Chapter 4
Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella conduz, que tem lugar o que passamos a contar.
Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, e commovidas.
A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.
O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos embranquecidos antes do tempo.
A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos ramos e cestinhos.
A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.
--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?
--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por que, quem sabe se recahirei?
--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura e reconhecimento.
--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, a que chamam mundo?
--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?
Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.
--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, minha filha querida.
Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.
As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, o que a commoção lhe embargava nos labios.
Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.
A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que se estabelecera entre ella e D. Julia.
A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na morte.
Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.
--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto da campa de minha avó.
--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.
Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples. Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade affectuosa da sua bemfeitora.
Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com diversas flôres, semelhava um jardimsinho.
Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.
Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.
Rosa apresentou esta carta á viscondessa.
--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.
--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!
--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?
--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a snr.^a D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem dizer os nomes da exc.^ma viscondessa do Candal e de sua filha.»
--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que me fazes nascer no coração com as tuas palavras.
* * * * *
Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe concedido por unanimidade e com distincção.
XIV.
Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e Sousa o seu titulo de capacidade.
Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim, muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.
N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella, está dizendo os nomes das suas discipulas.
A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.
O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas, indica que se espera alguem.
O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este momento pelo portão.
Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por quem se esperava.
A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.
As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:
«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla, devida á muita philantropia e caridade christã da exc.^ma viscondessa do Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.^a D. Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.^ma viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.^ma snr.^a D. Julia, filha da exc.^ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.^ma snr.^a D. Julia voou á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.
«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem, porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido sempre fareis por merecer.
«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno futuro.
«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»
Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.
A conferencia dos premios foi esplendida.
Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria, que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na distribuição.
Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um bem servido _lunch_.
--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia, como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha querida, e chorada Julia.
--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.
* * * * *
O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D. Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos beneficios que recebera.
FIM.
* * * * *
Nota do transcritor:
A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O Arrependimento.