A fundação da monarchia portugueza narração anti-iberica
Part 4
As consequencias d'estes actos começaram a manifestar-se logo. Todos os principes e fidalgos da peninsula hespanhola acompanharam Affonso VI á conquista de Almeria. D. Affonso I de Portugal não foi, e conjectura-se que essa ausencia do principe portuguez em um feito de armas contra os infieis, não tivera outra causa que não fosse o desejo de oppor ás requisições do primo a nova situação independente, em que o feudo á Santa Sé collocára os portuguezes e o seu rei.
Affonso I aceitou de bom grado o arbitrio de Roma, contente de conseguir o cumprimento da missão legada por seus paes, embora tivesse de caminhar como elles passo a passo, e por veredas tortuosas, que todavia levavam ao ponto a que desejava chegar.
Finalmente no anno de 1179 o pontifice Alexandre III confirmou clara e abertamente o titulo de rei na pessoa do valente filho do conde D. Henrique, mediante o pagamento annual de dois marcos de oiro em substituição das quatro onças do mesmo metal, anteriormente promettidas a Innocencio II.
Assim se cumpriu, sessenta annos depois da morte de conde D. Henrique, a laboriosa empreza de fundar a independencia de Portugal e de dar a esta terra uma dynastia propria, e representada por um principe nascido entre o Minho e o Douro, creado entre os portuguezes, e experimentado nas lides da guerra, já combatendo pela liberdade dos seus contra os leonezes, já varrendo do solo nacional as phalanges dos arabes.
A investidura religiosa da dignidade de rei, foi a ultima recompensa dos trabalhos e perseverança de D. Affonso em executar a idéa do conde D. Henrique e de D. Tareja, e em satisfazer as gloriosas ambições dos portuguezes. Seis annos depois falleceu em Coimbra, aos 6 de dezembro de 1185, tendo governado quarenta e cinco annos como rei, e doze como principe e infante.
Deixou numerosa posteridade da rainha Mafalda sua mulher, filha de Amadeu II, conde de Mauriana e de Saboia, chefe d'aquella grande familia de heroes, cuja gloria a Europa inteira respeita ainda hoje em Victor Manuel II, valente rei da Sardenha, e libertador da Italia.
A narração dos feitos de D. Affonso Henriques não pertence a este livro senão na parte que respeita á fundação da monarchia. A conquista de Lisboa, de Santarem, de Leiria e de outras terras importantes, a fundação dos mosteiros de Alcobaça, de Tarouca, de Santa Cruz de Coimbra e de S. Vicente de Fóra, a edificação da cathedral de Lisboa, e o desastre de Badajoz em que Affonso Henriques ficou prisioneiro do rei leonez, terão o seu devido logar em outro livro d'esta collecção, assim como todos os acontecimentos importantes do seu reinado.
Depois de tantos seculos, o nome de D. Affonso Henriques é ainda pronunciado com respeito pelo povo portuguez, reconhecido á memoria do soberano que, a despeito de adversarios tão poderosos, fundou a independencia de Portugal. «Sem a menor sombra de vaidade nacional, diz o sr. Alexandre Herculano, parece-nos ser licito dizer, que o esforço e constancia dos portuguezes e do seu principe n'esta conjunctura é um dos mais bellos exemplos d'aquella energia moral, de que tão rica era a idade media, e a troco da qual a Europa moderna tem ido comprando a brandura do trato entre os homens, e os commodos da civilisação.[4]
VII
A MONARCHIA
A historia da fundação da monarchia portugueza está concluida. D. Affonso VII reconheceu a qualidade real na pessoa do primo. O papa Lucio II aceitou o feudo da terra portugueza para a Santa Sé, e Alexandre III sagrou a realeza de D. Affonso Henriques em nome de Deus, de cujo poder os jurisconsultos e theologos derivavam então directamente toda a especie de auctoridade.
Esta empreza de separar da monarchia de Leão e de Castella o novo reino de Portugal póde dizer-se, que foi um dos feitos mais extraordinarios do seculo XII, não só em relação ao poder e esforço dos dois imperadores que successivamente occuparam o throno hespanhol, mas principalmente pelo modo com que se houve em tão delicado assumpto o conde D. Henrique, e depois d'elle a sua energica viuva, e seu corajoso filho.
