ferido.

Frei Simão disse-lhe com voz sumida pelo cansaço:

—Muito obrigado, sr. padre Antonio.

Na physionomia de padre Antonio Pinheiro lia-se, n’esse momento, um mixto de consoladora surpresa e de compaixão dolorida, que lhe dulcificava a pallidez da commoção.

As irmãs do frade velaram toda a noite junto á cadeira do ferido, que já consideravam moribundo. Frei Simão arquejava, com os olhos fechados. O sangue manchava as compressas, logo que eram postas com mais dedicação do que sciencia pelas pobres senhoras.

Alta noite, o frade poude reconhecer a voz de Anninhas como sendo de uma das pessoas que velavam a seu lado.

Moveu, com difficuldade, o braço direito, unico que lhe restava illeso, e tocou com os dedos, muito ao de leve, a cabeça da irmã.

—Minha pobre Anninhas! disse elle anciadamente. Minha pobre Anninhas!

E cahiu por algum tempo em maior e mais atormentada prostração.

Padre Antonio Pinheiro, entrando na abbadia de Cezár, ia tão pensativo, que Gertrudes Magna não ouzou perguntar-lhe logo se o frade do Outeiro já tinha morrido.

O padre recolheu-se ao seu quarto, e fechou-se por dentro.

A tia foi algumas vezes espreital-o pela fechadura da porta: ouvia-o rezar, se era que não estava fallando só.

Á hora da ceia, Gertrudes Magna atreveu-se a chamar o sobrinho.

—Não queres hoje cear, Antonio? perguntou ella.

O padre abriu a porta, procurou ageitar um sorriso, que nasceu triste, e respondeu:

—Não, minha tia; quero apenas um copo d’agua.

A velha deu alguns passos no corredor, mas voltou atraz e perguntou:

—O que me dizes tu de frei Simão? Corre por ahi que já morreu...

—Não tinha morrido quando eu de lá vim, mas está para isso.

—Acaba o seu tormento. Deus o vae julgar.

—A justiça de Deus, replicou o padre, é menos cega que a dos homens. Não fallemos de frei Simão, não falle d’elle, minha tia, sobretudo para fazer côro com a demencia das paixões politicas.

Padre Antonio estava visivelmente impressionado pela confissão do frade. Mas não nos é dado saber ao certo os motivos da sua commoção: só elle os conhecia, e não os podia revelar.

Logo pela manhã chegou a Cezár o doutor Corrêa Ribeiro, que a muito custo poude suspender a hemorrhagia.

Declarou elle por escripto que frei Simão não se encontraria em estado de ser transferido para a Villa da Feira antes de trez dias, pelo menos. A sua vida corria imminente perigo.

A pedido das irmãs do ferido, o doutor Corrêa Ribeiro ficou em Cezár.

E ao cabo de alguns dias, mais de trez, elle proprio e D. Maria Albina acompanharam o carro de bois em que o frade foi condusido á cadea da Villa.

XX

Nas garras da vingança

O odio e a vingança de inimigos pessoaes punham um innocente a dois passos do patibulo ou ensinavam-lhe o caminho dos presidios africanos

Latino Coelho—«Elogios academicos» tom I.

A cadea da Villa da Feira subsiste ainda hoje tal como era no tempo em que ali esteve preso frei Simão de Vasconcellos.

Fica na Praça, a meio da qual se levantava então o pelourinho, agora substituido pelo chafariz, que pertencêra ao convento dos Loyos.

A cadea, certamente construida no seculo passado, é um casarão de dois andares, não contando as janellas lateraes á dupla escada de pedra, que dá accesso ao edificio.

Em cada andar, quatro janellas por banda, gradeadas de ferro. O ultimo tem a meio o sino, e nivela-se com o predio contiguo, de que era então proprietario o irmão do conde das Antas[3].

A cellula que frei Simão occupou era a do ultimo andar, encostada ao predio visinho. Tinha, como as outras, um forte tecto de castanho, e solidas paredes.

No dia da chegada do frade, toda a população da Villa da Feira se alvoroçou e reuniu na Praça para o vêr. Comquanto fosse rara a semana em que não entrasse na cadeia um preso absolutista, a lenda que se fizera em torno do nome de frei Simão de Vasconcellos excitava vivamente a curiosidade, dando ao facto da sua prisão um interesse excepcional.

Toda a gente desejava vêr esse destemido frade, que tanto custára a cahir no laço, e do qual se contavam proezas de extraordinario valor.

A população reuniu-se não só na Praça, em frente da cadeia, mas ainda se espraiava em grupos pela estrada de Cezár, até grande distancia.

O aspecto da multidão, na Praça, chegava a ser pittoresco, posto que nos trajes das mulheres e dos homens uma côr unica predominasse,—o vermelho, côr garridamente festiva e, n’aquella occasião, triumphal. Era a côr symbolica do absolutismo, adoptada nos lenços das mulheres e nas gravatas e topes dos homens.

