A fundação da monarchia portugueza narração anti-iberica
Part 3
A opinião dos barões de Leão e Castella foi favoravel á esposa ultrajada, a quem se tolhêra a defeza. Affonso I viu-se obrigado a regressar ao Aragão, mas D. Tareja não succumbiu a este desastre. Sua irmã D. Urraca entendeu talvez, que não podia lutar com uma princeza cujos cavalleiros e homens de armas só a ella obedeciam em negocios de politica externa, e que alem d'esta vantagem tinha relações intimas com os principaes senhores da Galliza e com o astuto Gelmires, poderoso bispo de Compostela. Apesar das intrigas de Astorga as duas irmãs fizeram pazes entre si.
N'este convenio a superioridade estava do lado de D. Urraca, que era de direito soberana da terra governada per D. Tareja, e que esquecia injurias e offensas gravissimas. A viuva de D. Henrique teve de reconhecer a supremacia da irmã, e nas côrtes reunidas em 1115 em Oviedo assignou como infanta em seu nome e de seus filhos.
A ausencia dos barões portuguezes; a falta de menção de que Tareja os representava n'aquella assembléa, e por elles fazia preito á irmã, indicam qual era já então o espirito dos portuguezes, e quão graves as circumstancias a que D. Tareja se via forçada a obedecer.
Esta submissão pessoal não durou muito. Na primeira discordia entre D. Urraca e os fidalgos de Galliza, D. Tareja declarou-se em favor d'estes e aggrediu vivamente a irmã. N'essa luta ganharam os portuguezes a posse de uma grande parte dos districtos de Tuy e Orense, que conservaram bastante tempo.
Os combates incessantes no norte foram interrompidos em 1116 pelos arabes do sul, que tomaram Miranda para lá do Mondego, passaram este rio, appossaram-se do castello de Santa Eulalia junto a Montemór, e no verão do anno seguinte vieram durante vinte dias atacar Coimbra, onde estava D. Tareja. A infanta dos portuguezes, como estão lhe chamavam, soube defender a cidade de modo que os arabes levantaram o cerco.
Á necessidade de resistir ás invasões dos infieis correspondia sempre menor arrogancia na manifestação dos sentimentos de independencia para com a rainha de Leão. A supremacia de D. Urraca era tão pouco contestada que o arcebispo de Braga D. Paio, irmão do Lidador e dos Mendes da Maia, que tanto fizeram depois pela liberdade d'esta terra, pediu em 1121 á soberana de Leão e de Castella a confirmação do couto da cidade archiepiscopal.
As duas irmãs eram inimigas. A paz entre ellas podia ser dictada por motivos politicos; do coração não vinha. Os designios de D. Tareja e dos seus subditos eram manifestos. A necessidade de sujeitar Portugal não esquecia a D. Urraca. D'ahi resultou a guerra de 1121 na qual a rainha de Leão atravessou o Minho, chegou até ás margens do Douro, obrigou D. Tareja a encerrar-se no castello de Lanhoso, e ali a foi cercar.
D'esta penosa situação pôde saír sem grande esforço, graças ás intrigas que se urdiam em segredo na propria comitiva de D. Urraca. Tratava-se de proclamar o principe de Galliza, filho d'esta rainha e de seu primeiro marido o conde Raymundo, e n'este empenho andavam os senhores de Galliza, o bispo de Compostella, e todos quantos se diziam cansados das discordias continuas entre D. Urraca e seu segundo marido Affonso de Aragão, bem como os que detestavam o conde Pedro de Lara, poderoso amante da soberana de Leão.
D. Tareja fôra sempre ligada com esta parcialidade, como D. Henrique o fôra com Raymundo no intento da reciproca independencia, e se ficasse prisioneira da irmã, perder-se-ía um alliado importante para a execução dos planos contra D. Urraca. Soberanos e potentados estrangeiros, parentes da casa de Borgonha entravam na conspiração contra a esposa de Affonso de Aragão.
Fernando Peres de Trava, antigo official do prelado de Compostella, parente e amigo dos primeiros fidalgos de Galliza, era amante de D. Tareja, e governava por mercê sua o Porto e Coimbra. As relações d'este fidalgo na côrte de D. Urraca só podiam ser favoraveis á mulher que elle amava.
