A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 9
Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois «a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».
Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».
«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma, as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da egreja.
Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época, estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo «podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor. Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».
«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados. Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra, para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias estranhos a toda a concepção religiosa».
A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo não podem exercer os seus direitos».
O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como sempre fôram os instinctos da humanidade».
E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois _assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que como seres de livre e espontânea vontade».
Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor _moral_». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo, mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos _apetites_ da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos princípios, não podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos que, quando o factor _material_ começou a apossar-se de Roma, e o dever com o povo se reduziu a dar-lhe _pão e jogos_, Roma e o seu povo apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada, precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil que separa dos princípios o bem-estar material».
São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma revolução é a passagem de uma ideia da _teoria_ à _prática_. Digam os homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem a sua origem no espírito, nas próprias raizes da _vida_; não no corpo, no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição histórica da humanidade».
Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão _tornando-se, êles mesmos, melhores_; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão _merecendo-os_ pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm êsses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar, abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista. Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era _materialismo_».
As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a considerá-la uma triste _necessidade_, e deixam às gerações futuras o cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão da _situação económica_ e do que deva substituí-la em uma sociedade bem organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram? Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome de _interêsses_. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».
A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor, quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».
O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».
Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para Mazzini, era por igual essencial e simples.
«Cristo disse:--«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com afeição fraterna». E disse tambêm:--«Entre vós será o primeiro aquêle que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a perfeição podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos».
«Toda a revolução social é essencialmente _religiosa_. Toda a época tem a sua _crença_. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o _sentimento religioso_, é desconhecer a significação dessas palavras, querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».
Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens, arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do dever, santa, inexorável, dominante».
«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e distribuição».
«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito--que os outros cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual, destituiu de fecundidade êste _princípio_ baseando-o, não sôbre um dever comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um designio providencial, não sôbre o laço que une o _indivíduo_ à humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples _convenção_, confessada ou subentendida».
«Carecemos de ensinar não o _direito_, mas o _dever_, acordar para melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da terra».
«Três cousas eram sagradas--tradição, progresso, associação».
A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia, chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».
O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É _pensamento_ e _acção_. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse, não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que aceitasse a paz sem honra»[9].