A Gratidão

Chapter 2

Chapter 23,928 wordsPublic domain

--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.

--Queres fazer-me zangar?

--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu não preciso de nada; a snr.^a D. Thereza é muito minha amiga e...

--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz, de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.

E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha desapparecido, levando na mão o cestinho.

Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.

--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.

--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu pensamento, e que me causa tanta alegria.

--Que é então?

--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.

--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não has-de gastar mal gasto.

Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas de flôres e cestos.

VI.

D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha determinado.

A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no caminho, ao encontro de sua filha.

--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.

--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa da minha demora.

E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.

--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a prenda de fazer cestos de juncos entrançados.

--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.

--Então quem foi?

--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.

--Uma lavradeira?!

--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?

--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua simplicidade.

--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome sob a minha protecção?

--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que devemos fazer para seu bem.

D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua bondade.

N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.

D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, desceu á sala a buscal-o.

D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.

--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse D. Julia.

--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.

--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.

--Rosa?

--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.

D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera com Rosa.

Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.

--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é assim?--disse D. Bertha.

--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a torna digna da protecção, que se lhe dispensar.

--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?

--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.

--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.

--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa mãi, vêr Rosa?

--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto aborrecivel.

--Rosa é muito linda e interessante.

--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde espero ir muito breve.

Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.

D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.

Alguns instantes depois deu principio ao quadro.

VII.

No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão amavel e generosa tinha sido com ella.

Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. Julia, tinha terminado o seu serviço.

Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para exprimir a sua alegria e enthusiasmo.

Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada da viscondessa e de sua filha D. Julia.

--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a viscondessa.

Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:

--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos.

--E encontras grande prazer na sua leitura?

--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.

A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.

--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.

--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.

--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?

--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.

--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.

--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.

--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos conduzisses a casa da snr.^a D. Thereza, e, se a tua protectora estiver satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á mestra. Então não respondes?

--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?

--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.^a D. Thereza, e isso indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires; mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.^a D. Thereza.

Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha. Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.

Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e morno.

D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.

Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa, manteiga e um copo de leite.

D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e, reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.

A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.

A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.

--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante convosco.

--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a cega--estou portanto ás vossas ordens.

--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a vossa neta?

--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella, que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa nos ha-de recolher. E foi verdade.

A snr.^a D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito tempo.

Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não chegas a mim para te dar um abraço?

Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se retirado, quando a avó começára a elogial-a.

A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.

Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.

--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não prohibireis vir algumas vezes visitar-me.

--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.

D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:

--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?

--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me embora?

--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina da cidade, instruida e de maneiras polidas?

--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.

--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos, razos de lagrimas.

--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse a viscondessa.

--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.^a D. Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se assim fallo...

--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.

Não tenhas receio, que te separemos da snr.^a D. Thereza. Pediremos sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos beneficios, que te prodigalisa.

--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.^a D. Thereza me não negará este favor, e prazer.

--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.

--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.^a D. Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um vestido novo.

E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo voltar muito breve á quinta.

D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até ámanhã».

Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D. Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.

--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.

--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje, mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas mais gratas e queridas recordações.

VIII.

D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso, que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da viscondessa.

Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar sósinha, durante o inverno.

Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.

A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia sahir do quarto.

Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida, quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.

N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.

D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para socegar a inquietação de D. Julia.

Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor; sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.

A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.

D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã, consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto amava.

Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá voltar se peorasse.

Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era baldado, por que Rosa estava inconsolavel.

Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.

--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis, que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para que se augmente este capitalsinho.

É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.

Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.

--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó. Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, para que me dê saude.

Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia, que, com um olhar maternal, a abençoava.

IX.

Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto, e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia veio confirmar as prevenções de D. Thereza.

D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula. Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada, e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e embargar-lhe o seu progresso.

Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.

Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas fossem attendidas.

Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais vigor.

Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde, de que ella admirasse o valor e o gosto.

Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado, chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe parecia.

Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.

Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.

Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.

Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.

--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar remedio.

O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.

Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser muito vigilante, era boa e justa.

Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião, ainda bem não estavam dadas.

Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.

A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em não poder fazer cousa alguma.

De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.

Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria mais uma palavra, nem faria um unico movimento.

Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.

D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D. Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.

D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua herança.