A flor secca: romance

Part 7

Chapter 73,843 wordsPublic domain

Na casa paterna encontrou sua velha irmã entrevada, que lhe pedia pão. O austero apostolo da verdade, que sacrificara futuro, tranquillidade e o pão da sua velhice ao seu nobre orgulho, sacrificou isso mesmo, que era só o que lhe restava, ao bem estar de sua irmã.--Elle, o firme combatente, o luctador incançavel, foi ajoelhar humilde perante os implacaveis adversarios. A condessa e outras senhoras do sitio eram protectoras de uma escola de creanças pobres, fundada na aldeia de ***; Theodoro Leite foi pedir o logar de professor. A condessa divertiu-se em lhe fazer sentir bem a humilhação, a que a desgraça o obrigara; e afinal, movida pela _caridade christã_, concedeu-lhe o que elle pedia. A verdade era que estavam em grandes embaraços, porque não encontravam um unico professor capaz, que se quizesse sujeitar a receber o ordenado fabulosamente exiguo, que a sua economica beneficencia se prestava generosamente a conceder.

Theodoro Leite sympathisara comigo, e comigo só fallava desafogadamente. Nas rapidas palestras, que tinhamos tido, pude reconhecer a sua vasta erudição, e a bondade quasi angelica do seu caracter.

Estavamos uma noite reunidos, segundo o costume: Theodoro, a baroneza, e o prior no seu eterno voltarete, eu e os outros junto do canapé. A palestra versara sobre os infortunios do papa. Subito a condessa tira da algibeira um papel, e diz:

--Lembrou-me abrir aqui uma subscripção para o dinheiro de S. Pedro. Estou que ninguem recusará tomar parte n’uma obra tão meritoria. Reservei para a senhora D. Margarida a honra de abrir a lista dos subscriptores.

Todos os olhos se voltaram para mim, com curiosidade. Theodoro Leite desviou a attenção do jogo, e mirou-me anciosamente.

Foi no meio de um profundo silencio que eu respondi:

--Aprecio infinitamente a honra que v. ex.ª me faz; é mais uma prova da sua benevolencia e da sua amizade. Comtudo permitta-me a senhora condessa que lhe faça algumas observações. Se eu fosse nimiamente rica, não teria duvida em dar ao Summo Pontifice essa prova do meu respeito; mas, não tendo riqueza tanta que me permitta esbanjar assim os meus rendimentos, prefiro poisar na mão do pobre a esmola destinada ao erario pontifical. Estou que será por essa forma duplamente agradavel a Deus e ao vigario de Christo. Esse pouco de oiro, que se sumiria, parcella minima, no golphão do luxuoso Vaticano, pode só por si fazer brotar a alegria na misera choupana. Portanto, se v. ex.ª m’o permitte, darei a minha quota aos pobres; bem sabe que é o mesmo que emprestal-a a Deus.

--Muito bem, muito bem! exclamou Theodoro Leite irreflectidamente.

O pobre homem, deixando-se levar do primeiro impeto, de tudo se esquecera; mas logo caiu em si, e fez-se pallido como um defuncto.

A condessa aproveitou o ensejo para desabafar, e fulminou Theodoro com o peso da sua indignação.

--Muito bem, o que? exclamou ella. A senhora D. Margarida, tendo aquellas idéas, só prejudica a salvação da sua alma, porém o senhor Theodoro é responsavel para comigo das almas dos meus orphãosinhos. Como quer que eu conserve na minha escola um homem que tão abertamente professa doutrinas impias e sacrilegas?

Eu voltara ao meu bordado, e olhava ás furtadellas para o pobre Theodoro que por minha causa padecia.

A desgraça abatera completamente a alma varonil. Creio que de relance viu a imagem de sua pobre irmã supplicando-lhe que a não abandonasse, e as gottas de um suor de agonia aljofraram-lhe a fronte. Então respondeu n’um tom aflicto, que me faria rir immenso, se aquelle mesmo ridiculo não fosse tanto para commover.

--Mas, minha senhora... eu não applaudo as idéas... foi apenas a... a... a disposição grammatical do discurso da senhora D. Margarida. Perfeitamente bem construido... a regencia irreprehensivel... a syntaxe...