O dia estava magnifico de sol, a primavera aquecia, illuminava a encosta viridente do Castello, que desde a Praça se avistava pela embocadura da rua Direita, como um bello panno de fundo. O alcáçar moirisco, todo afogado em héra, recortava sobre a frondosa matta, que o rodea, as suas quatro torres, de corucheos pyramidaes, muito elegantes, rematados em tulipas de granito.

Nos grupos fallava-se a respeito de frei Simão e, comquanto se fizesse justiça ao seu valor, a impressão geral era d’alegria, por ter cahido nas garras da justiça um tão perigoso absolutista, que, além de preso, estava gravemente ferido, isto é, inutilisado.

—Vocês, dizia, no seu grupo, um popular, conhecem o Ignacio Brandão, de Roussas?

—Muito bem!

—Pois o frade sempre era homem, que lhe metteu medo! Haverá agora trez semanas, passava o frade em Santa Marinha, uma legua de Arouca, pouco mais ou menos. Ahi vem o frade! disse o Brandão vendo-o a pequena distancia. E metteu a arma á cara, para lhe atirar.—Sou eu, respondeu o frade; atira. Pois não atiraste! Sabem vocês o que fez o Brandão? Largou a arma, e deitou a fugir!

—E em S. João da Madeira o que aconteceu com os homens que andavam na segada! dizia outro popular.

—E quando elle foi a Macieira de Cambra, sósinho, bater n’um homem! accrescentava ainda um terceiro popular.

—O frade tinha o diabo no corpo, Deus me perdõe! exclamava uma mulher.

—Tinha, mas foi apanhado, com uma chumbada na aza: é passaro que já não foge, apesar de bisnau.

—Quem avisou agora o commandante do destacamento, de que elle estava com certeza na casa do Outeiro, foram as cunhadas do Jorge e o Canedo de Vermelhinho.

—Ora adeus! quem lhe preparou bem o laço foi o Ignacio da Fonseca.

—Olha! lá vem a madama, com uma bilha d’agua na mão. É para o quarto do frade, certamente.

Referiam-se a madame Cadillon, mulher do carcereiro, Francisco Antonio das Neves, o da Travessa. Era uma franceza, que tinha ido para a Villa como criada de um juiz de fóra, e que depois casára com o carcereiro, estabelecendo no Rocio uma estalagem.

Effectivamente madame Cadillon tinha sido encarregada, pela familia do Outeiro, de mobilar o quarto de frei Simão, não se poupando a despezas.

Quando o carro que conduzia o frade appareceu no topo da estrada de Cezár, toda a multidão se condensou em tropel para esperal-o na passagem.

O carro vinha coberto, de modo que frei Simão só poude ser visto na occasião de o tirarem em braços á porta da cadeia.

—O homem vem por um fio! commentava-se.

—Parece moribundo! Este já não chega a ir á forca...

—Elle vem tão mal, que trouxe o medico comsigo!

—E uma das irmãs para enfermeira! Olha! lá vae ella a subir agora as escadas.

Effectivamente, o estado de frei Simão continuava a ser muito grave.

Logo que elle chegou á cadeia, o doutor Corrêa Ribeiro mandou chamar o cirurgião Soares de Albergaria para conferenciarem sobre o tratamento a seguir.

Combinou-se que, passados alguns dias de repouso, se sondasse a ferida com o estilête, o que até ali não tinha sido possivel fazer pelo receio de avivar a hemorrhagia.

D. Maria Albina ficou na Villa, hospedada na estalagem da Franceza, para assistir ao curativo do irmão, uma vez por dia, o que o doutor Correia Ribeiro pudera conseguir, por o julgar indispensavel, segundo requerêra e attestára.

Na casa do Outeiro passava-se, na ausencia de frei Simão e de D. Maria Albina, uma vida solitaria e triste, sempre alvoroçada pelo receio de provaveis aggressões e perseguições.

Os visinhos estavam victoriosos, triumphantes. Todas as vantagens da occasião eram d’elles. Não se sabia quando frei Simão poderia recuperar a liberdade, nem mesmo se chegaria a recuperal-a. O futuro era, para aquella familia, uma duvida atroz.

D. Anna e D. Antonia não sahiam de casa, nem fallavam com qualquer pessoa extranha. Francisco Marques cumpria pontualmente as ordens de frei Simão. Como um Cerbéro, um cão de guarda, vigiava, noite e dia, as duas senhoras que lhe haviam sido entregues. Sempre receioso de alguma investida dos visinhos, dormia sobre uma esteira, com uma escopeta á mão, no corredor sobre o qual abriam as portas dos quartos interiores.

Os outros criados tambem não se deitavam nunca sem primeiro ter verificado a segurança das fechaduras e ferrôlhos, e se as espingardas, sempre carregadas, estavam no seu logar.

Anninhas era a mais triste e apprehensiva das pessoas da casa. Comquanto continuasse a ignorar a desgraça de José Maximo, inquietava-se com a falta de noticias de Coimbra.