A rapidez com que em menos de meio seculo surgiu a nacionalidade portugueza, dotada de attributos e qualidades que logo separaram, e distinguiram os portuguezes dos gallegos e dos leonezes, a dexteridade com que a viuva e o filho do conde borgonhez souberam vencer todos os obstaculos, e fazer com que insensivelmente fossem legitimadas pelos proprios adversarios as pretensões mais contrarias aos direitos da corôa de Leão, e finalmente a coragem com que lutaram nos campos de batalha contra a rainha D. Urraca e contra seu filho, são na verdade admiraveis, mesmo attribuindo ás discordias de Affonso de Aragão e de sua mulher a facilidade venturosa, com que tão ousados commettimentos se executaram!
Todavia a malicia de D. Henrique, a flexibilidade astuciosa e a energia de D. Tareja, e o animo ousado de D. Affonso Henriques valeriam pouco--já o dissemos--se n'aquellas lutas entre os soberanos christãos de Hespanha, os portuguezes se decidissem parte em favor de uns, e parte em favor de outros.
Felizmente o desejo da independencia nacional não só abafou qualquer outro sentimento de parcialidade, mas até resistiu aos rogos, convites e promessas, com que de certo amiudadas vezes tentaria a rainha D. Urraca, seu segundo marido rei de Aragão ou o principe Affonso Raymundes de Galliza, attrahir á sua causa os barões e prelados portuguezes, senão o proprio povo.
Não queremos diminuir de modo algum a gloria dos principes, em cujo nome se lançaram as bases da independencia de Portugal. Oxalá que podessemos honrar sempre a memoria de todos os principes, como nos é grato faze-lo ácerca dos fundadores da nossa nacionalidade! Ganharia com isso o principio monarchico a que temos affeição. Mas n'este caso fôra injustiça negar que, sem a constancia e lealdade dos portuguezes, a causa da nossa liberdade não chegaria a obter tão assinalado triumpho.
Os nossos progenitores quizeram que esta terra fosse independente do rei de Leão, e perseveraram n'esse pensamento apesar de grandes contrariedades e revezes. Seguiram o conde D. Henrique no começo d'esta nobre tentativa, e foram sempre dedicados e leaes áquelle principe, á sua mulher, e a seu filho.
A rudeza dos tempos, o desenvolvimento das paixões, e a barbaridade dos costumes, tornavam então raros estes exemplos que hoje poderiam ser resultado de simples bom senso, quando o não fossem de grandes virtudes politicas.
Os barões portuguezes do duodecimo seculo não eram melhores do que os demais senhores christãos de Hespanha ou dos outros paizes, mas nas discordias civis, com que frequentes vezes ensanguentaram a terra portugueza, o principio da independencia nacional nunca deixou de ser acatado por todas as parcialidades.
Esse era então o alvo das cogitações geraes, o enlevo de todos os animos, e o incentivo dos feitos mais generosos. Honra a esses nobres senhores pelo que praticaram em beneficio da patria, e pelo virtuoso exemplo que deram!
Os prelados portuguezes tambem contribuiram para amparar a nossa nacionalidade nascente, e para facilitar a realisação da independencia nacional. Pelas mãos d'elles desceram sobre o primeiro rei portuguez as bençãos do ceo; e a mediação dos prelados, evitando combates sanguinolentos, e concertando pazes entre os belligerantes, desviou grandes males, e fez ao novo reino assignalados serviços.
O povo esse deu vida e fazenda, como dá sempre generosamente para sustentar as causas que tem por nacionaes. Na fronteira do norte combateu contra leonezes e gallegos; no sul pelejou contra os arabes, e ás vezes no regresso á sua pobre casa já a não encontrou, que lh'a tinham destruido os inimigos com alguma das continuas correrias, em que levavam a ferro e fogo as povoações pacificas e inermes.
Outras vezes, onde cuidava refazer-se das fadigas e gastos da guerra, teve que abandonar o pouco, que lhe restára, á cubiçosa exigencia do senhor feudal. E assim mesmo nunca descreu da possibilidade da independencia, nem faltou ao principe com o auxilio do seu braço!
Em todos os tempos, e em todas as circumstancias o povo portuguez foi sempre o mesmo! Nunca este bom povo attentou na quantidade dos adversarios, nem hesitou perante o poder d'elles! Era modelo de virtudes civicas ha sete seculos. Ainda hoje o é. Indomavel na guerra, era na paz de condição branda e submissa, de direcção facil, e de fidelidade heroica em ambos os casos. É o mesmo agora.
