A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 6
Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado _O Sermão da Montanha e a Política prática_. Pretendia que «não podemos realizar imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas pelos que adoram Mamon e Belial».
Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do século desenove--o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das doutrinas e das instituições políticas?
Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores, seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à disciplina e conduta da vida.
Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra. Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os trabalhadores não podiam livrar-se.
Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática, medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas.
Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja suficiente para a substituir.
Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr termo a esta peste da guerra, _não há senão um remédio_, e é «o geral abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos, ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.
Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros, negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo; apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho destas avidas e deshumanas ambições:--tais são os fins das guerras de hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós, porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que nós espoliamos.
«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].»
Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre--uma derrogação do princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de resurreição nos anunciam.
Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.
Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Ilusão_, largamente comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e renovado no _Prussianismo e a sua Destilação_, isso bastava para que a paz e a guerra fôssem um pleito findo.
Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia, tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião; debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade, quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático, socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade, como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a associação atravessa os limites dos estados, que são puramente convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nação, ou em desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da vida».
Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os desenvolvimentos de uma geração?».
Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos, devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater, cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e decaíndo, continuamente se sustenta.
De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca, promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».
A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão económica--usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália, eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais. Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça universal em todo o sentido.
Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar êsse prodigioso renascimento.
Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!... Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?
Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadência de Roma_, diz-nos no último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta; interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».
Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. Dedicado à _Workers' Educational Association_, e por isso posto em termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.