D'este conjuncto de circumstancias, e talvez de outras que ignorâmos, nasceu a paz, na qual D. Tareja conservou as terras de Galliza, cuja posse havia dado causa á guerra, e obteve varias terras e aldeias nos districtos de Samora, Toro, Salamanca, Avila, Valhadolid e Toledo, como tenencia da irmã.
A quem a viuva de D. Henrique deveu estas vantagens, apesar das victorias de D. Urraca, póde conjecturar-se pelos successos posteriores. A Galliza dentro em pouco revoltou-se contra a rainha de Leão, e D. Tareja sem tomar activamente parte nas contendas que se seguiram até março de 1126 em que morreu a irmã, protegeu os revoltosos por todos os modos ao seu alcance, conseguindo conservar os territorios que possuia na Galliza, segundo o tratado de paz de 1121.
Algumas palavras do sr. Alexandre Herculano explicarão, melhor de que nós o poderiamos fazer, as causas d'esta inconstancia politica da infanta dos portuguezes. «Cada um dos personagens que figurava n'aquelle drama, diz o nosso illustre historiador, quer principes, quer senhores só pensava em tirar das desgraças publicas a maior vantagem possivel. As allianças faziam-se, e desfaziam-se rapidamente; porque nenhuma sinceridade havia no procedimento dos individuos. Os interesses particulares dos nobres e prelados cruzavam-se com as questões politicas, o modificavam-nas diversamente.» As acções de D. Tareja devem ser apreciadas n'este sentido. Ella obedecia á tradicção conjugal da independencia, ao proprio sentimento de liberdade, e ás tendencias e espirito dos barões e homens de armas de Portugal.
As qualidades incontestaveis de D. Tareja fizeram-a geralmente respeitada, tanto nas terras que governava, como em toda a peninsula hespanhola e mesmo nos paizes afastados. O papa mais do que uma vez a tratára como rainha, qualificação que só era legal ou de costume dar-se ás filhas legitimas dos reis, e ella propria tomou este titulo nos documentos publicos, promiscuamente com o de filha de D. Affonso, ou de infanta dos portuguezes.
Portugal começou tambem cerca de 1117 a ser designado como reino, manifestação nominal de independencia, anterior á elevação da dynastia real. Antes que o principe fosse independente no exercicio da soberania, já a opinião geral attribuia ao territorio essa qualidade, Portugal era reino sem ter ainda escolhido rei. O povo livre não podia tardar em proclamar um chefe que sustentando as ambições patrioticas dos portuguezes, acabasse com a supremacia politica do rei de Leão.
D. Urraca morreu em 1126, e seu filho Affonso VII fez tregoas com D. Tareja. Duraram pouco, porque ella recusou sugeitar-se ás obrigações da tenencia dos territorios que recebera em 1121. Na nova campanha Portugal não pôde esquivar-se a reconhecer a suzerania de Leão, e perdeu as terras de que pertendia o dominio absoluto.
D. Affonso Henriques foi durante esta guerra cercado pelo filho de D. Urraca em Guimarães, onde estava talvez já quasi revoltado contra a mãe, e para que o cerco fosse levantado, teve de prometter a seu primo Affonso VII, que lhe faria preito e homenagem das terras de Portugal.
Egas Moniz, poderoso fidalgo de Entre Douro e Minho, e aio do principe portuguez, ficou por fiador da palavra de Affonso Henriques; e o rei de Leão aceitando a fiança do mais honrado cavalleiro d'aquelles tempos, levantou o cerco, e retirou-se de Guimarães.
A palavra do joven principe não foi cumprida. Fosse que o animo de D. Affonso Henriques repugnasse a começar a vida politica pelo reconhecimento da supremacia estrangeira, ou fosse que os proceres do reino obrigassem o infante a faltar ás promessas de Guimarães, e a sacrificar a propria honra á independencia de Portugal, é certo que o filho de D. Tareja não cumpriu os ajustes do aio.
