A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 4
Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos, esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, só com a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.
Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus trágicos horrores.
Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e seguro nas conquistas.
Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um profundo _peccavi_ cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria. Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.
Revisão de valores
O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se conhece história, um assassino cruel e sordido.
Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos, fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada honestidade.
Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que gloriosa para a dignidade.
Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a apontar, e êsse de incalculável magnitude--a amizade em que no dia de Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para outros combates.
Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das raças e das nações--não porque a suprime, mas exactamente porque, reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos separar e tornar inimigos.
Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das mulheres e das crianças até à ruina das catedrais--que jámais poderão ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!--os menos desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma obra de extermínio.
O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos, corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas, podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais; o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». «O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado. Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver, que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da pobreza, da embriaguez e vicio».[4]
Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--miséria e orgulho dos govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações, isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pública das suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas anteriores.
Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus beneficios e seus males e agravos.
Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, _O Camelo e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradação que a posse da riqueza importa, e a _Decadência da Aristocracia_, onde pôs a claro a fraqueza da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou _Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros_. Aí procurava acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios próprios para se exprimir no governo da nação».
Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um redactor de _The Christian Commonwealth_, pôde renovar o seu pensamento com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado por factos de uma trágica evidência.