A Guerra: Depoimentos de Herejes

Chapter 3

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Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência, determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.

Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para durar--Oliveira Martins.

A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade, perdoando-lhe os agravos.

Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de injustiça.

Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.

Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.

O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.

O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.

Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo.

Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos dominavam e turbavam--dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.

Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.

Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.

Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.

Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças--estes homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».

«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.

E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».

O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina política do mundo--a doutrina do estado predatório como encontrou a sua expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como Roma nunca possuiu».

«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação mais alta.

Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição universal--isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.

Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na imprensa--e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.

De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.

Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate, incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.

Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora erguida em dourados baluartes.

Facto singular e notável--há muito a Alemanha se queixava de pobreza de homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.

Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de lhes restituir, na educação das novas gerações.

Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a energia.

A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da necessidade e benefícios das guerras.

No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a _grande ilusão_; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.

Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da subsistência dessa doutrina de morte.

Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo--facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.