Sentia-se fatigada, tinha de interromper muitas vezes a costura por lassidão nos braços. Lastimava-se. Perdêra o apetite e o somno.

O Marques ouvia os queixumes da «sua querida menina» e dizia-lhe, por serenal-a, que sabendo naturalmente o sr. José Maximo o que tinha acontecido a frei Simão, não quereria escrever para o Outeiro na ausencia do chefe da familia, porque o fazel-o poderia parecer abuso de confiança ou falta de respeito.

Ella ouvia-o melancolica, mas as palavras d’esse bom amigo não conseguiam apagar as suas apprehensões e duvidas, por igual inquietadoras.

Um dia, pela manhã, a familia do Outeiro foi surprehendida por um agudissimo grito, de uma expressão de dôr dilacerante, que partira do quarto de D. Anna.

Todas as pessoas da casa acudiram espavoridas, e foram encontral-a de pé, com o braço direito agitado por um tremor nervoso, os dedos da mão justapostos e ligeiramente curvos, a cabeça pendida mas firme, o olhar cadente e spasmodico, a physionomia paralysada n’uma immobilidade de estatua.

No chão, a pequena distancia, viram um papel aberto. Apanharam-n’o, e leram-n’o.

A lettra e a orthographia revelavam um disfarce grosseiro. O texto do papel dizia:

«José Maximo foi um dos estudantes de Coimbra que mataram os lentes em Condeixa. Anda fugido e a sua cabeça vale muito dinheiro a quem o entregar morto ou vivo. Se não sabiam esta grande novidade ficam-n’a sabendo agora, para seu regalo, porque foi essa maldita raça de pedreiros-livres do Outeiro que o perdeu. Lá se foi um casamento pela agua abaixo. Deus escreve direito por linhas tortas.»

Tratou-se de averiguar como esse papel fôra parar ás mãos de D. Anna de Vasconcellos. Quem lh’o entregou? como chegára até ali?

Uma criada lembrou-se de ter visto pela manhã, quando ia soltar as aves, um pequeno papel entalado debaixo da vidraça na janella d’aquelle quarto. Pensou que a menina o deixaria ali por qualquer motivo ou que ali teria ficado casualmente, quando o deitasse fóra. N’uma palavra, não ligou importancia ao facto.

Francisco Marques chegou a suspeitar da cumplicidade d’essa criada ou de qualquer outro serviçal. Mas, proseguindo em averiguações, descobriram-se as pégadas de alguem que tinha de noite saltado o muro para ir collocar o papel na janella.

A honra dos criados estava salva, e era facil atinar com a origem do maldito bilhete. Viera de casa de Ignacio da Fonseca, o visinho que mais podia interessar-se n’uma vingança, que aliás representava a desgraça do sobrinho. Pouco lhe importaria isso: o prazer da vingança era indispensavel ao seu coração rancoroso. Se não bastasse esta circumstancia, que cabalmente explicava a proveniencia do papel, accresceria ainda a de serem os criados de Ignacio da Fonseca os que, por mais proximos visinhos do Outeiro, melhor conheciam os cantos á casa. Quem foi collocar o papel n’aquella janella, sabia perfeitamente que era ali o quarto de Anna de Vasconcellos.

Muito afflictas, as pessoas da casa trataram de soccorrer a pobre menina, que, convulsionada na oscillação rythmica dos braços, não fallava: os labios premiam-se um contra o outro violentamente.

Dir-se-hia que esse extranho grito, que estrugira como um silvo, fizera estalar todos os musculos da larynge, todas as cordas vocaes de D. Anna de Vasconcellos.

Pediram-lhe que se deitasse para descançar algum tempo. Ella tentou andar mas hesitou, n’uma dolorosa perplexidade. Instaram, supplicaram. Deu então alguns pequenos passos, curtos e incertos. Depois precipitou-se n’um impeto de propulsão, perdendo o equilibrio.

O Marques amparou-a a ponto, tomou-a amoravelmente nos braços, foi recostal-a no leito. Mas o tremor, o spasmo e a mudez continuavam ainda.

Partiu um criado para a Villa da Feira a chamar o doutor Correia Ribeiro.

Quando o medico chegou a Cezár, cahia a noite. Contaram-lhe o que se tinha passado. Correia Ribeiro, depois de ter observado attentamente D. Anna de Vasconcellos, disse que a causa da doença fôra a commoção moral. Diagnosticou de _tremor nervoso_. Tinha já visto outros casos na sua clinica. Mas notou certas differenças alarmantes. Expoz que em geral as pessoas atacadas eram maiores de quarenta annos; que a marcha da doença costumava ser lenta, progressiva, e terminar ou por complicação de uma affecção intercorrente ou, na velhice, por esgotamento nervoso; que os doentes fallavam ainda que com difficuldade, custando a pronunciação de cada palavra um esforço consideravel da vontade.