A nossa independencia foi obra da cooperação unanime de todos os portuguezes. Felicitemo-nos d'esta admiravel concordia, e reconheçamos no começo da nossa existencia politica os effeitos de um vigor popular, que a historia não teve de mencionar com frequencia ácerca de outros povos. A virilidade nacional era já tão forte na precoce juventude d'este povo, que mais impellia do que acompanhava os principes que a conjuncção dos tempos preparára para chefes da nação.
Á fundação da monarchia seguiram-se guerras incessantes com os infieis, dessidencias com Castella, alterações civis de grande momento entre os primeiros do reino, alguns governos fracos, e muitas occasiões de engrandecimento e de gloria seguidas de tristes desastres e de funestos azares, dos quaes alguns pertencem á nossa idade. A força dos animos populares conservou-se intacta. Os portuguezes mostraram-se no Bussaco, na Roliça e no Vimeiro, como outr'ora em Montes Claros, em Aljubarrota, e em Val de Vez ou em Ourique.
O progresso social melhorou os nossos costumes, e alterou o modo da nossa existencia, mas não enfraqueceu o caracter nacional, que já tinha resistido a outras transformações anteriores. A civilisação não pára no seu fecundo e incessante trabalho, porém onde encontra uma nacionalidade forte, respeita-a, e sabe emprega-la utilmente.
As nacionalidades que não vivem da energia do caracter popular ou que não souberam remoçar-se a tempo, caminham para a morte. As outras não, porque volveram a ser jovens, e começam agora a viver de novo. Aquellas dissolvem-se de podridão, e corrompem as outras. Estas são instrumentos de progresso, e como elementos da harmonia universal contribuem para o complemento dos fins da creação.
Sejamos nós assim.
Entremos na confraternidade universal dos povos, mas não queimemos por isso a nossa boa casa, porque em nenhuma outra estaremos tanto á vontade como n'esta que nossos passados fizeram, amassando com o proprio sangue o barro de que lhe levantaram os muros. Amemos os hespanhoes. São nossos irmãos, mas juremos a nós mesmos ficar portuguezes, como no-lo estão pedindo a honra e o interesse.
Vergonha seria que n'este reino fossem mais patriotas os principes do que o povo, e que ninguem sentisse nas veias o sangue dos barões e homens de armas de D. Affonso I. Do fundo do seu tumulo de Santa Cruz, estão os ossos venerandos do nosso primeiro rei animando os portuguezes a sustentar a nobre empreza, em que elle lidou até á morte, e pela qual tantos milhares de filhos d'esta terra tem perecido heroicamente.
Quem ousaria renunciar a esta herança gloriosissima? Ninguem.
A nossa nacionalidade tem poderosas rasões de existencia, e não póde depender, senão momentaneamente, do capricho de um conquistador ou das combinações de um estadista. Nenhum d'elles poderá contra este reino mais do que em favor nosso ha de valer sempre o caracter firme do povo, o desenvolvimento da civilisação, e a seriedade circumspecta do nosso procedimento politico.
Esses dotes são os alliados mais fieis e poderosos do povo portuguez. Com elles, e só com elles, se salvou nas crises difficeis. D'elles depende tambem no presente e no futuro.
Se por qualquer circumstancia infeliz vierem a faltar-nos essas qualidades na hora do perigo, ainda encontraremos na herança paterna um dever glorioso:
Acabar com honra, escrevendo com o nosso sangue a derradeira pagina da historia portugueza.
INDICE
Dedicatoria Palavras necessarias Introducção--I O reino de Leão--II A terra portucalense--III O conde borgonhez--IV Governo de D. Tareja--V D. Affonso Henriques--VI A monarchia--VII
* * * * *
NOTAS
[1] Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque morto de bala na batalha de Torres Vedras nos fins do anno de 1846.
[2] Autor de um poema intitulado _Viriato Tragico_.
[3] Este dito do marquez de Pombal é citado pelo sr. Rebello da Silva em um excelente artigo publicado na Epocha e intitulado _A ultima corrida de toiros em Salvaterra_.
[4] Hist. de Port. tom. I liv. II pag. 306.
NOTAS DE TRANSCRIÇÃO
[NT] No original o autor colocou o nome de Fernando onde deveria estar Affonso