A Guerra: Depoimentos de Herejes
Chapter 10
Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias, divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade, dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou, póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática, um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas, contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes senão anatemas.
Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo. Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se desfaz.
Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias, cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre tinhamos a dar contas.
Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto, sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia, escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.
Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.
FIM.
[1] Artigo do _Manchester Guardian_.
[2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de Moscou, no _Hibbert Journal_.
[3]_Millgate Monthly_, março de 1915. Notícia de um discurso de Oliver Lodge, em Bradford.
[4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity Press, 1915.
[5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford University Press, 1914).
[6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em _The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914.
[7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson, Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912). Pag. 374 e seg.
[8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contêm versões dos escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro que é a narração da sua vida e a crítica das suas doutrinas, intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses dois volumes constituem só por si uma lição moral e política e uma inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às letras pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão desiludidas das seguranças e presunções materialistas que encontram no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos horizontes para que se encaminhem.
[9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6.
Indice
Prologo
Convulsões dum enfêrmo
Ganhos e perdas
Revisão de valores
Da arte de gastar e suas responsabilidades
O Cavador e o Profeta
Aparições
DO MESMO AUTOR
_Vozes do meu lar_, 1 vol.
_Na paz do Senhor_, romance, 1 vol.
_Reino da Saudade_, romance, 1 vol.
_Via Redentora_, 1 vol.
_Apostolos da Terra_, 1 vol.
_Sonho de Perfeição_, romance, 1 vol.
_S. Francisco d'Assis_, 1 vol.
_José Estevão_, 1 vol.
_Alexandre Herculano_, 1 vol.
_Rogações de Eremita_, poemetos em prosa
_Salmos do Prisioneiro_, 1 vol.