Então Egas Moniz reuniu a sua familia, e partiu com ella para a côrte de D. Affonso VII, não a fazer-lhe o preito que Affonso Henriques recusára, mas de corda ao pescoço e descalço, a prostrar-se aos pés do rei de Leão, e a offerecer-lhe o proprio sangue, o da mulher, e o dos filhos, para lavar a nodoa que a falta de cumprimento da palavra dada lançava na reputação de um cavalleiro.
Tão primorosa lealdade maravilhou a côrte, e captivou o animo de Affonso VII. O fidalgo portuguez voltou em liberdade para o reino, e o soberano de Leão declarou illibada a honra de Egas Moniz. Depois que os ossos do aio de D. Affonso Henriques, foram repousar no mosteiro de Paço de Sousa, pozeram-lhe no tumulo, em esculturas grosseiras, a representação d'esta gloriosa façanha, que ali se vê ainda hoje servindo de eloquentissimo epitaphio ás cinzas do velho fidalgo de Riba-Douro.
Estes feitos heroicos só se manifestam nas epochas em que as nações estão dispostas para commettimentos generosos e sublimes, porque do conjuncto das virtudes particulares é que se fórma o caracter geral da nação.
Nos tempos de abatimento e de decadencia nacional, não se encontram taes exemplos, e se apparecem excepcionalmente, provocam a escarneo, em vez de conseguirem louvor e admiração. Nação, cujos proceres tinham sentimentos tão elevados, era digna de ser livre, e por isso o foi.
A nobre acção de D. Egas Moniz foi praticada durante o anno de 1127, tempo em que D. Tareja tinha já perdido no animo dos portuguezes a influencia que soubera conquistar. A que fôra sempre varonil na governação do estado, não pôde evitar as tentações da fraqueza humana, e o seu coração de mulher deixou-se captivar do conde Fernando Peres de Trava, da nobre familia de Galliza, á qual fôra confiada por D. Urraca a tutella de Affonso VII.
O conde, amante e valido, intervinha nos negocios publicos. Nenhum acto indicára que essa intervenção fosse desleal, nem a politica de D. Tareja se desviára do caminho traçado pelo conde D. Henrique; mas os portuguezes eram já ciosos da sua independencia, e avessos a toda a influencia estrangeira.
O filho de D. Tareja, que se creára com fidalgos portuguezes, e que devia ter a peito a honra e bom nome da sua casa, odiava o conde de Trava, e preparava-se para lhe destruir o poder, embora para isso fosse necessario arrancar á propria mãe o governo do reino. Com effeito a rainha D. Tareja teve de abandonar o poder em 1128, em virtude de acontecimentos em que seu filho tomou a mais energica iniciativa.
A viuva do conde D. Henrique contribuiu vigorosamente para facilitar a independencia de Portugal. Teve qualidades politicas de grande quilate, e os effeitos d'essas virtudes chegaram até á nossa idade. Das fraquezas da sua vida particular só ella foi victima; fraquezas que eram vulgares n'aquella epocha, e que infelizmente nem raras foram nos seculos posteriores.
A historia não levou em conta a D. Tareja nem a fragilidade da natureza humana, nem os costumes do seculo em que ella viveu, nem a expiação infligida por seu proprio filho, privando-a do governo e prendendo-a, nem o abandono em que morreu, malquista d'aquelles, a cujas vantagens consagrára a vida, e em favor de quem soubera tirar partido até dos proprios erros. D. Tareja morreu no 1.^o de novembro de 1130 e repousa em Braga, junto ás cinzas de seu marido.
A historia foi ingrata. Não o sejamos nós. Abençoemos a memoria da soberana que ajudou a crear-nos para sermos independentes e livres, e perdoemos-lhe esses desvios. As idades futuras terão de nos perdoar outros bem mais criminosos, e que nem sempre poderão desculpar-se com tão gloriosas compensações.
VI
D. AFFONSO HENRIQUES
Affonso Henriques tinha quatorze annos, quando no domingo de Pentecostes do anno de 1125 se armou cavalleiro na cathedral de Samora, terra que pertencia então ao reino de Portugal por cessão da rainha D. Urraca.
O modo pelo qual esta cerimonia fôra disposta, indicava de sobejo as intenções do principe, mesmo no caso em que este acto se não pudesse julgar senão imitação exacta do que, em dia igual do anno anterior, praticára em Compostella seu primo Affonso VII.
