A Fome de Camões

Part 3

Chapter 3 1,023 words Public domain Markdown

«Não sei--a Sombra disse:--Teem-me dito o mesmo, muitos grandes assassinos. É que esse pranto foi talvez o grito do Genio contra o injusto dos destinos. É que o Genio é o açoute do Infinito contra os crimes, e os grandes desatinos, e mesmo sob os goivos mortuarios regela ainda as almas dos sicarios!

Depois d'isto ninguem mais quiz o pranto! Todos riam do extranho d'essa offerta. Uns fugiam da Fome com espanto. Outros julgavam-lhe a razão incerta. Uma virgem, porem, d'um rosto santo bradou, a face de rubor coberta: --Eu amei d'um poeta a fronte amada! Ai! quem déra essa lagrima gelada!

«Porem nada te dou, por que sou pobre, a ti que és pobre como eu sou tambem. Sobe acima do azul que a todos cobre, acima dos Despresos, do Desdem. Sobe acima da Dôr que é grande e nobre, mais acima dos astros, mais além do Egoismo, da Inveja, e da Cubiça, e vai leval-a ao throno da Justiça!

Então a Sombra abandonou o mundo, e ergueu-se logo acima das espheras, longe da Besta d'Ouro e Vicio immundo, para longe dos Tempos e das Eras, perto do abysmo do insondavel fundo, onde teem corpo as lucidas chimeras: montada n'um cavallo horrendo e feio, sem estribos, sem redeas, e sem freio.

Quando ella contemplou em baixo a terra, humillimo planeta grão d'areia preza do Tempo e insaciavel Guerra e onde a raça dos mortaes ondeia, ella que nada já commove e aterra, que nenhum pranto d'um estranho anceia, sentiu brotar no secco coração a rubra e extranha flor da Indignação.

Ella atravez passara d'almas, vidas, e dos martyres lugubres descalços, das jovens mães crueis infanticidas, das illusões e dos sorrisos falsos, atravez das eternas despedidas, dos crimes, dos incestos, cadafalsos, e de todos os crimes e desgraças que são os fructos tragicos das Raças.

Ella atravez passara d'essas almas aonde em prantos s'escreveu _jámais_, das grandes solidões das neves calmas, atravez das galés, dos hospitaes, atravez das blasphemias e dos ais, das glorias, dos triumphos, e das palmas, e atravez sempre! sempre! do gemido do Genio eternamente perseguido.

Por isso quando foi perto do throno da terrivel Justiça, da Immutavel, ia ainda indignada do abandono em que se afunda o Genio inconsolavel. Como os nordestes varrem pelo outomno as roseiras, assim ella implacavel, tinha varrido toda a piedade contra a dura e egoista Humanidade.

Mal a viu a Justiça disse--ó Fome o que é que trazes da sombria Terra? Trazes um ai do que morreu sem nome? Sonho de virgem que teu braço enterra? Trazes um riso que o infeliz consomme? Ultimo beijo em que um amor s'encerra? Trazes um grito, um desalento fundo? Trazes um pranto de que riu o mundo?

Trago mais que isso replicou sombria a magra Fome, apresentando o pranto: --Eu trago-te esta lagrima tão fria como o gume da Espada justo e santo. Eu trago-te este pranto d'agonia, e que a ti mesmo causará espanto, pranto que gelou como uma esperança, pranto que clama um grito de vingança!

A Fome então narrou, succintamente, a historia da lagrima marmorea. Narrou toda essa vida descontente, toda essa tragedia tão sem gloria; seu genio, seu destino, e febre ardente do Bello, e de gravar-se na memoria, e esse pranto tão triste e tão profundo, que só o quiz uma mulher no mundo!

Ao acabar ergueu-se ferozmente a Justiça em seu throno, commovida, e clamou com um brado omnipotente tal que as origens abalou da Vida: «--Eu juro pelo sangue do innocente, por mim, por esta lagrima caida, pelo Ceu, pela Dôr, e pelo Espaço, por minha espada, e força de meu braço;

por tudo que ha de justo e de terrivel, por tudo que ha de santo e d'implacavel, pelo pranto que cae no Invisivel, e o soluço que rolla no insondavel, que não destruo ó mundo, ó insensivel, planeta! essa vida miseravel, por ter havido uma mulher que quiz um desolado pranto d'infeliz!

«Mas já que o não quizeste ó Terra fria, quero-o eu, de continuo, na presença! Quero tel-o de noute, quer de dia, como um sonho constante em que se pensa! Quero ter esta lagrima sombria, para um dia lavrar tua sentença! Quero tel-o ante mim, como lembrança: para lembrar-me de que sou Vingança!

«Quero tel-o ante mim, ah! como um grito, que me recorde os tristes que sem nome hão estendido os braços no Infinito, na sêde de Justiça que os consome! Quero tel-o ante mim, como o afflicto brado do Genio que morreu á fome, e que vos prove d'esta espada os brilhos, de que vós, ó Poetas, sois meus filhos!»

Assim disse a Justiça. E desde então ante ella jaz o pranto eternamente, para provar que se não verte em vão a lagrima, na terra, do innocente: que a natureza é mãe, e o Genio irmão do espirito dos astros refulgente e que a Justiça sopra a sua ira nas cordas vingadoras d'uma Lyra.

Eu não sei se entendestes o sentido Occulto e justo d'esta allegoria, se fiz ondular bem a vosso ouvido os tenebrosos sons d'esta agonia? E vós, ó tristes! tristes! que haveis ido tranzidos repousar na valla fria, esquecidos, inglorios, sem um pranto a lagrima acceitai d'este meu canto!

Acceitai este canto, como preito craneos de lava que não orna o louro! e emfim morrestes, porque o vosso peito bateu nas pedras, d'entre as nuvens d'ouro. Acceitai n'esta lagrima o respeito, vós que encontrastes só riso e desdouro! e que em vez do festim do que trabalha, não tivestes nem louros, nem mortalha!

Acceitai n'esta lagrima o protesto de muitas gerações de rebellados contra o abandono insolito e funesto do mundo silencioso aos vossos brados! Em vez do riso, insulto, e do doesto, acceitai nossos pezames irados, e n'este canto, ó mortas existencias! os protestos de muitas Consciencias!

E tu, ó mundo, aprende-o! D'ora avante não mates mais o Genio que irradia! Não s'ergam nunca mais ao ceu distante, Contra ti, magros braços d'agonia! Por que hoje, sabe-o bem! fixa e brilhante, está clamando e bradando noute e dia, acima d'Odios, Prantos, e Cubiça, a lagrima marmorea ante a Justiça.

FIM.

End of Project Gutenberg's A Fome de Camões, by António Duarte Gomes Leal