A Guerra: Depoimentos de Herejes

Chapter 5

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Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a moralidade internacional e que é realmente a moralidade intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular, são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»

Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia. Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba, mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à voracidade insondável das oligarquias mercantes.

Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver nobremente, em paz e dando a paz.

Um artigo do _Daily Chronicle_, procurando as razões por que a Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se «nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem anos.

«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade governados pela opinião pública.»

E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica, conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.

Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos, jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.

«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado para abençoar as armas, respondera:--«Dou a minha benção à paz.» E um arcebispo--_alterius orbis papa_--solenemente declarava toda a guerra «obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu foi uma civilisação que não era cristã»[5].

Romain-Rolland, nos artigos que publicou no _Journal de Genève_ e correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios «tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz, sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:--Não matarás e amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte, segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»

Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo, porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se associou, atiçando-o em vez de o apagar.

Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade.

Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas, mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência, pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção; não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois, trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos dias de descanso das fadigas profissionais:--as igrejas, no geral, decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção.

«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento, a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa, sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores horrendos de desapiedadas cobiças.

Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura surgem--o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião, não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora presente.

De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente, imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a obsecação de sectarismo.

A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos, caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento», significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade. Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu--«aquela qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo, acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si. Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.

«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.»

São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar.