A gravura em Portugal: breves apontamentos para a sua história

Chapter 1

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SEPARATA DO BOLETIM DA Real Associação dos Architectos Civis e Archelogos Portuguezes

A GRAVURA EM PORTUGAL

Breves apontamentos para a sua historia

POR

F. M. de Sousa Viterbo

Proprietaria e editora, a Real Associação

LISBOA Typ. da Casa da Moeda e Papel Sellado 1909

SEPARATA DO BOLETIM DA Real Associação dos Architectos Civis e Archelogos Portuguezes

A GRAVURA EM PORTUGAL

Breves apontamentos para a sua historia

POR

F. M. de Sousa Viterbo

Proprietaria e editora, a Real Associação

LISBOA Typ. da Casa da Moeda e Papel Sellado 1909

A GRAVURA EM PORTUGAL

Breves apontamentos para a sua historia

A historia da gravura em Portugal encontra-se embryonaria na _Collecção de memorias_ de Cyrillo Volkmar Machado e na _Lista de alguns artistas_ do patriarcha D. Fr. Francisco de S. Luiz (Cardeal Saraiva). Rodrigo Vicente d'Almeida colheu, durante annos, numerosos subsidios, que andava coordenando para dar ao prelo, quando a morte o surprehendeu. A Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro trata de preencher a lacuna, e muito grato lhe deve ser o nosso paiz, pela publicação do catalogo dos retratos colligidos por Diogo Barbosa Machado, catalogo que abrange não menos de 1.980 numeros. E, como se isto não bastasse, a mesma Bibliotheca, por intermedio de alguns dos seus intelligentes funccionarios, está dando a lista das producções dos gravadores, iniciando a serie por Debrie.

A nossa Academia de Bellas Artes possue uma valiosissima collecção de gravuras, as quaes, ascendendo a 4.000, estavam até ha pouco a monte, sem que pudessem ser consultadas pelos estudiosos. O sr. Luciano Freire, secretario da mesma corporação, deu-se ao improbo trabalho de as catalogar, e quando esse catalogo se imprima, de certo se encontrará nelle um inapreciavel thesouro de informações.

No _Jornal do Commercio_, n.^o 11.428 de quarta-feira, 6 de Janeiro de 1892, publiquei um artigo, que transcrevo agora aqui, com algumas correções e additamentos, o qual fórma o 1.^o paragrapho ou capitulo destes ligeiros estudos, que não têem outro merecimento senão o de serem uma pequena contribuição para a historia da gravura em Portugal. As minhas circumstancias não me deixam aprofundar nem proseguir, quanto desejava, este modestissimo trabalho, que, oxalá, possa ainda assim offerecer alguma novidade ou indicação curiosa.

I

Tanto em Portugal como em Hespanha, grande numero de livros do seculo XVI apparecem ornamentados de gravuras, que julgo na maioria dos casos, de procedencia estranha, tão estranha como a arte typographica. Os primeiros typographos que exerceram a arte em Portugal foram estrangeiros e entre elles torna-se notavel, pelo extenso periodo em que manifestou a sua actividade, e pelo grande numero de obras que imprimiu, Germão Galharde, francez. Muitos livros deste impressor são adornados de estampas e outros têem tarjas em que se lê o seu nome. Estou persuadido que quasi todas ellas vieram de fóra do reino, havendo todavia algumas que seriam gravadas em Portugal. Assim neste caso parece-me estar o frontespicio da _Ley que dispõ quanto t[-e]po e onde hão de estudar os letrados_, impressa a 18 de janeiro de 1539. Numa das pilastras do portico estão as iniciaes F. D. que indicam por certo o nome do gravador, e na outra a data 1534. Este frontispicio, porém, já fôra empregado anteriormente nas _Constituições do bispado Devora_, impressas em 1534, para as quaes, sem duvida, fôra originariamente destinado.

Existe outro livro, impresso por Germão Galharde, que deve merecer toda a attenção, não só pelo seu valor historico e linguistico, mas ainda pelo seu valor bibliographico e artistico: é a _Coronica do Condestabre de Portugal_, de que ha duas impressões do mesmo typographo, uma de 1526, outra de 1554. Tanto uma como outra tem no verso do frontispicio a figura, de corpo inteiro, dum cavalleiro, que, Innocencio, não sei com que fundamento, diz ser de Nuno Alvares Pereira. Parece-me comtudo de phantasia. A segunda impressão contém, além d'aquella, outra gravura, que se encontra no fim da obra, antes da _Tauoada_, que está nos quatro ultimos folios innumerados. Bella estampa, que merecia ser reproduzida integralmente, com todo o escrupulo e fidelidade, como um dos mais importantes documentos da iconographia portugueza. Esta é que é muito possivel que fôsse executada em Portugal. No alto lê-se o seguinte distico:

_Esta he a figura do Conde estabre, ao natvral, qvando estava em religiam, no Carmo de Lisboa, onde jaz_.

Pela parte inferior.

_Epitaphius ad ipsius tvmvlum_.

Galharde publicou tambem em 1530 um livro classificado entre os de cavallaria, e que foi traduzido do francez em hespanhol por um nosso compatriota, rei d'armas de D. João III, Antonio Rodrigues Portugal. Intitula-se _Cronica llamada: el triumpho de los nueve preciados de la fama_, etc., e é adornado de gravuras representando os heroes biographados no livro, entre os quaes Bertran du Guesclin, o celebre aventureiro frances, que tão notavel papel desempenhou em Hespanha nas guerras fratricidas de Pedro o Cruel e D. Henrique.

Um gravador de innegavel merecimento do seculo XVI é Jeronymo Luis, que abriu o elegante frontispicio do _Sucesso do segundo cerco de Diu_, poema de Jeronymo Côrte Real, e o da _Historia da provincia de Sãcta Cruz_, em que deixou apenas as suas iniciaes. Ambos os livros são impressos por Antonio Gonçalves, o typographo que teve a honra de primeiro estampar os _Lusiadas_. Noutra obra d'este imprimidor, o _De Rebus Emanuelis_, de Jeronymo Osorio, ha um escudo de armas, que tem d'um lado a letra _A_ e do outro um _G_, iniciaes do typographo.

Citarei agora alguns livros, impressos em Portugal, de autores hespanhoes, os quaes todos se acham adornados com retratos. Um delles, o mais antigo, é a _Chronographia o reportorio de los tiempos_, de Jeronymo de Chaves, considerado infundadamente por alguns bibliographos como portugues. Imprimiu-a em 1576 Antonio Ribeiro, em Lisboa, e no frontispicio acha-se, numa gravura oval de madeira, o retrato do autor, similhante a outro que se encontra numa das edições hespanholas.

A volumosa obra poetica de Bartolomé Cayrasco de Figueroa, _Templo militante Flos sanctorum...._, foi elegantemente reimpressa em Lisboa, em folio, por Pedro Craesbeeck. A 1.^a e 2.^a partes comprehendendo 531 pag. tem o titulo enquadrado por 14 vinhetas representando scenas da vida de Christo e os quatro evangelistas. A data nelle exarada é de 1613, ao passo que no fim se lê 1612. No verso da parte inferior da ultima das 6 folhas preliminares innumeradas incluindo o frontispicio, ha o retrato de Cayrasco de Figueroa em moldura circular muito similhante ao da edição hespanhola, que Salvá reproduz. Tanto deste retrato como do antecedente, ter-se-iam aproveitado as chapas originaes, ou sómente os desenhos?

Na Bibliotheca Nacional de Lisboa encontrei o exemplar de uma obra, que até hoje tem passado completamente desconhecida, intitulada: _Tratado como se deven formar los quatro esquadrones, en que milita nuestra nacion Espanola_. É seu autor o capitão de infantaria Juan de Carrion Pardo, que a dedicou a D. João da Silva, conde de Portalegre. Foi impressa em 1595, em Lisboa, por Antonio Alvares. Traz dois retratos em busto (repetidos ambos) de militares, um dos quaes, o mais apparatoso, talvez seja o do conde de Portalegre, e o outro do autor. Não trazem indicações de quem os desenhasse e esculpisse.

O outro livro, finalmente, é de Francisco de Arce, intitulado _Fiestas reales de Lisboa_, e foi impresso nesta cidade em 1619 por Jorge Rodrigues. É um folheto em 4.^o de 26 paginas innumeradas, de que a Bibliotheca Nacional de Lisboa possue um exemplar incompleto. Acompanha-o um retrato em que se lê este distico: _En los cuarenta anos de mi edad el famoso Enrique me fecit_. Este retrato falta tambem no exemplar alludido e soube da sua existencia pela descripção que nos dá Gallardo no _Ensayo de una biblioteca_ sob o n.^o 233. O mesmo bibliographo nos descreve ainda outra obra de Francisco de Arce intitulada _La perla en el nuevo mapa mundi hispanico_, etc., impressa em Madrid por Juan Gonzalez em 1624, a qual traz igualmente o retrato do autor com esta legenda: _Portugal me copió en bronce ano 1629 en los 40 de mi edad_. Deve haver erro de data, sendo 1619 e não 1629.

Combinando as legendas dos dois retratos, sou levado a crer que o gravador pertenceria á nacionalidade portuguesa, ou era, pelo menos, artista que residia em Portugal. Quem seria, portanto, esse _famoso Henrique_, de cuja obra Francisco de Arce se mostrava orgulhoso? Eis ahi mais um artista desconhecido como tantos outros, de que não se encontra menção ou referencia nos tratadistas de arte portuguesa.

Não admira, porém, que assim aconteça, porque a mina apenas tem sido explorada á superficie. Aqui temos outro artista, incontestavelmente portugues, e que passou incognito aos seus compatriotas. É possivel que elle exercesse a maior parte da sua actividade no estrangeiro, mas isso não nos salva do labéo de ingratidão e esquecimento em que o temos deixado jazer. Chama-se elle Luiz Palma e apenas no _Dictionary of Painters_, de Michael Bryant, encontrei os seguintes traços, que bem pouco esclarecem a sua biographia:

--PALMA LUDOVICO, a portrait painter and engraver, of Volterra, noticed by Zany as living in 1650. There are eight etchings and a frontispiece to a work, in quarto, printed at Avignon in 1623, with the following title:

«_La voye de Lait ou le chemin des Heros au palais de gloire à l'entrée triomphante de Louis XIII en la cité d'Avignon, 1622_.»

The prints are inscribed: PALMA LUDOVICUS LUSITANUS F.--

Esta inscripção parece que não deveria deixar a menor duvida a Bryant sobre a naturalidade do nosso artista, que elle identificou com outro, homonymo, de Volterra. Consultando Zani para poder resolver as duvidas que se me offereciam e para averiguar se o pintor e gravador de Volterra seria uma entidade absolutamente differente, vi que a indicação do escriptor italiano é o mais secca possivel e deixou-me no mesmo estado de incerteza. Trabalharia o nosso artista em Volterra, e seria por isso considerado italiano? É uma simples hypothese, que póde muito bem ser que venha a confirmar-se, e quando não se confirme, é curiosa a coexistencia ou quasi coexistencia de dois artistas do mesmo nome, pois não repugna que o gravador de 1622 vivesse ainda em 1650.

O meu amigo e distincto bibliographo sr. Annibal Fernandes Thomaz, possue um exemplar da _Voye de Laict_, e a este proposito escreveu-me ha tempos o seguinte:

«Tenho á vista _La Voye de Laict_, Avignon, 1623, 4.^o, em que as estampas, incluindo um retrato de Luiz XIII, são assignadas:

Ludovicus Palma Lusitanus fecit. Ludovicus palma Lusitanus f.

O livro tem dois frontispicios, um gravado a agua forte, com o titulo impresso no centro e outro impresso. Nesse anno era Assessor em Avinhão mr. Pierre Joseph do Salvador, que indica origem portugueza ou hespanhola. É curioso debaixo do ponto de vista artistico, e bem merecia uma noticia.»

A _Voie de Laict_ é bastante rara e não a vejo mencionada em Brunet. No emtanto tenho-a encontrado descripta em diversos catalogos de vendas de livrarias francesas e inglesas. A descripção em todos parece uniforme, e só no da livraria de M. Martial Millet, Paris, 1872, é que, por lapso de certo, se designa 1622 como o anno da impressão.

O sr. Damasceno Morgand, livreiro de Paris, no seu catalogo relativo a junho de 1889, punha á venda um exemplar por 200 francos, annotando-o d'este modo:

«Ce volume fort rare et orné d'un frontispice est de huit planches fort remarquables gravées à l'eau forte par _Louis Palma_, artiste portugais. Ces planches qui se déplient représentent les arcs de triomphe, fontaine, palais, etc., élevés pour la cérémonie dans la ville d'Avignon.

«Portraits de Louis XIII et de Ch. de l'Aubepine, par Moncornet.»

Num catalogo de livros de valor, propriedade d'um _gentleman_, postos á venda em Londres, em dezembro de 1890, por intermedio de Sotheby, Wilkinson & Hodge, vem descripto outro exemplar sob o n.^o 116 do respectivo catalogo. A respeito das gravuras diz: _Portrait and large plates etched by Louis Palma, an artist unknown to Nagleor_. Acrescenta que a obra passou desconhecida a Brunet e Grasse, e que um exemplar da livraria Beckford fôra vendido por 53 libras e 10 shellings.

No n.^o 237 do _Catalogue de livres rares el précieux composant la Bibliothèque de M. Hippolyte Destailleur, architecte du gouvernement_, Paris, Damasceno Morgand, 1891, vem descripto outro exemplar. Ahi se annota:

«Ce volume fort rare est orné d'un frontispice, d'un portrait, et de huit grandes planches fort remarquables gravées à l'eau forte par Louis Palma, artiste portugais.»

Por todas estas citações se vê que o trabalho do nosso artista é geral e altamente considerado, bem merecendo o seu autor que lhe ponham o nome em relevo e o tirem do esquecimento em que até agora tem vivido.

Outro artista desconhecido, e que se nos afigura de grande merecimento, é o autor de um bello retrato de Diogo do Couto, que ornamenta a edição em folio das suas _Decadas_, publicada em 1736. Parece uma photogravura.

O exemplar onde vem este retrato pertence á selecta livraria que é hoje dos filhos do venerando juiz do Supremo Tribunal, o dr. Aguilar, bibliophilo apaixonado, como o seu parente conde de Azevedo, ambos fallecidos. É em papel especial, e ainda não se me deparou outro que se lhe possa comparar. Não sei tambem de nenhum que tenha aquella gravura.

O retrato parece-me de phantasia, muito differente do que vem na primeira edição das _Decadas_, que foi reproduzido no Catalogo de Salvá e ultimamente, em estampa separada, no _Circulo Camoneano_. O historiador português é representado muito mais moço. O retrato não valerá, pela similhança, como documento historico; mas, pelo primor da execução, valerá como notavel documento artistico. Está assignado, numa letra miudinha, quasi microscopica, e, a legenda diz o seguinte: _L. P. Massilli Vlyssip. Sculp. 1722_.

Será este Massilli português ou estrangeiro? Que significará aquelle _Vlyssip_? Que elle era lisbonense ou que executára a sua obra em Lisboa? Eis uma serie de perguntas, que surgiram, como era natural, no meu espirito, e a que me não julgo por emquanto habilitado a responder satisfatoriamente.

A proposito do _famoso Henrique_ que gravou o retrato de Francisco de Arce, citei o testemunho de Gallardo; chamarei outra vez a terreiro o autor do _Ensayo de una biblioteca hespanhola de libros raros y curiosos_. Sob o n.^o 2881 descreve elle uma obra de fr. Pedro de Maldonado, _Consuelo de justos_, impresso em Lisboa por Pedro Craesbeek, em 1600.

Esta obra, de que existe um exemplar na Real Bibliotheca da Ajuda, é muito interessante, ainda que não seja senão pela dedicatoria, em que se trata amplamente da vida e feitos de Mathias de Albuquerque.

O frontispicio d'este livro é lindamente gravado, segundo affirma o douto bibliographo hespanhol, que o descreve d'este modo:

«El frontis está letra y adornos dibujado y abierto com primor y delicadeza. El nombre del artista aparece al pie en letra gallarda, aunque casi microscopica: _Antonius Pintor Lusitanus exculp_.»

Aqui ha um ligeiro lapso. Em vez de Pintor deve lêr-se Pinto, e o artista é indubitavelmente o mesmo que gravou em cobre o frontispicio da Historia do insigne apparecimento de Nossa Senhora da Luz, de fr. Roque do Soveral, impresso em 1610, em Lisboa, pelo mesmo typographo que imprimiu o _Consuelo de Justos_. Esta estampa é assim rubricada: _Antonio Pinto Lusitano exculp_.

Fr. Pedro Maldonado, natural de Sevilha, era da ordem de Santo Agostinho, e residia no Convento da Graça em Lisboa. Nesta cidade publicou mais alguns livros, entre os quaes um, _Traça e exercicios de um oratorio_, impresso em 1609 por Jorge Rodrigues. O frontispicio todo gravado em chapa inteiriça de cobre a talho doce, foi feito expressamente para a obra, e traz ao centro um bonito medalhão com emblemas religiosos. Não apresenta o nome do artista ou artistas que o executaram.

II

A gravura é uma das artes em que mais abunda o elemento estranjeiro, como facilmente se póde verificar, percorrendo o Indice de gravadores do _Catalogo dos retratos collegidos por Diogo Barbosa Machado_, coordenado pelo sr. dr. José Zephyrino de Meneses Brum e publicado primitivamente nos Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, de que se fez uma tiragem em separado, em oito tomos ou fasciculos, o primeiro dos quaes impresso em 1893 e o ultimo em 1905.

No reinado de D. João V veiu para Portugal uma colonia de gravadores, quasi todos franceses, cujos trabalhos se observam em grande numero de obras publicadas naquella epoca, em que D. João V poz o sello da sua magnificencia.

No reinado de D. João VI foi attrahido de Londres a Lisboa, por convite do nosso governo, para dirigir a aula de gravura, annexa á Impressão Regia, o celebrado artista italiano Francisco Bartolozzi, de quem foram discipulos alguns gravadores de merecimento, como Gregorio Fernandes de Queiroz.

Antigamente eram muito vulgares os livros com frontispicios gravados, os quaes se pódem dividir em duas especies: uns formados por vinhetas soltas, que se podiam adaptar a diversas obras; outros feitos expressamente para uma só. A portada da primeira edição dos _Lusiadas_ repete-se em outros livros. Estas vinhetas eram geralmente de procedencia italiana, como se deduz do confronto entre obras publicadas nos dois paizes.

No seculo XVII, sobre tudo no dominio filippino, alguns gravadores, que exerciam a sua actividade em Hespanha, apparecem a rubricar com seus nomes, obras impressas em Portugal ou relativas ao nosso paiz, e o mais curioso é que quasi todos são flamengos. É possivel que alguns delles estivessem aqui de passagem, e até chegassem a estabelecer residencia temporaria, mas o mais provavel é que elles executassem em Madrid as encommendas que de cá lhe faziam os livreiros e autores.

Mencionarei agora alguns desses artistas, apontando os seus traços biographicos, assim como os trabalhos por elles executados, de que até agora obtive noticia.

a) _João Schorquens_.

Natural de Flandres e um dos melhores gravadores do seu tempo. Residiu em Madrid, onde entre os annos de 1618 a 1630, executou diversos trabalhos, de que Cean Bermudes faz uma resenha no tomo 4.^o do seu _Diccionario historico de los mas ilustres professores de bellas artes en Espana_, impresso em Madrid em seis volumes no anno de 1800.

Diz o autor hespanhol que onde o buril de Schorquens mais se esmerou, foi nas estampas da obra de João Baptista Lavanha, _Viagem da Catholica Real Majestade d'el-rei D. Filippe II... ao reino de Portugal_, impresso em Madrid em 1622, em duas edições, sendo uma em português e outra em hespanhol. Além das vistas dos arcos triumphaes, traz outra em maior formato, desenhada pelo nosso compatriota, o pintor Domingos Vieira Serrão, representando Lisboa e o Tejo.

Cean Bermudes não teve noticia do retrato de D. Frei Bartholomeu dos Martyres, arcebispo de Braga, que vem na sua _Vida_, escripta por frei Luis de Sousa e impressa em Vianna em 1619.

No catalogo descriptivo da collecção de retratos de Barbosa Machado, existente na Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, ha tres numeros referentes a Schorquens.

O n.^o 4 é uma arvore genealogica dos reis de Portugal, que se encontra na obra de Lavanha.

O n.^o 621 é o frontispicio da primeira e terceira parte da _Historia da Ordem de S. Domingos_ de Frei Luis de Sousa, o qual foi aproveitado por Barbosa, por ter cinco figuras de santos da Ordem.

O n.^o 1609 é o retrato de Diogo Garcia de Paredes, extrahido da obra de Thomaz Tamaio de Vargas, _Diogo Garcia de Paredes, y su tiempo_.

b) _João de Courbes_.

Francês e residente em Madrid, onde executou numerosos trabalhos, de parte dos quaes Cean Bermudes faz menção no seu _Diccionario_. Além das obras apontadas, pelo academico hespanhol possuo a seguinte:

_Vida de la bienaventurada Ritta de Casia religiosa del Ordem de S.^t Aug.^n_ en el monasterio de S.^{ta} Magdalena de la Ciudad de Casia en la Vmbria. A la Ex.^{ma} S. D. Ana Maria de Portugal y Borja Princesa de Melito e Duquesa de Pastrana. Por Frey Alonso de Aragon y Borja su sobrino Predicador y Colegial del Orden de S.^t Augustin en el que fundo la Ill.^{ma} Senora D. Maria de Cordoua y Aragon. En Madrid. Por la viuda de Luis Sanches Impressora del Reyno. Año. 1628.

Este titulo acha-se num frontispicio gravado, o qual representa um portico, ricamente ornamentado, tendo em cada uma das columnas uma figura de mulher, de corpo inteiro. A da direita representa _D. Maria de la Cerda hija de la Cassa de Medina Celi_ etc., a da esquerda _D. Maria de Aragon hija del Rey catolico Fernando_, etc. Depois das licenças e censuras vem o retrato, em pagina inteira, da B. Ritta de Casia, etc.

No _Catalogo_ descriptivo da collecção Barbosa Machado ha tres numeros referentes a Courbes.

O n.^o 880 é o retrato de D. Sebastião de Matos e Noronha, bispo de Elvas, e de mais quatro seus antecessores no frontispicio das _Constituições_ ordenadas por aquelle prelado, e impressas em Lisboa em 1635.

Os n.^os 1857 e 1862, são os retratos de Filipe Sidney e de sua mulher.

A actividade de Courbes exerceu-se, pelas notas que tenho, entre 1621 e 1635.

c) _Pedro Perret_.

Cean Bermudes diz que elle era natural dos Paizes Baixos, onde nascera depois do meiado do seculo XVI; que estudára em Roma com Cornelio Córt e que, restituindo-se á pátria em annos adeantados, fôra gravador do duque de Baviera e do eleitor de Colonia, fixando a sua residencia em Anvers. Nesta cidade gravou para Filippe II dez grandes laminas, representando o Escurial e suas diversas partes. Agradaram tanto a el-rei que mandou vir o artista a Madrid, nomeando-o, a 22 de dezembro de 1595, seu gravador com o ordenado de cem ducados por anno, pagando-se-lhe á parte as obras que fizesse em seu serviço. Falleceu em Madrid pouco depois do anno de 1637.

Bermudes cita muitas das obras, que elle executou em Hespanha, sendo a primeira o retrato de Santo Ignacio de Loyola. Acrescenta que são muito estimadas as estampas que fizera antes de vir para Madrid e de que cita algumas. Não se refere, porém, a nenhuma de assumpto português. Destas passarei a dar conta:

Por encommenda de Manuel de Sousa Coutinho, que, professando na religião de S. Domingos, tomou o nome de Fr. Luis de Sousa, fez o retrato de Fr. Luis de Sotto-Mayor, celebrado professor de theologia e commentador da Biblia. A este facto se refere o proprio Fr. Luis de Sousa no capitulo XVII, do livro 2.^o da _Vida de D. Fr. Bartholomeu dos Martyres_. No retrato exarou-se um elogio latino, certamente composto pelo chronista dominicano e que este transcreve na obra citada com a traducção portuguesa, que é do theor seguinte:

«Este retrato em lugar de estatua fez esculpir em bronze Manuel de Sousa Coutinho, em honra e memoria de Fr. Luis de Sotto-Mayor, da Ordem dos Pregadores, lente jubilado das sagradas escripturas na Universidade de Coimbra em idade de 76 anno e o mais celebre Doutor n'ellas de todos os do seu tempo, que juntando com a nobresa do sangue, doutrina, piedade religião e todos os mais arreyos de virtudes, faz duvidar em qual seja mais insigne; e foy o fim assi pera que o amigo, a quem se acha obrigado e que por meio dos seus divinos escriptos, como com asas vôa por todas as terras da Europa e Asia, chegue por conhecimento do rosto aonde por fama teem chegado; como tambem para alegrar a vista com o mesmo objecto que traz dentro n'alma e desejoso de o faser competir com a eternidade. Fez a obra Pedro Pereto, esculptor de El-rei no anno de 1602».