--A syntaxe o que? interrompeu a condessa lentamente, esmagando-o com o seu olhar ferino.

O pobre Theodoro estava cada vez mais pallido; era o naufrago, que vê fugir-lhe das mãos a derradeira taboa, e que ouve o rugido feroz das ondas, parecendo motejar do seu infortunio.

--Dizia eu, minha senhora, que o estylo era muito acceitavel: mas... (e Theodoro lançou-me um olhar em que implorava a minha indulgencia), mas só o estylo; as idéas regeito-as.

--Ah! o estylo! continuava a condessa, implacavel.

Eu sentia o rubor da indignação na fronte. Era infame aquelle zombetear, aquelle brincar do tigre com a victima.

A condessa curvou-se então para o lado de Theodoro, e disse-lhe algumas palavras em voz baixa. Suspeito que o demittira do seu logar de professor, porque vi duas lagrimas brilharem nos olhos melancholicos do pobre velho.

O que veria elle n’esse tremendo lance? Que sinistras visões lhe povoariam a mente? O edificio da sua velhice, a tanto custo construido, e derrubado n’um instante, o pão de sua irmã com tantas lagrimas amassado, faltando-lhe de subito! O velho pendeu a cabeça, relanceou um triste olhar para todos os lados, e suspirou. Comtudo ainda não havia terminado a tortura; não estava acabada a partida, e interrompel-a seria conciliar para sempre a adimadversão de todos. Theodoro resignou-se, sentou-se outra vez na cadeira, d’onde se levantara, e continuou a jogar.

«Outro martyrio, disse eu comigo, que não tem o prestigio da poesia, e que ninguem se lembraria de lastimar.»

Comtudo reinava um certo constrangimento na sala, e tornava-se impossivel prolongar muito o serão. Antes que saissem as visitas, entendi que devia, ainda que não fosse senão por descargo de consciencia, tentar alguma coisa a favor de Theodoro Leite. Baldada tentativa! A condessa respondeu-me com hypocrita doçura, mas com inabalavel firmeza. Tambem a advogada era mal escolhida. A devota senhora, que já pouco sympatisava comigo, ficou sendo desde essa noite minha inimiga declarada. Declarava-se o _triumfeminato_ adverso: a condessa, D. Antonia, D. Carolina.

Ao despedirem-se, vi Theodoro Leite principiar a fazer manobras, cujo fim não podia adivinhar, approximava-se lentamente da janella, mirava a a paisagem nocturna, depois encaminhava-se para a mesa, junto da qual eu estava.

Afinal, quando viu todos distraidos, travou-me subito da mão, e apertou-m’a com viveza e enthusiasmo.

E, dada esta prova de coragem, saiu quasi a correr.

XIII

No dia seguinte, ás tres horas da tarde, saía eu sósinha, e punha-me a caminho da casa de Theodoro Leite.

A Annica dera-me as explicações topographicas mais minuciosas para que me não perdesse. Mas a Annica não contara com as distracções da minha phantasia, não pensara na influencia d’uma formosa tarde de primavera, nas tentações de respirar em liberdade esse ar dos campos, tão puro, tão são, tão fragrante!

Sentir-me só, livre de todo o constrangimento, de todas as perseguições, só com a natureza e com Deus, engolphar-me de novo em pleno ambiente de poesia, depois de me ter encravado até aos joelhos na lama vil da mais repugnante prosa, tudo isso me enlevava tanto, me rejubilava por tal forma, que me parecia renascer para a vida, como eu quizera, como eu comprehendera, para a vida do sonho, para a vida do ideal.

Sósinha! Como eu trepava ao cimo da mais pequena elevação de terreno para descobrir mais largo horisonte, como eu ficava embebida em jubilo infantil, a contemplar os malmequeres, sobre os quaes a brisa fluctuava de manso, acamando-os levemente, como se milhões de invisiveis borboletas poisassem de subito na graciosa cabecinha da flor campestre! Tanto me enlevei, tanto me extasiei, tanto me deliciei que afinal perdi-me. Já cançada e offegante, via o sol pender cada vez mais para o horisonte, e não sabia ainda o caminho que havia de tomar. Valeu-me um saloio venerando, que encontrei, e que me foi conduzir até á porta de Theodoro Leite, acceitando, apesar da sua physionomia patriarchal, com mostras de muito jubilo, a remuneração em dinheiro que lhe offereci.

A casa do mestre de meninos era modesta, mas aceiada. A sua fachada branca atapetava-se graciosamente com plantas trepadeiras, que lhe emolduravam as janellas, em cujos vidros scintillavam os raios do sol poente. Respirava toda ella pobresa, mas serenidade.

Bati á porta. Appareceu-me logo Theodoro com um livro na mão. Soltou uma exclamação de jubilo assim que me viu.

--Foi a minha casa eleita pelo Senhor? Visitam-me os anjos, como visitaram outr’ora os patriarchas hebreus? Bemvinda seja a esta choupana, minha filha! Entre e illumine com o seu meigo sorriso as trevas precursoras de sepulchro em que estes dois velhos vivem.

--Que de galanteios, senhor Theodoro! disse eu, entrando alegremente. Velho que sabe dizer tantas finezas é mais perigoso que um rapaz.

--_O gioventú, primavera della vita!_ tornou elle, mirando-me com terno sorriso. Doce estação da existencia, cujo reflexo até o inverno aclara. Aqui tens, Josephina, o anjo em que tantas vezes te fallei, continuou voltando-se para sua irmã, palida creatura que jazia n’uma pobre cama.

Approximei-me d’ella com o respeito, que o infortunio inspira. Josephina poisou-me na cabeça a mão quasi transparente, murmurando:

--Pobre creança! Deus te fade bem, e mude os abrolhos da estrada que trilhas em flores suavissimas, o leito de espinhos em leito de rosas, as agruras do caminho em aveludado tapete.

Curvei-me respeitosamente, recebendo esta benção maternal.

--Sabes, Josephina, acudiu Theodoro, que difficil seria encontrar um quadro mais delicioso do que esse que estão agora ambas formando? Os teus cabellos brancos de neve confundem-se com as tranças levemente aloiradas de D. Margarida. Aqui, do sitio onde estou, vejo desenhar-se em graciosa curva o corpo esbelto, ou antes a haste gentil d’esse lyrio, que se debruça para o teu leito a perfumal-o de fragrancias, a perfumar-te de juventude. Ha um raio do sol poente, que entra pela janella, e vae semear de palhetas d’oiro os cabellos d’essa formosa menina, e a ti purpureia-te levemente a fronte de marfim. Onde ha espectaculo que se possa comparar a este que disfructo agora? Duas vidas que se entrelaçam, uma tão pura no seu occaso como a outra na sua aurora, duas auréolas, cujos raios de luz se confundem, auréolas que não sei dizer qual seja a mais explendente, se a que se fórma de infortunio, se a que se compõe de innocencia!

--Poeta! poeta! disse Josephina, e continuou, voltando-se para mim; foi sempre o defeito d’este meu irmão; não sei se elle perpetrou alguns versos...

--Nunca, Josephina; rima nenhuma tenho a pezar-me na consciencia.

--É o mesmo, ou antes é peior. Não desabafa em rimas, entretem-se em devaneios, é o que lhe tem feito mal. Era melhor que tu te lembrasses de offerecer alguma coisa de comer a esta menina, cujo appetite havia de ter sido despertado pela caminhada.

--Queres que lhe offereça os alimentos frugaes da nossa Thebaida? Pão secco...

--E laranjas, desmemoriado. Pois já te esqueceste das que te trouxe o pae d’um dos teus discipulos?

--Não, não, acudi eu apressadamente, não tenho vontade.

As minhas recusas de nada valeram. D’ahi a pouco apparecia Theodoro com um açafate de laranjas magnificas.

--Madame de Maintenon, disse elle, quando não tinha assado para dar aos hospedes do seu primeiro marido, Scarron, contava-lhes uma historia. Aqui, senhora D. Margarida, tem de passar sem assado e sem historia.

--Dispenso o primeiro, tornei eu, mas não dispenso a segunda. A sua vida passada não contará muitos factos d’util lição para quem entra, como eu entro, na estrada da existencia? A sua vida presente não está cheia tambem de modesto mas proveitoso ensinamento?

Theodoro abanou a cabeça com melancholia.

--O meu passado, filha, é um passado tristemente banal. Ferventes illusões, desenganos profundos, n’isso apenas se cifra. Julguei que o meu paiz caminhava com o resto da humanidade, e que podia tambem eu accender o meu facho modesto para o ajudar a dissipar as sombras. Enganei-me. Eram as trevas as vencedoras. Encaneceram-me os cabellos n’essa lucta ingloria. Tarde, bem tarde, percebi que, se o meu paiz regeitava o meu auxilio, reclamava-o a minha familia. Voltei para o lar, como o filho prodigo. Cumpro agora os meus deveres como posso, e infelizmente posso pouco. A minha vida presente, senhora D. Margarida, tem o seu lado luminoso e o seu lado sombrio. Quando, ao pé do leito de minha irmã, contemplo o sol que illumina além o horisonte com as derradeiras chammas, quando vejo n’este vasto sanctuario da natureza espelhar-se a idéa de Deus, tão clara e tão harmoniosa como a vejo obscura e contradictoria na egreja profanada pelos que se dizem seus sacerdotes, então sinto-me feliz, e agradeço á Providencia estes breves instantes de suave repouso que me concede antes de me abrir as portas do tumulo. Outras vezes, quando vejo minha pobre irmã soffrer, sem eu lhe poder dar o conforto que o seu estado reclama, sinto as ondas da amargura invadirem-me o coração. Sinto o remorso pungir-me...

--Theodoro! exclamou a irmã.

--Sim, Josephina, o remorso, porque foi o demonio da ambição quem me arrastou para longe da familia. Cubiçei o papel de missionario da idéa, quando me devia restringir ao dever mil vezes mais santo de consolador, de esteio dos que Deus confiou á minha protecção immediata. Pela _humanidade_ trabalham muitos, querem todos pôr a mão n’esse trabalho glorioso, e esquecem o _homem_, o homem com os seus affectos, com os seus deveres modestos, mas augustos, deveres que se resumem no acanhado circulo da familia. Acanhado, acanhado como é acanhada a cellula da abelha, mas a cellula á cellula se liga, e o seu conjuncto fórma a colmeia. O conjuncto das familias, devemos pensal-o, é a humanidade.

Eu ouvia-o com respeito, e contemplava enternecida aquella fronte limpida, onde se revia tão doce serenidade, aquelle homem apodado de impio, que professava tão nobres principios, emquanto os que se presavam de religiosos tinham apenas (e demais a mais só em palavras) uma desamoravel e falsa moralidade.

Já vinha caindo a noite, e era tempo de me retirar. Eu fabricara em casa uma historia muito complicada, que me authorisasse a soccorrer aquella infeliz familia, que ficara ao desamparo por minha causa. Mas o nobre vulto de Theodoro por tal fórma me enliara, que não pude conseguir dizer duas palavras com algum nexo. Lembra-me que se tratava d’um parente meu, que desejava editar traducções do latim, e um mistiforio tal, que logo estaquei, fazendo-me muito córada, e só pude dizer, pondo as mãos em attitude de supplica:

--Por quem é, senhor Theodoro Leite, consinta que eu tome parte no tratamento de sua irmã.

Theodoro Leite ouvira a minha historia com um benevolo sorriso; mas afinal duas lagrimas lhe marejaram nos olhos, e travando-me das mãos, e beijando m’as, disse:

--Consinto, sim, filha. Acceito sem vergonha a esmola, que as suas mãos santificaram. Quem não acceitaria o orvalho celeste, que as brancas azas d’um anjo lhe chovessem sobre a fronte! Que orgulho tão mal entendido seria o meu! Deus lhe pague, filha, esse oiro bemdito, em rosas no Empyreo, e em venturas na terra.

E as duas lagrimas, que lhe humedeciam os olhos, deslisaram-lhe lentamente pelas faces venerandas.

A custo me despedi da pobre entrevadinha. Sentia-me tão bem n’aquella humilde casa!

Theodoro quiz por força acompanhar-me. O sol desapparecera já no horisonte; as roxas côres do crepusculo iam-se destingindo a pouco e pouco, e o azul longinquo das montanhas ia-se esfumando cada vez mais. Augmentava o fulgor das estrellas, e a lua, ainda desmaiada, apparecia no Oriente.

Puzemo-nos a caminho. Eu dei-lhe o braço, e fomos conversando e rindo, calando-nos a espaços para escutarmos o ultimo echo dos ruidos expirantes do dia e os primeiros murmurios nocturnos. Separarámo-nos no principio da lameda, que ia ter a minha casa.

Entrei jubilosa e satisfeita. Estava já n’essa noite a reunião completa, e logo todos repararam na expressão da minha physionomia.

--Sabe o que diz o vulgo n’estes casos, minha querida senhora D. Margarida? acudiu maliciosamente Carolina, diz assim: «Viu passarinho novo!»

--Pois olhe, tornei eu rindo, venho de uma gaiola onde não ha senão passaros velhos. Venho de casa de Theodoro Leite. Vi a irmã; pobre entrevadinha. A senhora condessa por força ha de ter soccorrido aquelle infortunio, continuei eu maliciosamente.

--Minha filha, respondeu a condessa, não me quero oppôr aos juizos de Deus. A minha caridade estende-se a todos os christãos; mas animar os impios não entra nos meus principios.

--Se Jesus aqui estivesse, minha senhora, acudi eu sorrindo-me, parece-me que teria ensejo para repetir a parabola do Samaritano.

--Está muito forte em theologia, tornou a condessa.

--Não, minha senhora, não sou theologa; mas gosto de ler o Evangelho.

--Longe de mim a idéa, redarguiu a devota fidalga, de contestar o merecimento dos livros sagrados; mas deixe-me avisal-a que não é bom lel-os e commental-os sem ter um guia espiritual. Sabe a que isso nos conduz? Ao protestantismo.

--Quem diz a vossa excellencia, interrompeu Carolina, que a senhora D. Margarida não tenha um guia espiritual? As suas excursões por estes campos, tão, desprovidos de attractivos, não podem ter outro fim senão o de procurar um... confessor.

--Eu bem lhe disse, acudiu D. Antonia com azedume, que não era bonito andar sósinha. Podia isso dar logar a mil interpretações, falsas decerto, mas que não deixariam de lhe ser desfavoraveis. Não me quiz ouvir.

--Infelizmente, D. Antonia, exclamou a condessa, é esse o grande defeito da mocidade contemporanea. Independencia individual, eis o seu _desideratum_. Liberdade de pensamento... para o mal, e liberdade de acção, que tambem no mal vae parar. Lerem sós e andarem sós. Pois olhe, D. Antonia, quando uma menina lê algum livro muito recatada, e sem querer que lh’o expliquem, póde contar que ao seu lado se debruça sobre a pagina a cabeça de Satanaz, e quando quer andar só, não será Lucifer o companheiro, mas olhe que vem a dar na mesma.

Ia eu a responder indignada a estas malevolas insinuações, porque decididamente não me fadara Deus para este genero de luctas, onde perdia logo o sangue frio, quando sentimos na estrada o tropear de um cavallo, depois passos de homem na escada; e afinal abriu-se a porta, e appareceu no humbral um sujeito moço, de figura esbelta, e amavel physionomia.

Soltei um grito ao vel-o, e D. Antonia levantou-se com um risinho de escarneo.

Esse homem, que surgira á porta, era Alberto Mascarenhas.

XIV

Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira, mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia, dizendo:

--Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as. Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles. Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios, que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego, dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos.

--É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia.

Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o sobr’olho.

--Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia.

--A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural; porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir aqui.

--São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido.

--Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto rindo; poderei por acaso alimentar esperanças?

--Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas.

Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de palestra.

--Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.

--Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas, ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos saudosos um do outro.

Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as pessoas presentes.

--É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.

--E que cynismo! accrescentava Jeronymo.

--Que falta de habilidade! murmurava Carolina.

--Que escandalo! rematava D. Antonia.

O padre prior tomava pitadas.

--Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar a ser testemunha de uma scena d’estas.

--Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu sobrinho.

Todos se levantaram.

--Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.

--Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina?

--Sem duvida, redarguiu esta.

--Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a acompanhal-as um pedaço.

Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu.

A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e disse-me ao ouvido:

--Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos!

Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e na minha presença, exclamei:

--Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique!

XV

Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no sitio d’onde o tirara.

A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D. Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada. Depois sairam todos.

Ficamos sós, eu e Alberto.