As armas com que devia armar-se o joven filho do conde Henrique tinham sido collocadas sobre o altar de S. Salvador na cathedral de Samora. Antes que começasse a festa do Espirito Santo, o moço Affonso Henriques entrou na igreja, caminhou para o altar, tomou as armas, e cingiu-as elle proprio para não conceder a pessoa alguma a supremacia de lhe ter conferido o grau de cavalleiro.
Dos velhos guerreiros de seu pae havia muitos que mereciam esta honra. Seguido d'elles entrou no templo convidando-os a assistir áquelle acto solemne, e a serem testemunhas da firmeza do principe, destinado a commanda-los; porém mostrou-lhes desde logo a energica vontade de não depender senão de si proprio.
Esta solemnidade foi um preparativo para acabar com a influencia do conde de Trava. Com effeito tres annos depois de armado cavalleiro, Affonso Henriques declarou guerra a sua mãe, ajudado do arcebispo D. Paio e de seus irmãos, de Mendes Ermigio, de Garcia Soares e de Sancho Nunes que depois foi seu cunhado, e primeiro senhor de Barboza.
D. Tareja quiz resistir. Alguns portuguezes seguiram o seu partido; porém a maior parte das suas forças eram gallegos da parcialidade e dependencia do conde de Trava, fracos defensores contra o principio da nacionalidade e da independencia de que o jovem principe se declarára campeão. Os partidarios de D. Tareja foram derrotados no campo de S. Mamede perto de Guimarães, e a viuva do conde Henrique caíu prisioneira em poder do filho.
A nacionalidade portugueza era já então tão vigorosamente distincta que os gallegos do exercito de D. Tareja eram chamados nas chronicas contemporaneas _indignos estrangeiros_, apesar de que a identidade de linguagem, de costumes, de religião e de raça entre os habitantes de Galliza e os de Entre Douro e Minho, devesse contribuir para que portuguezes e gallegos se reputassem mutuamente irmãos. Esta notavel antipathia, inexplicavel á primeira vista, era um dos mais importantes resultados da politica do conde Henrique e de D. Tareja.
Mas a independencia de Portugal não estava segura; nem proclamada sequer. O rei de Leão era moço, poderoso e valente. Affonso Henriques nem titulo tinha para designar o poder que de facto exercia. Conde não queria elle chamar-se. Infante era um titulo commum aos filhos de estirpe real, e posto que Portugal se intitulasse reino, o nome de rei não o podia o principe tomar impunemente em face de um contendor como Affonso VII.
Dizem os historiadores que D. Affonso Henriques era agil nos exercicios do corpo, dextro no manejo das armas, bom cavalleiro, bem apessoado de corpo e de gentil presença, intelligente, discreto, e dotado de singular eloquencia. Eram grandes estas qualidades, mas os deveres que o principe tinha a cumprir, careciam do concurso efficaz de todas ellas.
A independencia de Portugal, preparada de tão longa mão pela tenacidade e astucia dos paes de Affonso Henriques, havia de trazer comsigo guerras amiudadas com o rei de Leão, e os arabes não eram menos temiveis no sul do reino. Poucos mancebos tiveram aos dezesete annos tão pesados encargos sobre os hombros!
Affonso Henriques não esperou que o atacassem. Impetuoso, como o pedia a sua idade, e a indole de uma nação tão moça como elle, entrou por Galliza em 1130, e começou a guerra contra os leonezes, talvez para recuperar os territorios que ali possuíra sua mãe.
N'esta entrada ninguem lhe resistiu, porém voltando a Galliza foi derrotado por Fernando Peres e Rodrigo Vela. Affonso Henriques não desanimou com o desastre, e pela terceira vez levou a guerra ao paiz visinho: Affonso VII veiu em pessoa com um exercito numeroso obstar ás correrias do primo, e tomou Celmes que os portuguezes tinham fortificado. Ali acabou esta campanha no anno de 1134.
