A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 8
Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal. Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.
Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.
O Cavador e o Profeta
Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos bordões da humildade.
E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras, e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da pobreza.
Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses malfadados passos.
Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua conseqùência.
Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e servidores.
Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não se afreimava.
Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais penetrante arte de persuadir.
Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.
Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.
--«Porque?»
--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».
E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe outra cousa.
Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.
Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.
Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência de todos os instinctos na suma vibração das suas energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito misterioso.
Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou capaz de saber.
Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre de sangue o mundo?
--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita, quer comer sem trabalhar».
Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, _caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores, andam-lhes inimigos na fortaleza.
Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos para a guerra».
Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única visão?!...
Aparições
Mazzini
É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de uma fortuna fácil e prolongada.
Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou, sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos cara, e esperança da glória a que nos conduzem.
Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa o nome de Mazzini.
Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.
Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.
Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.
Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...
Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si, independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.
Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia». Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto, de todo perturbaram a fortuna da Europa.
Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder, viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso único dever».
A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S. João, c. X, ver. 16)».
A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento, opressão e anarquia».
A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.
«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»
Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a _instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».
Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver toda a verdade que nela se encerra.
«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo, mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_».
«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material, tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude republicana».