A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 7
Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois processos.
Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel? Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes, e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.
Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e em bem das suas nações».
Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem, nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário, merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos povos. Pressupõem um _status quo_ que se mantem, não simplesmente, como o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».
O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa, daquilo que podemos chamar o _princípio da República_, do grande princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento das mais antigas lealdades».
«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais altas do que os seus interesses seccionais--as exigências de direitos civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7].
Eis aí a lei suprema da história--a preponderância da actividade interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.
Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo, será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou roubar o seu domínio.
Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir. Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças, conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis, que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as nações.
Da arte de gastar e suas responsabilidades
«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos.
«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por que hão-de usar êsse poder.»
A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.
Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer «a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.
Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com uma dolorosissima evidência.
O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.
E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente? Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades, disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram inaptos para outras profissões?
A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.
A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos emprego a muitos braços.
Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro, cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades, compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a produzir.
Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick, «crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos. No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital (incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_ dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão arruinados».
De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas supérfluas de que hão-de viver?...»
«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem, a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada; mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom resultado.
«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».