Affonso VII estava então no maior auge do poder. A fortuna era-lhe propicia em toda a Hespanha. Affonso de Aragão seu padrasto já não existia; o conde de Barcelona, e o rei de Navarra reconheciam a suzerania de Leão; a Castella era sua igualmente; o emir de Roda submettêra-se espontaneamente.
Alem dos Pyreneos os condes de Tolosa e outros senhores prezavam-se de serem vassallos de D. Affonso. Só uma pequena provincia cercada do lado do meio dia pelos arabes, recusava aceitar de bom grado a preponderancia leoneza, e um moço de dezesete annos, chefe d'essa provincia, ousava entrar de mão armada pelas terras de tão vasta e poderosa monarchia!
Este nobre exemplo de coragem mostra bem quanto póde a energia de alma, e a força de vontade, ainda em combate contra forças muito superiores. Nenhum povo teve mais numerosas occasiões de confirmar esta verdade, e nenhum outro as aproveitou com mais efficacia do que o nosso.
Para defender os proprios lares até as creanças são valentes, e tão forte é cada qual em sua casa para o arrancarem d'ella depois de morto, dizia o marquez de Pombal a um embaixador de Hespanha, são necessarios quatro homens[3].
Affonso VII reuniu côrtes em Leão no anno de 1135 e n'ellas foi proclamado imperador. O moço Affonso Henriques, em vez de ir prestar homenagem ao poder do primo tratou de alliar-se com D. Garcia rei de Navarra, e accordou-se com alguns fidalgos de Castella, ambiciosos ou descontentes de D. Affonso VII. Firmadas estas allianças, principiou de novo a guerra com assignaladas victorias.
Os arabes entretanto tomaram Leiria; porém Affonso Henriques correu a reconquistar aquella cidade, e em pouco tempo voltou a continuar a guerra em Galliza onde o imperador viera em pessoa, como quem sabia que homem era o principe portuguez, e quanto valiam os cavalleiros e homens de armas, que o seguiam.
Os dois principes avistaram-se em Tuy no dia 4 de julho de 1137, e ali fizeram pazes, talvez porque as correrias dos arabes no sul traziam inquieto o animo de D. Affonso Henriques, cuja actividade se voltou então para a guerra contra os infieis, indo ataca-los no territorio alem do Tejo.
N'esta paz de Tuy o filho de D. Tareja reconheceu a supremacia feudal do rei de Leão, acto cujos effeitos na ordem politica do reino portuguez não foram importantes. Cento e cincoenta portuguezes assignaram com D. Affonso Henriques este preito e homenagem ao imperador.
A guerra contra os arabes foi favoravel ao filho do conde D. Henrique, e da victoria alcançada em Ourique no dia 25 de julho de 1139 chegou a noticia ao nosso tempo, acrescentada com exagerações e milagres. A imaginação patriotica e religiosa de alguns historiadores quiz dar assim maior relevo a esse feito de armas.
Singular erro de gente sizuda e zelosa pelo bem da sua patria! De que serve alterar a historia, e inventar apparições e milagres, quando se trata de referir acções para as quaes é sufficiente o esforço humano?
Justo é que todos creiam na protecção divina, sem a qual não ha verdadeira prosperidade sobre a terra; mas não cuidemos por isso que a força do nosso braço é inutil, que a nossa energia moral é nulla, e que Deus ha de intervir directa e pessoalmente nos negocios mundanos a regular os interesses dos conquistadores, das dynastias e dos povos.
Confiemos no poder de Deus e no triumpho da justiça e da verdade; porém não abusemos do nome da divindade, embora seja para excitar sentimentos virtuosos e dignos. As pias fraudes não fortificam o sentimento religioso, antes o abalam e destroem.
Da guerra contra os infieis voltou em breve Affonso Henriques á antiga pendencia com os leonezes, commandados outra vez em pessoa pelo imperador. O chefe de um dos corpos do exercito de Affonso VII, depois de ver derrotados os que o seguiam, caíu prisioneiro dos portuguezes, e a final o grosso dos dois exercitos avistou-se perto de Val de Vez. Ali na planicie que separava os portuguezes e os leonezes havia todos os dias combates parciaes, e em um d'esses Affonso Furtado, irmão natural do imperador, e outros fidalgos foram vencidos e prisioneiros.
