A Gratidão

Chapter 3

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Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.

D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar, naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos moribundos não lhe foi permittido.

O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada apertada nas suas.

--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha segunda mãe no tumulo.

Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.

Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, que fechava com cuidado, guardando as chaves.

X

Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Thereza.

--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e ella não podia desherdar-me.

--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os direitos de todos.

--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem filhos.

--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?

--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia de recolher em sua casa?

--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amisade.

--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...

--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha avó recebemos da snr.^a D. Thereza?

O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão tão vergonhosa, e feia.

Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que Rosa não pôde refrear a sua indignação.

--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.

Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou corrida de vergonha.

Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro a D. Thereza.

A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.

O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.

--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.^a Maria da Gandra, que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.

A snr.^a Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.

--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua avó.

--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.^a D. Thereza, e receba as minhas inscripções.

--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.^a Maria da Gandra--Não preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas inscripções?

--A snr.^a D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.^a D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou duas inscripções em meu nome.

--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso quarto.

Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.

A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e trabalhadeira, que a snr.^a Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que lhe podia apparecer.

No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.

Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não pôde reter as lagrimas.

Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.

Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava um accento de triumpho.

--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter _empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.

O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo tamanho, não pertencia de certo a Rosa.

--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando pelo rubôr, que lhe cobre as faces.

--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto dar-me as explicações, que tiver a fazer.

Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este vestido se acha na tua caixa?

Rosa fez-se muito corada e respondeu:

--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.

--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.

--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.

--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.

Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: entregava-me a snr.^a D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a snr.^a D. Thereza no seu dia natalicio.

Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.^a D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a apresentar.

Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar a verdade.

Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde conseguil-o.

Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais requintada avareza as expulsava.

XI.

Estamos no anno seguinte.

Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre ellas.

D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e desvelos, de que a cercava a viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.

A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.

Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.^a Maria da Gandra.

--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.^a Maria da Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.

A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.^a Maria da Gandra toda a despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham despendido.

A despedida de Rosa e da snr.^a Maria da Gandra foi pathetica, e só a muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a snr.^a Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe não tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante ventura lhe succedesse.

--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com muita censura e reparo de D. Bertha.

--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?

--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.

--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e rustica; uma boa menina, a snr.^a D. Julia, filha da snr.^a viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis igualmente amar a snr.^a D. Julia, minha bemfeitora; e então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»

--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.

A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, dava as lições a Rosa.

Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o seu coração.

D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.

D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, _castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os confirmar.

A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.

--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha commettido, que mereça semelhante castigo.

--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou certa nunca te ha-de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando distrahil-a por todos os meios possiveis.

O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os merecer faria o impossivel se necessario fosse.

XII.

D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono, época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo fatal, era geral.

Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.

A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença, começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma. Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia de privar da sua protectora.

A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.

Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados, que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta esperança e crença.

Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com reconhecimento esta nova prova d'affecto.

Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a que mais a impressionou.

Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe ser dirigida.

Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse alteração sensivel.

Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.

Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma professora.

A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.

Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava de ser concedido o titulo de capacidade.

Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito tempo.

Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e querida de sua filha.

D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado, confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.

O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma excellente professora.

Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu viver.

Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança alguma de a salvar.

A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.

Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.

D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.

Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a glorificação de suas virtudes.

Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela pureza em que sempre vivera.

XIII.

Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo antecedente.