Emquanto estes successos se passavam, o arcebispo de Braga negociava as pazes entre os dois primos co-irmãos, dos quaes nenhum ousava arriscar a fortuna da sua causa em uma batalha decisiva. D'esta vez ou porque a infelicidade de Affonso Furtado commovesse o imperador ou por outras causas politicas de maior alcance, foi Affonso VII quem solicitou a intervenção do arcebispo portuguez, que a final conseguiu trazer a termos de concordia os dois netos de Affonso VI.
Affonso Henriques dizia-se então infante, mas desde 1113 intitulava-se tambem principe dos portuguezes. Esta denominação de principe do povo em vez de principe do territorio, já usada por D. Tareja e renovada nos nossos tempos em França para designar aquelles que por eleição popular e não por direito hereditario incontestavel sobem ao throno, foi talvez n'aquella epocha um meio de satisfazer os desejos de independencia dos portuguezes, sem contestar absolutamente o direito soberano da corôa de Leão. Na terra para a qual a energia nacional ganhára o titulo de reino, o nome de principe dos portuguezes era de indubitavel legitimidade.
Depois da paz de Val de Vez o filho de D. Tareja aceitou o titulo de rei, e começou a usar d'esta designação, e quando em 1143 os dois primos renovaram e confirmaram em Samora os ajustes de Val de Vez, Affonso VII reconheceu a realeza de Affonso I de Portugal.
Este reconhecimento não era absoluto. Affonso VII, como imperador de toda a Hespanha, não lhe importava que o chefe dos portuguezes se chamasse rei, comtanto que se confessasse seu vassallo. É de crer que este ponto delicado fosse discutido nas conferencias de Samora, e que os mediadores andassem buscando um meio de conciliar os caracteres altivos e duros dos dois soberanos.
O certo é que Affonso I de Portugal recebeu do primo a investidura da cidade de Astorga, e pôde assim dizer-se vassallo do rei de Leão sem comprometter a independencia e a liberdade do novo reino, nem ferir a susceptibilidade dos portuguezes. O rei de Portugal ficou livre quanto o podia ficar perante o imperador das Hespanhas; o senhor de Astorga, esse reconheceu por soberano quem lhe dera aquella possessão.
Affonso I conhecia o primo, e sabia que taes pazes, fundadas em arbitrios mais subtis que positivos, não podiam ser duradouras. A sua clara intelligencia, e o conhecimento dos negocios da sua epocha, ensinavam-lhe que só havia um poder que os reis e os povos respeitavam, e que nenhuma instituição era estavel sem a protecção e benção d'esse poder supremo. Tratou pois de assegurar por meio da crença religiosa a realeza de que fôra recentemente investido.
Fez n'esse mesmo anno homenagem do reino ao pontifice nas mãos do cardeal Guido, e prometteu pagar á santa sé de Roma quatro onças de oiro cada anno, dar cem _aureos_ por uma só vez, e reconhecer-se vassallo de S. Pedro e do papa; sujeição nominal bem mais commoda do que o preito ao imperador.
Pela sua parte o pontifice devia obrigar-se a ajudar o rei portuguez em tudo quanto podesse interessar o reino, e a não reconhecer em Portugal nenhuma supremacia secular ou ecclesiastica que não fosse a de Roma. A dadiva de mil _morabitinos_ completava as vantagens offerecidas por D. Affonso I á Santa Sé.
Esta proposta era dirigida ao papa Innocencio II, porém foi Lucio II quem respondeu ao rei de Portugal nos principios de maio de 1144. A resposta não era facil, porque o summo pontifice não podia resolver este negocio, sem renunciar á suzerania de um reino ou á amizade de um dos soberanos mais poderosos do mundo.
Lucio II soube conciliar estas difficuldades aceitando todas as propostas de D. Affonso, mas não lhe dando senão o titulo de duque de Portugal. A independencia do solo portuguez ficava assim reconhecida pelo pontifice; e o reino acceito como feudo da Santa Sé, embora o papa evitasse dar-lhe esse nome. A confirmação do titulo de rei na pessoa de Affonso I não podia tardar muito, até porque o proprio Affonso VII reconhecêra em Samora a legitimidade d'essa designação.